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21 February 2023

Alguém faça a caridade de explicar ao sábio Júdice que a historieta das "aldeias à la Potemkine" por ele, hoje, na SIC-N, convictamente convertida numa linda história de amor entre Catarina, a Grandessíssima, e Grigory Potemkine, governador da Crimeia, é um "fake" histórico - divertido mas "fake"

02 November 2022

02 March 2022

"The Road"   

(sequência daqui) É, por isso, inteiramente natural que a uma citação do Principezinho, de Saint-Exupéry, se siga outra de Mark Twain (“Some of the worst thing in my life never happened”), que daí se salte para as instalações de Realidade Virtual ou para o Lazzaretto Vecchio, em Veneza, primeira “ilha de quarentena” estabelecida em 1423 para o isolamento de leprosos e das vítimas da Peste Negra, ou que se evoque John Cage que passou muitas horas de deleite, nos bosques, dirigindo interpretações dos seus 4’33” de silêncio. É o próprio Cage – tal como Freud, Brian Eno ou Gertrude Stein - que nos fala pela voz da ventríloqua Laurie que, mais à frente, nos fará passar 2 minutos sob a queda de flores de cerejeira, nos apresentará a Isabella d’Este, "zen master" do Renascimento italiano, à "dérive" Situacionista de Guy Débord e aos jogos de ilusão de Alexandre Potemkine com Catarina a Grande, para, sem transição, comentar “Por falar em realidade, no Texas reabriu a época de caça. Desta vez, às mulheres grávidas”. Afinal, o que é uma história? “Tentar contar a história do fim do mundo é tão difícil como contar a do princípio. Há tantas versões da criação. Somos os primeiros humanos a enfrentar a possibilidade – alguns dizem a probabilidade – da nossa extinção. E somos os primeiros humanos a tentar encontrar as palavras para o dizer. Habitualmente, uma história é algo que contamos a alguém. Mas, se contamos uma história a ninguém, será ainda uma história?” (segue para aqui)

"The City"

01 September 2016

APURAR E DECANTAR

  
Segundo Neil Hannon, aparentemente, o assunto deixa-se esclarecer em poucas palavras: “Suponho que Foreverland foi inspirado pela minha história pessoal dos últimos seis ou sete anos e por documentários de História da BBC4”. Com que andou, então, Hannon ocupado desde que, em Maio de 2010, publicou Bang Goes The Knighthood? Na verdade, toda uma carreira paralela: com Thomas Walsh, dos irlandeses, Pugwash, inventou The Duckworth Lewis Method, cujo primeiro álbum homónimo (2009) era "a kaleidoscopic musical adventure through the beautiful and rather silly world of cricket”, e o segundo, Sticky Wickets (2013), reinvestia na mesma modalidade; no ano seguinte, dedicou-se à escrita de um musical, Swallows and Amazons, a partir de uma série de romances dos anos 30, de Arthur Ransome; em 2012, sobre os Sevastopol Sketches, de Tolstoy, criou a sua primeira ópera, Sevastopol, e, logo a seguir, In May, teatro-musical de câmara com libreto de Frank Alva Buecheler, sob a forma de 24 canções para a voz de Leentje Van de Cruys, o piano de Fredrik Holm, e as cordas do Ligeti Quartet; por fim, há dois anos, estreou To Our Fathers In Distress, uma peça para o orgão recém-restaurado do Royal Festival Hall, côro e ensemble de cordas, dedicada ao pai, bispo da Church Of Ireland e doente de Alzheimer. “With my background in foolish pop, it's still a surprise and an honour to be asked to do such things”, confessaria ele, na altura. 


A modéstia será genuína mas, por muito ligeiras e irónicas que as canções dos Divine Comedy pareçam, ninguém se atreveria a classificá-las como “foolish pop”. Coisa fácil de compreender, aliás, na recente e assaz reveladora entrevista à Boundless, na qual, sem máscaras, desenha a sua genealogia musical: a Electric Light Orchestra, de Roy Wood e Jeff Lynne (“Goste disso ou não, a ELO é a minha mais profunda influência. Na minha música, podem identificar-se tiques da ELO por todo o lado. Posso estar a pensar nos Walker Brothers mas o que sai é ELO”), Scott Walker e “a lot of French stuff” (“No fim da adolescência, andava obcecado com a pop orquestral dos anos 60 e com as canções francesas. Em grande parte, isso deve-se a Scott Walker e às suas interpretações de Jacques Brel. Era tão brutalmente honesto e poético... claro que daí até Gainsbourg e Piaf foi só um salto. E como tambám gostava de cabaret alemão e bandas sonoras de filmes, tudo acabou por se combinar”), e Michael Nyman (“Quando comecei, era uma epítome do puto indie dos anos 80: antes de mais, era fã absoluto dos R.E.M. e dos Pixies e de alguns 'shoegazers' mais obscuros – Pale Saints, Chapterhouse, Ride... mas, quando vi os filmes do Peter Greenaway, fui completamente abalado pelo modo intenso e punk como o Michael Nyman fazia soar um quarteto de cordas. Afastei-me cada vez mais da ideia do quarteto básico de rock. Por volta do meio dos anos 90, tentei articular um pouco as duas coisas”).


Não é preciso lupa para confirmar que, se não surge, realmente, nada de surpreendentemente novo em Foreverland, os traços essenciais da música dos Divine Comedy mantêm-se intactos. A última meia década terá servido para apurar e decantar o estilo mas quem como o diminuto Hannon seria capaz de desenhar, em cinemascope, um auto-retrato em "Napoleon Complex" (“Who pulls the strings, who makes the deals, stands five foot three in Cuban heels?”), fazer transportar (em portentosa música e vídeo mock-Greenaway) o 1.60m para a corte de Catarina da Rússia e, em 3’12”, incluir aula de História e declaração de amor (com “Ekaterina Alexeyevna” como texto da "bridge") ou criar uma BSO de recorte exótico para potencial thriller em "Desperate Man#? Apenas o mesmo Neil Hannon que deixou "Other People" tal qual a gravara no telemóvel, num quarto de hotel, "a cappella", pronta a deixar-se raptar, em voo orquestral, para um céu de Hollywood.

12 July 2016

CZARINA


Os historiadores sérios são uns chatos. Incapazes de transigir perante a verdade dos factos, desmontam impiedosamente fantasias que nos alimentaram a imaginação durante anos. Imaginem o que é, por exemplo, ter acreditado piamente na existência das aldeias “à Potemkine” (verdadeiros cenários de teatro montados por Grigory Potemkine - governador da Crimeia e amante de Catarina, a Grande, da Rússia – para, à passagem da czarina por esse território recém-anexado mas ainda fracamente colonizado, a iludir acerca dessa falha) e descobrir que o estratagema das aldeias portáteis não foi senão um boato malicioso e injustamente exagerado? Não se faz. Neil Hannon, provavelmente, adepto da tese fordiana “When the legend becomes fact, print the legend”, pondo termo a seis anos de hiato discográfico, escolheu precisamente a lenda em torno da princesa alemã Sophie Friederike Auguste von Anhalt-Zerbst-Dornburg, aliás, Yekaterina Alekseyevna ou Catarina II, imperatriz da Rússia, como "teaser" (canção e videoclip "starring" Elina Löwensohn, originária da tribo cinematográfica de Hal Hartley) para Foreverland, o álbum dos Divine Comedy a publicar em Setembro. 


E - assim se deseja e aplaude - o equilíbrio entre verdade e ficção é perfeito. Sob belíssima moldura orquestral-festivaleira, apresenta-nos a personagem: “Let's talk of Catherine the Great, let's talk of love and the power of the state, she was a crazy spontaneous girl, everyone paid homage to her”. Os académicos dificilmente concordarão com a qualificação de “crazy spontaneous” mas, embalados pela melodia que, entretanto, levantou voo, serão obrigados a render-se perante a rima de “brainier” com “Lithuania” (a propósito da relação com Stanislaw Poniatowski, outra das numerosas variáveis da sexualmente voraz Sophie Friederike, na resolução da equação “love vs power of the state”): “There were few brainier, just ask the king of Lithuania, she could dictate what went on anywhere, she had great hair, and a powerful gait, Catherine the Great”. O biógrafo está tão indisfarçavelmente apaixonado (“With her military might, she could defeat anyone that she liked, and she looked so bloody good on a horse, they couldn't wait for her to invade, if I could touch but the hem of her dress, tell her a joke, bake her a cake, Catherine the Great...”) que - adivinha-se -, em sonhos, se imagina nos braços da condessa Praskovya Aleksandrovna Bruce, "l'éprouveuse" dos candidatos ao leito imperial. E, sim, isto é verdade!