10 January 2025
03 January 2025
EM LOUVOR DO GATO
"Quando este trabalho começou, não me apercebi que ele já tinha começado", diz Amélia Muge com a maior naturalidade deste mundo, a propósito de Um Gato É Um Gato, o livro/disco que acaba de publicar. Mas, se lhe oferecermos algum conforto contextual, talvez se entenda melhor o que ela pretende dizer: nos 30 anos entre Múgica (1992) e Amélias (2022) - duas variações sobre o proprio nome -, acham-se cuidadosamente arrumados 10 álbuns de originais. Aos quais poderiam acrescentar-se múltiplas colaborações com tão preciosa gente como José Mário Branco, Camané, Gaiteiros de Lisboa, Michales Loukovikas, Cristina Branco, as vozes búlgaras do Pirin Folk Ensemble, Camerata Meiga e vários outros. O que importa, porém, é aquela, dir-se-ia, matematicamente planeada relação 30anos/10 discos. Tanto assim que ela mesma pareceu acreditar nessa espécie de número de ouro: "Quando acabei o Amélias, disse 'Não faço mais disco nenhum!' e essa era, realmente, a minha intenção". (daqui; segue para aqui)
18 April 2022
29 November 2017
28 November 2017
01 July 2016
20 August 2015
Conta Alberto Manguel, em Uma História da Leitura (1996), que "o universo, na tradição judaico-cristã, é concebido como um livro escrito, feito de números e letras; a chave para o compreender reside na nossa capacidade para ler estes números e letras adequadamente e conseguir o domínio das suas combinações, aprendendo, assim, a dar forma a alguma parte desse texto colossal, numa imitação do criador”. E, optando por uma perspectiva utilitária mas, certamente, não de menor importância, refere uma lenda do século IV segundo a qual os eruditos talmúdicos Hanani e Hoshaiah estudavam o Sefer Yetzirah (ou “Livro da Criação”, o mais antigo texto clássico do esoterismo judaico, atribuído a Abraão) uma vez por semana e, através da combinação acertada das letras, criavam um vitelo de três anos que comiam ao jantar. Exactamente há 50 anos, o judeu-norte-americano, Robert Allen Zimmerman, aliás, Bob Dylan, numa canção – "Ballad Of A Thin Man", de Highway 61 Revisited – gravada a 2 de Agosto de 1965 e interpretada ao vivo, pela primeira vez, 26 dias depois, em Forest Hills, Nova Iorque, escarnecia de quem, perante um mundo que mudava rapidamente de pele, era totalmente incapaz de o ler: “Because something is happening here, but you don’t know what it is, do you, Mr. Jones?”
07 July 2015
18 June 2015
17 June 2015
21 January 2014
06 May 2012
01 March 2012
(2012)
06 April 2010
22 March 2009
19 March 2009
18 March 2009
Mas porquê o tempo como eixo conceptual? “Apetecia-me falar sobre isso, sobre o que perdi e ganhei, sobre a forma como evoluímos no tempo, mesmo fisicamente. Para além disso, passaram onze anos e dez discos, fazia-me sentido – com mais dois discos de permeio em que me permiti explorar o reportório das pessoas por quem tenho mais admiração na música portuguesa, a Amália e o José Afonso – fazer uma passagem para os cantautores portugueses. No fundo, são eles quem ainda está a escrever. O desafio que lancei foi, então, que me escrevessem um fado sobre o tempo”. Um fado, exactamente um fado, ou uma canção – fado ou não-fado – sobre esse tema? “Um fado, pedi sempre um fado. Claro que a maioria deles não são fados. Alguns, o Zé Mário Branco, por exemplo, tiveram o cuidado de, já com a música feita, me terem ligado a dizer que não tinham composto um fado porque não era assim que me viam. O Ricardo que foi responsável pelos arranjos ficou muito aflito porque tínhamos combinado fazer um disco de fados… As pessoas não me vêem assim, ponto final. Apetecia-me que fossem fados e gosto de me ouvir a cantar fado. Se ouvires o primeiro tema com o poema do Manuel Alegre, um dos que são mais assumidamente fado, está com imensa garra, é assim que eu canto fado e apetecia-me fazer aquilo pelo disco fora. Não aconteceu, têm atmosferas muito diferentes. Simplesmente, aceitei. A princípio, também fiquei um bocadinho atarantada mas, no fundo, aquilo sou eu. Óptimo, gosto dele como está”.
Pausa nas questões identitárias (que, como mais à frente se verá, preocupam muito menos Cristina Branco do que aqueles que a escutam) para dar lugar à forma como o público – o que ainda compra discos e aquele que, na muito preenchida digressão deste ano, muito desproporcionadamente se distribui quase todo por Holanda, França e Alemanha e só residualmente por Portugal – se apropriará de Kronos: “É provável que o conceito global do álbum possa escapar a quem o ouve e que ele acabe por ser escutado canção a canção. De início, tive essa intenção mas, quando se pede doze poemas e doze músicas, não pode haver uniformidade. De resto, nunca concebo um disco a pensar no modo como ele será recebido. Não faria sentido, não seria eu. Estaria a cantar aquilo que os outros desejariam que eu cantasse. Nunca tive esse tipo de imposição, sempre tive liberdade para fazer os discos como bem entendesse. Tenho a grande felicidade de trabalhar não para Portugal mas para França e sinto que tenho outra liberdade. Nunca escolhem temas, nunca discutem títulos de álbuns, nada”. 


















