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01 May 2025

"Pont Du Poivre" (álbum na íntegra aqui)

(sequência daqui) James Elkington, o guitarrista, compositor e produtor britânico adoptado por Chicago e favorito de Jeff Tweedy, Tortoise, Eleventh Dream Day, Richard Thompson, Laetitia Sadier, Michael Chapman, Steve Gunn e Joan Shelley estará, provavelmente, à beira de uma circunstância semelhante. Enquanto no álbum anterior - Me Neither (2023) - apenas terá "arranhado a superfície de uma nova metodologia que supunha poder retomar facilmente", na verdade, para esta nova colecção de 27 peças instrumentais minimais, sentiu-se como alguém que, por entre flashes de Robert Fripp e John McLaughlin, tenha sido forçado a saltar do mapa para o território real. O que talvez será apenas satisfatoriamente explicado quando viermos a compreender a conspiração linguística que conduziu a que o álbum, na língua de Camões & Pessoa, viesse a ser intitulado Pastel de Nada.

31 January 2024

"Senhora Minha" (Camões/A. Muge)
 
(sequência daqui) Estamos, pois, perante uma assombrosa terceira vida do fado: após os passos iniciais, em modo "castiço", de tão grande pobreza formal que Fernando Lopes Graça lhe chamaria “o execrando fado, canção incaracterística e bastarda”, depois da transfiguração que Amália, com Alain Oulman (e posteriores e mais actuais discípulos), lhe determinariam, eis agora o processo daquilo a que Lina chama "trazer para o futuro aquilo que nasceu tão simples", agarrada à intemporalidade de Camões e pronta a, sem medo da desconfiança da ortodoxia, aí lhe insuflar uma outra respiração. Na verdade, agradecida até a eventuais manifestações puristas: "Ainda bem que os puristas existem, estão sempre a recordar-nos de como é a base, a raíz. Assim, podemos desconstruir, voltar a construir e colorir de outra forma".

28 January 2024

"Se De Saudade Morrerei Ou Não"
 
(sequência daqui) De longe, a Norte, Amélia recorda-se como, durante a colaboração que mantiveram, Lina "interrogava-se bastante sobre o que ia fazendo e tudo se centrou em ir propondo mais pistas do que escolhas, ajudar a que ela criasse mais entradas de análise para o que pretendia concretizar. Era importante trazer para o projecto aquilo que ela é: uma voz antiga, profunda". Justin Adams sabia da existência de um género musical designado como fado mas, não sendo, confessadamente, conhecedor profundo, foram-lhe enviadas como TPC gravações de Amália Rodrigues e Carlos Paredes. Não poderia ter corrido melhor: "A primeira vez que estivemos juntos foi em estúdio e, logo no primeiro dia, às primeiras horas da manhã gravámos um tema. Já tínhamos conversado antes mas houve, de facto, uma conexão imediata muito grande". A questão que, então, inevitavelmente, se coloca é a de saber se a estes painéis de melodia e silêncio (como "Senhora Minha", de Amélia), a estes inquietantes jogos de luz e sombra ("Amor é um Fogo Que Arde Sem Se Ver"), ao labirinto sonoro de "Pois Meus Olhos Não Cansam de Chorar" ou ao bilingue "O Que Temo e o Que Desejo" (com o espanhol Rodrigo Cuevas), ainda é legítimo continuar a chamar fado ou é já outra coisa que, partindo do fado se situa noutro território. "É fado. Não sei se são as palavras do Camões que servem o fado ou se é o fado que serve as palavras do Camões. A guitarra portuguesa voltou ao meu caminho e o que eu fiz neste disco foi pegar na lírica de Camões e na estrutura dos fados tradicionais - o fado bailado (que é o 'Estranha Forma de Vida'), o triplicado, o versículo, o esmeraldinha, o alexandrino, do Marceneiro... - mas também fazer um trabalho estrutural sobre quadras, quintilhas, sextilhas, decassílabos". (segue para aqui)

25 January 2024


(sequência daqui) Se o álbum gravado com o compositor/produtor catalão Refree era, decididamente, uma obra a quatro mãos, Fado Camões apresenta-se como peça em nome próprio ainda que com um fortíssimo braço direito oferecido por Justin Adams (guitarrista e produtor, personagem da intimidade de Jah Wobble, Tinariwen, Robert Plant, Sinéad O'Connor, Brian Eno e figurões vários da "world music" afro-mediterrânica), a quem se juntaram Pedro Viana (guitarra portuguesa), John Baggott (Massive Attack, Portishead, Robert Plant) e Ianina Khmelik (violino). Aparentando buscar um ponto de equilíbrio entre o abstraccionismo radical de Lina_Raul Refree e uma abordagem mais imediatamente reconhecível do fado - "Não se tratou de olhar para trás mas de trazer aquilo que aprendi e que continua a fazer todo o sentido para mim: os espaços entre a voz e instrumentos, os silencios, a criação de maior lugar para a respiração das palavras, e o trabalho sobre todas aquelas texturas que determinam atitudes diferentes de introspecção. Voltei a beber um bocadinho dessa fonte e de tudo aquilo com que me identifiquei bastante no anterior" -, tudo se centrou, afinal, na delicadíssima tarefa de articular os poemas de Camões com a estrutura dos fados tradicionais. Com o mar Atlântico em frente dos olhos, Lina confessa que "Trazer o Camões para o fado não é propriamente uma coisa fácil. Tive uma enorme ajuda da Amélia Muge que participou no trabalho sobre os textos deste projecto e acreditou que eu seria capaz de levá-lo a bom porto. Foi uma longa jornada até ter conseguido identificar quais os poemas do Camões sobre os quais iria trabalhar musicalmente durante duas semanas em estúdio". (segue para aqui)

22 January 2024

A TERCEIRA VIDA DO FADO 

No que às origens do fado diz respeito, não é demasiado arriscado dizer-se que "no princípio era o verbo": “O fado, nos seus primórdios, representou o último estádio do romanceiro tradicional (...) o qual ao longo dos séculos, foi perdendo o carácter épico inicial e foi-se progressivamente novelizando até versar quase exclusivamente assuntos de carácter amoroso ou trágico-sentimental. (...) Esse fado popular, esse fado das ruas, de faca e alguidar, dos ceguinhos, não é outro senão o substracto novelesco do romanceiro tradicional, e o subsequente manancial das canções narrativas, afinal, o primitivo, o primacial, o originário fado, a fonte, a génese, o tronco primevo do nosso fado”, defende José Alberto Sardinha em A Origem do Fado (2010). Mas - só para citar outro exemplo -, já na 7ª edição (1878) do Dicionário de Morais, se escrevia: "Fado, poema do vulgo, de caracter narrativo, em que se narra uma história real ou imaginária de desenlace triste, ou se descrevem os males, a vida de uma certa classe, como no 'fado do marujo', da 'freira', etc. Música popular, com um ritmo e movimento particular, que se toca ordinariamente na guitarra e que tem por letra os poemas chamados 'fados'". E, agora que - quatro anos depois de, em Lina_Raul Refree, ter praticamente desmaterializado o reportório clássico de Amália - abraça a lírica de Camões, Lina, interogando-nos, segue por caminho próximo: "Quando damos espaço às palavras, elas acabam por fazer mais sentido. Se cantarmos um fado a cappela, isso não é fado? O 'Povo que Lavas no Rio', cantado a cappela, sem instrumentos, alguem poderá dizer que não é fado? Só voz e palavra não é fado? O fado vive da palavra e para eu passar a mensagem que pretendo, preciso de entender essa palavra". (daqui; segue para aqui)

"Desamor"

10 August 2022

"The sparkling story of two early modern Portuguese travellers and their competing views of the world. (...) To show how different minds reacted to the challenge of a new world opening up, Wilson-Lee presents us with two contrasting accounts. The first is from Damião de Góis, a minor Portuguese functionary who travelled the world in an official capacity, curious and alert, ready to be amazed at what he found and confident enough to allow new ideas about everything from personal salvation to talking monkeys to work upon him. (...) Against this expansive vision Wilson-Lee sets the work of Luís de Camões, Portugal’s greatest poet. Of particular interest here is The Lusiads, his epic account of Vasco da Gama and the Portuguese heroes who sailed around the Cape of Good Hope opening a new route to India. The title itself clangs with nationalist pomp, being derived from the ancient Roman name for Portugal, Lusitania. In addition, De Camões transforms Da Gama and his crew into Jason and the Argonauts, semi-divine heroes questing east in search of miraculous treasures. Despite his impeccable humanist credentials, the Iberian Shakespeare’s narrative is one of triumphalist place-naming, land-staking and colonial bluster"

03 June 2022

"Burdland"
 
(sequência daqui) Não poderia ser mais apropriado: a música que Laura Wilkie, Aileen Reid, Fiona MacAskill (violinos), Jenn Butterworth (guitarra) e Laura-Beth Salter (bandolim e guitarra tenor) criam é a própria demonstração prática de como (nas palavras de Camões via-José Mário Branco) “Todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”. Se o terreno sobre que assenta a música do quinteto de Glasgow é a tradição popular britânica, existe nele igualmente uma bem presente memória do modus operandi-Penguin Cafe Orchestra: a vertiginosa desfilada de "Burdland", despede-se, como deve, com um aceno a "Birdland" (de Joe Zawinul para os Weather Report), uma das peças do puzzle "Dishgo", dedicada a um progenitor "headbanger", dá pelo nome de "Radge Against The Machine" e, de um modo geral, o eufórico labirinto de música de câmara, bluegrass, jazz, folk escocesa/irlandesa e escandinava dispensa todos os mapas para ser mui proveitosamente explorado.

10 June 2021

O Medina e os problemas com emails, mas este - um puro caso de bufaria - é motivo, pelo menos, para demissão
 
 
Edit (11:04) - Acessoriamente, não é impossível que se trate de mais um capítulo desta história

Edit (11:36) - De mal a pior: o agente local do FSB/KGB, no dia de Camões, escreve "rececionou" (incorrendo em crime linguístico agravado)

Edit (13:06) - "Foi um erro a todos os títulos lamentável", tão lamentável que o máximo responsável por ele não pode continuar à frente da CML (e já houve tempo mais do que suficiente para aprender que é "Navalny" e não "Nalvany")

24 July 2019


Não, o que é absolutamente inacreditável é existirem professores que insistem em tratar os alunos (pré-universitários) como débeis mentais, incapazes de pensar fora das grelhazinhas dos "programas" e dos textos (e resumos de textos) pré-mastigados e com kit de respostas prontas a usar

25 September 2012

TODOS OS EQUILÍBRIOS SÃO PRECÁRIOS, INCLUINDO AQUELE QUE, ACTUALMENTE, FAZ O PRATO DA BALANÇA PESAR MAIS A ORIENTE

José Mário Branco - "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades"

01 March 2012

SOMOS TODOS GREGOS
(sequência daqui)


Amélia Muge/Michales Loukovikas - Periplus – Deambulações Luso-Gregas

Uma das mais antigas descrições dos povos que habitavam o litoral ocidental da Península Ibérica, a Orla Marítima, de Rufio Festo Avieno, escrita no século IV d.C., é maravilhosa e apropriadamente fantasiosa: sob a forma de poema, transcreve – com diversas interpolações – fragmentos do périplo de um marinheiro grego de Marselha (o “périplo massaliota”) que, mil anos antes, o terá escrito, em boa parte, a partir de informações em segunda e terceira mão. O Periplus que Amélia Muge (portuguesa de Moçambique) e Michales Loukovikas (grego da Trácia) realizaram teve origem em navegações por mares mais modernos e tecnológicos (“Porque falamos de navegar na Net? Os mails que viajaram de mim para o Michales e do Michales para mim, no fundo, não são uma viagem de ideias e de territórios de conhecimento e de criação? Quanto mais se anda para trás, mais percebemos a actualidade de pensar esta ideia da viagem e da cartografia que pode ser aplicada a tudo”, diz Amélia) mas as rotas não foram muito diferentes das primordiais: “Os mapas dessas épocas também são muito interessantes. O Michales reuniu uma colecção de mais de 50. O que ali vemos não é a Terra mas a representação da Terra tal como era imaginada na altura. África, por exemplo, era um vago triângulo para Sul do Mediterrâneo. Para mim, este Periplus é, de certo modo, uma recriação dessa geografia mental e da possibilidade de partilha deste território cultural e musical por Portugal e pela Grécia. Ou, pelo menos, pela Amélia e pelo Michales. Porque é capaz de haver tantos Portugais quantos os portugueses e tantas Grécias quantos os gregos. Se calhar, os nossos mapas mentais, quando começamos a desenhá-los, têm a mesma aparência dos primeiros mapas do mundo”.

Ares Alexandrou

Mediterrâneo, portanto. Que teve como porto de partida para a sua exploração o interesse pela obra do poeta grego Ares Alexandrou (traduzida por Amélia e musicado por Michales, editado em livro-disco no ano passado sob o título O Ouro do Céu) e se prolongou através de uma busca intuitiva de pontos de contacto e traços de identidade comuns que, segundo Michales Loukovikas – fisionomicamente, a "spitting image" de Luís de Camões, sem a pala –, basta descobrir: “As ligações estão lá. Os mitos - como o de Ulisses, Calipso e Abidis que terão dado origem ao nome de Scalabis (Santarém) – demonstram que, pelo menos, pensamos na possibilidade de existir uma proximidade genética e cultural entre gregos, lusitanos e ibéricos em geral. Não é história antiga, é actual. Criamos coisas novas, hoje, a partir de uma raiz comum”. Daí que o fado se cruze com a rebetika, pentatonismos africanos e epiróticos coexistam pacífica e festivamente, tascas e tavernas acolham navegantes sem exigência de BI, e, onde se esperaria um coro grego, se escute, a Outra Voz, colectivo vimaranense criado por ocasião da capital europeia da cultura, onde Periplus se estreou em palco. “Nada foi premeditado”, assegura Michales, “o Periplus começou realmente quando a Amélia me enviou um mp3 de 'Nota Ilegal' (poema de Alessandrou e música de Michales) traduzida para português e cantada por ela. Ouvi e disse ‘Mas isto é um fado! Eu compus um fado!...’ Mais tarde, enviei-lhe outras canções tradicionais gregas; uma delas, ‘A Folha da Rosa”, depois de traduzida, também ela descobriu que existia uma exactamente igual em Portugal e aconteceu o mesmo com uma canção de Creta, ‘Pesada Como O Ferro’, que era idêntica a uma canção medieval. E, ao enviar-me a primeira parte do ‘Canto Em Periplus’, apercebi-me que a melodia era igual à do ‘Seikilos’ (o mais antigo exemplo de uma composição musical completa, incluindo notação musical e letra, no mundo ocidental, no disco traduzido e cantado por Hélia Correia)!...”


Esta redefinição de familiaridades antigas arrastou, então consigo, um vasto contingente de músicos, gregos e lusos (Filipe Raposo, José Salgueiro, Ricardo Parreira, gente dos Gaiteiros de Lisboa, Eleni Tsaligopoulou...), artistas, poetas. E coloca, inevitavelmente, a interrogação de porquê – justamente agora e no quadro de sarilhos europeus em que Portugal e a Grécia se encontram – uma tal cimeira haveria de ocorrer: “Porquê? A troika proibiu? Nós começámos antes!...”, grita Michales, “Não somos políticos, somos músicos. Mas o sentido político já lá estava desde que apresentámos O Ouro do Céu. Não somos uma troika, somos um duo que gosta de trabalhar sobre coisas boas, coisas que unem”. E Amélia Muge acrescenta: “Obviamente, quando se faz um trabalho destes com o cenário que temos, a realidade esborracha-nos o nariz. Quando nos dizem que nos andámos a portar mal – nós que fomos sempre tão bem comportadinhos e dissemos sim a tudo -, toda a gente se sente um bocado perplexa: vamos para a rua com cartazes, ‘a luta continua’, o quê? Esta viagem não é um cruzeiro mediterrânico: traz a ideia de que muito daquilo que somos também existe do outro lado. A verdadeira união não nasce apenas da simpatia mas, sim, quando criamos sentimentos de afecto através do conhecimento”. Porém, se o espírito, tal como o recorda Michales, foi o da fantasia “de ser marinheiro de um barco grego que entra num porto e se apercebe que está lá fundeado um barco português; à noite, vamos à única taberna do porto e os gregos começam a cantar as suas canções, depois, os portugueses, e, no final, acabamos todos a cantar juntos”, na verdade, diz, com todas as letras, algo francamente mais importante que, isso sim, parece ter-se tornado proibido afirmar: somos todos gregos, somos todos portugueses.

(2012)

04 February 2011

MERGULHAR



Amália Rodrigues - Com Que Voz (duplo CD)

Em 1990, David Mourão-Ferreira terá chamado a Amália "um heterónimo de Portugal". Não é, seguramente, um disparate afirmá-lo (mais ainda se aceitarmos como boa a recente tese de José Alberto Sardinha, em A Origem do Fado, segundo a qual a raiz deste género musical não é exclusivamente lisboeta mas sim generalizadamente nacional), embora seja, talvez, um ponto de vista demasiado empobrecedor - por excesso de patriotismo, pecado comum e assaz simétrico da "fadista" autodepreciação lusa - do génio de Amália Rodrigues. Tal como ela própria confessava não sentir particular orgulho nem tristeza decorrentes da sua origem popular ("sou do povo por condição"), o facto de ter nascido em Portugal e de ter oferecido ao fado a projeção universal que se conhece não é questão muito diferente do que, falando de si, alguns anos depois, Sérgio Godinho deixaria luminosamente claro em económicas palavras: "Vim ao mundo, por acaso, em Portugal, não tenho pátria, sou sozinho e sou da cama dos meus pais".



Sim, Amália era portuguesa, sim, a música que ela assombrosamente cantava provinha de uma herança vetustamente local, mas o que a elevava acima de todos os outros era o seu infinito talento de intérprete e recriadora de algo que, até ao seu aparecimento, fora apenas uma manifestação (sub)cultural popular "típica" e, frequentemente, mal amada. E, convém não o esquecer, somente atingiu a maturidade plena e conquistou as "lettres de noblesse" definitivas através da contribuição preciosa do francês Alain Oulman e da sua persistência no enriquecimento e ampliação do vocabulário melódico e harmónico do fado, abraçado às palavras dos maiores poetas da língua portuguesa.



O mesmo Mourão-Ferreira o admitiu ("Deve-se a Alain Oulman a pioneira missão de estabelecer um determinante e fecundo enlace entre a poesia portuguesa de matriz 'culta' e essa específica forma da música popular - o fado") e Amália não o escondia ("O Alain foi o nascer de uma artista completamente diferente. A minha maneira de cantar estava à espera daquilo"). Foi, naturalmente, por isso que Com Que Voz (1970) - ponto culminante do percurso iniciado em Busto (1962) e momento em que um reportório integral de Oulman sobre textos de Camões, O'Neill, Mourão-Ferreira, Ary dos Santos, Homem de Mello, Cecília Meireles e Manuel Alegre foi entregue à voz em absoluto estado de graça de Amália - viria, muito justamente, a ser considerado "o álbum perfeito". Agora reeditado, com o bónus de um segundo CD de versões alternativas, temas "perdidos" e outras raridades que (juntamente com um booklet esclarecedor mas com uma organização de textos um tanto descosida) contextualizam e aprofundam a perspectiva para o entendimento da obra, seria indesculpável perder a oportunidade de mergulhar de novo neste canto em que, uma vez imersos, as coordenadas geográficas perdem (quase) todo o sentido.

(2011)