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09 December 2007

OUTRA ILUMINAÇÃO



Sigur Rós - Heima




Sigur Rós - Hvarf-Heim

Num ponto incerto da primeira metade da década de noventa do século passado – por comodidade, simplifiquemos bastante considerando que começámos a reparar nisso quando Björk, em 1993, publicou Debut –, a música do extremo Norte da Europa iniciou um gradual e quase ininterrupto processo de afirmação no exterior das suas fronteiras nacionais. Havia, é verdade, o longínquo precedente dos ABBA (e de mais uns quantos outros praticantes menores), mas esta “segunda vaga” optou antes por desbravar território habitualmente assinalado como “indie” e zonas afins. De facto, não existia nenhum motivo plausível para que aquela que é, muito provavelmente, a zona civilizacionalmente mais avançada do planeta não fosse capaz de gerar música dotada de uma identidade própria mas, ao mesmo tempo, totalmente em sintonia com o ar dos tempos. Foi, por isso, inteiramente natural que, dos Hedningarna às Värttinä, dos Gus Gus a Anja Garbarek, Jimi Tenor, Ai Phoenix, Stina Nordenstam, Jens Lekman, Hanne Hukkelberg, Kings Of Convenience, Jagga Jazzist, Múm, Irene, Sondre Lerche, Röyksopp, Benni Hemm Hemm e mais uns (consideráveis) quantos, a Suécia, Noruega, Finlândia e Islândia – a Dinamarca mantem-se conspícua e misteriosamente ausente – tivessem começado a hastear bandeiras em domínios anteriormente sob quase total hegemonia anglo-americana. Bastante mais interessante, no entanto é que, de um modo geral, praticamente todos eles (independentemente da avaliação dos resultados) se furtassem deliberadamente à tendência “copy+paste” dominante e procurassem sublinhar traços de personalidade autónomos. Era exactamente a isso que se referia Georg Holm, baixista dos islandeses Sigur Rós, quando, por altura da edição de Agætis Byrjun (1999), afirmava “O que me deixa perplexo quando desembarco em Inglaterra, é até que ponto a música é urbana, frustrada, sem alegria. Nunca tem o ar de gastar um minuto a reflectir ou de oferecer qualquer matéria para reflexão”. E propunha um programa: "Apagar o quadro onde se distribuem todas as etiquetas musicais e deixar apenas um grande espaço em branco onde só se possa ler 'música'".



Quase uma década depois, ninguém duvidará que o objectivo foi atingido, embora as opiniões se possam dividir entre quem vê nos Sigur Rós apenas uma declinação da “new age” em variante “indie rock” escandinavo (e o apetite devorador com que inúmeros documentários, séries televisivas e filmes se lançaram sobre a música do grupo sempre que se tratou de retratar a “transcendência”, o “insondável maravilhoso” e a “imensidão” são, acerca disso, eloquentes) e quem os encara como a mais sublime oferenda dos deuses aos humanos desde os Pink Floyd.



Heima (duplo DVD) e Hvarf-Heim (duplo CD) não servirão para pôr fim ao debate mas, introduzem, pelo menos, alguns dados novos: concretizados no intervalo entre o final da digressão mundial que se seguiu a Takk (2005) e a pausa para reflexão pré-novo álbum, num recolhem-se as imagens de uma curta volta de concertos gratuitos pela Islândia (em modelo-filme-propriamente-dito e sob a forma de documentário) e, no outro, uma colecção de temas inéditos, versões alternativas e revisões acústicas de peças já conhecidas da banda. Se, no(s) filme(s), a assombrosa “coincidência” entre imagens e música (e a Islândia oferece o género de paisagem onde o director de fotografia mais sapateiro se transforma instantaneamente em inspiradíssimo poeta telúrico e toda a avalanche de preconceitos sobre a natureza “vulcânica” e “glaciar” da música dos Sigur Rós encontra a previsível confirmação) e a calorosa convivialidade dos concertos – ao ar livre, em centros sociais e paroquiais, fábricas de conservas desactivadas, minúsculas igrejas, perante as várias gerações de famílias das reduzidas populacões locais ou no confronto com “cromos” indígenas – são, à partida, apostas esmagadoramente ganhas, é, porém, nas releituras via vibrafone, pianos de brinquedo, marimbas de lousa, ensemble de cordas, harmónios de fole e banda de sopros em trânsito do palco para a rua (saúde-se aqui a porosidade entre filme e registo áudio), contra a formulaica estética eléctrica “fogo e gelo” de espirais “orgásmicas” em crescendo/diminuendo, que alguma “food for thought” desponta. E isso é bom e, se calhar, muito inesperadamente iluminador. (2007)

22 September 2007

GOTEMBURGO, CAPITAL POP



Jens Lekman - Night Falls Over Kortedala




Irene - Long Gone Since Last Summer

Aos dezanove anos, Jens Lekman escreveu no diário: “Se este sonho não se tornar realidade, terei de enfrentar a verdade de que, muito depressa, ficarei velho e amargo”. E, para dar corpo ao sonho – pop, pop, pop, canções pop – e contrariar o envelhecimento precoce, não perdeu tempo e publicou de imediato uma série de singles e EP que, quatro anos depois, em 2004, regravaria para o álbum When I Said I Wanted To Be Your Dog, pequeno milagre de assombro onde nos dávamos conta de que, muito mais cedo do que ele próprio imaginaria, Stephin Merritt começava a deixar descendência pelos lugares menos prováveis do planeta. Ele, Lekman, entretanto, ia explicando como “adoraria, verdadeiramente, ser o Jonathan Richman; mas, tal como ele não conseguiu ser o Lou Reed, eu serei sempre um falhanço no papel de Richman, nunca seria capaz de ser assim tão despreocupado e ingénuo”. De caminho, ia montando as peças de uma tese pessoal pró-single e EP e anti-álbum (“Não tenho de todo a capacidade de concentração para conceber algo como um álbum. É por isso que não escrevo livros nem realizo filmes. Só descubro uma visão pura quando estou a escrever uma canção”) e, como não seria difícil de prever (sim, isso mesmo), compondo para o segundo álbum agora publicado, Night Falls Over Kortedala.



Que até possui um nexo temático global – o micro-pesadelo suburbano de Kortedala, nos arredores de Gotemburgo – e confirma Jens Lekman como mais um dos diversos e notáveis ourives pop que a pátria dos ABBA nos continua a oferecer regular e gloriosamente (já deste ano, não esquecer Hey Trouble, dos Concretes), reciclando e, como que por um efeito de distância e amável dislexia, reiventando os modelos de que se alimenta: Kortedala é pop sumptuosa à maneira do primeiro Scott Walker e também do segundo (quero dizer, Neil Hannon), é quase kitsch de “easy listening” tropical, é, outra vez, muito Richman e Magnetic Fields no seu melhor, é tudo isso em modo-“I’ll be your mirror” distorcido, desarrumado e desejavelmente vivo.



Poderíamos muito bem dizer praticamente o mesmo acerca de Long Gone Since Last Summer, segundo album dos Irene, outro robusto colectivo (dez elementos) de Gotemburgo que gira em torno da luminosa pop de Bobby (Tobias) Isaksson, revisionista jóia orquestral que, a quase tudo o que Lekman lança para o caldeirão, adiciona ainda, aqui e ali, os temperos distraídamente recolhidos na mítica Postcard dos Orange Juice e outros estetas do “jangle pop” escocês. O que terá, então, a Suécia de tão especial? Jens Lekman tem mais uma teoria: “Aqui está tudo virado de pernas para o ar. Falei com um tipo americano que me contou que, nos EUA, se crescêssemos a ouvir os Smiths, éramos aqueles que levavam pancada na escola. Eu, aos 17 anos, apanhei uma tareia de fãs dos Smiths”. (2007)