(sequência daqui) No coração do álbum está a faixa que lhe dá o título, uma composição inspirada na medieval Hildegard von Bingen à qual Holter regressou em várias versões ao longo da sua carreira: "Materia 2" reconstitui a canção como um exuberante sonho febril e alucinatório. Guiada por uma linha de baixo, clarinetes vibrantes e caixas de ritmos ocultas, Holter entrelaça a voz com a de Jessika Kenney, gerando espirais vocais algures entre o canto medieval e a art-pop de hoje. Enquanto isso, "Materia 3" brinca com a percepção temporal, re-explorando as gravações vocais do álbum de 2024 para revelar microtexturas harmónicas que parecem ao mesmo tempo assombrosamente familiares e totalmente novas..
Holter sempre se interessou pela tensão entre o imediato e o abstrato, e Materia transporta essa tensão para um território especialmente sensível particularmente em "Fantasy", uma faixa cuja aparente espontaneidade esconde um processo criativo particularmente trabalhoso. Holter descreveu a canção como "o empreendimento mais exaustivo de todo o disco — demorou mais de um ano e foi sofrendo várias transformações", explicou ela à "Pitchfork". "É dançável, parece uma espécie de evocação. E, pelo meio do ímpeto de devaneio, há o verso 'Blink at the light, and hope to survive', porque os devaneios, num estado fascista, também podem ser assustadores. Eu estava a tentar encontrar o ritmo certo, optimista". (segue para aqui)
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04 September 2026
07 June 2026
Hildegard von Bingen - The Marriage of the Heavens and the Earth by Catherine Braslavsky & Joseph Rowe
+ The Marriage of the Heavens and the Earth (Braslavsky/Rowe), na íntegra aqui
06 April 2023
"Veri" (feat. Paleface)
(sequência daqui) Enquanto Ensemble Gamut! entregaram-se, pois, à articulação de instrumentos clássicos, tradicionais e electrónicos aplicados à invenção de intersecções entre música medieval, do Renascimento, folk, improvisada e abstraccionismos ambientais. O álbum de estreia, UT (2020), invocava a primeira nota da escala guidoniana, mais tarde substituída pelo “Dó”, e alargava o espectro a referências extra-nórdicas – Hildegard von Bingen, Martin Codax, Landini, Ockeghem. Agora, o segundo, apropriadamente RE, dirige o alcance sonoro da voz de Aino Peltomaa (e, em ‘Veri’, do rapper xamânico Paleface) e dos "soittu", "jouhikkos", "G-violone", flautas de bisel, harpa e electrónica de Heinonen e Myllylä, sobre reportório oriundo de manuscitos medievais, da tradição finlandesa, das contaminações sueca e russa e do canto rúnico da Karelia. Puríssima folia dançante em "Lapsed Caicki Laolacatt (Personent Hodie)", levitação quase imóvel em "Trina Caeli Hierarchia" ou realidade fantasmática no original "Puu", desde os Hedningarna e Värttinä que as luzes do Norte não brilhavam tão intensas.
12 July 2013
BESTIÁRIO
Dêem-lhe corda e, enquanto tiver fôlego,
Tom Waits é capaz de, interminavelmente, debitar nacos de improvável sabedoria
sobre o mundo animal: "Sabia que se deitar uma gota de álcool em cima de
um escorpião, ele enlouquece e pica-se até morrer? E sabia que as moscas só
vivem duas semanas? Eis uma coisa a ter em conta quando matamos moscas. Serão
velhas? Terão acabado de nascer? E sabia que os mosquitos preferem as crianças
aos adultos e as loiras às morenas? Não sei se são capazes de distinguir as
loiras naturais das outras mas acredito que alguns já devem ter sido capazes de
evoluir até esse ponto. E as formigas espreguiçam-se quando acordam (já foram
vistas a fazê-lo ao microscópio!) e também bocejam. E, depois do trabalho, vão
a uns barzinhos pequeninos onde bebem um néctar que as põe um bocadinho tontas.
Só para acabar (não o quero maçar com mais histórias destas), os mosquitos são
mais atraidos pelo azul do que por qualquer outra cor. O que quer dizer que,
nos trópicos, convém usar camisas vermelhas”. Brett e Rennie Sparks (aka The Handsome Family) não costumam fazer
o mesmo mas o seu último álbum, Wilderness, reúne uma dúzia de canções em que
o título de cada uma é o nome de um animal (“Flies", "Frogs", "Octopus", "Lizard"...). Não se trata, contudo, de ampliar a outras espécies o subgénero
da folk-entomológica inaugurado por Mirah em Share This Place (2007).
Deles – sobre quem Greil
Marcus afirmou “O seu surrealismo do quotidiano não tem paralelo na escrita de
canções contemporânea” – ninguém espera algo de tão confortável: durante os já
vinte anos de percurso desde que o ex-cristão "born again" estudioso de música medieval e a
ex-"acid head"
adolescente que acredita ter sido Hildegard von Bingen a maior "songwriter"
de sempre se encontraram (quando ela lhe entregou um cartão com manchas de
sangue e uma citação de Thomas Pynchon), habituaram-nos a patinar sobre aquele
terreno escorregadio em que Flannery O’Connor reescreve os pesadelos de Kafka
e, algures entre o gótico sulista e a devoção pelos Beatles, o imprevisível
equilíbrio se descobre. Desta vez, porém, talvez seja mais apropriado falar de
um universo filmado, em simultâneo, por dois David (Lynch e Attenborough) com texto e
música de Hank Williams e Edgar Allan Poe: o que o "bear hug" com que o barítono
profundo de Brett nos envolve vai narrando são a gastronómica beleza do cadáver
do general Custer tal como as moscas o viram nas pradarias de Montana (“there’s
a Wal-Mart now where once the grizzlies roamed”), a história de Mary Sweeney, a
louca do Wisconsin, que, em 1896, se aplicava a estilhaçar vidros de janelas
(“She was a woodpecker, she couldn’t help but free all the things that hide
inside all the pretty trees”) ou a daquela outra mulher que, atingida por um
raio, acaba aprisionada num casulo tecido por lagartas (“Keeping time with
every rumble, every quiver of the earth, and she slowly changes shape with the
turning of the world”). Em matéria de folk "noir"
vertida no registo de bestiário sobrenatural assombrado pelo espectro das "murder ballads", durante muito tempo, não
irá haver melhor.
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