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10 January 2025

"Se o Gato Fosse Só Gato"
 
(sequência daqui) Por essa altura, já interiorizara alguns dos muito mais do que 10 mandamentos que o Felis Catus, ao longo dos séculos, foi revelando a alguns dos infinitamente inferiores humanos cuidadosamente seleccionados : "O mais pequeno felino é uma obra-prima" (Leonardo Da Vinci); "Vivi com diversos mestres Zen - eram todos gatos" (Eckhart Tolle); "Não há gatos vulgares" (Colette); e "Na antiguidade, os gatos eram venerados como deuses; nunca se esqueceram disso" (Terry Prattchett) são apenas alguns dos muitos dogmas da felinologia cujas declinações Amélia Muge foi investigar junto de autores como Hélia Correia, Ary dos Santos, Manuel António Pina, Fernando Pessoa, José Jorge Letria, Teresa Muge, Eugénio Lisboa, W.B. Yeats e Charles Baudelaire. Daí - acrescentando-se aos 31 poemas - resultaram 16 canções (acessíveis através de código QR presente no livro), na voz de Amélia, dois coros infantis (um da Póvoa de Varzim e outro de Linda-a-Velha), na guitarra de André Santos, de um quarteto de cordas e no ilusionismo electrónico de José Martins. E também na voz de Hélia que, em "Se o Gato Fosse Só Gato", repete a proeza vocal do "Epitáfio de Seikilos", do álbum Periplus (2012): "Tive a sorte de ter a Hélia Correia a responder a uma chamada e a um pedido urgente de poema - escreveu a 'Deusa' - que, para minha desgraça, me remeteu para um lado mais oriental que, para cantar, é um bocadinho complicado. Caio sempre na mesma esparrela: alguma coisa transporta-me para determinado ambiente e nem sequer penso na dificuldade que irá ser cantá-lo. Mas estou aqui para servir os poemas, se eles me põem trabalhos, que remédio tenho eu senão aceitar isso?... Por outro lado, a Hélia já tinha cantado no 'Seikilos' que era um tema sagrado. E não me parece que, para ela, o tema sagrado fosse mais sagrado do que os gatos". (segue para aqui)

03 January 2025

EM LOUVOR DO GATO 

"Quando este trabalho começou, não me apercebi que ele já tinha começado", diz Amélia Muge com a maior naturalidade deste mundo, a propósito de Um Gato É Um Gato, o livro/disco que acaba de publicar. Mas, se lhe oferecermos algum conforto contextual, talvez se entenda melhor o que ela pretende dizer: nos 30 anos entre Múgica (1992) e Amélias (2022) - duas variações sobre o proprio nome -, acham-se cuidadosamente arrumados 10 álbuns de originais. Aos quais poderiam acrescentar-se múltiplas colaborações com tão preciosa gente como José Mário Branco, Camané, Gaiteiros de Lisboa, Michales Loukovikas, Cristina Branco, as vozes búlgaras do Pirin Folk Ensemble, Camerata Meiga e vários outros. O que importa, porém, é aquela, dir-se-ia, matematicamente planeada relação 30anos/10 discos. Tanto assim que ela mesma pareceu acreditar nessa espécie de número de ouro: "Quando acabei o Amélias, disse 'Não faço mais disco nenhum!' e essa era, realmente, a minha intenção". (daqui; segue para aqui)

"Deusa" (H. Correia)

18 April 2022

"A Prenda dos Amantes"

(sequência daqui) O método arquitectural-Martins? “Além da melodia, temos as quatro vozes de um côro clássico (soprano, alto, tenor e baixo/barítono). Dobradas, são sempre oito vozes que estão ali”. Adaptadas e configuradas à medida de cada canção: “O arranque de ‘O Meu Coração Emigrou’ é um acorde-pedal feito por um brinquedo, um pião, que, quando é posto a girar, emite um som, um pouco como o das taças tibetanas. ‘A Prenda dos Amantes’ é o único tema em que a Amélia está sozinha a cantar (ou quase). Electronicamente, criei duas caixas de ritmo e um xilofone. Só no refrão aparece outra voz e o violoncelo da Catarina”. Abandonadas na oficina, à espera de reparação ou do raio-Frankenstein que lhes insuflasse vida feliz, estiveram "D. Falcão" (“Este poema da Hélia Correia é um dos temas mais antigos. Esteve quase para entrar no Taco A Taco. Deixei-o em suspenso porque a melodia nunca me agradou muito, o lado instrumental também não, nunca conseguiu descolar. Retrabalhei a melodia, e introduzi-lhe algumas variações que faziam falta”), "Fica Mais Um Bocadinho" (“Foi composto pelo Michales Loukovikas para as Maria Monda que não chegaram a cantá-lo. É dos temas que mais vai ser transformado ao vivo. Dá muito mais pano para mangas, é um tema em transito”) e "Un Recuerdo" (“Há muito tempo que me apetecia fazer alguma coisa com a poesia da Alfonsina Storni. Seria possível fazer um tango só com vozes? Foi o tema mais difícil. Todas estas sílabas são dificílimas de dizer, quase desisti. Foi preciso abandoná-lo duas ou três vezes...”). E, a deixar portas abertas, há a "Versão Condensada do Nascimento dos Desertos": “Tinha este poema há muito tempo. A música foi já feita completamente dentro do espírito das vozes. É mais outra daquelas sobre as quais, em palco, vou variar imenso. Posso fazer o que quiser porque, sobre esta base, ficará sempre bem”. Ou apenas entreabertas: “Do Múgica – que era uma matriz de caminhos musicais onde estava já tudo que, depois, fui aprofundando - a Amélias, comecei com o nome de família, vou acabar com o nome próprio. Não sei se acaba mesmo ou se fecha apenas um ciclo. Não sei como vou iniciar outro. Se calhar, já não o farei”.

29 November 2017

NÓS


“Para quê, para que servem os poetas em tempo de indigência?”, pergunta Hélia Correia pela voz de Amélia Muge, citando o Hölderlin de “Pão e Vinho”. Não terão, porventura, ainda reparado mas, no que acabaram de ler, está, senão a totalidade, pelo menos, a semente de Archipelagos - Passagens, de Amélia Muge e Michales Loukovikas. Esta atribuição de autoria está, entretanto, tremendamente amputada. Acrescentem-se, então, como se deve, Armando Soares, Euripides, Fernando Lopes-Graça, Fernando Pessoa (bilingue), Giorgos Andreou, Giorgos Mitsakis, João de Deus, José Gomes Ferreira, José Niza, José Saramago, Beethoven, Manos Achalinotópoulos, Martín Codax, Panagiotis Tountas, Rosalía de Castro, Safo, Vasilis Tsitsanis e Violeta Parra. Aos quais, enquanto co-autores, haverá de se adicionar António José Martins e Filipe Raposo, duas dezenas de instrumentistas lusos e helénicos, três corais, a Orquestra de Cordas Palhetadas Tanassis Tsipinakis, e as vozes (faladas) de Maria José Muge e Hélia Correia.



Talvez não capaz de rivalizar com as 18 000 ilhas do arquipélago da Indonésia, mas, ainda assim, quanto basta para, em exercício de geometria vertiginosamente variável, os articular num amplo mapa que se alarga do Médio Oriente à Macaronésia (Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde), do Mediterrâneo ao Atlântico. Esta, a cartografia exterior. Porque aquilo a que, na verdade, deverá prestar-se atenção é ao labirinto de sentidos, palavras e ideias que é obrigatório percorrer para que “Nós, os ateus, nós, os monoteístas, nós, os que reduzimos a beleza a pequenas tarefas, nós, os pobres adornados, os pobres confortáveis, os que a si mesmos se vigarizavam olhando para cima, para as torres, supondo que as podiam habitar” consigamos descobrir o que há de comum e o que distingue Ítaca da Utopia, de Thomas More, como navegar entre "bulerias" e mornas nas ondas de Codax, qual o elo entre a Trácia e a Galiza, entre divertimentos exdrúxulos e as personas de Pessoa. Com a bússola de A Terceira Miséria, de Hélia, nas mãos de Amélia Loukovikas, a (des)orientar o percurso dos “emudecidos, irmanados com os sem-terra, nós, os futuramente esfomeados, bárbaros com os pés no alcatrão, bebedores de petróleo” que se interrogam: “De que armas disporemos, se não destas que estão dentro do corpo: o pensamento, a ideia de polis, resgatada de um grande abuso, uma noção de casa e de hospitalidade e de barulho?”.

28 November 2017

A IDENTIDADE É UM BICHO IRREQUIETO


Amélia Muge e Michales Loukovikas tinham-se encontrado, pela primeira vez, há seis anos, à volta de O Ouro do Céu, livro e CD contendo a poesia de Ares Alexandrou. Logo a seguir, em 2012, Periplus - Deambulações Luso-Gregas propunha-se aferir “a possibilidade de partilha de um território cultural e musical por Portugal e pela Grécia” apenas subordinado a uma fantasia: “ser marinheiro de um barco grego que entra num porto e se apercebe que está lá fundeado um barco português; à noite, vamos à única taberna do porto e os gregos começam a cantar as suas canções, depois, os portugueses, e, no final, acabamos a cantar juntos”. Após o entreacto de Amélia Com Versos de Amália (2014) em que voltaram a colaborar, agora, portos e embarcações multiplicaram-se em Archipelagos - Passagens

O plano de viagens ampliou-se consideravelmente... 
Michales Loukovikas - Continuamos em plena água! Temos um imenso mar para navegar...
Amélia Muge - Dissemos que foi por um mero acaso que o Periplus apareceu numa altura em que a Grécia estava a ser tão falada. Se não fosse a Internet e ter olhado para uma página onde vi um senhor que me parecia vagamente o Pai Natal de férias, com aquela poesia fantástica do Ares Alexandrou, as coisas não teriam acontecido. Desta vez, o que espoletou este trabalho foi o convite da Aida Tavares, programadora do S. Luiz, para fazermos um concerto que não fosse exactamente o Periplus. Fazer, então, o quê? Não vamos ter este trabalho todo só para um concerto, vamos fazer um disco. Agora estamos numa fase como a da mãe que acaba de ter um filho e grita “Nunca mais!...”, porque, realmente, dá muito trabalho.  

Não navegaram sempre à vista da costa... 
ML - Não foi uma escolha muito consciente. O Periplus foi um momento de encontro. Mas também um diário de bordo. Navegámos por um mar onde nunca havíamos estado mas guardando o conhecimento dos viajantes anteriores. Agora, fizemo-nos ao mar, já sabemos orientar-nos pela Estrela Polar. 
AM - Pensámos que poderíamos pegar num dos pontos do Periplus e alargá-lo. As ilhas, como metáfora, podem levar a muitos lados mas, pensando só em nós dois, já há duas ilhas. O que basta para fazer um arquipélago. Pensamos sempre nas ilhas como coisas isoladas mas, se há quem se veja obrigado a dominar a arte dos contactos, são os ilhéus. 
ML - Tive um programa de rádio – "Mesogeíou Paráplus" (Viajar pelo Mediterrâneo) – de onde veio Periplus. Desta vez, propus Archipelagos. E o poder das coincidências revelou-se logo: o poema da Hélia Correia, A Terceira Miséria, que é um dos pilares deste álbum, começa com uma citação de Hölderlin cujo poema mais extenso se chama... Arquipélago! Transformou-se, assim, no ponto de partida da nossa viagem. 
AM - Temos umas três ou quatro folhas com títulos possíveis... alguns transformaram-se em títulos das sequências, como foi o caso das “Ilhas Imaginárias”.


Em vez de realçar as marcas das músicas nacionais, vocês parecem procurar uma espécie de lugar no qual já não é possível dizer exactamente onde acaba a Grécia e começam Portugal ou Cabo Verde...
AM - Não diria que é uma coisa instintiva porque os intintos também vão mudando ao longo da vida. Não sei se será por ter nascido em Moçambique mas sempre pensei que a identidade é um bicho muito irrequieto... Quando fiz o Não Sou Daqui, não estava a dizer que não era de um sítio, dizia que não era de um sítio enquanto não me apropriasse dele. As identidades, quando estão muito fechadas em certezas, acabam por ser daninhas para o peito. A última coisa que me apeteceria fazer era um trabalho onde dissesse ‘aqui está o melhor da nossa portugalidade!...’ E, se tivesse à minha frente alguém que quisesse fazer o mesmo, não o faria comigo, de certeza. Quando já passámos a fase da mansarda, quando não se tem como vocação o isolamento, fazemos o que diz o Hölderlin no início do poema: Onde está Atenas? Resta ainda algum sinal dela para que o marinheiro de passagem a possa mencionar ou lembrar?!” Haverá aqui alguma coisa que valha a pena mencionar ou lembrar, grego, português, português com ligações à língua inglesa como o Pessoa de "The Hours", grego até com vontade de compor uma buleria? Vamos a isso, desde que não se transforme numa confusão em que não seja possível fazer viagem nenhuma. Desde que as coisas possam reagir umas com as outras e isso crie um outro sentido. 


Pegam, então, numa melodia ou num ritmo apenas como matéria-prima musical independentemente da proveniência? 
ML - Quando era miúdo, tocava com o meu pai num grupo que interpretava música de todo o mundo. Era fantástico. Depois, à medida que ia crescendo, fui-me apercebendo de que a Grécia tem uma tradição musical riquíssima oriunda da Ásia Menor, da Itália, dos Balcãs... é impossível falar de uma música grega “pura”, tal coisa não existe. Em lado nenhum. Há anos escrevi um artigo em que demonstrava que nenhum dos antigos instrumentos gregos, era grego! O único indiscutivelmente de origem grega é o hydraulis (orgão hidráulico)! Não consigo ir além de dizer que sou mediterrânico.
AM - Os problemas poderão ter a ver com modelos de linguagem: por exemplo, como compor para aquele poema da Hélia que vem no arrasto do decassílabo, do verso branco? 
ML - Por acaso, em "A Ruína da Grécia", mal ouvi “Nós, os ateus, nós, os monoteístas, nós, os que reduzimos a beleza a pequenas tarefas...” surgiu-me logo a ideia para a melodia... 
AM - Por outro lado ainda, há a certeza de que, qualquer coisa que nós façamos, acaba por ter um eco qualquer do que já foi feito. Nomeadamente, quando adaptamos o 2º andamento da Eroica, do Beethoven, lembramo-nos das tristes experiências que existiram quando se tentou transformar em canto partituras clássicas. Mas, para mim, A Terceira Miséria, da Hélia, é o texto mais surpreendente no que respeita a uma reflexão não estritamente política. É política porque tem a ver connosco – estamos todos envolvidos nestas causas e nos efeitos do que se está a passar – e pondo tanto o dedo em nós. (Teatro São Luiz - Sala Luis Miguel Cintra, quarta-feira 29, 21h)

01 July 2016

"Desejos que pareciam repugnantes como a expulsão daquele que é estranho ao nosso clã sobem do cérebro reptiliano até à fronte e ali inscrevem novamente uma brutalidade primitiva que, confessemos, preservou o género humano: o egoísmo da sobrevivência. Pois é a vida, a física e do espírito, o que está a correr um grande risco aqui. A ironia da História é que podemos fazer tudo o que sempre desejámos, manifestar, falar, votar e debater, respeitar o diferente, instituir os cuidados gratuitos, isto é, ser cidadão num Estado de confiança e representação. Festejámos demais, dançámos muito, os que estavam na classe dos criados passaram num abuso para os salões? Dizem que fomos nós, os preguiçosos, os gulosos do Sul, quem fez gorar o projecto da coisa. Por mim, pequena portuguesa, dou o exemplo: vou buscar o esfregão e a vassoura, antes que algum refugiado mos cobice" (Hélia Correia)

Pieter Bruegel, o Jovem (1564 - 1638)

20 August 2015

MR. JONES

Conta Alberto Manguel, em Uma História da Leitura (1996), que "o universo, na tradição judaico-cristã, é concebido como um livro escrito, feito de números e letras; a chave para o compreender reside na nossa capacidade para ler estes números e letras adequadamente e conseguir o domínio das suas combinações, aprendendo, assim, a dar forma a alguma parte desse texto colossal, numa imitação do criador”. E, optando por uma perspectiva utilitária mas, certamente, não de menor importância, refere uma lenda do século IV segundo a qual os eruditos talmúdicos Hanani e Hoshaiah estudavam o Sefer Yetzirah (ou “Livro da Criação”, o mais antigo texto clássico do esoterismo judaico, atribuído a Abraão) uma vez por semana e, através da combinação acertada das letras, criavam um vitelo de três anos que comiam ao jantar. Exactamente há 50 anos, o judeu-norte-americano, Robert Allen Zimmerman, aliás, Bob Dylan, numa canção – "Ballad Of A Thin Man", de Highway 61 Revisited – gravada a 2 de Agosto de 1965 e interpretada ao vivo, pela primeira vez, 26 dias depois, em Forest Hills, Nova Iorque, escarnecia de quem, perante um mundo que mudava rapidamente de pele, era totalmente incapaz de o ler: “Because something is happening here, but you don’t know what it is, do you, Mr. Jones?”

Stephen Malkmus & The Million Dollar Bashers - Banda sonora de I'm Not There (real. Todd Haynes, 2007)
 
Até hoje, multiplicaram-se as interpretações acerca de quem, na realidade, seria Mr. Jones (a tendência para o "gossip" obcecado com a árvore em detrimento da floresta é antiga) mas seria Momus que, em "Who Is Mr Jones?" (The Little Red Songbook, 1998), daria a resposta definitiva: “Bob Dylan at the height of his fame got asked the same question again and again, in a forest of microphones, 'Tell us, Bob, who really, who really is Mr. Jones?' (…) He's a real person, you know him, you don't have to be so imaginative, the answer is blindingly obvious: Mr. Jones is a man who doesn't know who Mr. Jones is”. A verdade é que o mundo se tornou vertiginosamente indecifrável e somos cada vez mais os que, todos os dias, ao despertar de sonhos intranquilos, nos descobrimos, tomados de pânico samsiano, convertidos não em barata mas em réplica de Mr. Jones - como, por outras palavras, diria o também visceralmente judeu Woody Allen: “Deus morreu, Marx morreu e eu próprio não me sinto lá muito bem”. O testemunho mais recente, num dos últimos números do “Jornal de Letras”, é da nada judaica e bem mais helénica Hélia Correia: “Estou sem coordenadas e oscilo (...). Não sei o que é pensar. Como se pensa?”

21 January 2014

"Por que usam a palavra 'austeridade'? Porque há nela uma certa ressonância de coisa justa, de atitude respeitável. Alexandre Herculano foi austero. Sóbrio, frugal, um tanto seco na expressão, honesto, incorruptível — isso mesmo. A austeridade é um estádio a que se chega num percurso moral muito esforçado. É um modo de vida, uma atitude pela qual alguém opta, numa escolha inteiramente pessoal, quando recusa render-se ao luxuoso e ao supérfluo. Classificar alguém de 'austero' significa que lhe atribuímos qualidades pouco usuais no cidadão vulgar. Ouvimos a palavra e logo o nosso dicionário subconsciente nos assinala que é para respeitar, acatar e temer. Se há uma 'austeridade' que castiga é porque andámos na dissipação. Pressupõe-se que nós baixemos a cabeça sob o pecado que a palavra implica. 

Na verdade, não há 'austeridade' aqui. Há alguém empurrado para a miséria. É um processo involuntário, imposto por uma força superior, neste sentido de que não pode desobedecer-se. E imposto, no sentido, também, da inocência. Estamos a pagar o quê, porquê? Em que momento é que prevaricámos? Foi a comprar mais um televisor, foi a escolhermos uma sala com lareira? Nós aprendemos, no devido tempo, que não podemos alegar ignorância da lei se a violámos, mas havia uma lei contra o conforto? Havia alguma lei que proibisse os filhos de viverem como tinham vivido os patrões dos seus pais? 

Devo dizer aqui que o consumismo me desperta uma viva repugnância, que admiro e sigo, porque quero, a vida 'austera'. Mas, porque eu ando de transportes públicos, entenderei que a compra de um automóvel deve entregar o cidadão ao agiota? Estou a falar de pequeninas coisas, de minúsculas coisas que não chegam para lançar uma pessoa no inferno. O grande gasto, o gasto vil, onde se oculta? Não, não nos pedem a 'austeridade'. Eles exigem a pobreza e as suas consequências. Não, não fizemos mal. O que fizemos foi por fraqueza de desprevenidos ante a perversidade dos banqueiros. Não nos aliciavam com empréstimos? A bruxa má não estava a oferecer maçãs? Ficaremos agora deitados no caixão, narcolépticos, à espera de algum príncipe? (...) 

Estamos num tempo novo, rodeados por luz e escuridão para as quais não temos nem mapa nem farol. Temos modelos tão inspiradores como remotos. Certo é que a palavra é a obra do humano e a palavra não cessa de existir. Com palavras se fazem os fascismos, e Magnas Cartas e as Constituições. Cultivá-las, estudá-las, não nos salva talvez. Mas dignifica-nos. E se podemos aprender algo com o passado, antes de o perdermos completamente de vista, é que a dignidade se conquista e que a indignação a isso ajuda" (Hélia Correia)

06 May 2012

(O 2º ANO A SEGUIR AO) ANO DO TIGRE (LXXXVIII) 

















"Longas memórias de perseguição junto com outras longas histórias de endeusamento fazem com que ainda às vezes se baralhem com o lugar do humano no seu mundo. Estão sempre à espera de se deparar com a superstição medieval ou com a veneração egípcia, sendo que nenhuma os deixa muito descansados pois viciam o jogo das distâncias. É necessário que a distância se estabeleça entre as raças, primeiro: eles e nós. Quando isso está seguro e se o ritual lhes agradou em pleno, é possível que saltem para o colo. Ou para a nuca, como alguns originais: o meu amigo Bowie (tem um olho de cada cor), por exemplo". (Hélia Correia, "Mistério e Sabedoria")

01 March 2012

SOMOS TODOS GREGOS
(sequência daqui)


Amélia Muge/Michales Loukovikas - Periplus – Deambulações Luso-Gregas

Uma das mais antigas descrições dos povos que habitavam o litoral ocidental da Península Ibérica, a Orla Marítima, de Rufio Festo Avieno, escrita no século IV d.C., é maravilhosa e apropriadamente fantasiosa: sob a forma de poema, transcreve – com diversas interpolações – fragmentos do périplo de um marinheiro grego de Marselha (o “périplo massaliota”) que, mil anos antes, o terá escrito, em boa parte, a partir de informações em segunda e terceira mão. O Periplus que Amélia Muge (portuguesa de Moçambique) e Michales Loukovikas (grego da Trácia) realizaram teve origem em navegações por mares mais modernos e tecnológicos (“Porque falamos de navegar na Net? Os mails que viajaram de mim para o Michales e do Michales para mim, no fundo, não são uma viagem de ideias e de territórios de conhecimento e de criação? Quanto mais se anda para trás, mais percebemos a actualidade de pensar esta ideia da viagem e da cartografia que pode ser aplicada a tudo”, diz Amélia) mas as rotas não foram muito diferentes das primordiais: “Os mapas dessas épocas também são muito interessantes. O Michales reuniu uma colecção de mais de 50. O que ali vemos não é a Terra mas a representação da Terra tal como era imaginada na altura. África, por exemplo, era um vago triângulo para Sul do Mediterrâneo. Para mim, este Periplus é, de certo modo, uma recriação dessa geografia mental e da possibilidade de partilha deste território cultural e musical por Portugal e pela Grécia. Ou, pelo menos, pela Amélia e pelo Michales. Porque é capaz de haver tantos Portugais quantos os portugueses e tantas Grécias quantos os gregos. Se calhar, os nossos mapas mentais, quando começamos a desenhá-los, têm a mesma aparência dos primeiros mapas do mundo”.

Ares Alexandrou

Mediterrâneo, portanto. Que teve como porto de partida para a sua exploração o interesse pela obra do poeta grego Ares Alexandrou (traduzida por Amélia e musicado por Michales, editado em livro-disco no ano passado sob o título O Ouro do Céu) e se prolongou através de uma busca intuitiva de pontos de contacto e traços de identidade comuns que, segundo Michales Loukovikas – fisionomicamente, a "spitting image" de Luís de Camões, sem a pala –, basta descobrir: “As ligações estão lá. Os mitos - como o de Ulisses, Calipso e Abidis que terão dado origem ao nome de Scalabis (Santarém) – demonstram que, pelo menos, pensamos na possibilidade de existir uma proximidade genética e cultural entre gregos, lusitanos e ibéricos em geral. Não é história antiga, é actual. Criamos coisas novas, hoje, a partir de uma raiz comum”. Daí que o fado se cruze com a rebetika, pentatonismos africanos e epiróticos coexistam pacífica e festivamente, tascas e tavernas acolham navegantes sem exigência de BI, e, onde se esperaria um coro grego, se escute, a Outra Voz, colectivo vimaranense criado por ocasião da capital europeia da cultura, onde Periplus se estreou em palco. “Nada foi premeditado”, assegura Michales, “o Periplus começou realmente quando a Amélia me enviou um mp3 de 'Nota Ilegal' (poema de Alessandrou e música de Michales) traduzida para português e cantada por ela. Ouvi e disse ‘Mas isto é um fado! Eu compus um fado!...’ Mais tarde, enviei-lhe outras canções tradicionais gregas; uma delas, ‘A Folha da Rosa”, depois de traduzida, também ela descobriu que existia uma exactamente igual em Portugal e aconteceu o mesmo com uma canção de Creta, ‘Pesada Como O Ferro’, que era idêntica a uma canção medieval. E, ao enviar-me a primeira parte do ‘Canto Em Periplus’, apercebi-me que a melodia era igual à do ‘Seikilos’ (o mais antigo exemplo de uma composição musical completa, incluindo notação musical e letra, no mundo ocidental, no disco traduzido e cantado por Hélia Correia)!...”


Esta redefinição de familiaridades antigas arrastou, então consigo, um vasto contingente de músicos, gregos e lusos (Filipe Raposo, José Salgueiro, Ricardo Parreira, gente dos Gaiteiros de Lisboa, Eleni Tsaligopoulou...), artistas, poetas. E coloca, inevitavelmente, a interrogação de porquê – justamente agora e no quadro de sarilhos europeus em que Portugal e a Grécia se encontram – uma tal cimeira haveria de ocorrer: “Porquê? A troika proibiu? Nós começámos antes!...”, grita Michales, “Não somos políticos, somos músicos. Mas o sentido político já lá estava desde que apresentámos O Ouro do Céu. Não somos uma troika, somos um duo que gosta de trabalhar sobre coisas boas, coisas que unem”. E Amélia Muge acrescenta: “Obviamente, quando se faz um trabalho destes com o cenário que temos, a realidade esborracha-nos o nariz. Quando nos dizem que nos andámos a portar mal – nós que fomos sempre tão bem comportadinhos e dissemos sim a tudo -, toda a gente se sente um bocado perplexa: vamos para a rua com cartazes, ‘a luta continua’, o quê? Esta viagem não é um cruzeiro mediterrânico: traz a ideia de que muito daquilo que somos também existe do outro lado. A verdadeira união não nasce apenas da simpatia mas, sim, quando criamos sentimentos de afecto através do conhecimento”. Porém, se o espírito, tal como o recorda Michales, foi o da fantasia “de ser marinheiro de um barco grego que entra num porto e se apercebe que está lá fundeado um barco português; à noite, vamos à única taberna do porto e os gregos começam a cantar as suas canções, depois, os portugueses, e, no final, acabamos todos a cantar juntos”, na verdade, diz, com todas as letras, algo francamente mais importante que, isso sim, parece ter-se tornado proibido afirmar: somos todos gregos, somos todos portugueses.

(2012)

28 August 2010

ANO DO TIGRE (XIV)

Emily Duncan e Melissa (tigres de Hélia Correia)






(2010)

06 April 2010

"DESCOBRI QUE AQUELA FIGURA SE CHAMAVA ELIZABETH SIDDAL"


"Foi uma paixão pela imagem, pelo quadro da 'Ofélia', do [John Everett] Millais (1851-52). Uma grande paixão, um 'coup de foudre'. Essa imagem acompanhou-me sempre. E depois [continuou] durante a vida, sempre com a minha fortíssima anglofilia a dominar sobre a minha formação românica, francesa. Tem sido sempre assim e isso é uma coisa boa que me tem acontecido: como não é uma cultura académica, é sempre uma descoberta pessoal, não vai orientada por ninguém. Aos poucos, com todo o século XIX inglês, fui descobrindo a existência de personagens. Descobri que aquela figura se chamava Elizabeth Siddal. Foi um encontro continuado que se foi aprofundando.

"Ophelia", John Everett Millais, 1851-52

Mas tenho esse encontro com muita gente, com Emily Brontë [escritora inglesa do século XIX], com Isadora Duncan [bailarina americana do final do século XIX], pessoas minhas, da minha vida, do meu dia-a-dia. Pessoas com as quais estou, muito naturalmente. Depois, à medida que fui aprofundado, a história começou a transformar-se numa história de amor extraordinária. Chegou a altura em que também, sem qualquer objectivo, por pura curiosidade, como leio todas as coisas que se referem à Inglaterra do século XIX, cheguei às biografias. Por acaso, a primeira até era uma biografia francesa do Dante Gabriel Rossetti, e deparei-me com esta história de amor lindíssima. Fui por aí fora, nos trabalhos biográficos sobre os pré-rafaelitas, que são muitos. E descobri uma segunda coisa fascinante, dava-me a impressão de que eles não percebiam nada. (...)



Toquei, com a mão, na única folha que chegou até nós, do caderno que foi enterrado [Dante Gabriel Rossetti enterrou os seus versos nos cabelos de Lizzie]. (...) Isso é material altamente reservado, tal como a madeixa do cabelo de Rossetti, que está em Cambridge. Consegui que uma amiga (e os amigos não precisam de ser de grande convívio, mas de grandes gestos) do British Council, Carolina Trewinnard, escrevesse uma carta de recomendação que me deu acesso a estas relíquias absolutas: cartas, o cabelo e essa folha. Fiz toda a pesquisa com o meu namorado, uma pesquisa a dois. A recomendação da British Library foi que só uma pessoa podia folhear e sob alta vigilância. (...) É claro que não obedecemos. [risos] Vieram ralhar-nos! Nós não só mexíamos - era impossível não passar a mão -, como ainda nos deu aquela coisa de cheirar. Queríamos saber se a folha cheirava a alguma coisa. Foi aí que a senhora veio ralhar, ralhar, e praticamente fomos expulsos! Os investigadores não fazem aquelas coisas". (entrevista integral aqui)

(2010)

22 March 2009

KATTEN KABINET
Hélia Correia


Felino residente do Katten Kabinet

"Há, no Museu do Gato em Amsterdão, um mimoso sofá em que preguiçam felinos vivos. Os visitantes olham e eles dormitam. Parecendo que não, há um contacto entre os seres dos dois mundos, um contacto que dispensa os sentidos: anterior ao próprio entendimento visual. À presença do humano, recebendo, por certo, as suas ondas de calor, o animal ajeita-se para o afago que poucos ousam dar. Mas ele recebe-o, tal como o visitante se consola com algo de macio que não precisa de lhe subir pela mão para lhe ir ao peito. São pequenos encontros primordiais que devolvem os protagonistas ao tempo bom, ao tempo em que era tudo uma unidade e uma respiração. Resultam, como todos os encontros assim, do impulso amoroso e têm, por isso, o seu imperativo e o seu mistério" (texto integral na "Correntes D'Escritas - Revista de cultura literária da Póvoa de Varzim")

(2009)

19 March 2009

ALMA HERÉTICA



Cristina Branco - Kronos

A interrogação coloca-se desde o início e só é importante na medida em que permita compreender com maior clareza a música que Cristina Branco canta. E não deixa de ser curioso reparar que se trata da música que ela “apenas” canta mas não assina – a marca de autor(a) está na voz. A vexata quaestio, então: é fado ou não é fado? Objectivando um pouco (embora não exaustivamente), a propósito do primeiro álbum “oficial”, Murmúrios (1999), Cristina dizia que ele tinha provocado “um burburinho incrível porque, não cantando fado tradicional, fui buscar coisas do Sérgio Godinho, do José Afonso”. Sobre O descobridor: Cristina Branco canta Slauerhoff (2000), ela confessava que “não seriam exactamente fados mas temas muito tristes que acabam por estar muito próximos do espírito original do fado, umas vezes são fado, outras não, temos essa tendência para procurar coisas que não se conformem demasiado com as regras”. Em Ulisses (2005), o reportório abarcava petas e compositores como José Afonso, Fausto, Vitorino, Joni Mitchell, Vasco Graça Moura, Júlio Pomar, David Mourão-Ferreira ou Paul Éluard.



E, agora, após, o Live (2006) dedicado a Amália e Abril (2007) sobre José Afonso, Kronos é – como já eram Sensus (2003) ou Ulisses – um arco conceptual de melodias e textos de José Mário Branco, Sérgio Godinho, Amélia Muge, Hélia Correia, Vitorino, Janita Salomé, Victorino d’Almeida, Mário Laginha, Carlos Bica, João Paulo Esteves da Silva, Ricardo Dias ou Manuel Alegre. E... é fado? A ortodoxia decretará que só vagamente isso acontece. O resto do universo ficará eternamente grato a Cristina, não se cansará de lhe suplicar que continue a emprestar a transparência da voz a canções como “Bomba Relógio” (Sérgio Godinho), “O Meu Calendário”, “Histórias do Tempo” (Amélia Muge), “Bichinhos Distraídos” (Mário Branco) ou “Fado do Mal Passado” (Pomar/Vitorino d’Almeida) e, fado, tango, blues ou bossa-nova, em pas-de-deux com a guitarra de José Manuel Neto – como ela diria: “pronto, é fado!” – ou o piano de Ricardo Dias, não se arrependa nunca de possuir uma alma musical tão admiravelmente herética.

(2009)

18 March 2009

UMA ETERNA NÓMADA


Há cerca de dois anos, aquando da publicação de Abril (centrado na reinterpretação de canções de José Afonso), já no final da entrevista, quase casualmente, Cristina Branco confessava-me que o álbum seguinte já estava em fase de pré-produção, “a gente não pode parar!”. E, com um rigor superior ao de todos os profetas bíblicos, anunciava que “só sairá em 2009 e são doze poemas e doze compositores, todos portugueses. A intenção é que sejam os cantautores a compor: o Vitorino, o Janita (que fez apenas música para um poema fantástico da Hélia Correia), o Sérgio Godinho, tenho dois poemas do Júlio Pomar que gostava que fossem musicados pelo António Vitorino de Almeida, a letra para um tango do Vasco Graça Moura, dois poemas do Manuel Alegre escritos propositadamente para este disco e ainda deverão surgir outros nomes como o João Paulo Esteves da Silva, o Ricardo Dias e a Amélia Muge”. Obedeceria a um tema central, o tempo em sentido lato, e teria como título Kronos. Com uma precisão de relojoaria suiça, na data prevista e com os intervenientes planeados, ei-lo pronto e magnífico.


Hoje, Cristina não se recorda desses seus dons de vidência e conta que “nessa altura, já tinha algumas ideias dos autores que desejava convidar mas ainda não tinha feito convites. Com a Amélia Muge foi muito engraçado porque eu tinha referido na imprensa o nome dela, e um dia telefonou-me e disse-me ‘Onde moras? Vou ter contigo a tua casa!’. Convidei-a para jantar e disse-me que já tinha uma música e letra prontas para mim. E é aquela pérola, "O Meu Calendário". "Histórias do Tempo", a outra letra dela para uma música do Ricardo Dias que fecha o disco, é quase um resumo final. Mas eu sabia perfeitamente quem queria convidar”.Até as hipotéticas falhas (“Ainda terei de falar com o Fausto, se calhar, estou a antecipar demais algumas coisas”, na futurologia de há dois anos) se confirmaram…

Mas porquê o tempo como eixo conceptual? “Apetecia-me falar sobre isso, sobre o que perdi e ganhei, sobre a forma como evoluímos no tempo, mesmo fisicamente. Para além disso, passaram onze anos e dez discos, fazia-me sentido – com mais dois discos de permeio em que me permiti explorar o reportório das pessoas por quem tenho mais admiração na música portuguesa, a Amália e o José Afonso – fazer uma passagem para os cantautores portugueses. No fundo, são eles quem ainda está a escrever. O desafio que lancei foi, então, que me escrevessem um fado sobre o tempo”. Um fado, exactamente um fado, ou uma canção – fado ou não-fado – sobre esse tema? “Um fado, pedi sempre um fado. Claro que a maioria deles não são fados. Alguns, o Zé Mário Branco, por exemplo, tiveram o cuidado de, já com a música feita, me terem ligado a dizer que não tinham composto um fado porque não era assim que me viam. O Ricardo que foi responsável pelos arranjos ficou muito aflito porque tínhamos combinado fazer um disco de fados… As pessoas não me vêem assim, ponto final. Apetecia-me que fossem fados e gosto de me ouvir a cantar fado. Se ouvires o primeiro tema com o poema do Manuel Alegre, um dos que são mais assumidamente fado, está com imensa garra, é assim que eu canto fado e apetecia-me fazer aquilo pelo disco fora. Não aconteceu, têm atmosferas muito diferentes. Simplesmente, aceitei. A princípio, também fiquei um bocadinho atarantada mas, no fundo, aquilo sou eu. Óptimo, gosto dele como está”.

Pausa nas questões identitárias (que, como mais à frente se verá, preocupam muito menos Cristina Branco do que aqueles que a escutam) para dar lugar à forma como o público – o que ainda compra discos e aquele que, na muito preenchida digressão deste ano, muito desproporcionadamente se distribui quase todo por Holanda, França e Alemanha e só residualmente por Portugal – se apropriará de Kronos: “É provável que o conceito global do álbum possa escapar a quem o ouve e que ele acabe por ser escutado canção a canção. De início, tive essa intenção mas, quando se pede doze poemas e doze músicas, não pode haver uniformidade. De resto, nunca concebo um disco a pensar no modo como ele será recebido. Não faria sentido, não seria eu. Estaria a cantar aquilo que os outros desejariam que eu cantasse. Nunca tive esse tipo de imposição, sempre tive liberdade para fazer os discos como bem entendesse. Tenho a grande felicidade de trabalhar não para Portugal mas para França e sinto que tenho outra liberdade. Nunca escolhem temas, nunca discutem títulos de álbuns, nada”.


Qual será, então, o espaço certo no grande puzzle da música portuguesa onde Cristina se encaixa e se sente confortável? “É um lugar muito volante, não há uma gaveta onde me coloque. Até os senhores da Fnac têm dificuldade… um dia, vamos a votação, dêem-lhe um nome que eu aceito. Que é que eu faço? É fado, tem guitarra portuguesa, defina-se como fado. Para mim, é, mesmo quando me dizem que não se trata de fado. Eu comecei a ouvir fado muito tardiamente, não venho daquele universo, e passei directamente para a música que era feita para mim e não fui explorar a história do fado. Aceito que os puristas digam que fados há três ou quatro e o resto são cantigas. Aceito que aquilo que faço sejam cantigas. Mas não me podem impedir que eu chame fado aquilo que faço. Porque eu entendo que a sonoridade da guitarra portuguesa nos transporta imediatamente para aquele género. Mas não perco grande tempo com isso e até agradecia que dessem um nome àquilo que faço para se pôr termo a essa discussão. É-me indiferente. Faço aquilo de que gosto. Que seja o que as pessoas quiserem. Mas, de facto, não me sinto fadista porque ser fadista é quase uma atitude de vida. Se falares com a Raquel Tavares, por exemplo, ela defende aquele território que é muito seu, muito próprio, quase como uma bandeira. Acho fantástico mas isso eu não sou. Apetece-me ter a liberdade de cantar o que me der na gana, não quero esse tipo de grilhão no pé. Sou uma eterna nómada. O que modifica mais o género será a minha forma de interpretá-lo? Eu não faço aqueles melismas que são comuns no fado, quase que só digo as palavras. Isto transformará, de alguma forma, os cânones do fado?”. Inclina-se sobre o gravador e, com a mão em gesto de quem, à socapa, confia um segredo, sussurra: “Mas é fado, para mim, é fado”.

(2009)