HOUSE CAT
Cat Power - Sun
Quase bastaria a
belíssima fotografia que, em 2003, um ano antes de morrer, Richard Avedon lhe fez para a “New Yorker”: cigarro em equilíbrio, entre o indicador e o polegar da mão direita, sorriso algo forçado, dois dedos da mão esquerda segurando por uma ponta uma t-shirt de Bob Dylan rasgada (por Avedon) que pouco lhe cobre o tronco e jeans de braguilha aberta revelando a base do triângulo de penugem púbica.
“Estava tão bêbeda que mal me tinha de pé. Por causa do álcool, o meu organismo estava em tal estado que tinha dores horríveis e, por isso, não conseguia apertar as calças. Só quando a revista foi publicada me apercebi que não usava roupa interior. Depois, tive de explicar à minha avó que aquele era o maior fotógrafo do século XX...” Tudo o que deveríamos (e não deveríamos) saber sobre Cat Power/Chan Marshall estava ali: a fragilidade psíquica convertida em tragédia publicamente encenada, o modo como isso alimenta (ou destrói) a criação, o fascínio da decadência, a paixão por Dylan.
Agora que, seis anos e várias quedas e redenções depois de The Greatest (com o excelente álbum de versões, Jukebox, 2008, pelo meio), Sun é publicado, numa entrevista ao “Huffington Post” em que se ajoelha mais uma vez perante Bob Dylan, começa por justificar a sua estética da espontaneidade (“Tudo vem cá de dentro, é instintivo. Acredito firmemente que o primeiro passo é o melhor passo. Porque é assim que, na vida, acontece. À medida que crescemos, somos treinados e condicionados e não continuamos a progredir individualmente mas, na minha opinião, os nossos primeiros actos físicos criativos são aqueles a que devemos dar importância”); porém, quando Michael Hogan lhe pergunta se, ao pensar assim, procede como Dylan, responde: “Isso era o que eu supunha até que o Judah Bauer [da Dirty Delta Blues Band que a acompanhou e também da Jon Spencer Blues Explosion] me disse: ‘Não leste aquele livro acerca dele? O tipo chega a gravar 43 takes de uma canção!’”. E Chan deveria ter reflectido um pouco mais nisso. É verdade que lançou para o lixo as maquetas do que deveria ter sido a primeira versão deste álbum apenas porque um amigo terá opinado que não eram senão “the old, sad Cat Power”. Mas Sun poderia, talvez, ser um muito melhor disco se essa ideia do “first thought, best thought” fosse temperada pela velha sabedoria zen segundo a qual tudo o que é espontâneo exige uma longa preparação.
Todo executado instrumentalmente por Chan Marshall com produção de Philippe Zdar, do duo de house/synthpop francês, Cassius, se, por um lado, Sun aposta naquele tipo de colisão entre música dançável e festiva e textos não exactamente exuberantes, por outro, isso resulta de uma forma que tende a expor sob um ângulo particularmente desfavorável alguma da filosofia quase-new-age que tem servido de amparo à sua escalada para fora dos abismos. "Manhattan" (“Liberty in the basement light, free speech, lipstick and the moonlight howling to get me, howlin’ to get you, in Harlem, in a dark back room, dancing to a different tune”) é um belíssimo espécime de "city-strutting" algures entre Lou Reed e Brian Eno, "3 6 9" (“3, 6, 9, you drink wine, monkey on your back, you feel just fine”) conjuga de modo exemplar pesadelo e efusão rítmica de feição latina e "Nothin’ But Time" (com "cameo" de Iggy Pop), se tosquiado para metade dos seus 11 minutos, do falso final e do excessivo "verbiage" de auto-ajuda, poderia ser um razoável equivalente contemporâneo de "Heroes", de Bowie (“It's up to you to be a superhero, it's up to you, to be like nobody, you got nothin' but time ain't got nothin' on you”). A questão, contudo, é que boa parte do restante de que "Ruin" é o mais eloquente exemplo (“I’ve been to Saudi Arabia, Dhaka, Calcutta, Soweto, Mozambique, Istanbul, Rio, Rome, Argentina, (…) all the way back home, to my town, bitching, complaining when some people who ain’t got shit to eat”), lida mal com as boas intenções e sucumbe perante o tratamento de choque electrónico.