27 February 2018

COISAS EXPLODIDAS

  
No Outono passado, Laurie Anderson inaugurou no Massachusetts Museum of Contemporary Art, Chalkroom, uma instalação de Realidade Virtual, em colaboração com Hsin-Chien Huang, artista e programador de Taiwan, com quem já havia trabalhado em Puppet Motel (1994). A intenção era “investigar como seria viajar pelo interior da arquitectura das histórias, explorar um universo de letras, frases e palavras desenhadas com giz, nas paredes, flutuar através de rampas e corredores que desembocam em torres gigantescas, criar sons tridimensionais”. Num vídeo publicado por Laurie no Vimeo (“A Virtual Reality of Stories”) podemos ter uma aproximação dessa navegação labiríntica pelo meio de túneis negros, pontuados por constelações de palavras luminosas, “voando, como nos sonhos, por uma biblioteca de histórias que nunca ninguém conseguirá decifrar na totalidade”. Mas alertava: “Trata-se, na verdade, de linguagens fracturadas, coisas explodidas”



Na interpretação em palco do recente Landfall, com o Kronos Quartet, a linguagem é também explodida por meio de um programa informático que, a partir dos solos do violinista John Sherba, gera, aleatória e vertiginosamente, texto projectado num ecrã. O pano de fundo narrativo é a devastadora investida, em 2012, do furacão Sandy sobre a costa Atlântica dos EUA que provocou duas centenas de mortos e milhares de milhões de prejuízos. Entre os quais, a cave da casa de Laurie Anderson, em Tribeca, Nova Iorque: “October 2012. The river had been rising all day and a hurricane was coming up slowly from the south. We watched as the sparkling black river crossed the park, then a highway, then came silently up our street. From above, Sandy was a huge swirl, it looked like galaxies whose names I didn't know”. Após o desastre, Anderson, friamente perplexa, reflecte: “And I looked at them floating there, all the things I had carefully saved all my life becoming nothing but junk – and I thought, 'How beautiful; how magic; and how catastrophic’”. Predominantemente instrumental, em CD, essa fragmentação do discurso surge como apartes, interlúdios, de Laurie, que, nos 70 minutos e 30 faixas do álbum, sobre a ciclotímica geometria do Knonos – da impassível serenidade à mais estridente dissonância –, em regime de livre associação, conta a sua tentativa de cantar uma canção coreana num karaoke holandês, elabora listas de espécies extintas e, como que em síntese, borgesianamente, recorda-nos o aleph, primeira letra do alfabeto hebraico, “a letter with no sound, a mental letter”.

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