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10 April 2024

"Mão Na Mão"
 
(sequência daqui) Do mesmo lado da barricada, Ana Lua Caiano, reconhece a afinidade com intrépidos profanadores da sacrossanta tradição como os já vetustos Gaiteiros de Lisboa e sua contemporânea descendência, em cruzamento de genes com os Deolinda, os bravíssimos Cara de Espelho: "A articulação de vozes e instrumentos dos Gaiteiros que, às vezes, chega a apoximar-se do rap, é extraordinária e os Cara de Espelho são um projecto muito entusiasmante que, de alguma forma acaba por nos inspirar também". Mesmo correndo o risco de, antes de desfrutar plenamente do presente, se pretender enxergar ansiosamente o futuro, é praticamente invevitável perguntar a Ana Lua se faz alguma ideia do horizonte para onde a música que faz se encaminhará ou se se tratará apenas de um muito natural desdobramento do que até aqui chegou. Aguardemos, então: "Como nunca parei de compor diariamente, será necessariamente um desdobramento. Haverá certamente diferenças mas que só deverão decorrer de um processo natural, mas não muito racional - quando componho não consigo ser muito analítica. Mas se, porventura, ensaiasse outro tipo de estratégias, isso nunca poderia ser nada forçado".

09 February 2024

 
(sequência daqui) Se Gaiteiros de Lisboa, Deolinda ou Naifa "foram laboratórios muito importantes, chegámos aqui com a mochila bem carregada" para a construção do álbum, passo a passo, peça a peça, houve, inevitavelmente, que ajustar hábitos e métodos, procurando pontos de equilíbrio entre ditadura sanguinária e democracia radical. "Nos Gaiteiros mando eu, aqui, não mando nada. Limitei-me a entregar as minhas coisas que, depois, foram escolhidas por eles. Há uma confiança artística entre nós", confessa Carlos Guerreiro, detalhando a seguir os mistérios ocultos da composição: "Nos Gaiteiros, eu não faço canções. Na verdade, não sei o que é que faço. Tentei encarar aquilo como canções e não conseguia. De facto, são mais... exercícios sonoro-musicais do que propriamente canções. As únicas canções foram aquelas que o José Manuel David compôs sobre letras da Amélia Muge. É o que mais se assemelha a canções". E, recuando muito até ao lugar das origens, "Começámos por divinizar a música tradicional. O Michel Giacometti era um deus, era todo um universo, um manancial a descobrir, era a minha música. Ouvi aquilo tudo em pescadinha, sabia tudo de cor. Chegávamos a reproduzir as imperfeições da recolha. Foi um processo que acabou por atingir um impasse. Quando chegou a altura dos Gaiteiros, eu já tinha perdido o respeitinho pela música portuguesa mas, ao mesmo tempo, sentia-me mais rico porque aquilo tinha-se ido transformando dentro de mim. A consequência disso foi ter ganhado uma grande liberdade e ter começado a sentir a necessidade de criar sons. E isso passaram a ser os meus instrumentos. Depois de samplados, passei a tê-los num teclado". Se, algures no Big Bang que desencadeou todo este processo, se encontrava presente José Mário Branco tutelando a gestação dos Gaiteiros, é, agora, altura de escutar Sérgio Godinho que sobre os Cara de Espelho lança publicamenteo seu selo de aprovação: "Coloca-se a fasquia alta, sem medos de falhar, de ser apenas uma vírgula no tempo. E se for, não valerá ela por si mesma, pelo prazer comum de criar algo de perene num momento, de partilhar entre si e entre nós o simples prazer da música, o entusiasmo da música, a cadência, a inventividade, outra forma de energia? Como se cumpre então as expectativas? Precisamente cumprindo. Parece uma redundância, mas é apenas o pôr em prática de uma realidade moderna e já antiga. Ver a nossa cara particular no espelho comum. Missão desde logo bem executada, digo eu. E nisso estou de acordo comigo, como por certo muita gente estará".

03 February 2024

 
(sequência daqui) O trio chamado a depor (Carlos, Pedro e Luís), exploradores de longo curso dos atalhos, curvas e contracurvas de géneros, eras e blasfémias várias, recorda como, já antes, haviam dado sinais de que uma convergência de energias poderia vir a acontecer: "Em Novembro de 2013, no S. Jorge, os Gaiteiros e os Delinda já tinham tocado em conjunto num concerto do Misty Fest. Foi uma coisa histórica, aconteceu mesmo uma fusão das nossas linguagens: a troca era perfeita, todas as combinações foram possíveis. Poderia, facilmente, ter-se prolongado numa digressão nacional. Mas essa possibilidade acabaria por ser absurdamente abortada". Porém, desta vez, as forças do bem estavam atentas e, conta Pedro Martins, "A partir do momento em que o Carlos me contactou, disse-lhe que escreveria as canções mas queria participar nessa banda. O Luis também desejava participar, e o Serginho lembrou-se logo da voz da Mitó. Já toda a gente tinha mais ou menos arrumado as botas e, de repente, fomos todos buscar as guitarras aos armários e limpar-lhes o pó". (segue para aqui)

01 February 2024

TRANSFUSÃO DE SANGUE

Título: Cara de Espelho; Personagens: Pedro da Silva Martins (autor e compositor dos Deolinda, mas também para António Zambujo), Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa, José Afonso, Fausto, GAC), Nuno Prata (baixista dos Ornatos Violeta), Luís J. Martins (Deolinda, António Zambujo, Cristina Branco), Sérgio Nascimento (das bandas de Sérgio Godinho e David Fonseca, antes dos Peste & Sida, um dos membros dos Humanos) e Mitó (voz de A Naifa e Señoritas); Sinopse (feita, de um fôlego, por Carlos Guerreiro): "Um dia, ia a passar à porta dos correios da Av de Roma e encontrei o Sérgio Nascimento que já não via há algum tempo. Estivemos a falar e tal, e adeus. À noite, telefona-me e desafia-me para fazermos alguma coisa em conjunto. Uma daquelas conversas que se tem muitas vezes e depois não dão em nada. Não sei se foi ele que sugeriu que falássemos com o Pedro Martins (o Pedro é, como o Zeca Afonso chamava ao Vitorino, "uma vaca parideira"). A partir daí, a coisa fugiu-nos do controlo e ganhou vida pópria". Neste ponto, é indispensável esclarecer que, em causa, está um álbum - Cara de Espelho, também o nome adoptado pelo sexteto - capaz de, logo no primeiro mês do ano, actuar como poderosa transfusão de sangue destinada a fortalecer a assaz anémica música portuguesa dos últimos tempos. (daqui; segue para aqui)

"Dr. Coisinho" (ver também aqui, aqui e aqui)

01 August 2012

OKAPIS EM SELVA DE ANFIGURIS

















Gaiteiros de Lisboa - Avis Rara

O calendário, cartografia, fusos horários e cronologia são, evidentemente, pessoalíssimos, embora, surpreendentemente, transmissíveis. Por exemplo: “Fez sábado quinta-feira, pra lá de Évora três semanas, estive dez dias num Verão, nas Américas romanas”. Quer, com isto, dizer-se que, apesar de, a propósito dos Gaiteiros de Lisboa, continuar a ser inevitável ouvir-se falar de músicas tradicionais (portuguesa ou do resto do mapa), a verdade é que, mesmo que todas as coordenadas possam apontar para lugares identificáveis, eles habitam, desde há muito, um universo inteiramente privado, uma espécie de reserva de okapis sonoros em selva de anfiguris. Onde, não sendo impossível que os apanhemos a tocar instrumentos convencionais como gaitas-de-foles (há que fazer jus ao nome), bombos, timbalões ou trompas, o mais provável será darmos com eles â volta de caixofones, cadeiretas, canarions, cabeçadecompressorofones, sanfonocellos, serpentalhos e túbaros de Orfeu, espécimes concebidos por aquela região do cérebro de certos "luthiers" permanentemente sintonizada nas emissões de rádio do asteróide de onde alienígenas como Tom Waits são originários.



De resto, a “avis rara” propriamente dita, tal como, na ilustração da capa, Carlos Guerreiro a retrata – pêga mecânica/boneco de pau articulado, entre bicicleta, helicóptero e aspirador, resultado da cópula de uma bola de futebol rebentada com a descendência de Heckle (ou Jeckle) a bordo da passarola de Bartolomeu de Gusmão –, é assaz esclarecedora: aqui, muito pouco ou nada funciona de acordo com as normas com que, habitualmente, a música é lançada à pauta. A qual, só por acaso ou acidente, será constituída pelas proverbiais cinco linhas paralelas, estorvo intolerável para os caminhos deliciosamente tortuosos por que os Gaiteiros preferem deambular. 



Procurando, ingloriamente, traduzir: as polifonias vocais poderão dar-se ares de cante alentejano mas não é impossível que, afinal, tenham sido extraídas das terras altas das Beiras, de Trás os Montes ou da Polinésia; a sátira política, carimbada por Sérgio Godinho ("Avejão"), prefere travestir-se de tratado de ornitologia (atentem na milagrosa actualidade de “No reino das trepadoras, o papagaio é senhor, mesmo até sem saber ler, qualquer papagaio é doutor”) emoldurado por filarmónica cubista; uma (literalmente) esdrúxula gincana linguística em mar bravio de gaitas à solta ("Proparaxitonias") desagua, de bom grado, em bailarico latino-americano com súplica de “Quiero tier fuerça na vierga”; mortos e vivos (Alexandre O’Neil, Ana Bacalhau, Adiafa, Zeca Medeiros, Godinho), sem que sequer se possa imaginar que, alguma vez, possa ter sido diferente, convertem-se, imediatamente, em irmãos activos da herética Ordem Gaiteira; e, como se fosse necessária comprovação de que tão libérrimo desvario assenta sobre o terreno sólido de quem, de há muito, trata por tu – e, se lhe apetecer, insulta – os mil e um idiomas de ainda mais origens e eras, em "Conde Ninho", as vozes de José Manuel David e Rui Vaz, em equilíbrio sobre o arame de um cavo bordão de gaitas, digladiam-se num virtuoso duelo vocal de vetusta linhagem serrana, coisa de imobilizar instantaneamente o tempo e nos pôr a gaguejar os grãos de areia e as eternidades de William Blake num qualquer dialecto transfronteriço. Foram precisos seis anos para achar o sucessor de Sátiro mas o quinto painel da odisseia de estúdio dos Gaiteiros é daquelas oferendas que vale cada segundo de espera.

06 March 2011

A LUTA CONTINUA



Não é improvável que, empolgada pelo efeito-Deolinda, uma nova vaga de politólogos, sociólogos, hermeneutas, historiadores, exegetas, psicólogos e outros Professores Karamba, se lance, avidamente, sobre o crucial acontecimento político-cultural que foi a vitória dos Homens da Luta na relíquia televisiva anual conhecida como Festival RTP da Canção. Uma trupe revisteira de "clowns" mascarados de bonecos-do-PREC - o proleta, a ceifeira, o soldado, o pintas, a jovem-estudante-de-esquerda e o zecafonsodepunhoerguido - é uma caricatura que não só diz bem com o espírito do Carnaval como é pitéu demasiado tentador para se lhe conseguir resistir. Não esquecendo que o triunfo foi assegurado por esse feliz casamento entre democracia directa e negócio para as operadoras telefónicas que é o "voto popular" via-chamada para a RTP (factor decisivo responsável pela "viragem" do resultado final no sentido da "cause du peuple"), que os neo-Situacionistas de Parque Mayer anunciaram ir estar presentes na manifestação de dia 12, da "geração-Deolinda" ("tout comunique!", como diria a Mme Arpel), e que - detalhe nada menor - o Festival da Eurovisão onde "A Luta É Alegria" representará a lusa pátria terá lugar em Düsseldorf, a 5 de Maio, no quintal das traseiras da Angie Merkel.



Nada disso, porém, é mais importante do que um outro facto que era conveniente não passar despercebido: perante o desfile proverbialmente deprimente das doze canções a concurso, os dezoito júris - recheados até às guelras de "maestros", "professores de música", "músicos" e "directores de conservatório"... tão imensa (e democraticamente regionalizada) riqueza musical da pátria foi uma fulgurante revelação - manifestaram-se desmedidamente agradados face à magnífica exibição de talentos e derramaram elogios e piropos sobre os excelsos artistas. Que a ministra da Cultura e os seus colegas da Educação e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior prestem toda a atenção: por mais severa que seja a crise, cortar verbas e subsídios a estes sobreexcelentes músicos e pedagogos... NUNCA!

(2011)

05 March 2011

DEOLINDA MAS EM BOM

Sex Pistols - "Pretty Vacant"



There's no point in asking, you'll get no reply
Oh just remember I don't decide
I got no reason it's all too much
You'll always find us out to lunch

Oh we're so pretty
Oh so pretty
We're vacant
Oh we're so pretty
Oh so pretty
A vacant

Don't ask us to attend 'cos we're not all there
Oh don't pretend 'cos I don't care
I don't believe illusions 'cos too much is real
So stop your cheap comment 'cos we know what we feel

Oh we're so pretty
Oh so pretty
We're vacant
Oh we're so pretty
Oh so pretty
We're va-CUNT
And we don't care


(2011)

16 September 2010

TEMPOS INTERESSANTES


Bandarra - Bandarra

Não é, de certeza, um exagero afirmar que se vivem tempos interessantes na música popular portuguesa. E, coisa que já seria muito menos previsível, tanto na área mais habitualmente bafejada pelas atenções dos media – a do pop-rock e adjacências – como naquela outra, descendente directa ou bastarda dos diversos cantautores clássicos e suas afinidades particulares, mais ou menos pronunciadas, pela tradição popular nacional. Os grandes responsáveis históricos pelo surgimento deste novíssimo filão exigem ser nomeados: por um lado, os Gaiteiros de Lisboa com a sua formidável iconoclastia e festiva erudição; por outro, a Sétima Legião que, com Sexto Sentido, desbravaram o território onde música moderna e arcaísmos remotos conviviam e se articulavam de forma natural e esteticamente consistente.



Com descendência mais ou menos interessante (dos Megafone à Naifa), é hoje que, verdadeiramente, os frutos começam a amadurecer e se pode escolher entre colher do neo-realismo pícaro dos Deolinda, do caldeirão transcultural dos OqueStrada, do folclorismo transviado dos Diabo na Cruz ou, agora também, do cocktail literalmente transatlântico dos açoreanos Bandarra. É obrigatório reconhecer que, para a estreia, dificilmente poderiam ter optado por melhores guias: Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa) e Luís Varatojo (Despe & Siga, Naifa), na qualidade de produtores, e António Pinheiro da Silva como purificador sonoro. O resultado, se não é uniformemente excelente – uma ou outra escorregadela para algum excesso de populismo poderiam ter sido evitadas –, não deixa, no entanto, de prometer feitos de maior relevo nesta entusiasmada conflagração de fado e tango, pop e ska, transpiração cigana e textos de saboroso sarcasmo ilhéu. Ponhamos, então, as coisas nestes termos: com um dois ajustes aqui e ali, poderemos muito bem estar perante um conjunto de gente capaz de vir a pisar o mesmo palco dos Gogol Bordello e não saír de lá envergonhado.

(2010)