12 July 2007

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (III)



"Tenho o piano na cozinha. Não uso o frigorífico e o forno é só um isqueiro de tamanho grande.

(...)

"Prefiro mil vezes tocar num clube com o chão coberto de vomitado do que numa universidadezinha toda asseada e cheia de queques com o cabelo cortado à escovinha.

1977


"A verdade é que só me quero casar com uma chefe de claque qualquer no Iowa.

(...)



"O sucesso é puramente relativo: as 'bombas' de uns transformam-se em oiro e os êxitos de outros só permanecem nas tabelas de vendas um ou dois meses. Tenho uma certa tendência para viver num estado de pobreza auto-imposta mas também sempre vivi assim. Tudo o que preciso é de um maço de cigarros e de uma garrafa de bourbon. Ná, também não me vou armar em sentimental... Quero mais do que isso. Quero uma sanduiche mas o restaurante está fechado.

1978


"Recordo-me de ir a bares com o meu pai quando era ainda muito miúdo. Trepava para o banco do bar como se fosse o Jungle Jim e sentava-me ali com ele que não se cansava de me contar histórias. Também me recordo de viajarmos muito pelo México, pois o meu pai era professor de espanhol. Uma vez, por volta de 1957, estávamos no Goodyear Boulevard e um acelera de moto parou ao nosso lado, na luz vermelha de um semáforo. Ali estava aquele tipo de cabelo loiro penteado com brilhantina todo para trás, uma tatuagem e uma pulseira com o nome dele, de óculos escuros e cigarro na boca. A namorada tinha os olhos maquilhados de negro, estavam a beber cerveja e a ouvir o Fats Domino. O meu pai olhou para mim e disse-me: 'Se alguma vez andares com o cabelo assim, dou cabo de ti'.

(...)

"O primeiro concerto a que assisti foi um do James Brown com os Famous Flames. Na primeira parte, era a Martha Reeves and The Vandellas. Uma vez, fiz eu a primeira parte dela, em Detroit, e correram comigo. Mas essa foi uma das primeiras coisas que eu vi. Fiquei de rastos. Era como ir à igreja. Ele cantou uma versão de, sei lá, 27 minutos de 'It's A Man's World'. Nem podia crer. O meu saxofonista Herbert Hardesty costumava tocar com ele.

(...)

"Comecei a escrever canções por volta dos dezanove ou vinte anos mas não eram grande coisa. Acho que tenho vindo a progredir. Escrevi 'Blue Valentines' num mês. Toda. Gostava de poder ter incluído a conta de bebidas nas despesas.

1979

(2007)

3 comments:

Ana Cristina Leonardo said...

Nhac. Nhac. Acho que mais tarde ou mais cedo irei roubar-te uma citação ou duas para os meus Pensamentos Reconfortantes Antes De Ir Para A Cama.

João Lisboa said...

O poço não tem fundo.

Anonymous said...

Gostava de enviar um email àcerca do Blog, mas não tenho nenhum endereço de email. Posso?

Eduardo Santos