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26 December 2024

 LIMPEZA, RESTAURO E RECONSTRUÇÃO


Não há forma de lhes fugir. Pode atribuir-se-lhes muita, pouca ou nenhuma importância mas, a partir do momento em que, mais ou menos espontaneamente, surgem, é garantido que - para além do que de valioso produzam - a indústria rapidamente fará tudo o que estiver ao seu alcance para as esterilizar, normalizar, infinitamente replicar e converter em marcas registadas. Falo, naturalmente, das inúmeras "scenes" que, numa interminável corrida de estafetas, recebem o testemunho da anterior e logo o passam à seguinte. Breve revisão: o “eixo-Liverpool/Manchester” (Joy Division, Echo & The Bunnymen, The Teardrop Explodes, Smiths); a breve mas intensa "no wave" novaiorquina; o lerdo grunge de Seattle; a coreografia química de Madchester; o "british jazz revival" de Sade, Weekend/Working Week ou Everything But The Girl; a languidez de Bristol; enfim, a cintilante polivalência da "Brooklyn scene" (Dirty Projectors, Vampire Weekend, The National, My Brightest Diamond). (daqui; segue para aqui)

Lone Justice - "Teenage Kicks"

02 March 2024

"Seed" 

(sequência daqui) Isto passava-se há 12 anos, quando Chapter 1, o seu álbum de estreia acabava de ser publicado. Seguir-se-ia Cocoon (2017) e, nessa altura, já a sua música, por ângulos vários, havia sido associada às de Björk, Joni Mitchell, Sufjan Stevens, Julia Holter e My Brightest Diamond. Agora, com Come Swim, não esquecendo essa genealogia estética, deveria acrescentar-se Virginia Astley à linhagem, bem como Kate Stables (This Is The Kit) e Rozi Plain, ambas participantes deste álbum, espécie de cinemática aguarela subaquática, feita de violinos, clarinetes, flautas, harpas, sintetizadores e "drum loops", crescendos e transparências.

16 July 2019

BORRÃO DE RORSCHACH

  
Diz Erin Birgy: “É fantástico ver alguém aperfeiçoar um determinado objecto de paixão. Mas o que me mantém interessada na música é precipitar-me literalmente no desconhecido. É muito mais divertido divagar do que decidir, de uma vez por todas, como uma banda irá soar, de acordo com uma perspectiva ou um desejo singular”. Divaga Erin Birgy: “A minha maior fantasia erótica era ser um cavalo negro enviado do Inferno, galopando através do mato, ao crepúsculo, como numa cena de Darby O’Gill and the Little People (um filme da Disney, de 1959)”. Recorda Erin Birgy: “Durante os últimos oito anos, a banda alargou-se e deambulou, num crescendo em direcção à liberdade musical”. Sintetiza (em "Truth In The Wild") Erin Birgy: “Energised by uncertainty, confusion, disruption, this song’s for me”. Lateralmente, uma memória antiga ajuda a compreender ainda melhor: “A minha mãe costumava levar-nos, em passeios de um dia, a explorar os diversos lugares de Washington Oriental. Uma vez, fomos a Metaline Falls e, durante cerca de uma hora, não conseguíamos ver nada do lado de fora do carro de tal modo o ar estava opaco de borboletas monarca. Isso ficou em mim para sempre”



Naturalmente, nada dispensa a escuta de Dolphine mas, daqui, podem extrair-se já algumas coordenadas para o que nos aguarda. Isto é, nada do que podemos imaginar será sequer parecido com o que iremos descobrir. Até porque este quarto álbum assinado Mega Bog – "nom de plume" de Birgy – pode servir de modo útil como uma espécie de “borrão de Rorschach”: se ela própria admite ter-se alimentado de Robert Wyatt, Laurie Anderson, Bridget St. John, Nina Simone, Marianne Faithful, Nico, a ficção de Ursula K. Le Guin e a poesia de Alice Notley, nada nos impede de, ao escutá-la, identificarmos os traços de Julia Holter, This Is The Kit, Joni Mitchell, Shara Worden, Poliça, Judee Sill, Jesca Hoop ou Hugo Largo. Uma sucessão de imprevisibilidades sonoras articuladas como peças de "puzzles" diferentes no perímetro de cada canção: ziguezagues melódicos enroscados em dissonâncias de veludo, psicadelismos subaquáticos em montanha russa "free-form", bordados folk com acabamentos "avant-pop", abstraccionismos rítmicos em coreografias reptilianas, preciosas jóias electro-acústicas que, afinal, são apenas o confessado desejo de “perpetuar aquele género de perspectiva misteriosa que, para mim, não é realmente um mistério”. Ou, encarando-o sob um ângulo mais esclarecedor: o álbum avassalador que, desde Volta, Björk procura sem encontrar.

04 September 2018

UM DISCO DO CORPO


Cinco anos depois de One Breath, Anna Calvi publica o terceiro álbum, Hunter. Um quase-manifesto “queer e feminista” acerca do qual afirmou tê-lo desejado “primitivo e belo, vulnerável e forte, o caçador e a presa”, uma arma “tranquilamente audaciosa e provocante” nas políticas de género. Com guitarras incendiárias e a participação de Adrian Utley (Portishead) e Martin P. Casey (Bad Seeds).

    Dos seus dois primeiros álbuns para este Hunter, sinto que existem diferenças mas, por enquanto, não sou capaz de as identificar exactamente. Pode dar-me uma ajuda? 

Pretendi criar algo que fosse mais visceral, animal e selvagem e menos cerebral, textos mais imediatos e muito concentrados na ideia de conduzir até ao extremo o contraste entre as sensações de força e poder e de vulnerabilidade e intimidade. Provavelmente, de uma forma bastante mais deliberada do que, até aqui, tinha feito. 

    Numa entrevista recente, declarou que o que buscava era “a simplicidade, algo que fosse tranquilamente audacioso e tranquilamente provocante”... é isso?

Sim, embora, por vezes, não seja assim tão tranquilo mas mais livre e extrovertido... No entanto, por exemplo, numa canção como "Hunter", essa ideia que referiu aplica-se perfeitamente. Tudo isto, na verdade, já acontecia nos dois álbuns anteriores. Simplesmente, agora, desejei que tudo isso surgisse com uma muito maior definição.

    A sua ideia de encarar cada canção como um mini-filme manteve-se em Hunter ou abdicou dela a favor dessa ambição de tornar tudo mais directo e incisivo? 

Não, não foi por aí, nada disso se alterou. Apenas desejei alcançar a máxima nitidez possível.


     Descreve Hunter como “um álbum queer e feminista” que lhe permitiu “exprimir-se livremente e sem se preocupar com o modo como poderá ser julgada acerca do que deveria fazer com o seu corpo”. Pode dizer-se, então que, no centro deste disco, existe uma agenda de políticas de género?

Não se trata de impôr uma agenda mas de fazer passar a ideia de que não devemos sentir-nos obrigadas a assumir os estereótipos femininos mas sim explorarmos tudo aquilo que uma mulher pode realmente ser em vez daquilo que nos dizem que ela deverá ser. A personagem de "Hunter", por exemplo, procura o prazer sem qualquer espécie de vergonha. A nossa cultura está impregnada de fantasmas de mulheres enquanto objectos de caça dos homens. Quis inverter os papéis: a mulher como caçadora que se apodera da sua presa, masculina ou feminina. Basta de tolerância em relação aos limites que, supostamente, definiriam como uma mulher se deve comportar. Por que motivo haveria de aceitá-los apenas por causa da minha anatomia?...

    Tal como a St. Vincent/Annie Clarke, a Shara Worden (de My Brightest Diamond), a Regina Spektor ou a Julia Holter, a Anna faz parte de um grupo de músicas e "songwriters" contemporâneas que tiveram uma formação musical clássica: estudou violino e guitarra na Universidade de Southampton. Isso teve alguma influência determinante na música que viria a compor e tocar mais tarde?

Aquilo que estudar violino me fez, essencialmente, compreender é que é uma aprendizagem tão tremendamente dura que é indispensável uma dedicação total para que o resultado valha verdadeiramente a pena.

    Mas, para além disso, contribuiu, de alguma forma para lhe proporcionar algum tipo de modelos musicais? 

Não. Quando escrevo canções, nunca o faço de um ponto de vista racional ou teórico. É um processo puramente emocional. E, muito particularmente neste álbum, quis afastar-me por completo de uma atitude demasiado pensada: é muito mais um disco do corpo do que da cabeça.


    Pode dizer-se que se esforçou deliberadamente por esquecer o que aprendeu na universidade? 

Não foi um esforço deliberado. Mas o mais importante que guardei da minha passagem pela escola de música foi apenas a possibilidade de escutar tanta música diferente e a que, de outra forma, se calhar nunca poderia ter tido acesso. 

    No início, antes do seu primeiro álbum (2011), apareceu mais ou menos incluída naquilo que ficou conhecido como a cena "nu-folk" londrina da altura. Gravou com Johnny Flynn e com os Mumford & Sons e teve uma banda, Cheap Hotel. Foram passos importantes?

Se quer que lhe diga, são coisas em que, agora, nunca penso. Na altura, claro que foram experiências importantes através das quais aprendi uma série de coisas. Mas, depois, segui em frente e, nesta altura, não são muito mais do que memórias vagas. 

    Há quatro anos, quando co-escreveu uma canção – "Falling Back" – com Marianne Faithful para o álbum dela Give My Love To London, confessou que, sendo o processo de composição para si, uma coisa tão íntima e privada, nunca supôs que, desse encontro com ela em Paris, pudesse surgir alguma coisa... mas, em 20 minutos tinham a canção concluída! 

É verdade, procuro sempre o máximo de solidão e de privacidade quando componho. Por isso, fiquei absolutamente espantada com o à vontade que a Marianne demonstrou para escrever uma canção na companhia de uma pessoa que não conhecia de lado nenhum e ser capaz de confiar nela. É, na verdade, uma mulher incrível. 


    Nick Cave e Brian Eno cobriram-na de elogios quando publicou o primeiro álbum, tendo Eno afirmado que era o acontecimento musical mais importante desde o aparecimento de Patti Smith. Esse tipo de comparações é-lhe desconfortável?

Suponho que o Brian Eno estava apenas a exprimir a sua admiração pelo meu trabalho e estou-lhe grata por isso. Quando se compara um artista com outro, penso que isso, realmente, não é importante, não o afecta. Compreendo que, por vezes, é necessário utilizar palavras e associações de ideias como referências para descrever uma música a quem ainda não a escutou . Não me incomoda nada.

    A participação de Adrian Utley (Portishead) e Martin P. Casey (Bad Seeds) neste álbum obedeceu a algum objectivo especial? 

Foi uma resposta a necessidades específicas e a aspectos particulares que me interessavam. Por exemplo, não desejava que se escutassem demasiados instrumentos de cordas reais. Os sintetizadores sempre me soaram como instrumentos orquestrais e acho que o que o Adrian consegue realizar com eles é muito interessante e exactamente aquilo que fazia falta às músicas. Desta vez, também precisava de um baixista e foi o Nick Launay (o produtor) que sugeriu o Martin que é um músico extraordinário. 

    Enquanto guitarrista, quem foram os seus modelos? 

Sempre tive a maior admiração por Jimi Hendrix desde que vi e ouvi os registos dele no festival de Woodstock. Foi uma inspiração e um modelo que nunca mais me saiu da cabeça e a que, de uma forma ou de outra, acabo sempre por regressar. 

    Trocou o violino pela guitarra e nunca mais voltou a pegar nele como instrumento solista... 

Não, ainda o toquei em alguns arranjos do primeiro álbum mas, como solista, nunca mais lhe peguei. É preciso estudar e praticar sem interrupções e, uma vez que se pare, é muito difícil recuperar o que, entretanto, se perdeu. 

    Um dos meus grandes sonhos seria poder vê-la, em concerto e/ou em disco, juntamente com a St. Vincent, outra fabulosa guitarrista actual... Há alguma hipótese?...

(risos) Nunca se sabe... tudo pode acontecer, embora não haja planos, de momento. Conheço a Annie, é uma óptima pessoa e uma música excelente... logo se verá. 

    Vou, então, interpretar isso como uma promessa... 

(risos)

06 March 2018

Francamente, David!... Depois de Love This Giant (a meias com St. Vincent) e Here Lies Love (com Florence Welch, St. Vincent, Candie Payne, Tori Amos, Martha Wainwright, Nellie McKay, Cyndi Lauper, Allison Moorer, Ganda Suthivarakom, Charmaine Clamor, Róisín Murphy, Camille, Theresa Andersson, Sharon Jones, Alice Russell, Kate Pierson, Sia, Santigold, Nicole Atkins, Natalie Merchant e Shara Worden), não te parece absolutamente idiota um pedido de desculpa? (ou existe uma lei das quotas que, retroactivamente, também desvalorizará uma imensa parte da história da música?)

01 October 2015

ESCUTAR COMO SE VÊ UM FILME


“Sou uma diletante, escolho e retiro elementos de todas as áreas musicais, não sou uma académica concentrada e circunspecta”, é como Julia Holter se auto-define. E dificilmente o poderia fazer melhor: personagem tão apta a surgir na capa da “Wire” ao lado de praticantes do mais esotérico experimentalismo como de publicar o recente Have You In My Wilderness – recolha de canções sumptuosamente orquestradas –, ao quarto volume da sua discografia, começa a ser obrigatório prestar-lhe a devida atenção.

Nos seus álbuns anteriores, recorria sistematicamente a referências literárias: Tragedy (2011) alimentava-se do “Hipólito”, de Eurípides, bem como de outras tragédias gregas; em Ekstasis (2012), citava Frank O’Hara e Virgínia Woolf; Loud City Song (2013) inspirava-se na “Gigi”, de Colette. Agora, em Have You In My Wilderness, parece ter acedido a uma outra fase em que muito mais claramente se concentra no formato clássico da canção como entidade autónoma.
De certo modo, sim, mas não completamente. Neste álbum, três ou quatro canções também se desenvolveram a partir de personagens de livros que ia lendo. Escrevi "How Long" quando, durante uma visita a Berlim, andava a ler as “Berlin Stories”, do Chistopher Isherwood, e "Lucette Stranded On The Island" surgiu a partir de “Chance Acquaintances”, outra vez de Colette. Mas trata-se, no entanto, apenas de canções independentes e não interrelacionadas por um tema único. Concebi este álbum como uma colecção de canções e baladas prestando muito mais atenção à globalidade do som. Foi gravado, durante um ano, em diversos momentos e contextos. Há uma certa unidade do ponto de vista sonoro mas cada canção tem uma personalidade própria.

Li que a sua intenção era que todos os álbuns pudessem ser apreciados do mesmo modo que assistimos a um filme... 
Sim, o meu desejo é que possam ser escutados como se vê um filme, serem uma espécie de audiofilme. No entanto, não diria que Have You In My Wilderness seja esse tipo de disco. O que mais se aproximou disso foi Tragedy

Este seria, então, talvez, mais como uma colecção de videoclips? 
Exactamente. 

É curioso porque, em vários dos seus videoclips, as imagens parecem conter uma narrativa paralela à da canção...
Nunca sou eu quem realiza os vídeos e dou toda a liberdade aos realizadores mas, na verdade, embora exista, necessariamente, uma relação entre música e imagens, cada uma conta a sua história.



Tal como St. Vincent, Shara Worden (dos My Brightest Diamond) ou os gémeos Dessner (dos National), entre vários outros, a Julia faz parte de uma geração de músicos com formação académica clássica que acabaram por, de certa forma, renegá-la e optar por uma linguagem mais “profana”...
O universo académico tende a ser demasiado limitador o que conduz algumas pessoas a procurarem desbravar o seu caminho fora do espaço dos departamentos de música universitários, dos conservatórios e das academias. Trabalhar nessa atmosfera clássica gera muitas vezes a ideia de que tudo poderá vir a tornar-se demasiado complexo e, claro, reage-se contra isso. 

Pode, então dizer-se que são os smart ones that got away?
Não quis dizer exactamente isso. Para alguns, esse mundo funciona muito bem e, no interior dele, são capazes de produzir óptimas obras. Mas os outros que não se adaptam a ele só têm como solução sair e descobrir a via em que se sentem mais à vontade. Não nego, no entanto, que tudo o que aprendi sobre teoria musical e musicologia foi muito útil e interessante.

Achei interessante que tenha confessado ao “Guardian” que se vê mais como "storyteller" do que como cantora, porque Laurie Anderson – com quem, por vezes, é comparada, bem como com Meredith Monk, Kate Bush, ou, diria eu, Judee Sill – afirmava, justamente o mesmo... 
Tenho de reconhecer que sou cantora... esses nomes que referiu começaram a compor e a criar muito antes de mim, seguramente foram uma influência importante para imensos músicos mas não ousaria comparar-me com elas porque cada uma foi absolutamente singular. Tenho consciência de que poderá haver pontos de contacto com o que faço, gosto muito delas, particularmente, de Kate Bush, mas também de Laurie Anderson. 




Não sei se já reparou mas, quando se escreve “Holter” no Google, a primeira referência que surge é o Monitor de Holter, um aparelho de electrocardiograma portátil que regista o ritmo cardíaco ao longo de 24 horas ou mais. Fiquei com a ideia que poderia ser uma metáfora útil para a sua música que, apesar de lidar com emoções, é muito precisa, cerebral, muito racionalmente escrita... 
Não sei... mas essa ideia é muito interessante. Não acho que tenha uma atitude robótica e que as minhas canções sejam desprovidas de emoção mas também não seria capaz de descartar esse seu ponto de vista. 

Já deu concertos tanto na Europa como nos EUA. Sente alguma diferença na reacção de americanos e europeus à sua música? Pergunto isto porque sempre me pareceu que os seus discos têm uma sensibilidade particularmente europeia... 
Não tenho a certeza. Nunca reparei que houvesse reacções distintas, Sou americana, sinto-me muito americana, mas a verdade é que já não é a primeira vez que me dizem isso. Tal como o contrário. A verdade é que, hoje, essas distinções são capazes de já não fazer grande sentido, vivemos numa sociedade definitivamente global.

07 September 2014

A HISTÓRIA DE UMA ANTIGA RELAÇÃO


De que se fala quando se conversa com Bryce Dessner, guitarrista e compositor dos National? Naturalmente, das fantasias para alaúde de John Dowland, de Bach, Schubert e Bartók, das “guerras estilísticas” na música do século XX e do papel que nelas desempenharam John Cage ou Philip Glass, de como Berio e Stockhausen alimentaram a música dos Beatles e Arvo Pärt e Reich fizeram o mesmo pelos Radiohead ou das relações entre o que ele compõe e a obra literária de Kerouac e Frank O’Hara. É verdade que o pretexto para a entrevista era os belíssimos álbuns que registam as suas composições numa variante de ecletismo pós-minimalista do idioma erudito contemporâneo (Aheym, com o Kronos Quartet, de 2013, e St. Carolyn By The Sea / Lachrimae / Raphael, a meias com a Suite From There Will Be Blood, de Jonny Greenwood, com a Filarmónica de Copenhaga, 2014), bem como a sua participação em Music For Heart And Breath (2014), de Richard Reed Parry. Mas, como Bryce explica, para ele que, antes de ser um elemento dos National, já cumprira uma trajectória académica, isso não obriga a esquizofrenias estéticas nem a assumir múltiplas personalidades.

Tem alguma explicação para o facto de, nas últimas décadas, ter surgido um considerável número de músicos de pop/rock com formação musical académica – Shara Worden (My Brightest Diamond), Annie Clark/St. Vincent, Jonny Greenwood (Radiohead), Richard Reed Parry (Arcade Fire), Rostam Batmanglij (Vampire Weekend), Regina Spektor, Sufjan Stevens, Joan Wasser – que, em alguns casos, como o seu, estão activos tanto na música contemporânea como na popular? 
Sempre existiu uma relação entre a música erudita e as formas populares. Nos séculos XV e XVI, compositores como John Dowland tanto escreviam música instrumental para a corte inglesa como compunham canções. Schubert escreveu belíssimas canções e, durante o século XX, o mesmo se passou. Poderiam ser canções mais complexas e exigentes mas não foi algo que tenha surgido apenas com a nossa geração. O que, talvez, tenha acontecido foi uma mudança na indústria musical que permitiu que música mais criativa tenha podido vir à superfície. Por causa da Internet, as grandes editoras e a rádio mainstream já não controlam aquilo que podemos ouvir. Pessoas como eu que tive uma educação clássica, toquei Bach e fundei uma banda de rock... faz tudo parte daquilo que sou, da minha identidade ou das do Johnny Greenwood e do Richard Reed Parry. Já a Annie (St. Vincent) não me parece que esteja muito virada para compor para quartetos de cordas embora tenha uma história semelhante. No fundo, é muito saudável que existam músicos que se permitam uma grande diversidade de experiências.


Mas por que motivo essas trocas entre música clássica e formas populares terão corrido bastante melhor agora do que na idade das trevas dos Emerson, Lake & Palmer e afins? 
(risos) Nem tudo foi tão tenebroso, no passado... "Revolution 9", dos Beatles, era uma peça bastante sofisticada e vanguardista para fita magnética, inspirada por Luciano Berio e Stockhausen. Mas, no meu caso, esta é a música em que me movo desde muito antes de ter começado a tocar com uma banda de rock. Não se trata de "crossover". Acho, aliás, que a maioria dos músicos que mencionou se sentiriam insultados caso o seu trabalho fosse qualificado como "crossover". Poderá ser necessário um período maior de amadurecimento para compor música contemporânea instrumental que é mais complexa e polifónica do que para escrever uma canção de rock. Mas, evidentemente, isso também se transmite no sentido oposto: se escutarmos uma banda como os Radiohead, é óbvio que têm muito mais em comum com Arvo Pärt ou Steve Reich – nos arranjos, nos encadeamentos harmónicos, no tratamento da percussão – do que com o rock tradicional. Tudo coisas que provêm dessa atitude aberta e criativa. No caso dos National, isso não será tão óbvio e pronunciado mas é, certamente, uma parte importante da nossa música. Parte do que fazemos é procurar ampliar os limites da canção, abrirmo-nos a formas musicais diferentes. 

Mas, quando compõe, por exemplo, para um quarteto de cordas, fá-lo com uma atitude mental diferente da que teria se estivesse a pensar nos National? 
Se componho para um quarteto ou uma orquestra, concentro-me mais na sonoridade. Com os National também mas apenas no momento em que entramos em estúdio. Na música contemporânea, preocupo-me com as propriedades acústicas dos instrumentos. É um pouco como se se tratasse de música electrónica: explorar técnicas que possam revelar combinações sonoras interessantes. Mas não sinto que me transforme numa pessoa diferente. A verdade é que sou muito mais eu próprio quando lido com a música contemporânea. Nos National, toco guitarra, tudo tem a ver com as relações entre nós, é um processo muito mais colaborativo.



Nos seus discos de música contemporânea, reconhece modelos musicais e referências que o tenham orientado? 
Já lhe falei de John Dowland. A minha formação foi em guitarra clássica e a maioria do reportório é Dowland ou Bach. As fantasias que compôs para alaúde são dos primeiros exemplos de peças escritas como pura música instrumental. Não possuem uma forma definida e isso atrai-me muito. St Carolyn By The Sea é também inspirado no Big Sur, de Jack Kerouac. Interessava-me, do mesmo modo, traduzir musicalmente muito do que os poetas de Nova Iorque dessa era – como Frank O’Hara – realizaram, do ponto de vista formal, com a linguagem. Mas o meu compositor preferido é, provavelmente Béla Bartók, também devido a ter sido muito influenciado pela música popular tradicional. O que nos faz voltar à sua pergunta inicial acerca das relações entre música erudita e popular. É algo que já vem de longe. Mais recentes, há também compositores como Steve Reich e Philip Glass com quem já trabalhei e gravei o que foi uma experiência bastante estimulante. 

A verdade é que, apesar das relações entre formas populares e eruditas não serem uma coisa de agora, após a longa viagem da história da música do tonalismo para o atonalismo e o serialismo e de volta ao tonalismo (com os 4’33” de Cage pelo meio a abrirem todas as portas), só agora aparecem compositores como o Bryce capazes de atribuirem um sentido estético viável ao desfecho desse percurso... 
Nas guerras estilísticas do século XX, o que gente como John Cage ou Steve Reich fez foi desbravar o caminho de acesso a um imenso território que permitiu que músicos como nós existissem e nos sentíssemos livres para determinar o nosso rumo, independentemente do estilo, do género musical ou do facto de tocarmos guitarra ou qualquer outro instrumento. Há uma sensação de liberdade que é muito revigorante. 

É impossível não lhe perguntar: Trouble Will Find Me foi publicado em Maio do ano passado. Há alguma data prevista para um novo álbum dos National? 
Decidimos parar, pelo menos, durante um ano. Vamos, de certeza, gravar um novo álbum mas, entre Trouble Will Find Me e esse, haverá, no mínimo, uma pausa de dois anos. Já temos algumas canções novas mas nada que nos sintamos prontos para assegurar que está ali o embrião do próximo álbum.

13 November 2012

UM TECLADO CASIO NUM TÚNEL DO METRO



Andrew Bird, consumado "jongleur" do idioma pop, tal como seria de esperar de um licenciado em violino (sem equivalências) pela Northwestern University do Illinois, é uma criatura amante do conhecimento das regras e, porque as domina, da sua transgressão. Não tem feito outra coisa desde que, a solo, publicou Weather Systems (2003) e, posteriormente, prosseguiu a expedição em busca de uma admirável pop complexa mas eminentemente legível em The Mysterious Production Of Eggs (2005), Armchair Apocrypha (2007), Noble Beast (2009) e Break It Yourself (2012). Ele explica como e porquê. 
  
O que é preciso acontecer no percurso de um violinista com formação académica para que ele se transforme em "songwriter" pop? 
Eu era um estudante muito aplicado mas não era nada institucional na minha forma de pensar. Acabei por descobrir que a pop era um desafio muito maior e mais inclusivo. Sob essa designação podemos fazer praticamente tudo o que quisermos: podemos ser complexos, crus, tocar notas erradas, se nos apetecer... já o jazz também me pareceu ter-se tornado demasiado institucionalizado. Gosto de jazz e também já o toquei mas não me agrada que me digam como devo tocar. 
  
Era já o que sentia na universidade? 
Já pensava assim na universidade mas, embora ali não existisse um ambiente muito estimulante, optei por aprender a dominar o violino. Tudo era apresentado de um modo demasiado importante e inibidor, mesmo que se tratasse de coisas que eu sentia que não seria nada do outro mundo conseguir realizá-las. Mas acabou por ser um conflito saudável. Ter uma estrutura contra a qual me revoltar reforçou de um modo especialmente apaixonado o meu desejo de fazer algo pessoal.


Parece-lhe que existe uma atitude comum entre músicos como o Andrew e St Vincent, Sufjan Stevens, Regina Spektor e Shara Worden, que têm trajectórias idênticas, da academia para os palcos pop?
Sim, todos tivemos experiências diferentes mas isso, provavelmente, terá a ver com esse conflito saudável de que lhe estava a falar: conhecer as regras e, depois, quebra-las com o entusiasmo que daí resulta. Comecei a sentir que, com a música clássica, se tratava sempre mais de uma exibição do que de uma actividade realmente criativa: quando interpretava um concerto, estava apenas a demonstrar a minha proficiência técnica, não me parecia que houvesse ali nenhuma demanda artística verdadeira. Mesmo que, em alguns casos, nos fosse permitido improvisar, sentia-me como que sufocado: tinha sempre que tocar as cadências que outros haviam composto. Mas, no que diz respeito à afinidade com todos esses outros músicos, suponho que todos nós temos consciência de que a nossa educação clássica não tem o menor valor no âmbito pop. 

A sério? 
Sim, sim. Por exemplo, numa situação em que possamos actuar com outra banda cujos músicos não tenham o menor treino académico e que sejam capazes de ter tanto ou mais sucesso do que nós em estabelecer contacto com o público. É esse o nivelamento que a pop estabelece. Gosto do desafio de conseguir fazer chegar a música que crio ao público sem que seja necessário que alguém lhes vá explicar o que, supostamente, é bom ou mau. Claro que não posso impedir que aquilo que estudei e aprendi transpareça. Mas não sinto que tenha alguma dívida de gratidão para com isso. É apenas um dado adquirido que ponho em uso. 

Suspeita que alguns compositores clássicos, se fossem hoje vivos, poderiam ter seguido trajectórias idênticas? 
Por volta dos meus dezanove, vinte anos, gostava muito de Ravel e, certamente, conseguimos ouvir alguma influência da música dele, por exemplo, nos Radiohead. A progressão do Bolero, é como um rebuçado que, a cada instante, promete exactamente aquilo que desejamos ouvir a seguir e cumpre a promessa, é pop por todos os lados. E, depois, a construção é muito polirrítmica, ao contrário de bastante música clássica que, na minha opinião, é ritmicamente estagnada. O desafio da música pop tem muito mais a ver com contenção: sermos capazes de dizer o máximo com o mínimo de meios. Já cheguei a impor-me o desafio de escrever uma canção apenas com dois acordes e uma melodia só com duas notas. E, mesmo com essas restrições, ela teria de ser atraente. Um pouco como se se tratasse de um tipo com um teclado Casio num túnel do Metro que conseguisse fazer-nos chorar. É o que importa. 
  
No documentário Fever Year, confessa que o pior público que existe é o microfone de um estúdio... 
Já senti mais isso no passado. Por vezes, sinto o peso das expectativas e das inúmeras possibilidades de que disponho. É por isso que me imponho restrições acerca do que posso e não posso fazer. Se não conseguir reproduzi-lo em palco, não vale a pena grava-lo em estúdio. 

É essa a sua regra?  
Já foi, depois quebrei-a e, agora, voltei a ela (risos).

Da universidade, passando pelos Squirrel Nut Zippers, até agora, foi um percurso planeado e consciente? 
Suponho que se tratou mais de ir atrás do instinto e da curiosidade e de me deixar ir tropeçando nos acontecimentos. Já fui mais e menos dogmático e religioso acerca de determinados aspectos, há coisas que umas vezes funcionam bem e, depois, já não resultam... como as restrições de que lhe falava. São necessárias até para, quando isso for importante, ir contra elas. Fui muito dogmático, por exemplo, relativamente ao purismo com que deveria abordar o "swing" dos anos 30 e, mais tarde, no que diz respeito a excluir qualquer ornamentação que infringisse a tal regra dos dois acordes ou que evocasse quaisquer referências exteriores. Actualmente, sinto que já provei tudo o que pretendia provar e que posso fazer como me apetecer. 

A sua música, parecendo extremamente pensada, dá, ao mesmo tempo, a ideia de ser resultado de um grande divertimento. Concorda? 
Claro, nem poderia ser de outra maneira. Creio que sempre me vi como músico profissional que teria de ganhar a vida através da música, por muito pouco que fosse o benefício. O que significa que tive de viver uns bons anos em circunstâncias longe das ideais. Por isso, prometi a mim mesmo que nunca haveria de me aborrecer por causa daquilo que faço e que adoro.

Qual foi a importância de, desde Armchair Apocrypha, ter começado a trabalhar com Martin Dosh?  
Ele não é, evidentemente, apenas um baterista. Compreende-me melhor do que qualquer outra pessoa porque partilhamos o mesmo impulso de seguir o nosso rumo individual e confiar nas próprias forças, sem esquecer que a música é também uma actividade social. Encontrei-o no final da minha fase a solo e ele era a única pessoa que eu tinha a certeza de que não iria descaracterizar a minha música. Concebemos algumas formas engenhosas de fazer a música circular electronicamente entre nós: envio-lhe um "loop" que ele transforma num "loop" seu e processa para a percussão... é algo que já se converteu numa segunda natureza para nós, criámos uma linguagem só nossa. 
  
Disse, numa entrevista que “as palavras têm o poder de nos iludir, estão carregadas de subtexto; as melodias são honestas, só podem ser aquilo que são”. E, no entanto, os textos das suas canções estão repletos de palavras invulgares, jogos e associações de palavras bizarros... 
As melodias aparecem-me, todos dias, sem grande esforço. Vão e vêm, capturo-as e alojo-as nas canções. Com as palavras, é mais difícil começar: cada uma tem de ser especificamente para uma determinada melodia. Mas, uma vez iniciado o processo, o mais difícil é parar. O meu problema com as palavras é que desejava ser reconhecido como um "songwriter" realmente bom. Mas tenho medo que isso possa ser visto como uma coisa excessivamente importante e bloqueie o lado lúdico.


Receia ser visto como uma personagem séria e respeitável? 
(risos) Sim, às vezes. Mas sei que, no que diz respeito às palavras, não ganho nada em levá-las demasiado a sério. O que não impede que as coisas e as ideias mais importantes que me preocupam acabem por aparecer nas canções. 
  
É por isso que recorre tanto ao assobio, para aligeirar essa seriedade? 
Não, assobiar é apenas muito eficaz. E muito portátil. Na maioria das vezes, é a melhor forma de desenhar uma melodia. E as minhas mãos estão sempre demasiado ocupadas com outras coisas. Para mim, até já seria bizarro não assobiar em palco.

02 January 2012

MÚSICA 2011 - INTERNACIONAL (II)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 20)







































Não fosse Tom Waits quem é e dir-se-ia que apenas aparece nesta lista para tentar disfarçar uma selecção discográfica dos melhores do ano militantemente organizada de acordo com uma agenda implacavelmente feminista. A verdade, no entanto, é que, olhando friamente para os álbuns que, ao longo de doze meses, este par de ouvidos foi escutando, o problema foi o da regra imposta dos dez ter obrigado a deixar ainda de fora Alela Diane & Wild Divine, Thao & Mirah, Ragged Kingdom (o outro álbum de June Tabor com a Oysterband), Last Summer, de Eleanor Friedberger, e – vá lá, não oprimamos demasiado o sexo fraco – So Beautiful Or So What, de Paul Simon, Beer In The Breakers, dos Wave Pictures, Tomboy, de Panda Bear, ou Here Before, o belíssimo regresso dos Feelies. A ordenação vertical na escala de excelência é assaz aleatória, embora a singularidade sonora de whokill e a dupla-maravilha de June Tabor mereçam ser destacadas.

* a ordem é razoavelmente arbitrária...

(2012)

14 December 2011

MY BRIGHTEST DIAMOND - "THERE'S A RAT"



There’s a rat in the kitchen and he’s eating my cheese
Eating my cheese, eating my cheese
A rat in the kitchen and he’s eating my cheese
Eating my cheese alright

There’s a snake in the cellar and he’s drinking my wine
Drinking my wine, drinking my wine
A snake in the cellar and he’s drinking my wine
Drinking my wine alright

Well I ain’t gonna let you keep on eating and eating and eating
Ain’t gonna let you keep on taking and taking and taking
I’m gonna treat you like the mouse that you are
Creeping in and eating up my house you are
I ain’t gonna stand it
I am gonna turn you out crack snap trap
This is my home step back!

There’s a moth in my closet and he’s eating my clothes
A mole in my garden and he’s chewing my hose
A bird in the attic and he’s stealing my song
A man at the door and his motive is wrong

Oh bankers lawyers thieves!
Gov’ners mayors police!


(2011)

12 December 2011

09 December 2011

MY BRIGHTEST DIAMOND (c/ Chicago Youth Symphony Orchestra)


"High Low Middle"


"Be Brave"

(2011)

08 December 2011

05 December 2011

LUTA DE CLASSES


My Brightest Diamond - All Things Will Unwind

Meses antes de, a 10 de Outubro passado, o cidadão de Lower Manhattan, Lee Ranaldo, ter registado para a posteridade, no blog dos Sonic Youth, quatro minutos e dez segundos dos cânticos e palavras de ordem da multidão que ia e vinha do City Hall entregue à missão de ocupar Wall Street e, pelo menos, perturbar a digestão dos senhores do mundo, Shara Worden – "brooklynite" adoptiva – abandonava Nova Iorque e, de regresso ao Michigan natal, deparava com a devastação social de Detroit, cidade compulsivamente fantasma do pós-crash de 2008. O objectivo era “expor-me ao contraste entre a minha vida de artista em Nova Iorque e a violenta realidade de uma cidade onde praticamente não existem escolas públicas para as crianças e quase metade da população está no desemprego”. Acabou por aí ficar e, talvez porque lhe parecesse que aquele era um daqueles lugares onde se diria que “God’s away on business”, as palavras que lhe ocorreram para "There’s A Rat" (“There’s a rat in the kitchen and he’s eatin’ my cheese, there’s a snake in the cellar and he’s drinkin’ my wine, (…) a man at the door and his motive is wrong, Oh bankers, lawyers, thieves! Governors, mayors, police!”) não fossem muito diferentes das dessa canção teologicamente céptica de Tom Waits (“Who are the ones that we kept in charge? Killers, thieves and lawyers!”).



Deve dizer-se que Shara (aliás, My Brightest Diamond), nos três anos que decorreram desde o anterior segundo álbum, A Thousand Shark’s Teeth, esteve tudo menos inactiva: colaborou com Bryce e Aaron Dessner (dos National) no ciclo de canções multimédia, The Long Count, com os Clogs (de novo, Bryce, o violinista Padma Newsome e outros cúmplices) em The Creatures In The Garden Of Lady Walton, com Sarah Kirkland Snyder em Penelope, e com várias outras notabilidades como David Byrne, Sufjan Stevens, Matthew Barney ou Sarah Small. E – como informa o press-release da Asthmatic Kitty – preparou-se para gravar All Things Will Unwind “inspirada pelo facto de ter tido um filho, por conversas com Laurie Anderson, pelos discursos presidenciais de Obama e pela luta de classes”. Sim, a luta de classes, esse tópico, aparentemente sepultado nos anos do liberalismo mas que, de Wall Street a Detroit ou à estrebuchante Europa, teima em regressar.



Disfarçado do género de cabaret weilliano para jardim infantil que Jesca Hoop (mais outra Waits-"connection"...) poderia, facilmente, ter assinado, ele lá está em "There’s A Rat", logo a seguir, também em "High Low Middle" (“When you’re privileged, you don’t even know you’re privileged, when you’re not, you know”) e, minutos antes, no pouco menos que militantemente épico "Be Brave" (“This is going to hurt, be brave, dear one, be changed, be undone”). Tudo em registo de música de câmara contemporânea capaz de absorver a folk, timbres africanos, o jazz de New Orleans, o "lied" e explorações eruditas tal como o sexteto yMusic (artífices sonoros da intimidade de Björk, David Byrne, Grizzly Bear, Yo-Yo Ma ou St. Vincent) que a acompanha ágil e elegantemente os declinam. Não há que recear, porém, que Shara se tenha transformado num Woody Guthrie com diploma de conservatório: ela fala-nos de “flying neutrinos”, derrete melodias dedicadas à recente descendência, anuncia a participação na estreia de uma obra de David Lang sobre a morte da música clássica, a composição de uma peça para órgão e outra para um filme de Buster Keaton, recomenda PJ Harvey e St. Vincent e... ah!... numa sempre bem-vinda pescada de rabo na boca conceptual, revela que transporta Bad As Me, de Tom Waits, no iPod. Tudo gente boa, séria e da casa.

(2011)

04 December 2011

17 January 2011

ARQUIPÉLAGO DE EMOÇÕES



Anna Calvi - Anna Calvi

Poderia duvidar-se da pureza das intenções do Príapo, Brian Eno – justamente famoso, enquanto jovem, pelas suas lendárias e confessadas maratonas sexuais de 36 horas "non-stop" –, quando, publicamente, declarou ser o surgimento de Anna Calvi o acontecimento musical “mais importante desde Patti Smith” e, posteriormente, lhe enviou uma carta em que afirmava que a música dela era repleta “de inteligência, romance e paixão... que mais podemos exigir da arte?”. Embora, hoje, um respeitável cavalheiro Lib-Dem de 63 anos, teríamos de compreender o turbilhão hormonal do insigne teorizador-pop perante a encandeadora visão da diminuta ítalo-britânica de lábios escarlate, olhos de lobo, salto alto e flamejantes "chemises" vermelhas ou de renda negra, brandindo uma Telecaster. De igual modo, os louvores sobre ela derramados por Nick Cave pareceriam, eventualmente, suspeitos ao darmo-nos conta de que, por mais de uma vez, Calvi foi associada a PJ Harvey (e escolheu até como produtor Rob Ellis), e, em particular, se nos recordarmos da preferência de Cave pelos pequenos formatos do tipo-Kylie Minogue.



Mas, não descartando a indiscutível importância desses factores de avaliação, todas as reticências se extinguem instantaneamente no momento em que começamos a escutar o álbum de estreia de Anna Calvi e somos, literalmente, fulminados por aquela voz algures entre o gótico-Siouxsie Sioux, o épico-Grace Slick e o operático-Alison Goldfrapp (a do primeiro Felt Mountain). E, sim, sem dúvida, os espectros de Patti Smith (o galope vertiginoso de "Desire") e de Polly Jean ("I’ll Be Your Man" em registo To Bring You My Love) pairam. Ela própria insiste em referir Maria Callas, Nina Simone, Scott Walker, Edith Piaf e David Bowie e, do ponto de vista da composição e da execução na guitarra, um eclético leque que começa a abrir-se em Robert Johnson, Captain Beefheart e Jimi Hendrix e alcança Dr. John, Ravel, Debussy e Messiaen.



Inicialmente identificada pelos radares que captavam sinais da cena "nu-folk" londrina (colaborou com Johnny Flynn e gente dos Mumford & Sons), na verdade, embora ainda razoavelmente distante, o parentesco mais legítimo será com as também moças-de-conservatório, Shara Worden/My Brightest Diamond e St. Vincent, por via de alguma dimensão orquestral que, aqui e ali, Anna Calvi cultiva. Porque, em todo o resto que importa, esta música, arquipélago de emoções intensas encenadas em amplo espaço aberto – essencialmente, ela, na guitarra e voz, Mally Harpaz, em múltiplas percussões e harmonium, e Daniel Maiden-Wood, bateria –, incorpora muito do que se poderia imaginar ser uma variação de Morricone sobre o flamenco (tal como o delta do Mississippi o viu nascer), escrita para um argumento de Robert Rodriguez, com cenografia de David Lynch e realizado por Wong Kar Wei. Sim, exactamente isso: o cálculo de reagentes, catalisadores, inibidores e velocidades de reacção foi rigorosamente calibrado e, naquilo que Calvi descreve como “mini-filmes que nos conduzem para outro lugar e nos comovem, quer isso signifique fazer-nos pensar em sexo ou sentir vontade de chorar”, geram-se assombrosos unicórnios sonoros, relâmpagos de guitarra arrepiantemente carnais e árias empolgadas para oratórios interpretados em fundo de cetim vermelho-bordel. Brian e Nick, como foi possível termos duvidado de vós?...

(2011)

22 August 2010

SANTÍSSIMA CRUZADA

Arcade Fire - The Suburbs

Garantem os relatos históricos que, quando, em 1087, Guilherme, o Conquistador, foi sepultado, em Caen, na abadia de Saint-Etienne, o seu corpo estava de tal forma obeso e inchado que, não cabendo no sarcófago que lhe havia sido destinado, o enorme esforço que foi necessário para aí o introduzir teve como pestilenta consequência o rebentamento do cadáver. Episódio assaz semelhante – por diversos motivos, como, adiante, se verá – ao primeiro falecimento do rock progressivo/sinfónico, pelo meio da década de 70 do século passado: não menos insuflada e pomposamente imperial, a música de todos os Yes, ELP, Pink Floyd, Barclay James Harvest ou Rick Wakeman da época só precisou de um apertão da canalha punk para conhecer destino tão pouco edificante quanto o do temível Guilherme. Mas, do mesmo modo que, com ele, aconteceu, apesar de defunto, a sua influência não se extinguiria facilmente: se, a partir do punk, a opção "less is more" determinaria, em boa medida, grande parte da produção das diversas sensibilidades indie/alternativas durante os períodos de 80 e 90, dos anos zero em diante, o apetite pela ênfase orquestral – já experimentado também, anteriormente, entre outros, pelos Echo & The Bunnymen, Tindersticks, Triffids ou Divine Comedy – regressaria e de forma particularmente voraz. Disciplinada, convenientemente emagrecida e esteticamente pertinente nos casos de Andrew Bird, Sufjan Stevens, St. Vincent, Noah & The Whale, Mumford & Sons, Grizzly Bear, My Brightest Diamond ou Fanfarlo (os ensinamentos históricos haviam sido devidamente digeridos através do filtro pop), porém, de novo, a escorregar para a grandiloquência messiânica com os Arcade Fire.


É muito difícil que uma educação mórmon não dê nisto (Jesca Hoop safou-se mas não é toda a gente que tem a sorte de poder ser "nanny" dos rebentos de Tom Waits): quem cresce a ouvir contar que Deus é de carne e osso e vive no planeta Kolob e que, se nos portarmos como Joseph Smith manda, iremos todos politeistamente procriar deusezinhos junto dele, só por acaso não dá consigo a proferir declarações portentosas e a imaginar-se o porta-voz iluminado de qualquer coisa. Win e William Butler foram à catequese dos Santos dos Últimos Dias e isso ajuda bastante a compreender o motivo por que hoje (ainda que não se afirmando como praticantes mórmons) continuam a fazer afirmações como "Os colégios internos, o exército e as igrejas são os únicos lugares onde as pessoas são obrigadas a permanecer em comunidade com gente que elas não escolheriam como companhia. Acho valiosa essa ideia de comunidade com pessoas com quem não temos nada em comum" ou “A Bíblia fala muito acerca do temor perante Deus. Esse é o tipo de medo que nos faz sentir o desejo de mudança”.


E também contribui utilmente para explicar as canções que os Arcade Fire interpretam: não há Grande Tema nem Interrogação Eterna que eles não se sintam tentados a abordar, preferencialmente naquele registo bombástico e monumental de quem galvaniza as tropas numa santíssima cruzada. Em The Suburbs, o alvo são os “kids” envenenados pela cultura-contemporânea-sem-alma-nem-coração que vegetam nos centros comerciais e que, mesmo sabendo que “the emperor wears no clothes, they bow down to him anyway”. O mundo está perdido, os subúrbios invadiram e devastaram a querida Mãe Natureza e, durante uma hora, qual sermão de proverbial tia velha, eles resmungam acerca de como (entrada para fanfarra sinfónica) “these days, my life I feel it has no purpose” e “tomorrow means nothing”. "City With No Children" assenta no riff de "Street Fighting Man", dos Stones, e, em "Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)", Régine Chassagne parece mesmo à beirinha de, a todo o momento, se poder transformar na Deborah Harry de "Heart Of Glass". São os dois melhores instantes do álbum.

(2010)