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15 July 2015

DESIRE


Aparentemente, a Desire Street, em New Orleans, foi assim chamada num gesto de homenagem ortograficamente equivocado a Désirée Clary, noiva de Joseph Bonaparte, a quem o irmão mais novo, Napoleão, sugeriu, descontraidamente, a troca com a irmã, Marie Julie, ficando ele com Désirée. Joseph e Julie viriam a ser reis de Nápoles, da Sicília e de Espanha mas Désirée, afinal preterida por Napoleão a favor de Joséphine de Beauharnais, acabaria por, após diversos "affaires" cortesãos, tornar-se rainha da Suécia e da Noruega, através do casamento com Jean Bernadotte, aliás, Karl Johan, aliás, Karl XIV da Suécia & Karl III da Noruega – antes disso, por um breve instante, nomeado governador da Louisiana. Assunto convenientemente francófono e promíscuo para a origem do nome de uma rua da cidade baptizada em honra do duque de Orléans, mas mais popular sob a designação de “the Big Easy”. Tennessee Williams, tirando partido da óbvia ambiguidade, já a celebrizara em A Streetcar Named Desire e, agora, é a vez de Rickie Lee Jones, com The Other Side Of Desire, o fazer também. 



Mas, neste caso, tomando como pretexto o facto de, desde 2013, ter passado, realmente, a viver em New Orleans – já aí escrevera o belíssimo Pirates (1981), sumário da história de "love gone wrong" com Tom Waits – , no bairro de Bywater (do outro lado de Desire Street, entre a linha de caminho de ferro e uma curva do Mississippi), o local onde, todos os anos, tem início o desfile de uma das "krewes" do Mardi Gras. A nota de intenções é clara: “Desejo ouvir, mais do que ser ouvida. Este é o meu momento de cantar e cantar-vos-ei tudo o que ouvi. Eis os meus sentimentos desenhados pelas imagens e sons de comboios e rios, o modo como conversam uns com os outros, noite fora (...), a luz através da minha velha janela, a minha determinação, o meu desespero”. E isso traduz-se numa belíssima sequência de canções apimentada pelo “accidental French” de "J’ai Connais Pas" ou "Valtz de Mon Père", pelos amáveis temperos "cajun" e "swamp-pop" (com Fats Domino a espreitar à esquina), devaneios de câmara, quase "lieder" involuntários, honky tonk de terra nas unhas. Se calhar, só um guia inútil: “I’ve been here so long, that I don’t know anymore, I get lost just walking out the door”

23 November 2014

COM UM CÃO DEITADO NO CHÃO

  
“O processo de aprendizagem para os artistas de todos os géneros segue habitualmente a via da imitação, assimilação e inovação. (...) Por vezes, se algo, por algum motivo, se revela impossível de replicar, o artista procura descobrir outro caminho – é a inovação por defeito. (...) Era óbvio que Bob Dylan era um inovador. Esforçava-se para aprender o seu ofício, para imprimir um cunho próprio à música. (...) Aqui e ali, reconhecia possíveis influências. Uma noite, entrou pelo Kettle Of Fish dentro, acenando com uma folha de papel: ‘Têm de ouvir esta canção que acabei de escrever! Escrevi-a ou, pelo menos, julgo que a escrevi... mas posso tê-la escutado algures’, conta Suze Rotolo, a namorada de Dylan nos seus primeiros anos nova-iorquinos, em A Freewheelin’ Time: A Memoir of Greenwich Village in the Sixties (2008).

Em 1967, Dylan havia já completado a aprendizagem – Bringing It All Back Home (1965), Highway 61 Revisited (1965) e Blonde On Blonde (1966) eram bem mais do que licenciatura, mestrado e doutoramento – mas, quando, após o famigerado acidente de moto do ano anterior, decidiu, em pleno Summer Of Love, exilar-se com a família, em Woodstock, na companhia da Band (ainda, então, apenas o grupo de músicos, ex-The Hawks, que o havia acompanhado em tournée), a atitude colectiva foi, essencialmente, a de uma descontraída cimeira de académicos da música popular norte-americana para revisões da matéria: ao universo poético e sonoro do tempo para cuja criação contribuíra, preferia, agora, intermináveis "jams" em torno das memórias de Hank Williams, Johnny Cash, Brendan Behan, John Lee Hooker, Curtis Mayfield, Patsy Cline ou Fats Domino, no cenário ideal de “uma atmosfera tranquila, uma cave com as janelas abertas e um cão deitado no chão” em que ele “actuaria como um médium numa sessão espírita, procurando captar o mistério, a magia e a verdade da grande música tradicional” e, por improváveis atalhos, oferecendo-lhe uma possibilidade de reconfiguração.

O resultado final, só hoje finalmente disponível na totalidade, desaguou em 17 bobinas engarrafadas com 138 canções (completas, em múltiplas "takes", apenas fragmentárias), quase metade versões de clássicos ou obscuridades. Na realidade, pouco ou nada é verdadeiramente inédito. Longamente aferrolhado nos cofres da Columbia até à primeira publicação, em 1975, das mui peneiradas Basement Tapes, o espólio transformou-se num dos mais lendários "bootlegs" que, em sucessivas encarnações – Great White Wonder (1969), Blind Boy Grunt & The Hawks (1986), The Genuine Basement Tapes (1992) A Tree With Roots (2001), Mixing Up The Medicine (2009) – acabaria por revelar praticamente todas as canções que as edições oficiais ou bandas como os Byrds, Band, Manfred Mann, Julie Driscoll & Brian Auger ou Fairport Convention ainda não tinham tornado públicas. A preciosidade legalizada (em versão “Raw”, de 2 CD, ou “Complete”, de 6) intitula-se The Bootleg Series Vol. 11: The Basement Tapes Complete e será, sem dúvida, merecido objecto de veneração. Mas a aura corsária já não está lá.

19 December 2012

“All of it’s acting, really”
 

Charlie Is My Darling/The Rolling Stones Ireland 1965 - Real. Peter Whitehead (DVD) 

Peter Whitehead, ex-aluno do departamento de cinema da Slade School Of Art, em 1965, tinha ainda filmado apenas um documentário educativo sobre ciência (The Perception Of Life) e Wholly Communion – registo da International Poetry Incarnation, um encontro, no Royal Albert Hall, de poetas da "beat generation" (Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso) e satélites situacionistas (Alexander Trocchi) – e não era ainda o herói contracultural em que se transformaria com Tonite Let’s All Make Love In London (1967) e Daddy (1973, com Niki de Saint Phalle). Bastou Wholly Communion, porém, para atrair a atenção de Andrew Loog Oldham, manager dos Rolling Stones, no exacto momento em que estes, com “(I Can’t Get No) Satisfaction”, haviam destronado os Beatles dos tops britânicos e se preparavam para um digressão de dois dias pela Irlanda.




Oldham desafiou-o a filmar a banda, em palco e nos bastidores, tendo como referência A Hard Day’s Night, dos Beatles, e Whitehead olhou-os como, por essa mesma altura (mas só dois anos mais tarde o saberíamos), D.A. Pennebaker observava Dylan, em Dont’Look Back. Charlie Is My Darling (alusão a uma melodia tradicional irlandesa), contudo, ficaria, durante quase cinco décadas, inédito – versões apócrifas de 30 e 50 minutos circularam quase confidencialmente – para ser redescoberto, agora: a preto e branco, durante 62 minutos, Mick Jagger augura que os Stones durarão, no máximo, mais ano e meio; nas salas de Dublin e Belfast, o eficaz quinteto de rock/blues desencadeia tumultos; nos camarins, os Glimmer Twins macaqueiam Elvis e Fats Domino; cá fora, desmontam o jogo (“All of it’s acting, really”), e, no longínquo universo neo-realista que era a Irlanda dos anos 60, assistimos, em directo, ao parto do mundo que conhecemos hoje. 

12 July 2007

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (III)



"Tenho o piano na cozinha. Não uso o frigorífico e o forno é só um isqueiro de tamanho grande.

(...)

"Prefiro mil vezes tocar num clube com o chão coberto de vomitado do que numa universidadezinha toda asseada e cheia de queques com o cabelo cortado à escovinha.

1977


"A verdade é que só me quero casar com uma chefe de claque qualquer no Iowa.

(...)



"O sucesso é puramente relativo: as 'bombas' de uns transformam-se em oiro e os êxitos de outros só permanecem nas tabelas de vendas um ou dois meses. Tenho uma certa tendência para viver num estado de pobreza auto-imposta mas também sempre vivi assim. Tudo o que preciso é de um maço de cigarros e de uma garrafa de bourbon. Ná, também não me vou armar em sentimental... Quero mais do que isso. Quero uma sanduiche mas o restaurante está fechado.

1978


"Recordo-me de ir a bares com o meu pai quando era ainda muito miúdo. Trepava para o banco do bar como se fosse o Jungle Jim e sentava-me ali com ele que não se cansava de me contar histórias. Também me recordo de viajarmos muito pelo México, pois o meu pai era professor de espanhol. Uma vez, por volta de 1957, estávamos no Goodyear Boulevard e um acelera de moto parou ao nosso lado, na luz vermelha de um semáforo. Ali estava aquele tipo de cabelo loiro penteado com brilhantina todo para trás, uma tatuagem e uma pulseira com o nome dele, de óculos escuros e cigarro na boca. A namorada tinha os olhos maquilhados de negro, estavam a beber cerveja e a ouvir o Fats Domino. O meu pai olhou para mim e disse-me: 'Se alguma vez andares com o cabelo assim, dou cabo de ti'.

(...)

"O primeiro concerto a que assisti foi um do James Brown com os Famous Flames. Na primeira parte, era a Martha Reeves and The Vandellas. Uma vez, fiz eu a primeira parte dela, em Detroit, e correram comigo. Mas essa foi uma das primeiras coisas que eu vi. Fiquei de rastos. Era como ir à igreja. Ele cantou uma versão de, sei lá, 27 minutos de 'It's A Man's World'. Nem podia crer. O meu saxofonista Herbert Hardesty costumava tocar com ele.

(...)

"Comecei a escrever canções por volta dos dezanove ou vinte anos mas não eram grande coisa. Acho que tenho vindo a progredir. Escrevi 'Blue Valentines' num mês. Toda. Gostava de poder ter incluído a conta de bebidas nas despesas.

1979

(2007)