16 April 2021

"Hypnotized" (comparar video aqui)

(sequência daqui) A verdade é que tanto Merrill como Nate são um verdadeiro caldeirão cultural. Ele, devoto de “Red Hot Chili Peppers, George Clinton, Bootsy Collins… o meu pai era um pouco snob musicalmente e preferia jazz e Beethoven, a minha mãe ouvia Beatles, Michael Jackson, Earth Wind & Fire”; ela, fã de “Deerhoof mas também David Bowie, Laurie Anderson, gente que integrava a 'performance art' na música. Em termos especificamente musicais, Joni Mitchell, as Zap Mama, pela forma como exploravam a voz como um instrumento rítmico, Bobby McFerrin, e os Beatles, pela riqueza e complexidade que injectaram na canção pop”. Tudo isso, porém, submetido à norma de nunca pisar a linha proibida: “É muito importante e desejável que os músicos se influenciem uns aos outros mas, actualmente, não é, de todo, possível continuar a fingir que ignoramos como as pessoas negras são tratadas. Não somos uma banda famosíssima mas não queremos alinhar nesse fingimento. O que vivemos não pode ser aceite como normal”. A normal anormalidade dos quatro intermináveis anos do pesadelo Trump, “uma agonia perante a rejeição dos outros assente na mitologia de quem somos ‘nós’ e quem são ‘os outros’. Os músicos brancos podem sempre refugiar-se naquele lugar comum de que a música é uma linguagem universal. Mas não podem fingir que não reparam – aqui como na Europa – que as nossas sociedades serão cada vez menos brancas. Se não formos capazes de lidar com essa interiorização do pensamento racista sobre a forma como se encara a diferença, irão existir mais erupções de violência como as actuais”.

 

Sketchy é, entretanto, um reflexo exuberante, ritmicamente arrebatado e multicolorido de tudo isto: “Fazemos música e uma parte importante disso é um convite à alegria e a movimentarmos o corpo, o que é tanto uma celebração da vida como um exame de tudo o que temos estado a falar. Quando eu e o Nate nos juntámos quisemos redescobrir o prazer primordial de fazer música. As cores garridas da capa deste álbum representam um pouco esse desejo de continuar a olhar para o sol embora saibamos que ele nos pode cegar”. O que, contudo, nunca a impedirá de observar e desmontar cirurgicamente a sapiência dos mestres como acontece, logo a abrir, em "Nowhere, Man", quando canta “Seems like Jesus and Dylan got the whole thing wrong, if you cannot hear a woman then how can you write her song?”. "Just Like A Woman"? (risos) “Anda toda a gente a tentar descobrir quem é essa ‘woman’. Mas podem ser muitas... essa, a de ‘Lay Lady Lay’, a de ’Like A Rolling Stone’... o meu pai era um enorme fã do Bob Dylan e aí eu reflicto sobre como a minha história enquanto mulher teria já sido escrita nessa altura. E como essa percepção do que uma mulher é foi escrita por quem nunca viveu num corpo de mulher”.

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