Um naco da filosofia de Andy Warhol: “Ando a ver se me decido entre ser sincero ou fingir que o sou. Sempre pensei que toda a gente fingia. Mas, agora, sei que não é assim. Não tenho a certeza se devo fingir que tudo é verdade ou que tudo é falso. Não sei se está a ver: é que, para que uma coisa se tornasse verdadeira, eu teria que a fingir”. É possível que não tenham reparado mas acabaram de vos cair no colo as coordenadas éticas/estéticas de que necessitam para saborear sem preconceitos nem sentimentos de culpa os dois monumentos (estou a pesar cuidadosamente as palavras) do mais puríssimo “fake” que são The Great Unwanted e Bird Of Music: tanto os Lucky Soul como as Au Revoir Simone fingem tão completamente que chegam a fingir que é pop a pop que deveras sentem.
Ali Howard não poderia ser mais sincera no seu fingimento de Debbie Harry – que é tão sentido e autêntico que incorpora também Sandie Shaw, Dusty Springfield, Petula Clark, Diana Ross e Ronnie Spector – e os restantes Lucky Soul (origem: Greenwich, Londres), com a mais profunda convicção, simulam viver nos anos dourados da Tamla Motown e terem sido colegas de escola das Supremes, Shangri-Las, Ronettes ou Shirelles. O que, no admirável mundo da mentira wildeana (ou da simulação de Warhol), é, evidentemente, verdade e oferece o bónus sem preço de uma mão-cheia de pop-pop-pop gloriosamente clássica, daquela que, vinte segundos após ter disparado em corrida, explode no fogo-de-artifício de ofuscantes refrões que se agrafam irremediavelmente aos tímpanos.
Erika Forster, Heather D’Angelo e Annie Hart, as três sílfides de Brooklyn foragidas de um sonho húmido de David Hamilton (ou de David Lynch, fã confesso que as descreveu como “innocent, hip and new"), essas, alimentam diariamente a ilusão de a Casio-pop de porcelana de Bird Of Music – Sofia Coppola bem poderia ter esperado alguns anos para fazer dela a banda sonora de Virgin Suicides – ser, na verdade, o segundo álbum “perdido” dos Young Marble Giants de que nem Stereolab nem Broadcast tiveram a arte de sintonizar a alma para o poder canalizar no plano terreno. Não ousemos duvidar: o nome do trio poderá ter sido tomado de empréstimo a Pee Wee’s Big Adventure, de Tim Burton, mas apenas Alison Statton (aliás, Erika) poderia cantar “Let the sunshine, let it come, to show us that tomorrow is eventual”. (2007)
20 March 2007
ERECTION, EJACULATION, PEACE
Se o budismo zen não fosse uma filosofia (aparentemente) tão casta, quase se poderia dizer que "the golden rules of happiness are simply these: erection, ejaculation, peace" era um aforismo zen. Mas não é. Essa e outras máximas sublimemente amorais encontram-se em Orgonon, álbum de estreia da franco-tailandesa Laila France, escrito e gravado em colaboração com Momus, o amoralista supremo da pop britânica. Se, como ele também diz, "for the sensations of orgasm, civilizations must rise and fall", então, este delicioso exercício de "sleazy listening" é um contributo decisivo para a queda da civilização judaico-cristã e Laila France a sacerdotiza pagã de serviço.
Como é que aconteceu este projecto de colaboração com Momus?
Encontrámo-nos pela primeira vez há dois anos. Ele andava a pensar no conceito para um disco e procurava uma cantora jovem com uma voz bastante aguda, que cantasse quase como uma criança. Colocou um anúncio numa revista francesa muito "branchée", eu respondi e fui escolhida. No início, ele pretendia fazer um disco muito "easy listening". Mas, depois de nos encontrarmos, conversámos e disse-lhe que gostava que houvesse também ritmos muito contemporâneos combinados com violinos e outros elementos mais "easy". Escrevi os textos de cinco canções e ele os das outras seis.
Na capa do disco há uma espécie de texto-programa onde se diz: "Ao escutar este disco de Miss Laila France, a nova supergirl franco-tailandesa, não estarão apenas a descobrir os fabulosos prazeres da Trance Cocktail Music. Estarão também a fazer uma importante contribuição para o somatório final de Orgasmatronic Orgone Energy no mundo inteiro". O que é que isto significa? As primeiras canções que o Momus escreveu para o disco foram "David Hamilton" e "Orgonon". Esta última fala do filósofo e psicanalista Wilhelm Reich que partiu para os EUA durante a guerra e decidiu fundar aí uma comunidade chamada Orgonon onde se dedicaria a recuperar toda a energia libertada pelo orgasmo. Propôs a diversos jovens que fossem viver para a mansão dele, deu-lhes umas pequenas caixas de madeira e eles deveriam (não sei muito bem como) armazenar a energia produzida quando faziam amor para que Reich a pudesse conservar e salvar o mundo com ela.
De facto, em todo o disco, há uma extraordinário obsessão pelo sexo: duas canções são dedicadas ao orgasmo, outra fala de um desfloramento atrás do altar de uma igreja, "Wonderhood" é uma história perversa em torno do Capuchinho Vermelho... Pode-se dizer que o álbum é uma tese sobre o sexo, o "easy listening" e a corrupção da moral cristã?
(risos) Claro que se pode dizer isso mas é um disco que deve ser ouvido com uma certa distanciação, foi realizado com uma grande dose de humor e de cinismo. É muito provocante mas procura, acima de tudo, desmistificar a sexualidade, libertá-la dos academismos da psicologia e dos livros de texto.
Tem duas ou três frases lapidares: em "Bilitis", "the golden rules of happiness are simply these: erection, ejaculation, peace" e, em "David Hamilton", "but if this lazy suffering can bring erection to the lap of just one man, it hasn't been in vain" . No fundo, é essa a moral da história?
(risos) O David Hamilton foi um fotógrafo muito conhecido nos anos setenta que fez imensas fotografias de jovens adolescentes nuas que hoje nos parecem ridículas. O objectivo dessa canção (como também de "Synthesiser Wizard") é, por isso, divertirmo-nos à custa das concepções sobre a sexualidade dessa época.
Gosto muito da forma como, em "Trashy Like TV", diz "This time I have my period, I don't want to give a blow job, can you turn on the TV please, I want to watch Dynasty", como se fosse a frase mais natural deste mundo...
(risos) Mas é isso o mais importante no disco! Apeteceu-me dizer coisas muito sexuais da forma mais natural possível criando uma espécie de paradoxo sobre aquela música de escuta muito fácil.
Orgone accumulator de W. Reich
"Trance Cocktail Airlines" é mesmo "easy listening" de tendência exótica...
Gosto muito dessa canção. Sou de origem tailandesa e aí falo da Tailândia e de uma ilha lindíssima, Koa Samui, onde, em todas as luas cheias, naquele lugar tão tradicional, há enormes rave parties.
É possível dizer-se que a sua associação com Momus é idêntica à que existiu entre Serge Gainsbourg e Jane Birkin?
Tenho a certeza que, se dissesse isso ao Momus, ele se sentiria imensamente lisongeado. Ele adora o Gainsbourg e, neste disco, há, de facto, muitas referências ao trabalho dele. Pela minha parte, não me atreveria a dizer que sou a nova Jane Birkin. Ainda tenho muito caminho a percorrer para chegar ao nível dela.
Na capa do disco, há também uma pequena frase: "Momus thanks Laila and her whip". Houve sessões S&M durante as gravações?
(risos) Não, mas enquanto gravámos o disco tivemos muitas discussões, embora civilizadas. Nunca estávamos de acordo acerca da música e, por vezes, foi difícil conjugar as nossas ideias. É por isso que o disco é muito híbrido e mostra bem tanto as nossas diferenças como os interesses comuns.
Pegando nas palavras de "David Hamilton": este álbum, afinal, é um exercício de romantismo, de classicismo ou de pornografia soft?
Eu diria que é apenas Trance Cocktail Music que é um conceito musical que me orgulho muito de ter inventado! (1998)