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21 May 2024

 COM AS CORES DO FOGO


David Robert Jones transmutar-se-ia em David Bowie (por anexação do apelido do pioneiro norte-americano, Jim Bowie, ou, em rigor, do punhal que o celebrizou).  Seria depois Major Tom, Ziggy Stardust, Aladdin Sane, Halloween Jack, The Thin White Duke e Nathan Adler. No final da maratona heteronímica, dar-se-ia conta de que "nos últimos 20 anos, para muita gente, a realidade transformou-se numa abstracção. Coisas que eram vistas como verdades extinguiram-se e é como se agora pensássemos pós-filosoficamente. Não há conhecimento, apenas a interpretação dos factos com que nos inundam diariamente, sentimo-nos como que à deriva no mar". Anne Erin Clark (ou Annie Clark), viria a ser St. Vincent por via de Nick Cave (e interpolado Dylan Thomas). Em Abattoir Blues/The Lyre of Orpheus (2004), na 5ª faixa do primeiro CD, "There She Goes My Beautiful World", Cave canta  "Karl Marx squeezed his carbuncles, while writing Das Kapital, and Gauguin, he buggered off, man, and went all tropical, while Philip Larkin stuck it out in a library in Hull, and Dylan Thomas died drunk in St. Vincent’s hospital". Em conversa com o "Sydney Morning Herald ", há 6 anos, Clark contaria a bizarra experiência que fora estar presente num jantar ao lado de Nick Cave: "Sentia-me tão intimidada que fui tremendamente aborrecida. Queria tanto ser interessante que só me imaginava a dizer coisas idiotas como 'Passas-me o pão, por favor? Tudo o que criei foram referências a ti'". (daqui; segue para aqui)

06 February 2019

16 August 2017

SEM MEDO 


De Winchester para Bristol, de Bristol para Paris, o ponto de chegada na trajectória de Kate Stables, aka This Is The Kit, não se limitou a enriquecer-lhe o sentido de humor linguístico – a constatação de que, em França, será sempre irremediavelmente conhecida como Zis Iz Za Kit – mas fê-la igualmente despertar para o mundo à volta, de modo muito mais atento que na plácida Inglaterra: “Sinto que é altura de não ter receio de falar de política em nome da boa educação ou por medo de ofender alguém. Temos de dizer abertamente o que pensamos do mundo, não podemos entregar-nos nas mãos de políticos e milionários que têm feito um trabalho miserável. Uma das coisas, intrinsecamente francesas, que aprendi aqui foi que, se alguma coisa não está bem, sai-se logo para a rua em protesto. Num instante, a Place de La République enche-se de milhares de pessoas manifestando o seu descontentamento”


É bem capaz de ser disso que ela fala em "Bullet Proof" (“To be patient and awake, there are things to learn here, Kate“), a primeira faixa de Moonshine Freeze, distintíssimo sucessor do óptimo Bashed Out (2015). E que, em "Easy On The Thieves" aplica (“People want blood, and blood is what they've got; suckers feeding, you could feel them wheedling, once you had some space, now you've got panicking, that's just how they work, exactly how they win, first they dope you up, and then they dope you in”), justificando: “Não somos nós quem rouba nem somos os corruptos mas, se fingirmos que nada vemos, seremos também responsáveis. E não esqueçamos o venenoso papel dos media que nos intoxicam e manipulam com notícias falsas”. É, então, Moonshine Freeze o álbum “de protesto” de Kate Stables? Não afunilemos a escuta: se pode dizer-se que “Everything we broke today, needed breaking, anyway” é, eventualmente, generalizável, não haveria perdão para quem não prestasse toda a atenção à infinita riqueza de pormenores urdida pela produção de John Parish (depois de We Dissolve, de Chrysta Bell, outro prodígio de subtileza electroacústica), pelas espirais de guitarra-nos-interstícios de Aaron Dessner, mas, sobretudo, pela voz, pelas melodias e palavras de uma discípula dos Dylan – Thomas e Bob – (“e dos Sleaford Mods!”, acrescenta ela, veementemente), “viciada em aliterações e na magia da linguagem para além dos dicionários”.

29 October 2013

MATT, TOM E O BONECO DE NEVE


Segundo o Génesis, Abel, pastor de ovelhas, e Caim, lavrador, filhos dos pais fundadores, Adão e Eva, desentenderam-se porque, tendo Caim feito “do fruto da terra uma oferta ao Senhor” e Abel levado como homenagem “os primogénitos das suas ovelhas”, “o Senhor atentou para Abel e para a sua oferta, mas para Caim e para a sua oferta não atentou”. Existissem já no início dos tempos as primeiras páginas do “Correio da Manhã” e, no dia seguinte, poderia ter-se lido que, “estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou”. Qualquer Saramago vulgar, prestando um péssimo serviço à causa do ateísmo, tenderá a erguer-se, irado, invectivando Jeová ao aperceber-se que este, injustissimamente, pune Caim, expulsando-o para “leste do Paraíso”. Fará mal: de contrário, não teríamos, pelo menos, um óptimo filme de Elia Kazan (East Of Eden, 1955), extraído da obra homónima de Steinbeck, e sabe-se lá que nome teria escolhido para si a banda que gravou Mercator Projected (1969) e Snafu (1970). Mas, muito pior do que não ter entendido que o que estava realmente em jogo nesse relato mítico era o conflito histórico entre pastores nómadas e agricultores sedentários, seria ainda ter-nos privado de uma testada matriz de análise sempre à mão para tudo o que tenha a ver com as (frequentemente) problemáticas relações entre irmãos. 



E, para esse efeito, não existe "case study" mais apropriado do que The National: dois pares de irmãos – Scott e Bryan Devendorf, Aaron e Bryce Dessner (gémeos). Só Matt Berninger ficava fraternalmente desemparelhado. Até ao dia em que, preparando-se a banda para a digressão de High Violet, o mano 9 anos mais novo, Tom Berninger, se lhes juntou na qualidade de "roadie". Porém, com uma missão paralela: ele, "metalhead" para quem a música dos National não passa de “pretentious bullshit”, ele, o "underachiever" de uma família de gente bem sucedida que não tem mais para apresentar como CV do que From The Dirt Under His Nails e Wages of Sin – dois filmes domésticos de terror-série-abaixo-de-Z –, ele, o irmão desajeitado, gorducho e bebedolas do belo Matt (também amigo do copo mas com suma elegância), iria rodar um "rockumentary" sobre o grupo e a tournée. As tarefas de "roadie" foram, inevitável e, por vezes, embaraçosamente, desleixadas, mas Mistaken For Stangers (Doclisboa’13, a 29 Outubro e 2 de Novembro, no S. Jorge), o filme, acabaria por ser concluído: menos documentário do que exercício audiovisual de psicoterapia familiar, por entre incipientes tentativas de entrevistas (mas não façamos pouco de perguntas como “Levam a carteira para o palco?” – identicamente interrogado, há anos, Tom Waits respondeu com "à propos": "Nunca se deve levar a carteira para o palco. Não se pode tocar com dinheiro no bolso. Há que tocar como se precisássemos do dinheiro"), imagens de actuações e confusões de bastidores, se fosse intitulado apenas Matt & Tom não seria disparatado. Até porque, por outras palavras e imagens, bem poderia ilustrar o que Dylan Thomas escreveu: “It snowed last year too: I made a snowman and my brother knocked it down and I knocked my brother down and then we had tea”

07 November 2011

INTOCÁVEIS



St. Vincent - Strange Mercy




Laura Marling - A Creature I Don’t Know

Annie Clark diz “Não acontece todos os dias poder subir-se a um palco, vomitar toda a bílis misantrópica que temos cá dentro para cima de uma multidão e ouvi-la pedir ‘Mais!...’”. Laura Marling confessa “Não sou religiosa, não sou romântica, e vivo exclusivamente guiada pela lógica”. Clark (aliás, St. Vincent, por um motivo particular: foi no Saint Vincent’s Catholic Medical Center, de Manhattan, que Dylan Thomas, em 1953, morreu – “É o lugar onde a poesia vem morrer. Sou eu”), quando não emite opiniões como “Não penso, necessariamente, que os seres humanos tenham sido talhados para a monogamia”, gosta de largar pelas canções frases, mais ou menos heterodoxas, do género de “Jesus saves, I spend” ou “We'll do what Mary and Joseph did, without the kid”. Marling, que entende a escrita de canções enquanto pretexto para “manter uma conversa com pessoas com as quais não nos é possível conversar”, desenha, quase subliminarmente, autoretratos – “Cover me up, I’m pale as night, with a mind so dark, and skin so white” – tão exactos quanto inquietantes. E ambas, ao terceiro álbum (e, respectivamente, aos 29 e 21 anos), atingem aquele estatuto de intocabilidade que, habitualmente, exige um pedaço de carreira consideravelmente maior.


St. Vincent - "Cruel"

St. Vincent, é aquilo a que se poderia chamar “drop-out com uma causa”: após ter frequentado, durante três anos, o Berklee College Of Music, desistiu do curso alegando que “chega sempre um momento em que, depois de termos aprendido aquilo que pudermos, devemos esquecer e desaprender tudo para começarmos realmente a fazer música”. E, quando esse momento chegou, em 2003, alistou-se na tripulação dos Polyphonic Spree e, a seguir, na banda de Sufjan Stevens, para, em 2007 e 2009, publicar Marry Me e Actor, pequenos clássicos instantâneos de pop literata e barroca, com tanto de Bowie como de Robert Fripp, dos musicais da Disney (triturados por Tim Burton) ou do cinema de Godard em que uma Anna Karina texana, diante de Paris em chamas, murmurasse “Come sit right here and sleep while I slip poison in your ear”. Strange Mercy, sem contrariar verdadeiramente o que dela conhecíamos, abre mais espaço para a Annie Clark propriamente guitarrista – a que aceita de bom grado ser convidada a saltar na fogueira de versões dos Big Black – e para complexidades estruturais algures entre Björk, Grizzly Bear, Andrew Bird e Dirty Projectors, como luxuoso cenário de sequências de Rohmer vertidas em vocabulário S&M ("Chloe In The Afternoon"), evocações elípticas de Marilyn (“Best, finest surgeon, come cut me open”) e John Barry (a vénia a "You Only Live Twice" de "Surgeon"), e amáveis provocações (”I’ve had good times with some bad guys, I’ve told whole lies with a half smile”).


Laura Marling - "Night After Night"

Musa e diva da cena "nu-folk" londrina que, desde 2007, pariu Johnny Flynn, Mumford & Sons ou Noah & The Whale (“Não havia cena nenhuma, limitámo-nos a descobrir as colecções de discos dos nossos pais todos ao mesmo tempo”), Laura Marling, com os óptimos Alas I Cannot Swim (2008) e I Speak Because I Can (2010), apenas por dois anos não apeara Roddy Frame do posto de génio mais precoce de sempre da pop britânica. Mas, detalhes etários à parte, será muito difícil encontrar uma outra tão amadurecida digestão contemporânea dos êxtases materiais de Judee Sill e Leonard Cohen (a homenagem a este em "Night After Night" não poderia ser mais explícita) ou da ira da primeira PJ Harvey, transportada através de Neil Young, para a fluidez de Joni Mitchell, sob a aprovação insolente de Fiona Apple, do que este magnífico A Creature I Don’t Know.

(2011)

04 October 2010

JOHN CALE - "DO NOT GO GENTLE INTO THAT GOOD NIGHT"



Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at the close of day;
Rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by,
Crying how bright their frail deeds might have danced in a green bay
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on it's way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.


(sugerido nesta caixa de comentários)

(2010)

14 June 2010

CANTOS E LENDAS



Dropkick Murphys - Live on Lansdowne, Boston, Ma

Nenhum lisboeta (ou qualquer outro sábio e atento cidadão do mundo então deambulando pelas coordenadas da arábica Lishbuna), nem excessivamente novo, nem demasiado velho, é digno desse nome se, a 28 de Abril de 1989, não tiver integrado as fileiras dos que acorreram ao Coliseu dos Recreios para um concerto acerca do qual, para quem a ele compareceu, não restará a mais microscópica dúvida ter-se tratado de um daqueles que a memória do planeta deverá registar até à consumação dos tempos. Em palco, na superiormente sublime conflagração entre o catolicismo ortodoxo, o paganismo alcoólico-orgiástico irlandês – perdoem a redundância – e o punk serôdio e, por isso mesmo, mais decadentemente avassalador, os Pogues (quero dizer, Shane MacGowan e comparsas) celebravam os momentos últimos da desmedida embriaguês poética do Ocidente, disparavam para a atmosfera, em fulgurante pirotecnia, os estilhaços da felicidade impossível de todos os Dylan Thomas do mundo, amassavam campo, adro de igreja, bordel, taberna e grande cidade, e, pelo caminho, deixavam uns milhares de almas sem perceber exactamente o que se tinha passado à frente dos seus olhos e ouvidos. Reza a lenda que, horas antes, Shane terá consumido o conteúdo líquido e variado de diversos bares da cidade, sido reanimado da horizontal na calçada de uma avenida da capital à custa de anfetaminas e, em consequência relativamente directa, durante o frenesim do concerto, despojado, por algum fiel mais devoto, do anel “blessed by the Virgin Mary”, por cuja devolução, regressaria, repetidamente, à boca de cena, em angustiada súplica. Mesmo londrina e “modernamente” aculturada, era a Irlanda que ali estava.



Claro que não era. Mas também era. A Irlanda “tigre celta” e a Irlanda falida. A Irlanda das Kilrush, vilas-fantasma, e das Dublin e Sligo, dos Joyce, Wilde e Yeats. A da história muito-pior-que-portugesmente-maldita e a das Westport turísticas do pub de Matt Molloy (dos Chieftains), dos abrigos miseráveis da “fome da batata” ou da Cork à boleia pindérica das “capitais europeias da cultura”. A dos irlandeses do Manchester City e a da imensa diáspora nos EUA. Como a de Boston, com Red Sox, no baseball, Guinness na corrente sanguínea e Dropkick Murphys na música. Agora que o gypsy punk dos Gogol Bordello vacila, podem concentrar-se no Celtic-punk deles. De carreira, são três anos mais velhos mas ainda não optaram pelos aromas tropicais do Brasil. Continuam, casmurramente irlandeses, a festejar todos os St. Patrick’s Days, quais Sex Pistols com o trevo tatuado na testa e o kitsch assaz “celticamente” duvidoso de infantes e adolescentes multicoloridos a saltitarem as ceili dances, pelo meio de uma trupe de matulões tatuados, uns de uniforme negro e outros de kilt, a tocar, desvairadamente, gaita de foles, banjo, guitarras eléctricas, bateria e tin whistle. Martin Scorsese não descansou enquanto não lhes sacou ‘I’m Shipping Up To Boston’ (sobre um texto desenterrado dos arquivos de Woody Guthrie) para The Departed, Bruce Springsteen declarou-se devoto desde que um dos filhos o convenceu a assistir a um concerto e, embora em estado de consciência sempre incerto, o próprio MacGowan lhes deu a bênção.



Ouvindo e vendo o CD e DVD de Live on Lansdowne, Boston, Ma – mais uma tão arrepiante quanto contagiosa festa identitária em tons de verde-terra-de-Ériu-deusa-de-uma-tão-pobre-soberania – não é muito difícil entender porquê: aqueles tipos, apoiantes, muito possivelmente anacrónicos, do sindicalismo AFL-CIO, proletariamente democratas e entusiasmadamente populistas, cantam uma história épica e lendária que as babes loiríssimas e os moços suados que exercitam o mosh, lá em baixo, davam tudo para que, pudesse conter um átomo de verdade. A belíssima narrativa do monge cristão, Naomh Pádraig, que expulsou as serpentes pagãs da ilha esmeralda – por mais pagãos que eles, empedernidamente, continuem a ser – está-lhes demasiadamente agarrada à pele para a poderem esquecer. E, nós (que supomos ter pouco a ver com isso), ainda que convencidos que o Shane do anel da virgem era um enorme poeta demente e eles são apenas diligentes oficiantes do culto, não lhes conseguimos resistir.

(2010)

20 November 2009

ARQUIVO HISTÓRICO


Portrait of the Artist as a Young Dog
(clicar na imagem para ampliar)


(2009)