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08 January 2013

21 August 2010

TRANSPIRAÇÃO



Bruce Springsteen & The E Street Band - London Calling/Live In Hyde Park (duplo DVD)

Steve Van Zandt está com um facies de peixe-balão e aquela pinta de fazer coagular o sangue do mais maligno Drácula que foi aperfeiçoando durante a sua vida paralela como Silvio Dante, nos “Sopranos”. Clarence Clemmons, o único saxofonista do mundo capaz de tocar com uma banda de rock sem que, do palco, comecem imediatamente a escorrer Amazonas de óleo, é um discreto (porém, contundente, quando necessário) faraó. Max Weinberg, após diversos anos à ilharga de Conan O’Brien, cada vez menos foge a ser visto como o atinado chefe de família, profissional de seguros, de dia, e baterista, à noite (mas, claro, com horários flexíveis).



E, se não existisse, Soozie Tyrell teria de ser inventada: não apenas porque o timbre do seu violino circula já na corrente sanguínea da E Street Band mas também pela não menos importante razão de que o seu glamour de loira cabeleireira suburbana é – na ausência de Patti Scialfa – o perfeitíssimo contraponto do bravo operário metalúrgico Springsteen, mouro de trabalho e jóia de rapaz que, mesmo já entrado nos sessenta, dá o litro como muitos de vinte não conseguem.



Perdoem-me se volto a citar Tiago Guillul mas, depois de três horas ininterruptas de concerto, em Hyde Park, com pôr-do-sol e tudo pelo meio, faltam-me as forças: “Sempre os mesmos acordes. Sempre os mesmos xilofones sentimentais. Sempre as mesmas capas péssimas em subtis variações de auto complacência. Sempre os mesmos optimismos insufláveis ianques. Sempre as mesmas queixinhas de classe média. Sempre a mesma coisa. Bruce Springsteen não sabe fazer maus discos". Este duplo DVD (um quase-greatest hits ao vivo) não só não é mau como é, deveras, óptimo. A intensidade pode ser, objectivamente, medida pelo alastrar das manchas de transpiração na camisa de Bruce: começam no segundo tema e, ao quinto, já está ensopada. E ainda faltam mais vinte e cinco.

(2010)

03 February 2010

"SÃO ROBALOS, SENHOR" (THE SEQUEL)


Tony e um robalo (imagens exclusivas)

Onde se fica a saber que, para o bem e para o mal, Tony Soprano deposita dinheiro nos bancos, paga as dívidas e fala em calão com o seu banqueiro. Mais ainda, que o Mundo não é só composto por indivíduos com formação universitária e que existem empresários que trabalham noite e dia e mantêm o país vivo, mesmo contra a vontade da sua classe dirigente, bem educada e algo inútil ("those cocksucking motherfuckers", como costumava dizer Tony, em conversa com o seu banqueiro, enquanto esperavam pelo robalo grelhado). (aqui)

(2010)

26 July 2009

TONY SOPRANO ESTÁ VIVO NOS NOSSOS CORAÇÕES



HOBOKEN, N.J. — Even in the state of "The Sopranos" and "On the Waterfront," where corruption seems institutionalized, the arrest of a neophyte mayor in office a mere three weeks stands out. Voters might wonder how Hoboken Mayor Peter Cammarano, no grizzled politician but a 32-year-old lawyer with a promising political career, could be accused of taking $25,000 in bribes after watching so many politicians follow the same road to jail. Authorities said that what he told a government witness wearing a wire — a purported real-estate developer whom Cammarano assured he would treat "like a friend" — not only led to his arrest but also added a new chapter to New Jersey's culture of corruption. (continua aqui)

(2009)

23 February 2009

ESMAGADO POR UMA VISÃO


Van Morrison - Astral Weeks Live At the Hollywood Bowl

Escrevendo dez anos depois acerca do seu encontro, no Outono de 1968, com Astral Weeks, de Van Morrison, Lester Bangs, no segundo capítulo de Psychotic Reactions & Carburetor Dung, recordava como, para “o destroço físico e mental” que ele, então, era, esse álbum fora “um farol, uma luz por entre a neblina de costas longínquas, mais do que isso, a prova de que restava algo possível de se exprimir através da arte para além do niilismo e da destruição” e qualifica-o como “o disco de maior significado em toda a minha vida”. Para um ilustre ícone de outro(s) culto(s) – Steven Van Zandt, guitarrista da E Street Band, de Bruce Springsteen, e/ou Silvio Dante, consigliere de Tony Soprano –, a devoção não é menor: “Para nós, Astral Weeks era uma religião”.


Elvis Costello junta a voz ao coro de oficiantes e confessa que esse “continua a ser o álbum de rock mais audacioso de sempre – desde aí, nenhum outro ousou ir tão longe” e, a encerrar provisoriamente o índice de laudas (não seria difícil ampliá-lo indefinidamente), numa entrevista de 2006, Greil Marcus revelava que, em conversa, Martin Scorsese lhe havia confiado que toda a primeira metade de Taxi Driver fora baseada em Astral Weeks. Objectivando estatisticamente um pouco melhor, deverá acrescentar-se que, em inúmeras listas dos “melhores de sempre” – da “Rolling Stone” à “Mojo” e todas as outras que os arquivos da Net abrigam –, Astral Weeks é residente obrigatório e, já agora, que lhe foram necessários trinta e três anos de permanência nos expositores das lojas para que, finalmente, em 2001, atingisse o galardão de “disco de ouro”.



Gravado em três sessões – entre 25 de Setembro e 15 de Outubro de 1968 –, a Astral Weeks colaram-se lendas várias. Falsas, como o boato posto a correr por John Cale (ocupante do estúdio ao lado) que, ao contrário da narrativa oficial, garantia que, porque Van Morrison “era incapaz de trabalhar com quem quer que fosse”, tinha registado guitarra e voz sozinho e todas as restantes partes instrumentais haviam sido overdubbed posteriormente. Verdadeiras, como o facto de não haver dúvidas de que, aos vinte e três anos, o ex-vocalista dos Them, sem um tostão e no meio de um turbilhão de sarilhos contratuais, se fez rodear de um grupo de músicos com currículo ao lado de Eric Dolphy (o contrabaixista Richard Davis), Charles Mingus (o guitarrista Jay Berliner) ou no Modern Jazz Quartet (o baterista Connie Kay), para enorme perplexidade de todos eles, sem sequer se ter devidamente apresentado nem lhes ter fornecido a mais vaga indicação musical, se limitou a dizer-lhes que “tocassem como lhes apetecesse” e, nesse improvável tubo de ensaio, gerou uma indiscutível obra-prima de poesia impressionista e improvisação colectiva verdadeiramente sobrenatural sem antecedentes identificáveis e cuja descendência capaz de não ser arrasada pela comparação se reduzirá a uma ou duas equiparáveis alucinações de Tim Buckley.


Quatro décadas e uma extensa e maioritariamente excelente discografia mais tarde, porém, Astral Weeks nunca havia sido integralmente interpretado ao vivo. Aconteceu em Novembro passado, no Hollywood Bowl (a única testemunha sobrevivente e participante do milagre original era Berliner), e, se o teletransporte até aos momentos e ao lugar que deram origem ao álbum era, naturalmente, impossível, o que ficou documentado neste CD (e em próximo DVD) é, talvez, a mais fiel aproximação hoje viável desses instantes de “estupefacção perante a vida, completamente esmagados, encurralados na própria pele, paralisados pela enormidade do que, numa visão de um segundo, se consegue apreender” (Lester Bangs).

(2009)

04 December 2007

"Ring the bells that still can ring, forget your perfect offering.
There is a crack in everything, that's how the light gets in"

(Leonard Cohen)



(2007)

03 December 2007

CHOQUE E ASSOMBRO



Joni Mitchell - Shine




Bruce Springsteen - Magic

Nem o modelo-Blue Nile (quatro álbuns em quase vinte e cinco anos de carreira) é garantia de obra-prima indiscutível, nem os litros de suor criativo vertidos por todos os “hardest working men in rock’n’roll” denunciam uma atitude de lenhador musical que avalia o seu trabalho a peso. Cada músico e cada banda tem os seus ciclos (mais ou menos) produtivos e, independentemente das diversas circunstâncias que os poderão condicionar, não será nunca pela maior ou menor dimensão da sua discografia que assegurarão um lugar de destaque na história da música popular. Seja como for, sempre que, após alguma ausência, os vemos de regresso – muito especialmente, aqueles perante quem a memória se sente em dívida –, quase instintintivamente, saudamo-los e aguardamos o melhor.



No caso de Joni Mitchell, francamente mais do que um regresso, trata-se de uma verdadeira ressurreição: após a publicação de Travelogue, em 2002, Mitchell, por entre acusações e recriminações dirigidas contra a indústria discográfica (que classificou então como “uma fossa séptica habitada por porcos pornográficos que apenas se preocupam com os rappers e em jogar golfe”), anunciou que abandonava definitivamente a actividade musical e lançou sobre o inimigo a praga “Só desejo que vão todos pela pia abaixo!”. Talvez porque a maldição esteja em vias de se cumprir, cinco anos depois, mudou de planos mas, sem desempenhar exactamente o papel de filha pródiga, não se lançou nos braços de nenhuma editora: como Bob Dylan e Paul McCartney antes dela, o seu contrato é com a cadeia de cafés Starbucks que distribui o novo álbum, Shine.



E, para além disso, não só, em todas as entrevistas que tem concedido – nas quais, sinal aterrador dos tempos, é invariavelmente descrita, na qualidade de ave rara, como “one of the world’s last great smokers” – não desistiu de derramar bílis sobre o actual estado de coisas na música (“Tornou-se-me cada vez mais difícil ser uma figura pública. Havia aspectos do meu trabalho que eram absolutamente repugnantes. Comecei a ter pesadelos e, quando uma coisa se apodera do nosso subconsciente desse modo, é o momento de a largar. Acreditei a sério que nunca mais gravaria nenhum disco”) e no mundo (“Parte-se-me o coração perante a estupidez da minha espécie. Mas já não consigo chorar por causa disso, é como se tivesse sido vacinada, é uma dor que dura já há demasiado tempo. O Ocidente obrigou o mundo a embarcar num comboio desgovernado. Enquanto espécie, estamos no caminho da extinção”), como insiste em reivindicar para si o justo reconhecimento: “A minha música tem uma profundidade que nem sempre é reconhecida. Gosto de acordes complexos, de acordes suspensos. Segundo as regras tradicionais da harmonia, mesmo no final do século XX, não era aconselhável passar de um acorde suspenso para outro. Aparentemente, continua a preferir-se uma resolução harmónica mais convencional”. Não será, pois, motivo de espanto que Shine inclua uma colecção de canções onde todas estas preocupações se reflectem e assumem a forma de apelos e imprecações – “Shine on the Catholic Church and the prisons that it owns, shine on leadership licenced to kill, shine on dying soldiers in patriotic pain, shine on mass destruction in some God’s name” –, que o clássico “Big Yellow Taxi” seja objecto de revisão ou que o poema de Rudyard Kipling, “If” assuma o estatuto de manifesto final. O que, porém, impede a salva de palmas a este conjunto de melodias e interpretações de Joni Mitchell é a opção por uma indesculpável tonalidade geral de quase “cocktail-lounge” acerca da qual a acusação principal deverá ser dirigida ao desgraçadamente omnipresente saxofone de Bob Sheppard.

Se estamos em “mood” de ovações, voltemo-nos, então, para Bruce Springsteen. É verdade que apenas desde há dois anos – quando publicou o mui literário Devils & Dust – não tínhamos álbum de originais seu e que, mesmo assim, as óptimas Seeger Sessions do ano passado o mantiveram presente. No entanto, o que Magic assinala não é tanto o regresso de Bruce na companhia da E-Street Band (o último encontro acontecera em 2002, com o irregular The Rising) mas sim a integral recuperação do espírito primordial que, um dia, na primeira metade da década de 70, os fez cruzar caminhos:



o rock’n’roll cinemático, gigantesco e exuberante de The Wild, The Innocent And The E-Street Shuffle (1973), Born To Run (1975) ou Darkness On The Edge Of Town (1978) reencontrou o endereço do estúdio onde Magic foi gravado e o imbatível gang original de Max Weinberg, Clarence Clemons, Roy Bittan, Danny Federici, Steve Van Zandt (aliás, Silvio Dante, proprietário do acolhedor “Bada Bing”, na série Sopranos) e Garry Talent – acrescentado agora de Nils Lofgren e Patti Scialfa –, de novo possuído pelos demónios de Phil Spector, projecta as doze canções do álbum para aquela estratosfera sonora mítica de onde, apetece dizer, nunca deveriam ter saído. Em rigor, haverá de se afirmar que, se o investimento de energia se situa algures por essas coordenadas, é na atmosfera de The River (1980) que se movimentam a voz e as personagens que habitam Magic: aqui não se vive já no interior da lenda do “sonho americano”, cavalgado à desfilada pelo meio de “highways” e “turnpikes”, mas, como no duplo do início de 80, paira um céu carregado de ameaças e desencantamentos que, ainda que só raramente explícitos, têm nomes, datas e moradas: George W. Bush, Iraque, a quebra do compromisso com os “ideais fundadores” da nação americana de que fala Greil Marcus em The Shape Of Things To Come.



O piano de Roy Bittan, em “I’ll Work For Your Love”, pode evocar “Jungleland”, “Livin’ In The Future” fará pensar em “Tenth Avenue Freeze Out”, “Last To Die” começará onde “Thunder Road” acabou e “Girls In Their Summer Clothes” (“Desejei que, neste álbum, houvesse uma coisa que definisse um universo pop perfeito”, Springsteen) ou “Your Own Worst Enemy” até poderão ampliar a paleta de cores com tonalidades-Brian Wilson. Mas as palavras que escutamos dizem “Who’ll be the last to die for a mistake, whose blood will spill, whose heart will break?” e “I got a shiny saw blade, all I need is a volunteer, I’ll cut you in half, while you’re smiling ear to ear”. Roubando a terminologia ao adversário, podemos perfeitamente reconhecer sem complexos que o “shock and awe” que resulta da audição de Magic decorre muito menos de Bruce Springsteen ter iniciado uma qualquer nova etapa no seu já longo percurso mas de ter voltado a ser ele próprio (“ele próprio” no sentido mais paradigmaticamente clássico) de modo tão convincentemente vibrante. (2007)