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03 June 2020

É só esperar mais 15 dias até que ciganos, africanos, brasileiros, asiáticos, proletas brancos (lusos, ucranianos, moldavos, romenos...) e "lumpen" variado testem negativo - aquilo é tudo malta jovem e rija! - para que possam regressar às espeluncas miseráveis em que (sub)vivem e aos transportes onde se amontoam como gado a caminho do abate e (esquecendo generosamente  que nos deram cabo das estísticas que estavam a correr tão bem) lhes seja oferecida a fantástica oportunidade de participar na epopeia gloriosa da "retoma da economia"!

06 July 2007

TRANSCULTURAIS



Tinariwen - Amassakoul




Erik Marchand et Les Balkaniks - Pruna

Naqueles raros momentos em que "world music" significa algo mais do que apenas uma designação de "marketing" para impingir ao Ocidente a música do resto do mundo (ou aquela da antiga tradição do seu mundo) que ele imperialmente ignora, podem surgir álbuns como estes dois. Espontaneamente transculturais ou deliberadamente miscigenados. Amassakoul ("viajante") é a consequência musical inteiramente orgânica de um colectivo de combatentes armados tuaregues originários do Mali que — com passagem pelos campos de treino da Líbia de Kadhafi —, desde o final dos anos 70, não perderam tempo a distinguir o que era cantiga e o que era arma. Usaram ambas.



Aparentemente apaziguadas, desde 1996, as tensões políticas e sociais que estiveram na raiz da guerra civil no seu país, os Tinariwen prosseguiram a actividade como músicos de que Amassakoul é o mais recente testemunho: blues do deserto hipnóticos e circulares, recitações de quase-rap, estridentes vozes femininas guturais, guitarras entre John Lee Hooker, Ali Farka Touré e Hendrix, percussões ocultas de cabaças e darbukas, flautas, coros encantatórios. Literalmente, uma "trip" militante e alucinada pelo excesso de luz do Sahara.



Pruna, por outro lado, procura voluntariamente o contacto de idiomas musicais geográfica e culturalmente longínquos: o "gwerz" bretão e o mosaico de géneros romeno/balcânico/turcos da zona de Banat, na Roménia (a região europeia que conta o mais elevado número de minorias étnicas). Erik Marchand — veterano do canto tradicional bretão cuja discografia já inclui experiências idênticas com o Taraf de Caransèbes —, acompanhado por dezena e meia de músicos romenos, moldavos, sérvios, trácios e franceses, descobre o sentido último da configuração do puzzle (lançando até, às tantas, sobre a mesa, dois temas de... Carlos Paredes) e, por entre coreografias de puro virtuosismo, invocações poéticas e estonteantes nós-cegos de melodia, harmonia e ritmo, avista um outro ângulo daquela paisagem que é habitualmente cenário vivo dos delírios de Kusturica. (2004)

10 May 2007

A GLÓRIA DO KITSCH


Foi (19.05.05) uma grande noite kitsch na RTP. Primeiro, a meia-final do Festival da Eurovisão. Logo a seguir, a "Grande Entrevista" com Santana Lopes. Mas concentremo-nos nas coisas realmente importantes. O Festival da Eurovisão, então.



Musicalmente nulo, já se sabe. Olimpicamente ignorado de modo quase unânime pela indústria discográfica, certíssima na convicção de que, dali, só por milagre e raríssima excepção, pingam maravedis. Mas, como dizia, sempre um dos grandes e imperdíveis encontros anuais com o kitsch, numa das suas mais gloriosas expressões.



É, evidentemente, um gosto adquirido apenas reservado a palatos requintados: no kitsch, trata-se, sobretudo, de ser capaz de colocar entre aspas a exagerada desmesura do lixo — tenham as aspas lá sido intencionalmente colocadas pelo criador ou, perversa e deslumbradamente, pelos olhos e ouvidos de quem vê ou escuta. Uma espécie de higiénica abstinência dos valores do "bom gosto", da "arte" e da "autenticidade" que actua como purga estética e alegra o espírito.



E também, no caso do Eurofestival, um espaço mítico de convivência democrática e transnacional onde ex-futebolistas e ex-militares descobrem vocações musicais, jordanos podem representar a Eslovénia, estónios a Suiça e portugueses a Bélgica, loiras e morenas insufláveis partilham os seus três minutos de fama "disco" com clones noruegueses de New York Dolls+Village People+Kiss a reinventarem o "tranny-chic", Spice Girls bálticas e guerreiros pirenaicos de luzidios peitorais tatuados se cruzam com delirantes xâmanes punkóxungas moldavos,



num supremo hino à multiculturalidade, a candidatura austríaca propõe uma "salsa" (não, não é uma "valsa") cantada em inglês e castelhano e polvilhada de iódeléiús em serpentina,



e a do Reino Unido oferece um exotismo arábico-indiano interpretado por uma "joy division" de cortesãs negras.


O Festival da Eurovisão habita um universo particular: uma bolha temporal suspensa sobre o mundo na qual o folclore "exótico" dos Holiday Inn de Cracóvia coexiste com o refinado mobiliário de um templo Mórmon, um Taj Mahal da licra, da lantejoula e da "world music" tal como os melhores etnomusicólogos de Las Vegas a entendem.



E em que outra oportunidade (sim, onde senão ali?) nos é oferecido o deleite de ouvirmos o insubstituível Eládio Clímaco — após a actuação de um Bryan Ferry croata que, rodeado de gaitas de foles e flautas de pã, acabara de cantar "Os Lobos Morrem Sozinhos" — sabiamente comentar "talvez uma homenagem a Herman Hesse..."? (2005, ano-Eurovisão "vintage" em Kiev)