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17 September 2026

 

"Materia 3"

(sequência daqui) Materia não se constroi em torno de clímaxes óbvios ou refrões instantaneamente memoráveis: uma primeira audição pode deixar a impressão de superfícies belas, mas enganosas; audições posteriores revelam quão cuidadosamente estas superfícies foram construídas. A mão de obra em acção era a mesma do álbum Something In The Room She Moves: Elizabeth Goodfellow, bateria, Devra Hoff baixo, Maia na flauta, Chris Speed no saxofone e no clarinete, Tashi Wada nos sintetizadores e Kenny Gilmore na coprodução, engenharia de som e mistura. As diversas peças começam a articular-se, e. ainda que aparentemente fragmentadas, vão revelando gradualmente uma intrincada arquitetura interna. Em última análise, Materia é um olhar curioso para o interior da oficina de uma das compositoras mais aventureiras da música contemporânea. Ao revelar o seu método e tratar as canções como conversas em curso, Holter cria uma obra complementar que se sustenta pelos seus próprios meios. É um disco no qual os fragmentos se transformam em novas formas, a experimentação permanece indissociável da emoção e até os mais pequenos gestos musicais podem conter mundos infinitos.

13 September 2026

 
 
(sequência daqui) "My Lost One" é um conto popular inspirado em livros infantis com rimas assustadoras e sílabas sem sentido, árvores que crescem nas salas de estar e animais a fazer coisas vestidos", declarou Holter num comunicado de imprensa. "Imagino a vida selvagem a mudar-se para a minha casa. Penso num esquilo a cozinhar uma refeição no meu fogão. O que conspiramos e o que realmente ansiamos?" "My Twin", construída a partir de uma demo inédita, surge como um dos momentos mais profundamente comoventes do disco, ao longo do qual transformações subtis não dispensam uma atenção ao detalhe: ritmos, harmonias e motivos recorrentes revelam gradualmente ligações insuspeitas, conferindo ao que, inicialmente, parece difuso uma arquitectura interna cuidadosamente construída. (segue para aqui)

08 September 2026

 
 
(sequência daqui) Holter sempre se interessou pela tensão entre o imediato e o abstracto, e Materia transporta essa tensão para um território especialmente sensível particularmente em "Fantasy", uma faixa cuja aparente espontaneidade esconde um processo criativo particularmente trabalhoso. Holter descreveu a canção como "o empreendimento mais exaustivo de todo o disco — demorou mais de um ano e foi sofrendo várias transformações", explicou ela à "Pitchfork". "É dançável, parece uma espécie de evocação. E, pelo meio do ímpeto de devaneio, há o verso "Blink at the light, and hope to survive", porque os devaneios, num estado fascista, também podem ser assustadores. Eu estava a tentar encontrar o ritmo certo, optimista". Para além destas experiências maiores, as novas composições escritas e gravadas entre as recentes digressões mostram Holter na sua forma mais fluida e instintivamente lúdica. Faixas como "My Lost One" e "My Twin" demonstram o seu talento para se movimentar por entre os labirintos da composição contemporânea. (segue para aqui)

04 September 2026

 
 
(sequência daqui) No coração do álbum está a faixa que lhe dá o título, uma composição inspirada na medieval Hildegard von Bingen à qual Holter regressou em várias versões ao longo da sua carreira: "Materia 2" reconstitui a canção como um exuberante sonho febril e alucinatório. Guiada por uma linha de baixo, clarinetes vibrantes e caixas de ritmos ocultas, Holter entrelaça a voz com a de Jessika Kenney, gerando espirais vocais algures entre o canto medieval e a art-pop de hoje. Enquanto isso, "Materia 3" brinca com a percepção temporal, re-explorando as gravações vocais do álbum de 2024 para revelar microtexturas harmónicas que parecem ao mesmo tempo assombrosamente familiares e totalmente novas.. Holter sempre se interessou pela tensão entre o imediato e o abstrato, e Materia transporta essa tensão para um território especialmente sensível particularmente em "Fantasy", uma faixa cuja aparente espontaneidade esconde um processo criativo particularmente trabalhoso. Holter descreveu a canção como "o empreendimento mais exaustivo de todo o disco — demorou mais de um ano e foi sofrendo várias transformações", explicou ela à "Pitchfork". "É dançável, parece uma espécie de evocação. E, pelo meio do ímpeto de devaneio, há o verso 'Blink at the light, and hope to survive', porque os devaneios, num estado fascista, também podem ser assustadores. Eu estava a tentar encontrar o ritmo certo, optimista". (segue para aqui)

01 September 2026

MUNDOS INFINITOS
 
 
Quando, há dois anos, por altura da publicação de Something in the Room She Moves, conversava com Julia Holter a propósito dos diversos modos de encarar a criação musical, ela respondeu-me: "Podemos sempre reflectir sobre os vários géneros, formas e estruturas musicais e como isso influencia o caracter da música. Há quem prefira trabalhar no interior de uma estrutura musical pré-estabelecida e quem procure uma total liberdade de movimentos. Mas, em qualquer dos casos, decisiva é a importância de permanecermos criativos, de nos divertirmos enquanto nos debruçamos sobre a música". Para uma artista que constrói arquitecturas sonoras a partir do ar (ou cria videos sobre a transcrição fonética de textos em russo - idioma que ela não domina), Julia Holter sempre tratou as suas composições como organismos vivos. Materia, concebido como complemento a Something In the Room She Moves, em vez de funcionar enquanto coleção tradicional de faixas bónus ou maquetas não utilizadas, vira-se para dentro, dissecando, transformando e remontando-se, a partir da voz, da eletrónica, dos instrumentos acústicos e dos sons ambientais. (daqui; segue para aqui)
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08 April 2026

"God’s Lonely Man" (feat. Iggy Pop)
 
(sequência daqui) Em 2020, publicaria Hunted, álbum de revisão de temas de Hunter entregues a Joe Talbot (Idles), Courtney Barnett, Julia Holter e Charlotte Gainsbourg; e, em variadíssimas coordenadas espaciais e temporais, veria o seu nome associado aos de Colette, Gucci, Vogue,Fendi, Lagerfeld, Chanel ou Burberry (com EP Live For Burberry incluído, 2017); não menor cometimento seria a banda sonora para a soberba série de TV Peaky Blinders (Peaky Blinders: Season 5 & 6 (Original Score, 2024) à qual se sucede agora o EP Is This All There Is?. Apresentado como o primeiro de uma trilogia de gravações "que explora a identidade como uma metamorfose, moldada e remodelada pela experiência da paixão", o que Calvi busca - acompanhada por Matt Berninger,Laurie Anderson, Perfume Genius e Iggy Pop - é estimular a eclosão de um desdobramento de personalidades, da fria racionalidade à mais física colisão sonora.

30 December 2024

MÚSICA 2024 - INTERNACIONAL (V) 

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 27)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
 
 
 
 
 
* a ordem é razoavelmente arbitrária  

14 May 2024

Julia Holter - "Meyou" (feat. Jenny Hval)
 
(sequência daqui) Toque então a campaínha para o início da aula da professora Holter: "Ok, pode ser isso. Mas podemos ver a questão sob vários aspectos. Basta pensarmos, por exemplo, em algumas canções de Bob Dylan... Ou nas canções do Woody Guthrie - que o meu pai Darryl Holter, [historiador do movimento operário norte-americano e "folk singer", que publicou o álbum Radio Songs: Woody Guthrie in Los Angeles 1937-1939] canta - que, sendo tão clássicas, tanto influenciaram o Dylan, sem que isso o tenha impedido de se aventurar em muitas outras direcções. No caso do Woody, aos textos é atribuido o primeiro plano e as considerações propriamente musicais ficam em segundo plano. Mas, se pensarmos na Alice Coltrane ou na Joni Mitchell, são tudo casos e circunstâncias únicos. Podemos sempre abordar a questão de modos diferentes, reflectirmos sobre os vários géneros, formas e estruturas musicais e como isso influencia o caracter da música. Há quem prefira trabalhar no interior de uma estrutura musical pré-estabelecida e quem procure uma total liberdade de movimentos. Mas, em qualquer dos casos, decisiva é a importância de permanecermos criativos, de nos divertirmos enquanto nos debruçamos sobre a música. Tenho consciência de todos estes aspectos mas, quando estou a trabalhar, não penso realmente neles. Encorajo também os meus alunos a reflectirem mas não a fazerem-no interminavelmente". Quase, quase em cima do toque de saída, uma última pergunta para a professora Julia: entre Aviary e Something in the Room She Moves, existe mais contraste ou continuidade? Previsivelmente, a resposta vem com TPC incluído: "Neste último álbum, encontro semelhanças com todos os meus discos anteriores, não penso que se trate de algo radicalmente diferente. Mas esse é exactamente o tipo de assunto que prefiro deixar nas mãos dos críticos de música". (risos)

11 May 2024

 
(sequência daqui) Inabitualmente longas, estilisticamente diversas, alojando no mesmo espaço várias secções contrastantes - da improvisação livre à arquitectura rigidamente estruturada ou ao canto gregoriano em processo de deliquescência harmónica -, será que ainda é legítimo continuar a chamar-lhes canções? Julia Holter não tem tantas dúvidas: "Não sei como poderia definir o que é ou não uma canção, não tenho exactamente uma definição pronta a usar. Satisfaz-me completamente chamar-lhes canções, tenham elas a configuração que tiverem. Não penso que seja necessário inventar outras designações para elas. O que é uma canção? Uma melodia cantada por uma voz?..." Contudo, abordando a questão por outro ângulo - a sua vida paralela de professora de composição -, outras pistas poderão surgir. O que lhe parecerá mais importante abordar quando tem uma turma à frente? Pegar em questões mais práticas ou levar os alunos a reflectir sobre assuntos como, por exemplo... o que é uma canção? Primeira reacção: "Esse poderia, sem dúvida, ser um bom topico... Deixou-me muito curiosa acerca do que poderíamos considerar o que é e não é uma canção... Diga-me lá, então: o que é, para si, uma canção?" (risos) Reduzindo o assunto ao osso, procuro a definição mais convencional de uma canção ser uma forma musical relativamente curta (embora de duração variável), com uma parte A, uma parte B, um refrão e uma ponte. E observo que, no caso dela, poderá ser uma imensa combinação dos mais diversos elementos... melódicos, ruidosos, estruturados, completamente livres... (segue para aqui)

08 May 2024

 
(sequência daqui) Se Tragedy (2011) e Loud City Song (2013) foram álbuns orientados, desde o início, por um estímulo temático - Hippolytus, de Euripides, e Gigi, a novela de Colette convertida em musical por Alan Jay Lerner e Frederick Loewe -, Something..., como todos os outros, foi descobrindo o seu sentido â medida que as canções iam surgindo e ficando gravadas. Não sendo, de todo, imune ao que, no mundo - e no seu mundo interior - ia ocorrendo ("Sim, a música é, definitivamente, um reflexo de tudo isso. A vida, a morte, o isolamento, as transformações do corpo, acabaram por influenciar o que gravei"), a tradução disso para o universo das palavras foi tudo menos linear: os textos têm quase um certo ar de "cut-ups", de poesia dadaista, colando segmentos de frases e extraindo daí diferentes significados... Cautelosamente, Julia discorda: "Não sei... mas neste álbum, na verdade, não me parece que existam canções em que tenha recorrido a essa estratégia embora já o tenha feito no passado. Essa abordagem do processo de escrita, no entanto é algo que me fascina e me interessa bastante". (segue para aqui)

06 May 2024

OS ENIGMAS DE JULIA
Da última vez que, por ocasião da publicação de Aviary (2018), falei com Julia Holter, ela insistira muito na forma como encarava a relação entre música e palavras, considerando que a sonoridade destas era um ponto de partida mais decisivo do que o seu significado: "Tenho sempre presente a ideia de que, quando colocamos palavras numa música elas deixam de ser realmente palavras, linguagem, e transformam-se em puro som. Por vezes, quando se sofre um AVC, as pessoas esquecem as palavras, mas continuam a ser capazes de cantar uma canção e recordam-se das palavras dela. Isto é, o nosso cérebro processa a linguagem de forma diferente se for cantada". Agora que, seis anos, uma gravidez, um parto, o confinamento pandémico e a morte de vários familiares depois, lhe volto a falar do assunto a propósito do novo e belíssimo Something in the Room She Moves, nada parece ter-se alterado: "Quando chego ao momento em que começo a compor, concentro-me apenas nos sons e só mais tarde me preocupo em prestar atenção ao que o subconsciente me dita, sem reflectir demasiado nisso e sem nenhuma aitude crítica. Mas estou sempre a trabalhar esse aspecto, é um ponto especialmente interessante para mim. essa relação entre o som das palavras e o significado delas. É um enigma particularmente difícil de resolver, um enorme desafio que me entusiasma imenso". (daqui; segue para aqui)

02 March 2024

"Seed" 

(sequência daqui) Isto passava-se há 12 anos, quando Chapter 1, o seu álbum de estreia acabava de ser publicado. Seguir-se-ia Cocoon (2017) e, nessa altura, já a sua música, por ângulos vários, havia sido associada às de Björk, Joni Mitchell, Sufjan Stevens, Julia Holter e My Brightest Diamond. Agora, com Come Swim, não esquecendo essa genealogia estética, deveria acrescentar-se Virginia Astley à linhagem, bem como Kate Stables (This Is The Kit) e Rozi Plain, ambas participantes deste álbum, espécie de cinemática aguarela subaquática, feita de violinos, clarinetes, flautas, harpas, sintetizadores e "drum loops", crescendos e transparências.

26 September 2023

 "Heat!"
 
(sequência daqui) Se RPG não quebrar esse reflexo condicionado, nada o fará: de manobras de corte e costura sobre "field recordings" a "samples" de farrapos de diálogos, "loops" vocais, alusões a jogos de vídeo, exercícios de "cadavre exquis" e ressuscitações corais de relíquias em Middle English do século XIII, o autoconfessado "mish-mash of sounds and influences, from folk to electronic, ambient, jazz and art-pop", na companhia dos sopros de Faye MacCalman e do contrabaixo de John Pope, conduziu-a a lugares que Meredith Monk, Julia Holter, Modern Nature ou This Is The Kit não tiveram ainda oportunidade de desbravar. Um maravilhoso delírio partilhado que tanto pode emergir do contacto com outras formas de arte como da "leitura da História, da visão de uma paisagem ou de um ruído fortuito, de passagem".

19 October 2022

"My Blood"

(sequência daqui) “Para mim, é tudo exactamente igual a quando Alan Lomax andava por todo o mundo a descobrir as músicas locais. As canções estão aí para ser colhidas”, dizia ela à WNYC. Isto, enquanto, com Greg Ahee e Michael Wallace, alimentava a fogueira dos Bloodslide, trio pós-punk de incandescências elétricas. Agora, em Dirt! Soda!, continuando rodeada de gente dos círculos privados de Bill Laswell, Julia Holter, Yves Tumor e Joan As Policewoman, à excepção de "Strings of Nashville", dos Pavement, e "Broken Hearted Wine", dos Codeine (fundidas numa liga metálica única), e de "Then You Can Tell Me Goodbye", de The Casinos, AJ assina todos os outros temas. E o que se escuta é coisa hipnótica de essência medularmente lynchiana, traduzida e expandida para o vocabulário já antes, em várias tonalidades, ensaiado por Julee Cruise, PJ Harvey, Nick Cave, Kate Bush ou Chrysta Bell.

22 April 2020

A PREDADORA E AS PRESAS

 
Há dois anos, Hunter, o terceiro álbum de Anna Calvi, apresentava-se como um manifesto “queer e feminista” sobre o qual abertamentamente proclamava: “Pretendo ir além do género. Desejo não ter de escolher entre o masculino e o feminino em mim. (...) Ando à caça de alguma coisa – desejo experiências, desejo acção, desejo liberdade sexual, desejo intimidade. (...) Desejo repetir infinitamente as palavras ‘rapariga, rapaz, mulher, homem’ até lhes encontrar os limites, contra a vastidão da experiência humana. Envergo o meu corpo e a minha arte como uma armadura mas também sei que ser verdadeira para comigo é expor-me a ser ferida”. Após os belíssimos Anna Calvi (2011) e One Breath (2013), a intenção era, então, oferecer ao mundo algo de “tranquilamente audacioso e provocante, primitivo e belo, vulnerável e forte, o caçador e a presa”. Por essa altura, pouco antes de se apresentar em Lisboa, no Capitólio, tinha-nos confessado que pretendia “criar algo que fosse mais visceral, animal e selvagem e menos cerebral, textos mais imediatos e muito concentrados na ideia de conduzir até ao extremo o contraste entre as sensações de força e poder, de vulnerabilidade e intimidade” e, através desse gesto, “alcançar a máxima nitidez possível”. Uma nitidez tão grande quanto a do que, num disco “muito mais do corpo do que da cabeça”, explicitamente, propunha: “A nossa cultura está impregnada de fantasmas de mulheres enquanto objectos de caça dos homens. Quis inverter os papéis: a mulher como caçadora que se apodera da sua presa, masculina ou feminina. Basta de tolerância em relação aos limites que, supostamente, definiriam como uma mulher se deve comportar. Por que motivo haveria de aceitá-los apenas por causa da minha anatomia?...” 



Nesse álbum, para além dos músicos com que, habitualmente trabalhava - Mally Harpaz, percussão e harmonium, Daniel Maiden, baixo e bateria, John Baggot, teclados – chamara também a si Adrian Utley (Portishead) e Martin P. Casey (Bad Seeds). Terá estado aí mesmo a semente do que no novo mini-CD, Hunted, foi o plano de acção: pegar em sete canções de Hunter ("Swimming Pool", "Hunter", "Eden", "Away", "Don’t Beat The Girl Out Of My Boy", "Wish" e "Indies Or Paradise") e partilhá-las com Julia Holter, Charlotte Gainsbourg, Courtney Barnett, e Joe Talbot (Idles), caçados para, por sua vez, as capturarem para si, tendo como ponto de partida, "takes" iniciais ou não publicadas de cada uma delas. Não por serem, necessariamente, melhores ou mais “genuínas” mas por oferecerem um ponto de partida diferente: “Estive a ouvir diversas versões destas canções que tinha gravado inicialmente. Hunter era um disco muito intenso e galvanizante. Desta vez, quis apresentar estas canções numa outra perspectiva mais serena e vulnerável. Em cada uma das canções, não sinto que uma versão seja mais verdadeira, mais autêntica do que a outra. É apenas uma outra forma de olhar, um outro ângulo sobre o mesmo enredo”. A escolha dos cúmplices não assentou em nenhuma particular proximidade ou intimidade pessoal: “Conhecia a Courtney Barnett e o Joe Talbot de alguns concertos em que, por acaso, tínhamos estado juntos e, uma vez, tinha ido ter com a Charlotte Gainsbourg – ela já conhecia o meu trabalho mas, quando lhe falei, não fazia a menor ideia de quem eu era – para lhe dizer quanto gostava do trabalho dela. A Julia Holter está na mesma editora que eu o que até facilitou os contactos, mas, até este momento, nunca nos tínhamos falado nem encontrado”. 



Na verdade, nem em estúdio, chegaram sequer a encontrar-se, tendo sido todas as partes gravadas separadamente. Tratou-se apenas de reconhecer afinidades estéticas e de descobrir uma forma de lhes dar corpo musical: “São todos músicos e artistas que me têm inspirado e com quem desejei colaborar por sentir que poderiam acrescentar algo de importante ao espírito de cada canção. Enviei as canções a cada um deles, perguntei-lhes unicamente se gostariam de as interpretar mas não lhes dei qualquer tipo de instruções acerca de como o fazer. Permiti que procedessem como desejassem. A beleza de todo este processo foi poder receber de volta aquilo que lhes tinha enviado e ficar magnificamente surpreendida com os resultados e com as escolhas que tinham feito”. No caso de Julia Holter, a quem propôs dedicar-se a "Swimming Pool", o resultado foi especialmente surpreendente: “Não estava, de todo, à espera que ela acabasse por me apresentar aquele espantosa versão coral... foi uma surpresa maravilhosa. É, sem dúvida, um belíssimo exemplo do enorme talento e da imaginação única dela. Mas todos eles eram, verdadeiramente, aqueles que queria, todos são muito importantes para mim e senti-me muito feliz quando aceitaram o meu convite. Se fosse possível, no entanto, também não perderia a oportunidade de trabalhar com o Iggy Pop”. 



Embora, antes de se dedicar a novo álbum de originais, exista ainda o projecto para um outro volume de colaborações, durante o ano passado, entregou-se à composição para a banda sonora da quinta temporada de Peaky Blinders, a extraordinária série da Netflix, (para a qual, entre diversos outros, Nick Cave e PJ Harvey também contribuiram largamente): “Queria ter a noção de quão profundamente seria capaz de entrar naquele imenso abismo negro do espírito do Tommy Shelby, a personagem principal. Explorar aquelas trevas e vulnerabilidade, aquela brutalidade e sensibilidade – algo que sempre procurei na minha música –, como se eu fosse ele. Foi uma espécie de diálogo entre nós que me conduziu a procurar inspiração na música dos westerns porque Peaky Blinders é, de facto, um western situado em Birmingham”. E, com quem gostaria de poder ter colaborado mas já não o poderá fazer? “David Bowie, Nina Simone, Jimi Hendrix, e Edith Piaf”.

16 July 2019

BORRÃO DE RORSCHACH

  
Diz Erin Birgy: “É fantástico ver alguém aperfeiçoar um determinado objecto de paixão. Mas o que me mantém interessada na música é precipitar-me literalmente no desconhecido. É muito mais divertido divagar do que decidir, de uma vez por todas, como uma banda irá soar, de acordo com uma perspectiva ou um desejo singular”. Divaga Erin Birgy: “A minha maior fantasia erótica era ser um cavalo negro enviado do Inferno, galopando através do mato, ao crepúsculo, como numa cena de Darby O’Gill and the Little People (um filme da Disney, de 1959)”. Recorda Erin Birgy: “Durante os últimos oito anos, a banda alargou-se e deambulou, num crescendo em direcção à liberdade musical”. Sintetiza (em "Truth In The Wild") Erin Birgy: “Energised by uncertainty, confusion, disruption, this song’s for me”. Lateralmente, uma memória antiga ajuda a compreender ainda melhor: “A minha mãe costumava levar-nos, em passeios de um dia, a explorar os diversos lugares de Washington Oriental. Uma vez, fomos a Metaline Falls e, durante cerca de uma hora, não conseguíamos ver nada do lado de fora do carro de tal modo o ar estava opaco de borboletas monarca. Isso ficou em mim para sempre”. 



Naturalmente, nada dispensa a escuta de Dolphine mas, daqui, podem extrair-se já algumas coordenadas para o que nos aguarda. Isto é, nada do que podemos imaginar será sequer parecido com o que iremos descobrir. Até porque este quarto álbum assinado Mega Bog – "nom de plume" de Birgy – pode servir de modo útil como uma espécie de “borrão de Rorschach”: se ela própria admite ter-se alimentado de Robert Wyatt, Laurie Anderson, Bridget St. John, Nina Simone, Marianne Faithful, Nico, a ficção de Ursula K. Le Guin e a poesia de Alice Notley, nada nos impede de, ao escutá-la, identificarmos os traços de Julia Holter, This Is The Kit, Joni Mitchell, Shara Worden, Poliça, Judee Sill, Jesca Hoop ou Hugo Largo. Uma sucessão de imprevisibilidades sonoras articuladas como peças de "puzzles" diferentes no perímetro de cada canção: ziguezagues melódicos enroscados em dissonâncias de veludo, psicadelismos subaquáticos em montanha russa "free-form", bordados folk com acabamentos "avant-pop", abstraccionismos rítmicos em coreografias reptilianas, preciosas jóias electro-acústicas que, afinal, são apenas o confessado desejo de “perpetuar aquele género de perspectiva misteriosa que, para mim, não é realmente um mistério”. Ou, encarando-o sob um ângulo mais esclarecedor: o álbum avassalador que, desde Volta, Björk procura sem encontrar.

27 December 2018

MÚSICA 2018 - INTERNACIONAL (VI)

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 32)











* a ordem é razoavelmente arbitrária...

Explícita ou implicitamente, a quase totalidade dos grandes álbuns publicados em 2018 não conseguiu – nem tentou – esquivar-se a ser um reflexo dos tempos de cólera actuais: quer intervindo aberta e militantemente no combate político (caso de Marc Ribot), quer dando testemunho do mal estar e do abalo impossíveis de dissimular (os belíssimos registos de Laurie Anderson, Poliça, Low, Julia Holter, Richard Thompson, e Rolling Blackouts), quer – caso de David Byrne – usando a ironia como bússola para não perder o rumo no meio da tormenta. E isso seria ainda muito mais óbvio se, acrescentássemos o que, olhando à volta sob os mais diversos ângulos, publicaram Stick In The Wheel, Tune-Yards, Gruff Rhys, Laibach, Parquet Courts, Anal Trump, Virginia Wing, Levellers ou Goat Girl: o mundo dos humanos nunca foi um lugar particularmente frequentável mas, raras vezes como hoje, teremos estado tão perto de o tornar literalmente maligno.

22 November 2018

O SOM ANTES DA LINGUAGEM




Não é o género de notícia que ganhe destaque planetário mas a verdade é que, em 2015, Have You In My Wilderness, de Julia Holter, foi eleito álbum do ano para a “Mojo” e “Uncut”, figurou no top 5 da “Q”, “Wire”, “Guardian” e “Sunday Times” e, ainda no início do ano passado, Brian Eno sobre ele derramava louvores. Uma pouco previsível unanimidade quando dirigida a uma autora que, nas obras anteriores – Tragedy (2011), Ekstasis (2012) e Loud City Song (2013) –, recorria ao Hipólito, de Eurípides, citava Frank O’Hara e Virginia Woolf, e inspirava-se na Gigi, de Colette, como combustível conceptual para o forno criativo, enquanto, em simultâneo, se entregava à exploração das possibilidades microtonais e a divertimentos mais ou menos cageanos, mais ou menos dadaístas. Em comparação, Have You In My Wilderness (apesar de, à transparência, nele se entreverem ainda as silhuetas de Christopher Isherwood e, de novo, Colette) quase parecia cerimoniosamente respeitador do formato clássico da canção. Não havia nenhum motivo para alarme: o belíssimo Aviary, sem se ausentar para paragens longínquas, adopta a perspectiva do aventureiro musical – vigilância atenta à via “para onde os sons desejam dirigir-se”. 

    Há uma muito marcada diferença de perspectiva na composição entre este álbum, Aviary, e o anterior, Have You in My Wilderness... 

É verdade. Em Aviary, não me concentrei tanto, como aconteceu em Have You In My Wilderness, nas estruturas tradicionais da canção mas muito mais numa abordagem que procura descobrir para onde os sons desejam dirigir-se. 

    Num video de apresentação do disco, um dos aspectos que refere é a sua atitude de colocar preferencialmente o som antes da linguagem. O que significa isso exactamente? 

Tenho sempre presente a ideia de que, quando colocamos palavras numa música elas deixam de ser realmente palavras, linguagem, e transformam-se em puro som, algo de completamente diferente. Por vezes, quando se sofre um AVC, as pessoas esquecem as palavras, não conseguem falar, mas continuam a ser capazes de cantar uma canção e recordam-se das palavras dela. O que quero dizer é que o nosso cérebro processa a linguagem de forma diferente se for cantada. Se quiser, pode interpretar isto como uma tentativa minha de justificar cientificamente o modo como encaro os textos das canções (risos): não são exactamente poemas mas uma entidade em si mesma. 

    Mas vai procurá-los e escolhê-los às mais diversas fontes e épocas... 

A música vem ter comigo mais facilmente do que as palavras. Tenho de jogar com textos meus e outros pré-existentes de modo a que, por aí, acabe por produzir algum sentido. Por exemplo, a última canção do álbum, "Why Sad Song", é a transcrição fonética de um canto budista tibetano de Ani Choying Drolma. Mas o mais interessante é que, desconhecendo eu o sentido do texto original, vim a descobrir, mais tarde, que a primeira palavra era “sadness" (tristeza). 


     
    Por outro lado, em "Chaitius", a meio de uma frase, passa, sem aviso, do inglês para o occitano...

Nessa combinação dos dois idiomas desejei obscurecer um pouco a distinção entre ambos, criar um efeito de desorientação e confusão mental em que não somos capazes de identificar qual é qual em cada momento. Mais uma vez, também aí procurei que o som fosse mais importante do que a linguagem mas, neste caso, jogando também com o significado das palavras. 

    Era a isso que, de certo modo, se referia numa entrevista à “Rolling Stone” quando afirmava que “a arte é um permanente processo de tradução”?

Sim, sem dúvida. 

    Numa secção regular da “Mojo” (“Last night a record changed my life”), no mês passado, falava da sua admiração pela banda sonora de Vangelis para Blade Runner e confessava que adoraria ter composto “música medieval para Blade Runner”. Onde é que queria realmente chegar? 

É claro que existe aí uma contradição. O filme é de 1982 e procura representar o presente em que vivemos hoje mas, não o representando com exactidão, também não é tremendamente diferente. É intrigante eu sentir-me atraída por uma imagem do futuro tal como ele era imaginado em 1982, isto é, antes de eu nascer... Por outro lado, desde há cerca de dez anos, tenho-me interessado imenso pela história da Idade Média e pela forma como podemos relacionar essa época com a actualidade, por exemplo, no que respeita às cruzadas e aquela aura de tempo de trevas... Quando olho para as telas do Hyeronimus Bosch – ainda que ele não seja um pintor exactamente medieval, é mais renascentista –, em particular, O Jardim das Delícias Terrenas, parecem-me extremamente futuristas, surreais, não consigo deixar de as associar às imagens de Blade Runner e às interrogações acerca do que é ser humano ou ser um replicante... 

    Onde foi buscar a ideia – que acabaria por ser central em Aviary – de que, na Idade Média, os pássaros eram vistos como símbolos da memória? 

A um livro de Mary Carruthers, The Book of Memory: A Study of Memory in Medieval Culture, no qual, entre outros exemplos, ela se refere a uma representação da memória numa iluminura de um Livro de Horas medieval como pássaros engaiolados. 

    Essa metáfora hitchcockiana dos guinchos dos pássaros como “cacofonia mental num mundo em dissolução”, pode ter também uma interpretação política?  

Nunca é uma questão exclusivamente política, nem exclusivamente pessoal. É tudo isso junto. Enquanto artista, não me interessa enviar grandes mensagens mas sim lançar para o mundo peças abertas a serem interpretadas de modo diferente por cada pessoa. Não é apenas uma questão de desejo ou opinião minha, é o que verdadeiramente são. 

    O facto de o seu pai, Darryl Holter ser historiador teve influência no facto de as suas canções terem um amplo espectro de referências, de Safo a Dante, Guillaume de Machault... 

Nao só o meu pai, a minha mãe também é historiadora. E, como seria de prever, claro que conversavam sobre História o tempo todo mas, quando era miúda, a verdade é que não ligava nenhuma à História... Actualmente, interessa-me de tal modo que não sei se poderei honestamente dizer que isso decorre apenas da influência dos meus pais. 

    A verdade é que podemos escutar cada peça por si mesma mas, ao mesmo tempo, somos quase obrigados a colocá-la num contexto maior no qual se cruzam polifonias medievais, música contemporânea, cânticos budistas... 

Sim, sim... comigo, é sempre uma questão de coligir material de muitas fontes e muitas épocas diferentes, é por isso que dá tanto trabalho compor. Mas o mais difícil continuam a ser os textos.

    A sua confissão de que, durante os últimos tempos, viveu com a sensação de que “everyday is an emergency” – o que veio dar origem a uma canção com esse título – pode ser transposta para fora de um âmbito exclusivamente pessoal?

É verdade, pode. É como, muitas vezes, me sinto. Isto não significa que não seja capaz de apreciar a minha vida e de reconhecer que ela é muito boa. Mas essa sensação repete-se com alguma frequência e tenho consciência de que não vivo sozinha neste mundo e não escrevo apenas para mim. Daí que seja bom manter a capacidade de colocar todas estas questões em perspectiva.