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29 March 2010

TERRA INCÓGNITA



The Knife in collaboration with Mt. Sims and Planningtorock - Tomorrow, In A Year

“Posto que muitos pontos sejam ainda bastante obscuros e assim ainda permanecerão durante muito tempo, vejo-me, contudo, após os estudos mais profundos e uma apreciação fria e imparcial, forçado a sustentar que a opinião defendida até muito recentemente pela maioria dos naturalistas, opinião que eu próprio partilhei, isto é, que cada espécie foi objecto de uma criação independente, é absolutamente errónea. Estou plenamente convencido que as espécies não são imutáveis; estou convencido que as espécies que pertencem ao mesmo ‘género’ derivam directamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas dessa espécie, seja qual for, derivam directamente dessa espécie; estou convencido, enfim, que a selecção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies”.



Escrita, em 1859, na introdução de Sobre a Origem das Espécies por Meio da Selecção Natural, este é o género de declaração que permite, sem dúvida, afirmar que, se Deus morreu, Marx morreu e nós próprios não nos sentimos mesmo nada bem, Charles Darwin, esse, não poderia estar mais vivo. E – como uma inquietante multidão de criacionistas parece apostada em demonstrá-lo todos os dias – ainda muito capaz de continuar a provocar tumultos e sobressaltos num mundo em que o pensamento pré-científico permanece mais enraizado do que gostaríamos de imaginar. Daí que, todas as celebrações que ocorreram em 2009, por ocasião do 150º aniversário da publicação da obra fundadora do neto do não menos fascinante Erasmus Darwin, não tenham sido demais. Muito em particular, aquelas que aconteceram fora do âmbito estritamente científico, como é o caso deste Tomorrow, In A Year, ópera/performance encomendada pela companhia de teatro dinamarquesa Hotel Pro Forma ao duo electro sueco The Knife.



Estreada em 2 de Setembro passado no Teatro Real de Copenhaga e dirigida por Ralf Richardt Strøbech and Kirsten Dehlholm, pretendia mostrar “o mundo visto através dos olhos de Charles Darwin” e, ao mesmo tempo – tomando “o género operático como DNA” –, investigar “as relações entre imagem, narrativa, movimento e música” no sentido da criação de “uma nova espécie de electro-ópera”. O terreno, evidentemente, não é virgem: desde United States I-IV, de Laurie Anderson, às colaborações de David Byrne ou Tom Waits com Robert Wilson, os caminhos da ópera e da pop-e-tudo-à-volta, para o melhor e para o pior, já se cruzaram um razoável número de vezes. Mas, provavelmente, um tal projecto não terá sido nunca entregue aos cuidados de alguém como Olof Dreijer (a metade masculina de The Knife, irmão da outra metade, Karin Dreijer Andersson) que, candidamente, confessa “nunca ter assistido a uma ópera e desconhecer mesmo o que a palavra ‘libretto’ significava”.



Não foi, porém, obstáculo inultrapassável. Olof e Karin aplicaram-se na escuta de Meredith Monk, Luigi Nono, Diamanda Galas, Joan La Barbara, Klaus Nomi, Penderecki e Stockhausen, muniram-se de "field recordings" de sons da Amazónia e Islândia, desmembraram e atonalizaram radicalmente o perfil musical que lhes conhecíamos de Silent Shout ou da aventura colateral de Karin, Fever Ray, recorreram às vozes da cantora lírica Kristina Wahlin, da actriz Laerke Winther e do singer-songwriter Jonathan Johansson, praticaram um exercício de quase "cut-up" sobre os textos de Darwin, e – não esquecendo que apenas temos acesso ao registo sonoro de um espectáculo de teatro, dança e música – edificaram uma obra literalmente monumental de música electrónica-concreta-electro-pop que reinvindica ser digerida em regime de dedicação exclusiva. Não de forma tão extrema como (as proto-óperas) Tilt ou The Drift, de Scott Walker (aqui, ainda se encontram bússolas orientadoras para esta expedição por terra incógnita) mas não menos exigente do que a aventura do Beagle.

(2010)

13 February 2009

...E NÃO ESQUECER O AVÔ DARWIN E SEUS AMIGOS



"In the mid-eighteenth century, three men - Erasmus Darwin, a doctor, Matthew Boulton, a Birmingham metal-goods manufacturer, and the porcelain man Josiah Wedgwood - were at the centre of a society that met in Birmingham on the Monday nearest each full moon (so they had enough light to get home in the evening) for, as Darwin put it, 'a little philosophical laughing'.

The group included James Watt, inventor of the steam engine, Joseph Priestley, who discovered oxygen, the conjuror Richard Lovell Edgeworth and Thomas Day, a follower of Rousseau. Together, they classified plants and isolated gases, they built clocks and telescopes, they flew in hot-air balloons and invented machines that could speak, performed tricks with magnets and dreamt up recipes for disappearing ink. Many of them were self-taught, some were dissenters and radicals, all were ingenious. And in this spectacular, epic book, Jenny Uglow shows how childlike daydreams and Heath-Robinson contraptions gave way to some of the greatest inventions of mankind. (...)


Soho House in Handsworth, Birmingham,
a regular venue for meetings of the Lunar Society


But the figure who comes across as the hero of the tale is the extraordinary Darwin, grandfather of Charles. What is so appealing about Darwin, in Uglow's account, is that although he was a great inventor, physician and poet (he wrote, among other works, a long poem on the sex life of plants), he saved lives by understanding what you might call the alchemy of the emotions. Not unlike Joseph Bell, the doctor who inspired the character of Sherlock Holmes a century later, Darwin observed human beings in all their psychic splendour, and saw what they gave away despite themselves as well as their more ordinary symptoms. In Zoonomia, a book written towards the end of his life, he listed scarlet fever and measles, but also included entries for other afflictions: anger, ambition, credulity, love". (texto integral aqui)

(2009)