30 April 2021

São sempre os mesmos... felicíssimos na condição de escravos *, nem pensam no mal que podem fazer aos outros

* Edit (22:01) - a felicidade da escravatura (I)

LADO NENHUM


Quando, há algumas semanas, se desencadeou a polémica acerca da legitimidade – étnica e de género – a exigir aos candidatos a tradutores do poema “The Hill We Climb”, lido pela autora, Amanda Gorman, durante a cerimónia de tomada de posse de Joe Biden, ninguém se lembrou de colocar as patrulhas do tribalismo identitário perante o enigma Jimi Hendrix: sem cair no papel de vítima ou agente activo de “apropriação cultural”, com que voz, haveria de exprimir-se o sobrenatural guitarrista de tripla origem afro-americana, irlandesa e cherokee? Se, para ser autorizado a aproximar-se do texto de Amanda, seria praticamente imprescindível ser um clone dela, o que fazer quando, logo à partida, a identidade – seja isso o que for – é múltipla e indivisível? A começar pelo próprio título, Nowhere Sounds Lovely, o álbum de estreia de Cristina Vane é mais uma preciosa acha para alimentar essa fogueira: nascida em Itália de pai ítalo-americano e mãe guatemalteca, cresceu e estudou entre Itália, França e Inglaterra, e, aos 18 anos, viajou para os EUA onde, na universidade de Princeton, se licenciaria em Literatura Comparada. (daqui; segue para aqui)

29 April 2021

Lenita Zhdanov, sempre atenta, denuncia submarinos do "marxismo cultural" (ou lá o que é) infiltrados no pasquim direitolas online

... e ainda há quem não reconheça na tricologia política uma disciplina sempre jovem e científica (V)...

"Tony Blair deu uma entrevista — mas precisamos é de falar deste cabelo"

Efterklang - "Postal" (Piano Magic)
 
(sequência daqui) A estética das capas dos álbuns da responsabilidade de Vaughan Oliver – morto há dois anos – e do atelier 23 Envelope terão sido, indiscutivelmente, um dos traços mais relevantes para a definição da identidade da 4AD. Oliver confessava “A primeira coisa que escrevi numa parede de casa de banho foi uma citação de Robert Doisneau, ‘Sugerir é criar, descrever é destruir’. Gosto de elevar o banal através do surreal. O mistério e a ambiguidade são ferramentas essenciais no arsenal de um 'designer'. Manter as coisas abertas à interpretação é o mais importante”. Halliday não poderia estar mais de acordo: “Sim! Sem dúvida. O 'artwork' foi um dos elementos mais decisivos, um factor de unidade. Mais uma vez, tal como aconteceu com a Factory, na qual aquele 'design' clássico do Peter Saville foi um elemento preponderante. E é curioso porque, por vezes, os músicos desejavam responsabilizar-se também pelo 'artwork'... Mas a 4AD, nos anos 80, insistia naquela estética global. Apesar de a maioria das pessoas não querer saber das editoras. A menos que se trate da Motown!... É verdade que os anos 80 devem ter sido a última vez que as editoras tiveram algum significado, no universo pós-punk havia uma onda 'indie' genuína. Os anos 70 tinham sido muito diferentes: as 'majors' detinham um controlo muito grande. Mas, no final da década de 80, a identidade das editoras independentes tinha começado a diminuir à medida que elas cresciam e a diversidade dos catálogos aumentava. Os anos 80 foram um período romântico para as editoras. Quando, hoje, recebe um disco novo da 4AD ou da Domino, imagina que, muito provavelmente, valerá a pena prestar-lhe atenção mas – ao contrário do que dantes acontecia – já não faz a menor ideia de como será a música”.

28 April 2021

It IS stealing jobs from people AND elevating human capacity (o que não é necessariamente bom nem mau mas é, certamente, inevitável)
VINTAGE (DLXXIV)

Life Without Buildings - Any Other City

(daqui; álbum integral aqui; ver também aqui)
É, sem dúvida, um grande estilista da língua (salvo seja)... quem senão ele seria capaz de, em poucas linhas, sacar tão suculentos nacos de prosa como "Passámos uma fase que era a de ver a luz ao fundo do túnel, para termos uma luminosidade crescente no nosso dia a dia", "os mais heróis dos heróis" e "cada português sabe que é Portugal"?

27 April 2021

Valerie June - "Call Me A Fool"

E, pela segunda vez, o magarefe da 24 de Julho desmente as sábias palavras do chefe
 
Dry Cleaning - "Oblivion" (Grimes)
 
(sequência daqui) Mas o que era, na verdade, aquilo a que se convencionou chamar “o som 4AD”, o qual, mesmo antes de comprarmos um álbum, podíamos, de certa maneira, antecipar? “Não me parece que a 4AD fosse assim tão diferente de outras como a Mute, a Factory, Rough Trade ou Cherry Red. Isso valia apenas para alguma música. A maior banda da 4AD, os Pixies, não se encaixava nessa matriz sonora em que temos tendência para pensar. É um grande tema de reflexão que não cabe numa peça jornalística mas penso que a 4AD era muito mais variada do que se supõe. Quando se afirma que a editora, nos anos 80, tinha uma sonoridade muito própria, é apenas verdade até certo ponto, não na totalidade. Isso resulta do modo como tendemos a encarar o passado: mesmo quando essa percepção não corresponde à realidade, a memória que dele construimos substitui a realidade”. No entanto, ainda que os Cocteau Twins não fossem os Pixies e os Dead Can Dance nada tivessem a ver com as Breeders, poder-se-ia, ainda assim, desenhar um retrato-robot da típica banda 4AD? “Nessa percepção da editora, eu diria que a clássica banda-4AD foram, realmente, os Cocteau Twins. Os Dead Can Dance também, por aquela sensação de alargamento do horizonte, de assombro... É assim que a maioria das pessoas continua a ver a 4AD. Porque, nos anos 90, falavam dela mas, na verdade, não a conheciam. Apenas identificavam a estética das capas e os Cocteau Twins. Passa-se o mesmo com a Factory: sobreviveu a música dos Joy Division e a ideia de tratar-se de um bando de gente infeliz de Manchester mas esqueceram-se as toneladas de lixo que publicaram. As pessoas gostam de olhar para as memórias do passado e acreditar que tiveram um significado importante. E de imaginar um passado que foi muito melhor do que o presente”. (segue para aqui)

26 April 2021

Por que carga de água uma colecção de banalidades - nem sequer especialmente bem escrita - provoca orgasmos múltiplos e simultâneos, da esquerda à direita?
VINTAGE (DLXXIII)
 
White Noise - An Electric Storm
 
  (ver aqui e aqui; álbum integral aqui)

Esqueçam os juízes, a justiça, o ministério público, o branqueamento de capitais, a falsificação de documentos, a corrupção... estamos perante um "textbook case" de família hiper-disfuncional, prontinho para ser estudado!   

"Sobrinha de José Sócrates exige receber herança da avó"

"Before Chauvin: decades of Minneapolis police violence that failed to spark reform" (aqui)
 

24 April 2021

SOHN - "Song To The Siren" (Tim Buckley/This Mortal Coil)
 
(sequência daqui) Para Simon Halliday, algures em Nova Iorque, porém, o propósito não é, essencialmente, de comemoração histórica: “O motivo para publicarmos, agora, esta compilação não foi tanto celebrar o 40º aniversário como assinalar uma espécie de mudança de pele. Não que nos tenhamos transformado numa editora diferente. Mas, quando temos tantas e tão diversas novas bandas, sentimos que devemos festejar isso. Na verdade, não há nisto nada de científico ou de calculado, apenas o prazer de continuar a descobrir música emocionante. E procurámos fazê-lo jogando com uma ideia de aleatoriedade, experimentar versões diferentes e ver até onde elas chegariam, sem qualquer plano ou previsão do que iria ocorrer”. E a referência aos This Mortal Coil é, de facto, inteiramente deliberada: “O primeiro álbum de This Mortal Coil (It’ll End In Tears, 1984), para mim, é a concretização de tudo o que era a 4AD. Pela originalidade e também por uma outra coisa: nessa altura, muita gente não sabia quem eram os Big Star ou o Tim Buckley. Eu próprio desconhecia que ‘Song To The Siren’ era uma versão de Tim Buckley, estava convencido que era uma canção da Elizabeth Fraser com os This Mortal Coil!... Fascinou-me a ideia de alguém se deixar seduzir por uma coisa sem conhecer toda a história que lhe está por trás. É aquele momento que é crucial, enquanto, noutras alturas, nos deixamos subjugar pela história. Por vezes, é bom ser punk, ignorar tudo e dizer simplesmente ‘Isto é o que fazemos!’ Todas as versões nesta compilação têm integridade, têm o seu espírito próprio”. (segue para aqui)
Agora que já não está entre nós o eminente empreiteiro, optimista antropológico e Tarzan da crítica musical para nos iluminar, temos de nos ir remediando com o Malagrida Encarnado a recomendar enfaticamente (26'30") o grande mestre kitsch da "clássica"-pimba

22 April 2021

SEGREDOS, SONHOS E MEDOS

Quando, em 1980, Ivo Watts-Russell e Peter Kent fundaram a 4AD, o plano era manter-se em actividade durante 10 anos e, no último dia de 1990, fechar as portas. Ainda esse dia estava longe de chegar e já Watts-Russell – o mais novo de oito irmãos de uma linhagem aristocrática arruinada –, na segunda metade dos anos 80, confessava ser incapaz de virar costas às bandas (Cocteau Twins, This Mortal Coil, Dead Can Dance, Clan of Xymox, Bauhaus, Modern English, Birthday Party, Xmal Deutschland, Colourbox, The Wofgang Press, Momus/The Happy Family...) que haviam transformado a editora num dos mais luminosos faróis da cena "indie" britânica. Segundo Martin Aston, autor de Facing The Other Way: The Story Of 4AD (2013), o sucesso da 4AD assentou no desprendimento comercial de Ivo Watts-Russell – que, logo em 1981, ficaria sozinho à frente da editora – e numa inclinação estética que privilegiava “sentimentos e segredos ocultos, sonhos ansiosos e medos sufocados, esperança e raiva, criados por uma trupe de 'beautiful freaks' que não desejavam ser vistos”.

O horizonte alargar-se-ia até à outra margem do Atlântico onde iriam descobrir os Pixies, Throwing Muses e Breeders mas, em 1999, Ivo venderia a sua quota da editora à Beggars Banquet – para a qual, desde o início, a 4AD fora pensada como incubadora de novas bandas – e exilar-se-ia até hoje no deserto do Novo México. A partir de 2007 com Simon Halliday no comando das operações, sem abdicar significativamente do perfil original, o catálogo foi-se diversificando e alargando (Mountain Goats, TV On The Radio, The National, Scott Walker, Beirut, Bon Iver, Tune-Yards, St. Vincent, Efterklang, Grimes, Future Islands, U.S. Girls, Holly Herndon, Aldous Harding, Big Thief), chegando, agora, o momento de celebrar quatro décadas de existência com a publicação de Bills & Aches & Blues (primeiro verso de "Cherry-Coloured Funk", dos Cocteau Twins) uma espécie de recuperação actualizada do conceito This Mortal Coil no qual bandas actuais revisitam temas dos “clássicos” 4AD. (daqui; segue para aqui)

Making America great again (XI)

21 April 2021

Edit (22/04/2021) - "Adrenochroming"

Portugal numa casca de noz (LIX)

"5000 vacinas inutilizadas por uma falha de energia em Famalicão: a autarquia deu conta inicialmente de 3500, o coordenador da task force diminuiu para 2400, e o secretário de Estado Adjunto e da Saúde acabou por confirmar cerca de 5000"

"31 pessoas falsificaram documentos para poderem construir moradias de luxo no Gerês: entre os arguidos, estão, além dos proprietários dos terrenos e das moradias ilegais, autarcas, nomeadamente presidentes de juntas de freguesia e técnicos das câmaras municipais de Terras de Bouro e de Vieira do Minho"

Making America Great Again (X)

19 April 2021

Rebentou a guerra na Máfia entre mafiosos muito, muito, muito ricos e mafiosos apenas obscenamente ricos

VINTAGE (DLXXI)

Julie Driscoll, Brian Auger & The Trinity - "When I Was A Young Girl"

This Mortal Coil - "Song To The Siren" (banda sonora de Lost Highway, real. David Lynch, 1997)

(ver aqui; sugerido aqui)

18 April 2021


Leadbelly

Nirvana
Um caso típico de "só as pessoas superficiais não julgam pelas aparências" (XVII), maravilhosamente enriquecido de uma forte dose de malucagem conspiracionista (QAnon & afins), "fake news", neo-fachos, a senhora Lao, o Trampas e outros temperos não menos picantes, com a Faculdade de Direito como pano de fundo
Edit (16:45) - 18'43" de um imperdível exemplo de "Põe mais tabaco nisso", em adequado "inglês técnico":

16 April 2021

"Hypnotized" (comparar video aqui)

(sequência daqui) A verdade é que tanto Merrill como Nate são um verdadeiro caldeirão cultural. Ele, devoto de “Red Hot Chili Peppers, George Clinton, Bootsy Collins… o meu pai era um pouco snob musicalmente e preferia jazz e Beethoven, a minha mãe ouvia Beatles, Michael Jackson, Earth Wind & Fire”; ela, fã de “Deerhoof mas também David Bowie, Laurie Anderson, gente que integrava a 'performance art' na música. Em termos especificamente musicais, Joni Mitchell, as Zap Mama, pela forma como exploravam a voz como um instrumento rítmico, Bobby McFerrin, e os Beatles, pela riqueza e complexidade que injectaram na canção pop”. Tudo isso, porém, submetido à norma de nunca pisar a linha proibida: “É muito importante e desejável que os músicos se influenciem uns aos outros mas, actualmente, não é, de todo, possível continuar a fingir que ignoramos como as pessoas negras são tratadas. Não somos uma banda famosíssima mas não queremos alinhar nesse fingimento. O que vivemos não pode ser aceite como normal”. A normal anormalidade dos quatro intermináveis anos do pesadelo Trump, “uma agonia perante a rejeição dos outros assente na mitologia de quem somos ‘nós’ e quem são ‘os outros’. Os músicos brancos podem sempre refugiar-se naquele lugar comum de que a música é uma linguagem universal. Mas não podem fingir que não reparam – aqui como na Europa – que as nossas sociedades serão cada vez menos brancas. Se não formos capazes de lidar com essa interiorização do pensamento racista sobre a forma como se encara a diferença, irão existir mais erupções de violência como as actuais”.

 

Sketchy é, entretanto, um reflexo exuberante, ritmicamente arrebatado e multicolorido de tudo isto: “Fazemos música e uma parte importante disso é um convite à alegria e a movimentarmos o corpo, o que é tanto uma celebração da vida como um exame de tudo o que temos estado a falar. Quando eu e o Nate nos juntámos quisemos redescobrir o prazer primordial de fazer música. As cores garridas da capa deste álbum representam um pouco esse desejo de continuar a olhar para o sol embora saibamos que ele nos pode cegar”. O que, contudo, nunca a impedirá de observar e desmontar cirurgicamente a sapiência dos mestres como acontece, logo a abrir, em "Nowhere, Man", quando canta “Seems like Jesus and Dylan got the whole thing wrong, if you cannot hear a woman then how can you write her song?”. "Just Like A Woman"? (risos) “Anda toda a gente a tentar descobrir quem é essa ‘woman’. Mas podem ser muitas... essa, a de ‘Lay Lady Lay’, a de ’Like A Rolling Stone’... o meu pai era um enorme fã do Bob Dylan e aí eu reflicto sobre como a minha história enquanto mulher teria já sido escrita nessa altura. E como essa percepção do que uma mulher é foi escrita por quem nunca viveu num corpo de mulher”.

Esta seita direitolas
 adora dar-me razão...

15 April 2021

VINTAGE (DLXX)

This Mortal Coil - "Song to the Siren" 
(T. Buckley)
 
(ver também aqui)
THE BROTHERHOOD OF THE UNKNOWN (XI)
 
(segundo David Thomas: "The first Pere Ubu record was meant to be something that would gain us entry into the Brotherhood of the Unknown that was gathering in used record bins everywhere")

Les Rallizes Dénudés
 

 
"Takashi Mizutani formed the group as a college student in the ‘60s, when (...) French culture still found devotees among postwar Japanese youth looking for a revolutionary alternative to Uncle Sam. That means: cool for these guys was ice cold. Deadpan as the Velvets or Spacemen 3, Mizutani and his bandmates identified with the loudest, darkest and most destructive aspects of psych-rock. Les Rallizes Dénudés is legendary for good reason, as you can learn in the Bandsplaining video at the top. One thing we do know about them is that a former bassist apparently hijacked an airplane for the Japanese Red Army Faction (then found asylum in North Korea), but 'it’s actually not the most interesting thing about them'" (aqui)
 
Lina_Raül Refree - "Medo"

Pieter Bruegel - (Landscape with)  

(pormenor)

14 April 2021

Nas palavras do divino marquês 
tinha logo todo um outro sabor...

(sequência daqui) O hip hop, como os blues, pode já não ser exclusivamente negro e Django Reinhardt, guitarrista cigano franco-belga, pode ter tocado com Coleman Hawkins e Duke Ellington, mas o ponto de vista não se deixa abalar: “É verdade. Mas eu desejaria que os Rolling Stones, os Led Zeppelin e o Paul Simon (o David Byrne é um caso um pouco diferente), em vez de se colocarem tão à defesa quando se lhes aponta o facto de se terem obviamente alimentado das músicas negras, aproveitassem a oportunidade de terem tantos relacionamentos multi-raciais – e, sem dúvida, existe esse desejo espontâneo de se misturarem e tocarem uns com os outros – para abordar o problema. Imagine se o Keith Richards tivesse dito ‘Tudo o que faço baseia-se na experiência de pessoas negras que eu nunca serei capaz de compreender’... Porque era bastante natural que os blues e o rhythm’n’blues tivessem uma ressonância na vida de miúdos ingleses pobres da altura. Mas teria sido muito diferente se ele acrescentasse ‘Vou dedicar a minha voz, o meu dinheiro, a minha energia e a minha projecção pública à justiça racial’. Vivemos num mundo que favorece as pessoas brancas. Tem sido assim há centenas de anos. Isto não significa que o racismo seja culpa minha. Mas disponho de uma excelente oportunidade para falar sobre o meu papel relativamente a ele. Recordo-me de que, quando o Bruce Lee veio até à Califórnia para dar aulas de kung fu a toda a gente, negros incluídos, houve uma grande resistência da comunidade local acerca de quem poderia ser autorizado a participar. Importante é termos consciência de que as pessoas de côr neste país não estão dispostas a continuar a viver desta forma”. (segue para aqui)
Donnie Darko parte II

Ainda bem que a recordam porque andava mui injustamente esquecida por aqui (mas essas manifestações de kimjongunismo devem ser prática obrigatória nos "presidentes da junta"
 

 
Moranbong Band with the 
State Merited Chorus - "Glory to Kim Jong-Un"

13 April 2021

VINTAGE (DLXIX)

 

 
(sequência daqui) "A terceira é a brutal 'Country Feedback', às vezes interpretada como o diário de uma banda em digressão, mas que se parece muitíssimo com outros cansaços e colapsos, uma canção desesperada e lânguida, nas emoções como no feedback, e com uma lista de tentativas de salvar as coisas que ó notória pela sua incapacidade de salvar as coisas: "We've been through fake-a-breakdown, self-hurt, plastics, collections, self-help, self-pain. EST, psychics, fuck all, I was central, I had control, I lost my head, I need this, I need this, a paperweight, junk garage, a winter rain, a honey pot, crazy, all the lovers have been tagged, a hotline, a wanted ad, it's crazy what you could've had". (Pedro Mexia na Revista do "Expresso", 01/04/2021)
 


Edit (14/04/2021) - ... e ainda (sugerido nesta caixa de comentários)...


R. E. M. & Neil Young

STREET ART, GRAFFITI & ETC (CCLXXII) 

"French artist JR is one of the few who has done well over the past year, exhibiting his large-scale trompe l’oeil photographic installations in Paris and São Paulo. In his most recent installation in Florence, JR makes a striking visual commentary on 'the adversities that cultural institutions — including museums, libraries, and cinemas — have faced over the past year' (...). Called La Ferita ('The Wound' in Italian) and 'measuring 28 meters high and 33 meters wide, this optical illusion creates a ‘crack’ in the exterior' of the Palazzo Strozzi, 'so that viewers can see masterpieces like Botticelli’s Birth of Venus and Primavera'" (aqui; ver também aqui)
OLHAR PARA O SOL
O "small talk"-quebra-gelo inicial obedeceu, inevitavelmente, ao protocolo da época: em Oakland, na Califórnia, a situação melhora, do "lockdown" rigoroso para “apenas” vermelho – “Já há algumas salas de espectáculo e cinemas abertos” – e a interrogação que se segue – “E aí, em Lisboa? Lisboa é também o seu apelido, não é?...” – permite a resposta de sucesso assegurado – “Sim, sou o primo português do Jack London” – que conduz a descobrir que, em Oakland, existe uma Jack London Square. Pandemia, literatura e toponímia arrumadas, Merrill Garbus e Nate Brenner, a dupla Tune-Yards, a 9 099 quilómetros de distância, via Zoom, explicam que, para chegar ao novo álbum, Sketchy, foi preciso demolir algum "writer’s block" embora sem demasiadas dores de parto: “O Nate não se cansa de recordar-me que me sinto sempre dessa maneira quando acabo um álbum. Sempre. Mas é só uma questão de não nos esquecermos de que este é o nosso trabalho e encararmos uma coisa de cada vez. Não falhar o compromisso de ir para o estúdio todos os dias, não pensar demasiado, e fazer o que tem de se fazer. Andar em frente”.
 
  
Não constitui exactamente outro bloqueio mas uma constante, quase uma obssessão, em toda a discografia dos Tune-Yards (Bird-Brains, 2009, Whokill, 2011, Nikki Nack, 2014, e I Can Feel You Creep Into My Private Life, 2018): a interrogação acerca de sentirem-se ou não autorizados a apropriar-se de elementos das culturas africana e afro-americana. Coisa intrigante quando se sabe como a própria história da música – no rock, na clássica, no jazz – se ergueu sobre essa interminável e praticamente natural pilhagem. “Provavelmente é natural. Para aqueles de nós que possuem ouvidos (risos) é natural ouvir alguma coisa e, a seguir, regurgitá-la. Ou imitá-la. É assim que aprendemos a falar. Mas o que importa é o contexto em que me situo enquanto música branca: como lidar, neste país, num momento em que pessoas de cor são massacradas pelo Estado, com o facto de me ser possível ganhar dinheiro com esta música de um modo que não está ao alcance de todos. Sou fã de hip hop desde há muito tempo mas a minha relação com ele é distante, de fora para dentro, nunca vivi a realidade de sentir que o meu corpo está em perigo”, argumenta Merrill. (daqui; segue para aqui)

11 April 2021

(sequência daqui) "Numa quase citação do fabliau, segundo o qual os dorminhocos da Cocanha ganham cinco soldos e meio, num pequeno povoado descrito por Rabelais, as pessoas ganham para dormir 'cinco ou seis soldos por dia, mas aqueles que roncam bem forte ganham sete soldos e meio'. Outra criação rabelaisiana, a abadia de Thélème, onde não há clausura, restrições de horário, separação de sexos, celibato, voto de castidade, pobreza e obediência, também apresenta claras ressonâncias cocanianas. Ali todas as mulheres são belas, como na Cocanha medieval. Ali o desejo de cada um procura satisfazer o dos outros, da mesma forma que na Cocanha, ao atender aos próprios desejos 'uns fazem a felicidade dos outros'. Ali, expressamente, a regra é 'fay ce que voudras' (faz o que quiseres), correspondente ao 'Ninguém ousa proibir algo' do texto do século XIII". . (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 7)
 
Cocanha - "La valsa d'Emiliana" (do álbum i ès ?)

Music Of The Gothic Era - The Early Music Consort Of London 
(dir. David Munrow)

(álbum integral)

10 April 2021

VINTAGE (DLXVII)

R.E.M. - "Me In Honey"
 
 
(sequência daqui) "A segunda obra maior chama-se 'Me In Honey', tem a voz poderosa de Kate Pierson, dos B-52, parece ser uma discussão sobre uma gravidez indesejada e tem menos a ver com manifestos 'pró-escolha' do que com um ele e uma ela a perguntarem um ao outro, por interposto nascituro: 'What about me?'" (Pedro Mexia na Revista do "Expresso", 01/04/2021)


(com a colaboração do correspondente do PdC em Pequim)
Não deixar ninguém para trás

 
Estão lá os três figurões e o DDT mas, sinal de uma justiça verdadeiramente inclusiva, também o modesto motorista João Perna

08 April 2021


Edit (09/04/2021) - ... e sempre mais baixo, sempre mais fundo...
 
(sequência daqui) “Foi como se fosse, outra vez, uma criança. Temos tendência para esquecer como é sermos principiantes. Levamos anos a estudar piano ou guitarra e, quando já os dominamos, uma boa parte do entusiamo inicial, perdeu-se. O Omnichord, apesar de ser tão simples, tinha tudo aquilo de que eu precisava. Era uma ‘one-man-band’ dentro de uma caixa pela qual tinha estado à espera toda a minha vida”, contou Lael à “Ourculture”. Havia só duas regras: imaginá-lo enquanto “lost album” descoberto, por acaso, num sótão – algo como The Story of Valerie, de Carola Baer – e apenas incluir "first takes". Na verdade, é um fascinante objecto dotado da estrutura óssea dos Young Marble Giants, da respiração de Liz Fraser (a canção-título vive a um passo de "Song To The Siren") e da bruma-Mazzy Star, onde, pelo meio do sibilo da cassete analógica, uma voz em tom de sépia murmura “How far is it to the end? Only a life, dear friend”.
 
Estes comunas são todos iguais!!! (II)

07 April 2021

... é que existe uma enorme diferença entre "castração química" e "terapia medicamentosa de controlo da líbida" (aos 48")!
Tri Yann - Urba

(daqui; álbum integral aqui)
Estes comunas são todos iguais!!! (I)
VINTAGE (DLXVI)


 
 
"Além de 'Losing My Religion', Out Of Time tem outras três obras-primas. A primeira é uma maravilha estrutural e instrumental, uma peça de música de câmara para cordas intitulada 'Half A World Away', toda em vaivéns, enquanto o narrador está mais focado na sua cabeça do que no mundo à sua volta: 'This could be the saddest dusk I've ever seen, I turn to a miracle, high-alive, my mind is racing, as it always will, my hands tired, my heart aches, I'm half a world away, here in my head'. É uma canção de vidas gastas, olhos patéticos, tempestades e medos, 'lonely deeps and hollows', esquiva mas empática, perfeita" (Pedro Mexia na Revista do "Expresso", 01/04/2021; segue para aqui)
 
 
(11º ANO A SEGUIR AO) ANO DO TIGRE (CLV)

06 April 2021

(rever aqui e aqui)

Tudo normal: a China limita-se a aceitar o convite - melhor, a súplica - que lhe foi dirigido pela vencedora do Prémio "Portugal Fashion" 2021; a Rússia está apenas desejosa de perceber por que raio, sendo uma potência capitalista, a beatagem social-fascista local continua a fazer-lhe olhinhos

 "China e Rússia suspeitas de fazerem ciberespionagem a Portugal"

TOM DE SÉPIA

Em 2015, Lael Neale tinha publicado I’ll Be Your Man (“O título era como se estivesse atrás do Leonard Cohen mas sem nunca poder tocar-lhe”), um álbum de estreia que ficou bastante longe de a satisfazer: “A prática habitual de montar diversas takes de uma canção e criar uma espécie de versão-Frankenstein dela deixou-me sempre com a sensação de que, tal como ao monstro, a vida tinha-lhe sido subtraída. Depois disso, passei anos em diversos estúdios, com diferentes músicos, gravei álbuns inteiros apenas para os atirar para o lixo logo a seguir. As canções ficavam sobrecarregadas de arranjos estéreis e instrumentações supérfluas. Precisava de me despojar de tudo o que era desnecessário ao processo de escrita. A ideia de começar pelo esqueleto era emocionante”. A primeira ferramenta que lhe ocorreu para esse processo de depuração foi o Novachord, um vetusto sintetizador polifónico produzido pela Hammond entre 1939 e 1942, o qual, apesar de ter sido usado em diversas bandas sonoras de filmes de terror e "sci-fi", e também por Kurt Weill, Villa-Lobos e Hans Eisler, não teve vida útil muito longa. Seria, afinal, o produtor Guy Blakeslee a oferecer-lhe a solução: um Omnichord – espécie de "keytar" infantil fabricado pela Suzuki nos anos 80 e abençoado por Brian Eno, Daniel Lanois, David Bowie e Magnetic Fields – e um rudimentar gravador de 4 pistas que instalou no canto de um bungalow nas colinas de Echo Park, em Los Angeles, cenário ideal para a criação de Acquainted With Night. (daqui; segue para aqui)

San Salvador - "La Fin De La Guerra"

Uma espécie de 1984 visto
(com "ansio" em vez de "anseio" e tudo)