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02 May 2016
04 June 2014
FALHAR O TIRO
Há um ano, reeditada no dia seguinte à morte de Margaret Thatcher, "Ding Dong! The Witch Is Dead", da banda sonora de O Feiticeiro de Oz, em menos de uma semana, trepou ao 2º lugar do top de singles britânico. Em vida, Thatcher fora já alvo dos disparos de Elvis Costello (“When they finally put you in the ground, I'll stand on your grave and tramp the dirt down”), de Morrissey (“The kind people have a wonderful dream, Margaret on the guillotine”) e de inúmeros outros. Duas décadas antes, Dylan amaldiçoara os senhores da guerra (“And I hope that you die and your death 'll come soon (…) and I'll watch while you're lowered down to your deathbed, and I'll stand over your grave 'til I'm sure that you're dead”) e, meia dúzia de anos depois, os Jefferson Airplane, em "We Can Be Together", inspirados tanto pelo poeta negro Leroy Jones/Amiri Baraka (“We want poems that kill, assassin poems, poems that shoot guns”) como por um texto de John Sundstrom, do grupo anarquista norte-americano UAW/MF, depois de se autodefinirem (“We are all outlaws in the eyes of America (…) We are forces of chaos and anarchy, everything they say we are, we are, and we are very proud of ourselves”), apresentavam um programa revolucionário muito pouco pacífico: “All your private property is target for your enemy, and your enemy is we! Up against the wall, motherfuckers!”
É nesta tradição do homicídio político desejado que se inscreve o videoclip de “Horas de Matar”, dos Mão Morta. Mas, neste caso, não só nos apercebemos que tudo se passa em pleno regime ficcional – a que país real se poderia referir Adolfo quando diz “o clamor começa a multiplicar-se com a multidão selvagem a formar um corpo furioso, uma máquina demente sedenta de sangue”?... – como se compreende mal a mini-polémica que gerou sobre a suposta defesa da violência em democracia: infinitamente menos violento, por excesso de literalidade “panfletária”, do que Müller no Hotel Hessischer Hof (1997, dedicado à obra de Heiner Müller) e consideravelmente aquém do trabalho de escavação profunda de toupeira em Há Já Muito Tempo Que Nesta Latrina O Ar Se Tornou Irrespirável (1998, sobre a crítica radical da Internacional Situacionista), o alegado acto poético bretoniano – “sair para a rua com uma arma na mão e disparar ao acaso” – falha o tiro por abdicar da aleatoriedade e identificar demasiado claramente o alvo.
21 May 2014
"Ébola 'pode resolver' o problema de imigração da Europa, considera Jean-Marie Le Pen" (mas chocante, chocante mesmo, é isto que arrepia as boas almas sensíveis, puras e pacificamente democráticas)
04 April 2014
A realidade, descendo, eleva-se ao nível da metáfora: há já muito que nesta latrina o ar se tornou irrespirável
21 September 2013
"A editora do livro, apurou o 'Expresso', é a Babel que curiosamente é propriedade de Paulo Teixeira Pinto, um dos políticos mais liberais de Portugal e autor de um polémico projecto de Revisão Constitucional encomendado por Pedro Passos Coelho (que Teixeira Pinto apoia desde 2008) (...) e que ficou na gaveta por ser demasiado radical. (...) Além de escrever o prefácio, Lula da Silva vem fazer a apresentação do livro. (...) Lula vem a Portugal a convite da construtora brasileira Odebrecht".
Coisinhas boas sobre a Odebrecht, uma empresa que "cresceu envolvida com escândalos de corrupção, como o dos anões do Orçamento e formação de cartéis com outras empreiteiras para fraudar licitações(...) A ganância da Odebrecht no mundo dos negócios é vista também na política perversa de recursos humanos dirigida aos trabalhadores. É prática comum do grupo precarizar as condições de trabalho, desrespeitar direitos trabalhistas, impor sobrecarga de trabalho, entre outras, visando aumentar seus lucros":
Escândalo das Empreiteiras;
Campanha de Dilma recebeu dinheiro da Odebrecht;
Director da Odebrecht foi a África com Lula;
Do Cristo Redentor, Odebrecht e outros demônios.
Coisinhas boas sobre a Odebrecht, uma empresa que "cresceu envolvida com escândalos de corrupção, como o dos anões do Orçamento e formação de cartéis com outras empreiteiras para fraudar licitações(...) A ganância da Odebrecht no mundo dos negócios é vista também na política perversa de recursos humanos dirigida aos trabalhadores. É prática comum do grupo precarizar as condições de trabalho, desrespeitar direitos trabalhistas, impor sobrecarga de trabalho, entre outras, visando aumentar seus lucros":
Escândalo das Empreiteiras;
Campanha de Dilma recebeu dinheiro da Odebrecht;
Director da Odebrecht foi a África com Lula;
Do Cristo Redentor, Odebrecht e outros demônios.
Recorde-se ainda a Camargo Corrêa e a Octopharma.
19 September 2013
Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável (parte I)
(fotos - ... e o desfecho aqui)
17 January 2011
2010 - MÚSICA: PORTUGUESES

Camané - Do Amor e dos Dias

Abztraqt Sir Q – Extimolotion

Tiago Guillul – V

Pop Dell’Arte - Contra Mundum

Zelig - Joyce Alive!

München - Chaquiego

Lula Pena – Troubadour

Mão Morta - Pesadelo Em Peluche

Laia - Viva Jesus E Mais Alguém

Galandum Galundaina - Senhor Galandum

The Soaked Lamb - Hats & Chairs

B Fachada - B Fachada É Pra Meninos

Bandarra – Bandarra

Peixe:Avião - Madrugada
(2011)

Camané - Do Amor e dos Dias

Abztraqt Sir Q – Extimolotion

Tiago Guillul – V

Pop Dell’Arte - Contra Mundum

Zelig - Joyce Alive!

München - Chaquiego

Lula Pena – Troubadour

Mão Morta - Pesadelo Em Peluche

Laia - Viva Jesus E Mais Alguém

Galandum Galundaina - Senhor Galandum

The Soaked Lamb - Hats & Chairs

B Fachada - B Fachada É Pra Meninos

Bandarra – Bandarra

Peixe:Avião - Madrugada
(2011)
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12 January 2011
2010 - REEDIÇÕES/LIVE

Bruce Springsteen & The E Street Band - The Promise: The Darkness On The Edge Of Town Story

Bruce Springsteen & The E Street Band - London Calling/Live In Hyde Park

Matthew Friedberger - Winter Women/Holy Ghost Language School

Mão Morta - Mão Morta (1988-1992)

Dexys Midnight Runners - Searching For The Young Soul Rebels

GAC - Vozes Na Luta


Bob Dylan - The Witmark Demos 1962-1964 (The Bootleg Series Vol. 9)/The Original Mono Recordings

Dropkick Murphys - Live on Lansdowne, Boston, Ma

Bruce Springsteen & The E Street Band - The Promise: The Darkness On The Edge Of Town Story

Bruce Springsteen & The E Street Band - London Calling/Live In Hyde Park

Matthew Friedberger - Winter Women/Holy Ghost Language School

Mão Morta - Mão Morta (1988-1992)

Dexys Midnight Runners - Searching For The Young Soul Rebels

GAC - Vozes Na Luta


Bob Dylan - The Witmark Demos 1962-1964 (The Bootleg Series Vol. 9)/The Original Mono Recordings

Dropkick Murphys - Live on Lansdowne, Boston, Ma
19 July 2010
ESPELHOS QUEBRADOS

Pop Dell’Arte - Contra Mundum

Abztraqt Sir Q - Extimolotion

Zelig - Joyce Alive!

Pop Dell’Arte - Contra Mundum

Abztraqt Sir Q - Extimolotion

Zelig - Joyce Alive!
Em 1983, Woody Allen criou a personagem Leonard Zelig, singular "camaleão humano" das décadas de 20 e 30 do século passado, capaz de, em virtude de uma incomum disfunção psíquica, involuntária e dolorosamente, mimetizar os traços de personalidade e os maneirismos sociais daqueles com que convivia. Começava a sua trajectória como freak circense e acabava na qualidade de herói de guerra mas – é da própria natureza das melhores histórias – não se ficaria pelas salas de cinema a sua peculiar condição. Exactamente da mesma forma que, dois anos depois, em outro filme de Allen, A Rosa Púrpura do Cairo, Jeff Daniels saltava do ecrã para o mundo real, o "síndroma de Zelig" - uma raríssima forma de perturbação cerebral – seria identificado, em 2007, por uma equipa de cientistas italianos dirigida por Giovannina Conchiglia. Não desistam de ler já: no quinto episódio da quarta temporada da série Dr. House (“Mirror, Mirror”), a um doente era diagnosticado o "síndroma de Giovannina", versão retorcidamente televisiva do Zelig original. E, por estes dias, há quem fale de um "síndroma de House", problema com que os médicos apenas humanos têm de lidar face à desconfiança dos doentes que não descobrem neles o poder dedutivo, sherlockianamente sobre-humano, do intratável figurão representado por Hugh Laurie. O qual (House, não Laurie), dizem as más línguas, sofrerá do "síndroma de Asperger". A arte imita a vida que imita a arte que imita a vida que imita a arte que imita a vida...
Para o que, agora, realmente, interessa, por diversos motivos, Zelig dá imenso jeito. Em primeiro lugar, porque uma das bandas portuguesas de que, aqui, se falará responde pelo nome de Zelig. E não inocentemente: são eles mesmos quem confessa que “a nossa música tem uma influência muito forte de muitos géneros diferentes. É uma música que se transfigura muito e passa por muitas mutações” e reivindicam Zelig-personagem como “metáfora da influência que as coisas exercem umas sobre as outras”. Depois, porque, tanto no caso deles como no dos Pop Dell’Arte e dos Abztraqt Sir Q, coexistem, em simultâneo, o impulso para a permanente transformação e a recusa de se deixarem indistinguir da atmosfera musical circundante. Por outras palavras, todos são Zeligs para si mesmos mas sobressaem, violentamente, no cenário, quais bizarras e inclassificáveis criaturas. Porque cometeram a proeza de reinventar a roda da gramática musical? Não, apenas porque, nesse toca-e-foge de mimetismo/antimimetismo, optaram pelo jogo de reflexos sobre espelhos quebrados e, sabiamente, recompuseram os estilhaços segundo as regras de uma (des)ordem muito pessoal e privada.
Prioridade, então, aos veteranos. Mas pela única razão de que, na circunstância, os Pop dell’Arte funcionam, de modo ideal, como precursores e elo de ligação – estético e ético – em relação aos outros dois grupos. Quixote romântico da segunda vaga do pop/rock luso, editor, com a independente Ama Romanta, de múltiplos embriões de muito e nada (Mler Ife Dada, Sei Miguel, Croix Sainte, Nuno Canavarro, Tó Zé Ferreira, Pascal Comelade, Mão Morta...), ao leme do "bateau-ivre" Pop Dell’Arte, João Peste inventou o equivalente musical de um jornal que somente é publicado quando tem, de facto, notícias relevantes para dar – de 1986 até hoje, pelo meio de singles, EP dispersos e compilações, apenas três álbuns: a memorável estreia de 1987, Free Pop (isso mesmo que o título insinua: a atitude libertária do free-jazz transposta, via Duchamp, Warhol e descendência para o universo-pop) e os quase nada menores Ready Made (1993) e Sex Symbol (1995). Pelo que, quinze anos depois, Contra Mundum seria sempre motivo de celebração. Acresce, entretanto, que não se trata, exclusivamente, de saudar o regresso do Pierrot Lunaire trágico da pop nacional: centrados no núcleo resistente Peste/José Pedro Moura, os Pop Dell’Arte que, de novo, escutamos reiniciam a jornada interrompida e voltam ao laboratório subterrâneo onde dão vida aos psicadelismos fadistas, às fanfarras eléctricas, aos arraiais weillianos e à poeticamente perversa candura de palavras e melodias estropiadas em bailado demente de que só eles conhecem o segredo.
É fácil relacionar os Pop Dell’Arte com os muitíssimo mais novos Abztraqt Sir Q. Desde logo, porque algum motivo terá havido para que João Peste (não propriamente uma guest star de serviço) tenha aparecido como convidado do seu óptimo álbum de estreia, Qorn Pop Garden, publicado no final de 2008. A afinidade que, então, já se pressentia – a costela teatral e operaticamente excessiva, os malabarismos linguísticos poliglotas, a veia experimentalista domesticada pelo vício pop – confirma-se integralmente mas, desta vez, em Extimolotion, aprofundando a morfologia ossuda das canções, o perfil esquinado das melodias e o solavanco rítmico como forma superior do riff, numa espécie de depuração última do pós-punk, filtrado através de trinta anos de história, alguma erudição e um prazer evidente em construir diagramas sonoros a três dimensões e bastante mais variantes cromáticas.
Os Zelig, enfim, são o improbabilíssimo lugar geométrico onde gente oriunda dos Ornatos Violeta, Pluto, Drumming, Dep, Electric Buttocks, Tchakare Kanyembe, Foge Foge Bandido e tropelias punk hardcore paralelas tropeça em Sun Ra, nos Naked City, em John Barry e Frank Zappa e, armada de marimbas, vibrafones, contrabaixo, flauta, teclados, percussões, serrote, guitarra e uma devastadora secção de sopros de faca nos dentes, capaz de passar a ferro uma seara, vai-se estatelar gloriosamente muito próximo da terra de ninguém onde, num hipotético momento de repouso, a Flat Earth Society de Peter Vermeersh e seus pacientes de Tourette associados recupera o fôlego, após mil refregas sonoras. António Serginho, Eduardo Silva, José Marrucho, Nico Tricot e Pedro Cardoso – muito conservatório, muito currículo de jazz, rock e ruídeira marginal afim – estão prontos para, caso seja necessário, operar como reserva estratégica da brigada de combate flamenga: as coordenadas do terreno conhecem-nas de cor e não têm a alma menos engarrafada de sonhos de Morricone em pagodes chineses, de surf bands flutuando em jangadas de juncos no Sahara, de James Bond correndo por entre semifusas numa animação musicada por Carl Stalling ou de cenas tórridas de Rita Hayworth nos braços de um mullah de Andrómeda. Não duvidem por um só segundo: com um máximo de prontidão, esse será sempre o mínimo que deles poderemos esperar.
(2010)
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03 May 2010
TEORIA DA CONSPIRAÇÃO (XVI)
(join the dots)
Mão Morta - Pesadelo Em Peluche
Mão Morta - Mão Morta (1988-1992)
Segundo o dicionário “Collins”, “Ballardian” é um adjectivo aplicável às circunstâncias descritas nos livros de J. G. Ballard, em especial, a modernidade distópica e os efeitos psicológicos do desenvolvimento tecnológico. A ele, porém, muito mais do que um adjectivo, devemos uma obra literária situada entre a escrita experimental, a antecipação do cyberpunk e a autobiografia, num registo que Martin Amis descreveu como o “que se dirige a uma zona diferente – e pouco utilizada – do cérebro do leitor”. Atrocity Exhibition (1970) foi um momento de viragem: constituído por um conjunto de “condensed novels” (com prefácio de William Burroughs) ordenadas arbitrariamente, era como que um viveiro de muito do que viria a seguir, do esboço de Crash – livro e filme – aos espectros de Marilyn e dos Kennedy (à deriva pelo labirinto mental/espelho distorcido dos media do protagonista) ou ao quase ensaio clínico “Why I Want To Fuck Ronald Reagan” (que, em 1980, seria distribuído por activistas situacionistas na Convenção Republicana de Detroit). Ignorando questões de precedência cronológica (o que, no universo ballardiano também é moeda corrente), é difícil decidir se foi Ballard que nasceu para se cruzar com os Mão Morta ou o inverso. Escutada a caixa que reúne os quatro primeiros álbuns do grupo e o exercício de contenção e diversificação estilística pop em fundo de neurose que é o novo Pesadelo Em Peluche, de uma coisa não restam dúvidas: mesmo antes de o saberem, os Mão Morta eram já ballardianos. Trabalhar à transparência sobre Atrocity Exhibition só lhes apurou os reflexos.
(2010)
29 April 2010
TEORIA DA CONSPIRAÇÃO (XV)
(join the dots)
Obrigar a Pensar
Não é exactamente intuitivo interiorizarmos a ideia de que aquela personagem de intelectual maduro e articulado que se encontra à nossa frente responde pelo nome de Adolfo Luxúria Canibal. Mesmo que, após vinte e cinco anos – o tempo de vida dos Mão Morta –, já nos devêssemos ter acostumado. Mas também porque, em particular, desde 1997, o percurso da banda de Braga (hoje, dispersa geograficamente) tem sido orientado pela exploração de um índice de autores e obras literárias que não constituem propriamente a dieta habitual do zoo rock’n’roll. Começaram por Heiner Müller e, daí, seguiram para a intervenção situacionista de Debord e Vaneigem, aportando, depois, a Ginsberg, Lautréamont e, agora, com o novo álbum, Pesadelo Em Peluche, investindo sobre J. G. Ballard, cuja obra, The Atrocity Exhibition, tomaram como matriz.

Ilustração de Phoebe Gloeckner para a
edição de Atrocity Exhibition de 1990
O que, segundo Adolfo, foi uma trajectória natural: “Nós fazíamos mais ensaios do que concertos, havia uma grande comunicação entre todos, compúnhamos em conjunto, apesar de estarmos geograficamente separados. E começámos a trabalhar com ideias agregadoras o que teve um realce maior com o Mutantes S.21, à volta das cidades, mas ainda sem pegar em mais nada a não ser uma ideia. O Müller foi uma encomenda para fazermos alguma coisa a propósito dos poemas dele. O que acabou por possibilitar que trabalhássemos algo mais conceptual. E descobrimos que funcionava bem trabalhar assim. Ao pensarmos em obras literárias, isso obriga-nos a retrabalhar as coisas, a mudar a linguagem, a encontrar outras soluções. E, desde aí – à excepção do Primavera de Destroços –, temos vindo a encontrar esta bóia de salvação”.

De épocas distintas, mais teóricos ou mais literários, existe uma certa relação de “parentesco” entre toda esta gente: “O mais antigo, o Lautréamont, foi considerado pelos surrealistas, um dos seus precursores. Os situacionistas – tanto o Debord como o Vaneigem – citavam simultaneamente os dadaístas e os surrealistas como seus antecessores directos. Para a "beat generation", a grande influência eram os surrealistas franceses, a escrita automática. O Ballard é um filho directo do William Burroughs. A única carta um pouco fora do baralho foi o Heiner Müller: é um autor que trabalha mais a dramaturgia mas há pontos de contacto, particularmente na sensação geral de mal-estar”. A escolha de Atrocity Exhibition – de passagem, recorde-se que foi também o título de uma das canções dos Joy Division – enquanto pano de fundo para Pesadelo Em Peluche decorreu da própria estrutura muito pouco convencional do livro: “Pode começar-se pelo fim, pelo princípio, pelo meio. E isso foi uma das coisas que nos interessaram. Queríamos voltar a fazer canções curtas para fugir do Maldoror que tinha sido um trabalho muito absorvente e que nos tinha massacrado.

Desenho de Salvador Dali para
Os Cantos de Maldoror (1934)
Queríamos respirar outra coisa. O Ballard começou por nos aparecer em termos genéricos. Mas, depois, lembrámo-nos do Atrocity Exhibition que não só é um dos livros-charneira do Ballard como já lá estão todas as sementes do que ele viria a fazer. Para nós, era um livro que podia abarcar todo o Ballard. Por outro lado, atraiu-nos a sua construção, sem fim, meio e princípio, em que ele incluiu aquilo a que chamava ‘novelas condensadas’ e onde a personagem principal vai mudando de nome (embora o nome comece sempre pela mesma letra) e de profissão, mas mantendo uma ligação à psiquiatria... a edição de 1990 que tem os comentários do próprio Ballard integrados no corpo do texto, em termos de escrita experimental, vai ainda mais longe do que o original, acentua aquela ideia de turbulência mental que o mundo tecnológico e massificado provoca no indivíduo. Achámos que era uma boa matriz para nós porque não nos obrigava a fazer um disco conceptualmente fechado, podíamos trabalhar canção a canção, picando ideias do livro, problematizando-as de outra forma. Quisemos que a mesma estranheza que fica a ressoar na cabeça do leitor se transportasse para o álbum”.

Sendo verdade que não é todos os dias que se tropeça numa canção-pop que tem como refrão “O córtex cerebral processa a informação e regista a reacção da medula espinal” – pelo que, no caso, a qualificação "pop" deverá ser tomada com uma pitada de sal – o facto é que Pesadelo Em Peluche acaba por resultar num dos discos dos Mão Morta de mais imediata digestão: “Foi deliberado: queríamos fazer canções curtas, no que isso implica de uma estrutura tradicional. Depois, o livro é contemporâneo da pop-art e ela debruça-se sobre os significados e as formas da linguagem de massas, descontextualiza-a, joga-a de outros modos, e tudo isso cai muito dentro do próprio universo do Ballard. Em termos musicais, fomos buscar um pouco a ideia de pegar em clichés sonoros dos últimos trinta anos do rock, desde os blues ao gótico, desviando-os, mas jogando com a sobreposição entre a não-estranheza musical e a estranheza do conteúdo”. O que, inevitavelmente, arrasta a interrogação acerca das intenções últimas da música do grupo: apenas um desabafo, uma imprecação contra a atmosfera irrespirável da latrina ou ainda acreditam que ela é capaz de determinar mudanças? “O nosso objectivo primário é, pura e simplesmente, divertirmo-nos. Mas podemos divertir-nos de muitas maneiras. E, aí, para nós, o essencial é uma coisa muito egoísta: obrigar-nos a pensar. Este exercício de pegar nos livros, dissecá-los, percebê-los e transformá-los noutra coisa, obriga-nos a isso. E, finalmente, gostamos de partilhar esse estímulo ao pensamento com quem nos ouve”.

É esse, então, o rasto dos Mão Morta que podemos também detectar na caixa que reedita, em simultâneo, Mão Morta, Corações Felpudos, O.D. Rainha do Rock & Crawl e Mutantes S.21? “Dentro dessa caixa negra estão quase todos os diversos caminhos que os Mão Morta percorreram. Nomeadamente no primeiro e no Mutantes que marcaram a sua época. Por acaso, antes do surgimento da Internet estava mais convencido que tínhamos estimulado esse gosto pelo pensamento que, há pouco, referi. Nessa altura, ia encontrando pessoas com quem falava e elas pareciam-me inteligentes e interessantes. Após o advento da Net, passei a ver muitas mais aí, a falar sob anonimato, e 99% delas parecem-me perfeitamente burgessas. De modo que não sei até que ponto é que isto poderá ter servido para conduzir alguém a pensar o que quer que seja. Claro que a Internet trouxe possibilidades de divulgação que antes não existiam: os Mão Morta, por exemplo, passaram a chegar ao Brasil e é do público mais interessante que nós temos, especialmente em São Paulo. Mas não sei se, tal como o objectivo de ir a Berlim – que foi o que nos levou a formar a banda – nunca foi atingido, se o outro de fazer as pessoas pensar um bocadinho terá sido alcançado de alguma forma. Com todo este excesso de informação, contrainformação, desinformação que circula, cada vez menos as pessoas estão informadas, há cada vez mais crença. Em matérias que dominamos, podemos facilmente distinguir o trigo do joio. Mas, noutras, 90% da nossa vida, somos guiados. Mas quem é que nos guia? As ‘fontes oficiais’ que nos poderiam assegurar a confiança na informação acabam sempre por ser contraditórias e ameaçam começar ter a mesma credibilidade do professor Karamba”.

(2010)
01 May 2009
HÁ JÁ MUITO QUE NESTA LATRINA
O AR SE TORNOU IRRESPIRÁVEL

"A professora [da escola primária de Castelo de Vide] conta ainda como algumas das respostas dadas pelos alunos foram 'conduzidas' pelos entrevistadores. 'Queriam que um menino dissesse que fazia muitas pesquisas na Internet com o Magalhães. Era uma mentira porque o menino nem sequer tem net'". ("Expresso")
"Alexandre Reina, cidadão brasileiro, sócio-gerente da Bebop [empresa contratada pelo PS para fazer o tempo de antena que passou na RTP no passado dia 22} garante que nunca mentiu a ninguém: 'Nunca trabalhámos para o Ministério da Educação, como é que diríamos que éramos do Ministério da Educação?', argumenta. Deixou, contudo, muitas outras perguntas sem resposta, nomeadamente, porque é que uma empresa que diz ter 'grandes clientes, entre os quais, esporadicamente, o PS', não tem telefone fixo nem um site na Internet. Também não adiantou quem lhe pagou, por que só tem um empregado e há quanto tempo trabalha para os socialistas". ("Público")

"No chão ou em cima de pequenas bancas improvisadas, entre amontoados de roupa ou ao lado de volumes de tabaco de contrabando, pilhas de óculos escuros e telemóveis, o computador Magalhães já é presença assídua na Feira da Ladra, em Lisboa. (...) 'Todos os sábados, há por aí muitos Magalhães à venda, ainda com as caixas originais e tudo. As pessoas pegam nos portáteis dos filhos e vêm cá para os vender, normalmente por 120 ou 140 euros'". ("Expresso")
"O Governo quer ajustar as multas ambientais ao 'quadro socio-económico do país'. Para o conseguir, aprovou ontem uma proposta de lei que prevê 'a redução da larga maioria dos valores das coimas, com especial relevo para os limites mínimos'". ("Público")
"A lei que aumenta em mais de um milhão de euros a entrada de dinheiro 'vivo' nos cofres dos partidos foi ontem aprovada na Assembleia da República por todos os partidos. (...) Saldanha Sanches é extremamente crítico da nova lei (...): 'Voltamos às malas cheias de notas, das quais uma parte chega aos partidos e outra fica com as pessoas que a recebem (...) [Isto] mostra que os partidos se estão nas tintas para a opinião pública, querem é o dinheiro'" ("Público")
(2009)
O AR SE TORNOU IRRESPIRÁVEL

"A professora [da escola primária de Castelo de Vide] conta ainda como algumas das respostas dadas pelos alunos foram 'conduzidas' pelos entrevistadores. 'Queriam que um menino dissesse que fazia muitas pesquisas na Internet com o Magalhães. Era uma mentira porque o menino nem sequer tem net'". ("Expresso")
"Alexandre Reina, cidadão brasileiro, sócio-gerente da Bebop [empresa contratada pelo PS para fazer o tempo de antena que passou na RTP no passado dia 22} garante que nunca mentiu a ninguém: 'Nunca trabalhámos para o Ministério da Educação, como é que diríamos que éramos do Ministério da Educação?', argumenta. Deixou, contudo, muitas outras perguntas sem resposta, nomeadamente, porque é que uma empresa que diz ter 'grandes clientes, entre os quais, esporadicamente, o PS', não tem telefone fixo nem um site na Internet. Também não adiantou quem lhe pagou, por que só tem um empregado e há quanto tempo trabalha para os socialistas". ("Público")

"No chão ou em cima de pequenas bancas improvisadas, entre amontoados de roupa ou ao lado de volumes de tabaco de contrabando, pilhas de óculos escuros e telemóveis, o computador Magalhães já é presença assídua na Feira da Ladra, em Lisboa. (...) 'Todos os sábados, há por aí muitos Magalhães à venda, ainda com as caixas originais e tudo. As pessoas pegam nos portáteis dos filhos e vêm cá para os vender, normalmente por 120 ou 140 euros'". ("Expresso")
"O Governo quer ajustar as multas ambientais ao 'quadro socio-económico do país'. Para o conseguir, aprovou ontem uma proposta de lei que prevê 'a redução da larga maioria dos valores das coimas, com especial relevo para os limites mínimos'". ("Público")
"A lei que aumenta em mais de um milhão de euros a entrada de dinheiro 'vivo' nos cofres dos partidos foi ontem aprovada na Assembleia da República por todos os partidos. (...) Saldanha Sanches é extremamente crítico da nova lei (...): 'Voltamos às malas cheias de notas, das quais uma parte chega aos partidos e outra fica com as pessoas que a recebem (...) [Isto] mostra que os partidos se estão nas tintas para a opinião pública, querem é o dinheiro'" ("Público")
(2009)
14 April 2009
AFIAR A LÂMINA, SFF
Mão Morta - Maldoror (DVD)
Do quádruplo painel de álbuns conceptuais dos Mão Morta – Müller no Hotel Hessischer Hof (1997, dedicado à obra de Heiner Müller), Há Muito Que Nesta Latrina O Ar Se Tornou Irrespirável (1998, sobre a intervenção Situacionista), Nus (2004, em torno da literatura “beat”) e Maldoror (2008, encenando a hemorragia maligna de Isidore Ducasse) –, o último é aquele em que, estética e expressivamente, de modo menos eficaz o sprachgesang de Adolfo Luxúria Canibal e a mórbida mood music da banda se articulam: o interminável e infernal jorro de enormidades do texto exigia outra dinâmica e contrastes sonoros para que a procissão de horrores não se convertesse em mera rotina.
Em palco, no Theatro Circo de Braga, a componente cenográfica e visual (com Adolfo travestido de surreal clown isabelino) captura a atenção durante os primeiros instantes mas também ela, rapidamente, pelo efeito de repetição, se deixa acomodar. Apetecia uma versão II revista, corrigida e com a lâmina mais afiada.
(2009)
27 April 2008
O MAL PURO
Quando, vitimado por uma “febre má”, a 24 de Novembro de 1870 e aos 24 anos, Isidore Lucien Ducasse morreu no hotel do número 7 do Faubourg Montmartre, em Paris, já teria muito boas razões para suspeitar que, como bastante mais tarde afirmaria Philippe Sollers, no “Le Monde”, Os Cantos de Maldoror eram um livro que havia sido escrito “secretamente para seis ou sete (no máximo) indivíduos por século”. De facto, as raríssimas reacções que, à época, o livro suscitou foram todas severamente negativas e não surpreende que assim tenha sido: à excepção das portentosas profanações coreográficas filosófico-sexuais do Divino Marquês, dificilmente se encontrará um tão violento concentrado do Mal e em estado tão transparentemente puro como aquele que o “conde de Lautréamont” verteu para o papel abrindo uma via directa e inteiramente desobstruída, do caldeirão de pesadelos do seu subconsciente para o mundo cá fora. Se Dylan cantou “if my thought-dreams could be seen, they'd probably put my head in a guillotine”, Ducasse fê-los jorrar em turbilhão para os Cantos e, à beira da Comuna de Paris, arranjou forma de iludir a lâmina e os tumultos sociais, extinguindo-se por outros motivos.
Seria necessário que, só muito posteriormente, Alfred Jarry, os Surrealistas e, por fim, os Situacionistas exumassem a sua obra para que ela conquistasse um lugar vitalício no cânone dos danados e, aí mesmo, enquanto precursora de todas as escavações de profundidade extrema pelos abismos do espírito. Dito isto, seria muito de estranhar que, mais tarde ou mais cedo, o pestífero Maldoror não acabasse por achar o caminho que o levaria à obra gravada dos Mão Morta que – particularmente em sintonia com as mais tensas vibrações mentais – já registam em currículo Müller no Hotel Hessischer Hof (1997), Há Muito Que Nesta Latrina O Ar Se Tornou Irrespirável (1998, sobre a intervenção Situacionista) ou Nus (2004, em torno da literatura “beat”). Porém, se, segundo o editor Léon Genonceaux, Ducasse “escrevia apenas de noite, sentado ao piano, declamando furiosamente o texto enquanto martelava as teclas e proferia novas estrofes sobre essas sonoridades”, neste seu último volume, o grupo de Adolfo Luxúria Canibal, optando por uma encenação musical de pendor tendencialmente “atmosférico”, falha seriamente no estabelecimento do “mood” psicótico e demencial que os textos reclamavam e que apenas sobrevive no gume violento da declamação. (2008)
09 November 2007
DE QUE LADO SOPRA O VENTO?
(retomando a partir daqui)

Na televisão do "lobby" do hotel de Lisboa em que — de viagem entre a capital, Braga e Paris, onde há ano e meio reside — estacionou para falar sobre o novo álbum dos Mão Morta, Adolfo Macedo (aliás, Adolfo Luxúria Canibal) não pode deixar de reparar nas imagens obsessivas de um pobre país "moderno" a exibir a sua fundamental ruina, em directo de Castelo de Paiva, com um autocarro semi-submerso como metáfora tragicamente apropriada para as canções de um disco intitulado Primavera de Destroços. Não admira, por isso, que disco e conversa incidam essencialmente sobre o mal estar endémico do mundo contemporâneo e sobre essa difusa barbárie que volta a incubar novas gerações de "revolucionários" e obriga a reflectir sobre o lado de que o vento sopra.
Agora que, há ano e meio, vives fora de Portugal, isso proporciona-te uma outra perspectiva para os textos que escreves sobre (como dizia um amigo meu a propósito da história do autocarro de Castelo de Paiva) "este país de onde até os mortos emigram"?
Tenho uma imagem de Portugal que não tinha e, estando em Paris, começo a ter. Um filósofo português que vivia nos Estados Unidos e de que não recordo o nome falava de Portugal como tendo o trauma de ser pequeno e a arrogância de ser grande. Mas, de cada vez que venho a Portugal (e venho muitas vezes), tenho a sensação de que Portugal está todo virado para dentro, só fala de si mesmo, é completamente paroquial, raramente há uma perspectiva maior. O tratamento dos assuntos, como o da segurança (lá, como cá, lançado pela direita), é completamente diferente: foi pela imprensa francesa que pude saber, por exemplo, que, na Europa comunitária, Portugal e a França são os países que têm maior número de polícias por habitante, com Portugal à frente! Lá fora sente-se muito essa ideia de paróquia e compreende-se por que motivo os emigrantes estão tão distanciados de Portugal e Portugal está longe deles. Instituições como o Instituto Camões ou as embaixadas que deveriam fazer alguma coisa, não fazem nada. É chocante como Portugal vive de fachadas, de palacetes, de grandes banquetes e ambientes de fausto e depois não tem dinheiro para fazer rigorosamente nada de concreto, prático e real de apoio à cultura portuguesa.

E, por causa dessa distância, existe neste disco dos Mão Morta alguma ruptura em relação ao que vinha de trás?
Não. Este disco foi feito num espaço de três anos. O Latrina era um bocado claustrofóbico, parecia que não havia fuga. E surgiu a ideia de utilizar a "Primavera de Destroços" que era um bocado da pré-história dos Mão Morta (dos Au Au Feio Mau) como saída, com um arranjo de cordas do Zé Mário Branco. Essa oportunidade perdeu-se. Depois, há quatro textos tirados de um espectáculo de "spoken word", há experiências musicais e samplagens do Miguel Pedro que ele foi guardando. Houve um momento em que decidimos que seria um disco de canções soltas, não conceptual, virado para o subjectivismo e para uma recepção epidérmica à realidade. Há um trabalho disperso. Existe uma continuidade de escrita mas todas as composições derivam do piano ou de samplagens.
Este disco foi um pouco uma finta à ideia mais recente dos Mão Morta como autores de albuns conceptuais com o Müller e o Latrina. Nos anos 70, os álbuns conceptuais eram obrigatórios, nos anos 80 foram o anátema, e, depois disso, quem quis fazê-los, fez, e seria melhor que fossem bons. Os vossos eram muito bons. Porquê desistir agora?
Não há mal nenhum em fazer álbuns conceptuais e a melhor prova é que os fizémos e já desde o OD que era mais temático do que conceptual. O pior é o rótulo, o cliché. Havia que tentar outras formas. Se o álbum conceptual não é mau em si, porque não um álbum de canções?
No entanto, tanto no Müller como no Latrina, o conceito que lhes estava por trás funcionava como uma espécie de lupa que focava muito mais precisamente toda aquela vossa violência, ira e agressividade, definindo um inimigo nítido em relação ao qual as vossas balas se dirigiam. Neste disco, parece que os contornos da imagem desse "inimigo" voltaram a ficar um bocado difusos...
Não estou de acordo. Nos primeiros álbuns (e aí concordo) não havia uma definição clara do inimigo porque, se o fizéssemos nos anos 80, nessa época de pujança e de vanglória do capitalismo, seríamos catalogados e postos à margem. Qualquer pau na engrenagem seria um pau que se partia a menos que fosse um pau subtil. A partir de certo momento sentimos que as circunstâncias tinham mudado — quando começámos a trabalhar no Latrina ainda antes do Müller —, com o aparecimento de vários movimentos de contestação da globalização liberal e do mercado sem freio em todo o mundo. Não nos enganámos acerca do lado de onde soprava o vento e, finalmente, o vento soprava a nosso favor. Pudemos assumir e definir mais claramente o inimigo no Latrina do que no Müller. Agora podemos voltar à recepção epidérmica a esta realidade, tornar a mostrá-la na sua crueza mas de uma forma mais subjectiva em vez de ser do ponto de vista de quem, acima dela, teoriza.
Mesmo com o "alibi" Situacionista de permeio, o que te impede de passar a uma qualquer forma de militância política activa?
Não me interessa nada. Já fui convidado e disse não peremptoriamente e sem pestanejar. Não direi que a desprezo mas a actividade política militante não me dá gozo nenhum. É uma questão mais de sensiblidade, de irritação, de não estar bem comigo próprio se não disser certas coisas do que um querer criar um movimento político de contestação, selvagem ou não. Esse movimento cria-se por si próprio, está a crescer. Eu sinto-o, em França, sinto-o mais do que cá. Eu digo isto com agrado: volta a haver putos de dezasseis anos marxistas-leninistas! Não acho piada nenhuma ao Lenine mas acho muita graça a isso. E não estão numa de 68, vivem no mundo actual, aplicam a teoria leninista à Constituição do Estado e aplicam sobretudo a análise marxista à interpretação do quotidiano e do momento presente. Não ficam fechados nos clichés dos pais ou dos avós. As pessoas têm a mania que os franceses são todos contestários mas a câmara de Paris era há 110 anos de direita e deixou de o ser.
Mas, pegando por aí, quando o Marx dizia que chega de explicar o mundo o que é preciso é transformá-lo, nos Mão Morta há uma exaustiva "explicação" e imprecação contra a imundice do mundo e da espécie humana que fica sempre aquém da "acção revolucionária"...
A "explicação do mundo" só fizémos no Latrina. O que apresentamos é um espelho do estado de barbárie do mundo. Nem sequer moralizamos. Se eu acho piada a haver putos de dezasseis anos marxistas-leninistas é porque, de repente, as coisas não são tão claras e límpidas como nos quiseram fazer crer há meia dúzia de anos. Não há uma vitória definitiva de uma ideologia única liberal e do capitalismo selvagem. As últimas badaladas ainda não soaram. (2001)
(retomando a partir daqui)

Na televisão do "lobby" do hotel de Lisboa em que — de viagem entre a capital, Braga e Paris, onde há ano e meio reside — estacionou para falar sobre o novo álbum dos Mão Morta, Adolfo Macedo (aliás, Adolfo Luxúria Canibal) não pode deixar de reparar nas imagens obsessivas de um pobre país "moderno" a exibir a sua fundamental ruina, em directo de Castelo de Paiva, com um autocarro semi-submerso como metáfora tragicamente apropriada para as canções de um disco intitulado Primavera de Destroços. Não admira, por isso, que disco e conversa incidam essencialmente sobre o mal estar endémico do mundo contemporâneo e sobre essa difusa barbárie que volta a incubar novas gerações de "revolucionários" e obriga a reflectir sobre o lado de que o vento sopra.
Agora que, há ano e meio, vives fora de Portugal, isso proporciona-te uma outra perspectiva para os textos que escreves sobre (como dizia um amigo meu a propósito da história do autocarro de Castelo de Paiva) "este país de onde até os mortos emigram"?
Tenho uma imagem de Portugal que não tinha e, estando em Paris, começo a ter. Um filósofo português que vivia nos Estados Unidos e de que não recordo o nome falava de Portugal como tendo o trauma de ser pequeno e a arrogância de ser grande. Mas, de cada vez que venho a Portugal (e venho muitas vezes), tenho a sensação de que Portugal está todo virado para dentro, só fala de si mesmo, é completamente paroquial, raramente há uma perspectiva maior. O tratamento dos assuntos, como o da segurança (lá, como cá, lançado pela direita), é completamente diferente: foi pela imprensa francesa que pude saber, por exemplo, que, na Europa comunitária, Portugal e a França são os países que têm maior número de polícias por habitante, com Portugal à frente! Lá fora sente-se muito essa ideia de paróquia e compreende-se por que motivo os emigrantes estão tão distanciados de Portugal e Portugal está longe deles. Instituições como o Instituto Camões ou as embaixadas que deveriam fazer alguma coisa, não fazem nada. É chocante como Portugal vive de fachadas, de palacetes, de grandes banquetes e ambientes de fausto e depois não tem dinheiro para fazer rigorosamente nada de concreto, prático e real de apoio à cultura portuguesa.

E, por causa dessa distância, existe neste disco dos Mão Morta alguma ruptura em relação ao que vinha de trás?
Não. Este disco foi feito num espaço de três anos. O Latrina era um bocado claustrofóbico, parecia que não havia fuga. E surgiu a ideia de utilizar a "Primavera de Destroços" que era um bocado da pré-história dos Mão Morta (dos Au Au Feio Mau) como saída, com um arranjo de cordas do Zé Mário Branco. Essa oportunidade perdeu-se. Depois, há quatro textos tirados de um espectáculo de "spoken word", há experiências musicais e samplagens do Miguel Pedro que ele foi guardando. Houve um momento em que decidimos que seria um disco de canções soltas, não conceptual, virado para o subjectivismo e para uma recepção epidérmica à realidade. Há um trabalho disperso. Existe uma continuidade de escrita mas todas as composições derivam do piano ou de samplagens.
Este disco foi um pouco uma finta à ideia mais recente dos Mão Morta como autores de albuns conceptuais com o Müller e o Latrina. Nos anos 70, os álbuns conceptuais eram obrigatórios, nos anos 80 foram o anátema, e, depois disso, quem quis fazê-los, fez, e seria melhor que fossem bons. Os vossos eram muito bons. Porquê desistir agora?
Não há mal nenhum em fazer álbuns conceptuais e a melhor prova é que os fizémos e já desde o OD que era mais temático do que conceptual. O pior é o rótulo, o cliché. Havia que tentar outras formas. Se o álbum conceptual não é mau em si, porque não um álbum de canções?
No entanto, tanto no Müller como no Latrina, o conceito que lhes estava por trás funcionava como uma espécie de lupa que focava muito mais precisamente toda aquela vossa violência, ira e agressividade, definindo um inimigo nítido em relação ao qual as vossas balas se dirigiam. Neste disco, parece que os contornos da imagem desse "inimigo" voltaram a ficar um bocado difusos...
Não estou de acordo. Nos primeiros álbuns (e aí concordo) não havia uma definição clara do inimigo porque, se o fizéssemos nos anos 80, nessa época de pujança e de vanglória do capitalismo, seríamos catalogados e postos à margem. Qualquer pau na engrenagem seria um pau que se partia a menos que fosse um pau subtil. A partir de certo momento sentimos que as circunstâncias tinham mudado — quando começámos a trabalhar no Latrina ainda antes do Müller —, com o aparecimento de vários movimentos de contestação da globalização liberal e do mercado sem freio em todo o mundo. Não nos enganámos acerca do lado de onde soprava o vento e, finalmente, o vento soprava a nosso favor. Pudemos assumir e definir mais claramente o inimigo no Latrina do que no Müller. Agora podemos voltar à recepção epidérmica a esta realidade, tornar a mostrá-la na sua crueza mas de uma forma mais subjectiva em vez de ser do ponto de vista de quem, acima dela, teoriza.
Mesmo com o "alibi" Situacionista de permeio, o que te impede de passar a uma qualquer forma de militância política activa?
Não me interessa nada. Já fui convidado e disse não peremptoriamente e sem pestanejar. Não direi que a desprezo mas a actividade política militante não me dá gozo nenhum. É uma questão mais de sensiblidade, de irritação, de não estar bem comigo próprio se não disser certas coisas do que um querer criar um movimento político de contestação, selvagem ou não. Esse movimento cria-se por si próprio, está a crescer. Eu sinto-o, em França, sinto-o mais do que cá. Eu digo isto com agrado: volta a haver putos de dezasseis anos marxistas-leninistas! Não acho piada nenhuma ao Lenine mas acho muita graça a isso. E não estão numa de 68, vivem no mundo actual, aplicam a teoria leninista à Constituição do Estado e aplicam sobretudo a análise marxista à interpretação do quotidiano e do momento presente. Não ficam fechados nos clichés dos pais ou dos avós. As pessoas têm a mania que os franceses são todos contestários mas a câmara de Paris era há 110 anos de direita e deixou de o ser.
Mas, pegando por aí, quando o Marx dizia que chega de explicar o mundo o que é preciso é transformá-lo, nos Mão Morta há uma exaustiva "explicação" e imprecação contra a imundice do mundo e da espécie humana que fica sempre aquém da "acção revolucionária"...
A "explicação do mundo" só fizémos no Latrina. O que apresentamos é um espelho do estado de barbárie do mundo. Nem sequer moralizamos. Se eu acho piada a haver putos de dezasseis anos marxistas-leninistas é porque, de repente, as coisas não são tão claras e límpidas como nos quiseram fazer crer há meia dúzia de anos. Não há uma vitória definitiva de uma ideologia única liberal e do capitalismo selvagem. As últimas badaladas ainda não soaram. (2001)
30 October 2007
O GOLPE DO MUNDO

Mão Morta - Há Já Muito Tempo Que Nesta Latrina O Ar Se Tornou Irrespirável




Mão Morta - Há Já Muito Tempo Que Nesta Latrina O Ar Se Tornou Irrespirável
Há muitos, muitos anos, quando o mundo era jovem e o optimismo antropológico ainda reinava, sonhava-se com a criação do Homem Novo. E, de entre as muitas confrarias que conspiravam na sombra (comunistas pró-soviéticos, maoistas, trotskistas, guevaristas e infinitas seitas anarquistas), destacou-se uma heresia que realizou provavelmente a única crítica verdadeiramente radical do velho mundo que havia que derrubar e substituir. Eram herdeiros da visão dadaista, aplicavam-se na desmontagem dos mecanismos últimos por meio dos quais as sociedades modernas contemporâneas desenvolviam e perpetuavam a famosa "alienação" que Marx descobrira e, do Maio de 68 parisiense à insurreição punk de uma década mais tarde (podem ler essa parcela da "história secreta do século XX" em Lipstick Traces, de Greil Marcus), todo o pensamento subversivo mais original e provocador descendeu precisamente deles, os revolucionários da Internacional Situacionista.

Para sua glória (e inevitável desgraça de recuperação futura), a maioria das intervenções da IS traduziu-se em textos e slogans eminentemente citáveis: "Nada queremos de um mundo no qual a garantia de não morrer de fome se troca contra o risco de morrer de tédio", "O desespero da consciência fabrica os assassinos da ordem, a consciência do desespero, os assassinos da desordem", "A esperança é a trela da submissão", "Os revolucionários da Comuna deixaram-se matar até ao último para que também tu possas comprar uma cadeia estereofónica Philips de alta fidelidade" ou "Apoiamos incondicionalmente todas as formas de liberdade de costumes, tudo aquilo a que a canalha burguesa ou burocrática chama deboche. Naturalmente, está fora de questão prepararmos a revolução da vida quotidiana com base no ascetismo", dos quais (como eles próprios, sem dúvida, seriam capazes de prever...) vários se acabariam por converter em matéria prima publicitária da própria "sociedade do espectáculo" que denunciavam. Ou não se terá reparado ainda no "soixante huitard" famoso "Sejamos realistas, exijamos o impossível" espalhado por inúmeros "outdoors" das nossas cidades?

É sobre este património teórico insurrecional que se edifica Há Já Muito Tempo Que Nesta Latrina O Ar Se Tornou Irrespirável, o último álbum dos Mão Morta, capítulo seguinte num percurso de esventramento da irrealidade contemporânea que teve o seu momento mais friamente cirúrgico no anterior Müller no Hotel Hessischer Hof. Estruturado como uma colagem de canções, fragmentos de noticiários absurdos (ou nem por isso), "inserts" radiofónicos e "IDs" dos elementos do grupo, constrói um mosaico de panfletos elípticos talhados numa massa de rock espesso, abrasivo e granítico que se inicia com um "aviso à população": "Esta madrugada deu-se uma fuga do sector dos lazeres. O grupo Mão Morta abandonou o nicho alternativo que ocupava no mercado do entretenimento. Os seus membros, aptos a exercer diferentes ofícios, podem facilmente infiltrar-se noutros sectores da nossa democracia. São considerados perigosos. Qualquer informação relativa a estes indivíduos deve ser imediatamente comunicada ao jornalista da sua área". O que, de certo modo, corresponde exactamente à verdade.

Na qualidade de herdeiros daquele grupo de não mais de 70 elementos ("Um pouco mais do que o núcleo inicial da guerrilha na Sierra Maestra mas com menos armas, um pouco menos do que os delegados que estiveram em Londres em 1864 para fundar a Associação Internacional dos Trabalhadores mas com um programa mais coerente, tão poucos como os gregos das Termópilas mas com melhor futuro") que, entre 1957 e 1972, sonhou com a implosão de "uma civilização do prosaísmo e da minúcia vulgar, um ninho para os homúnculos de que falava Nietzsche", Adolfo Luxúria Canibal e acólitos retomam o trabalho de toupeira de Guy Debord, Raoul Vaneigem e restantes Situacionistas. E, como "anjos de pureza que invadem os lazeres", propõem-se ironicamente a missão de, "depois de uma espectacular fuga do mercado do entretenimento e de uma meteórica aparição no mercado da cultura", se concentrarem no ataque à "sociedade de consumo e ao lugar de mercadoria que ela lhes destina" através da publicação de um CD "já à venda nas boas discotecas". Mais um episódio, afinal, no desenvolvimento da "técnica do golpe do mundo" de Alexander Trocchi, essa "revolta cultural que deve tomar conta das redes de expressão geradoras do espírito (...), escora indispensável e infraestrutura arrebatada de uma nova ordem das coisas". Ou, na pior das hipóteses, apenas um bom purificador do ar... (1998)
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