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21 February 2022

AFINAL, O QUE É UMA HISTÓRIA?
 
Laurie Anderson parece já ter feito tudo mas tem sempre alguma coisa por fazer. Após mais de uma dezena de álbuns (e o dobro disso em colaborações com outros artistas – William Burroughs, John Giorno, Peter Gabriel, Lou Reed, Marisa Monte, John Zorn, Kronos Quartet...) e outros tantos filmes, videos e "audiobooks", a criação de espectáculos de música/"spoken word"/"performance art" e exposições, a participação enquanto curadora (e em inúmeros júris) de festivais de cinema, e a criação de instrumentos (o "tape-bow violin" e o "talking stick"), em 2003, aceitou ser a primeira (e, até agora, única) artista residente da NASA, de que resultaria o espectáculo The End Of The Moon: “À superfície, é o meu relatório sobre o período que lá passei. As actividades que mais me interessaram lidavam com grandes extensões temporais, podem levar até 10 000 anos a serem concluídas. Há a tendência para se pensar em intervalos de tempo muito curtos ou para se considerar apenas o futuro e esquecer o imenso passado que temos para trás. Interessaram-me as formas muito diversas como ali o tempo é abordado”, explicou-nos, na altura. Quase duas décadas depois, o Charles Eliot Norton Professorship of Poetry da Universidade de Harvard, convidou-a a ser a responsável de 2021 pelas Norton Lectures, uma iniciativa anual sobre “poesia no sentido mais amplo”, na qual ela iria acrescentar o nome a tão ilustres antecessores como T. S. Eliot, Robert Frost, Igor Stravinsky, Jorge Luis Borges, Leonard Bernstein, Umberto Eco, Luciano Berio ou Agnés Varda. (segue para aqui)

03 September 2013

SERIEDADE E ASSOMBRO 


Como funciona a música? David Byrne dedicou um livro inteiro à busca da(s) resposta(s) para essa interrogação (How Music Works, 2012) mas não seria abusivo afirmar que toda a sua obra – com os Talking Heads, a solo e em diversas coligações criativas – nunca fez outra coisa senão concentrar-se sobre esse mesmo enigma. E, de um modo muito particular, sobre a forma como os diversos contextos (sociais, culturais, arquitectónicos, tecnológicos) em que a música é produzida a determinam. Poucos como ele terão tão multidisciplinarmente explorado todas essas possibilidades: no cinema (da reinterpretação visual dos Heads por Jonathan Demme em Stop Making Sense a Ilé Aiyé (The House Of Life”), em torno do candomblé bahiano, realizado por ele próprio); através da escrita (How Music Works mas também uma meia dúzia de outros, em especial, Bicycle Diaries, a partir dos textos do blog/diário "online", “David Byrne Journal”); pela fotografia; recorrentemente, em parcerias para teatro/dança (com Twyla Tharp, Robert Wilson, ou no projecto a quatro mãos com Fatboy Slim, Here Lies Love); nas incontáveis colaborações com outros músicos (num amplo perímetro entre Philip Glass, Robert Fripp ou Marisa Monte); por meio das suas editoras Luaka Bop e Todo Mundo; ou até na instalação sonora Playing The Building que, de 2005 a 2012, realizou em Estocolmo, Nova Iorque, Londres e Minneapolis, na qual desafiava os visitantes a tratar os edifícios como instrumentos musicais (“Poderá ser uma experiência em que começamos a reexaminar o ambiente e a compreender que a cultura – de que o som e a música fazem parte – não têm de ser sempre produzidos por profissionais e embalados sob uma forma consumível”). 


Love This Giant, começou por ser um álbum gravado a meias com Annie Clark/St. Vincent – a matriz inicial do projecto foi condicionada pelo acanhado espaço físico de uma livraria onde ambos actuariam para uma iniciativa de apoio à luta contra a sida: por sugestão de St. Vincent, apenas eles os dois e uma secção de sopros bastariam – mas, agora, transposto para o palco, permitiu a Byrne dar livre curso a uma redução minimal das suas várias obsessões estéticas, aqui convertidas a uma espécie de fusão pop de dança contemporânea com a música e uma teatralidade irónica e ilusoriamente ingénua. O videoclip de "Who" já o anunciava, mas, ao vivo, Byrne e Clark tanto assumem poses robóticas de marionetas telecomandadas ou parecem recorrer à linguagem gestual como se deixam cercar militarmente pelo destacamento de metais que, noutros instantes, toca deitado, enquanto se filosofa antropologicamente (“I am an ape, I stand and wait, a masterpiece, a hairy beast”) e St. Vincent, na guitarra, demonstra como Robert Fripp possui nela a legítima herdeira. Uma atitude global, no fundo, não muito diferente daquela que, nas últimas entradas do seu “Journal”, num misto de seriedade, assombro e deleite kitsch, David Byrne revela durante a passagem da digressão por Salt Lake City, ao deslumbrar-se perante a delirante narrativa sci-fi da teologia Mórmon (“Um homem muito rico que acredita em tudo isto [Mitt Romney] por pouco não foi Presidente").

(era hoje)