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10 May 2025

"Endless Tree" 
 
(sequência daqui) Se, a propósito do anterior The Moon And Stars: Prescriptions for Dreamers (2021), ela não hesitava em reivindicar o papel de cúmplice de apropriação cultural - “Ouvi a versão dos Nirvana para ‘Where Did You Sleep Last Night’, do Leadbelly. O rapaz branco conduziu-me até aos blues. Ali estava eu à procura das minhas raízes” -, desta vez, recorre â suprema realeza funk, George Clinton, que justificava o facto de para ele redescobrir a música negra (os old blues que a mãe escutava), ter sido necessário ter como intermediários Eric Clapton e os miúdos brancos da Brit Invasion. Ou, como ele dizia,"olhá-la com outras lentes". Valerie foi-se também apoiando em Little Richard, Sister Rosetta Tharpe, Ma Rainey e Elizabeth Cotten. E, para os seus álbuns, em produtores brancos mas musicalmente poliglotas como Dan Auerbach, Jack Splash ou, agora, M. Ward, erudito recrutador de tropas com currículo nas hostes de David Lynch, Tom Waits, T Bone Burnett ou The Blind Boys Of Alabama. Capaz de encarar e resolver as necessidades de canções que, afinal, "apenas desejavam encontrar-se com outras pessoas" ou de conduzir June â infinda gratidão perante quem lhe depositou tão perfeitas canções no regaço: "Thank you for giving it to me. Thank you whoever the fuck you are!"

01 September 2024

 
(sequência daqui) O mais intrigante é que, aparentemente, David Lynch tinha perfeita consciência do que estava em jogo: "Sem uma ideia, nunca conseguiremos ir a lado nenhum. As ideias são oferendas lindíssimas. Digo sempre que desejar uma ideia é como colocar um isco no anzol. Se apanhamos uma ideia de que gostamos, é um belo, belo dia". E, a despeito de as primeiras evidências não revelarem sinais do borbulhar de qualquer ideia, preferiu insistir: "Como sucede com qualquer coisa nova, precisamos de algum tempo para nos habituarmos a ela. A primeira vez que ouvimos, soou-nos terrível", diz Lynch. "Depois, ficámos na dúvida", confessa Chrystabell. "Ouvimos outra vez. Tratava-se só de sintonizar bem o cérebro. Era fantástico!" Receio bem que a primeira opinião fosse a mais certa. A propósito, qual era, afinal, o segredo?

28 August 2024

 
(sequência daqui) Mais prosaicamente, David Lynch tinha "caixotes e caixotes" de gravações de Angelo Badalamenti (o seu fidelíssimo compositor desaparecido em 2022) bem como do "sound designer" Big Dean Hurley aos quais, carinhosamente, chamava "lenha para a fogueira". Já habituado a trabalhar com Chrystabell - na banda sonora de Inland Empire (2006), no álbum de 2011, This Train, no EP Somewhere In The Nowhere (2016), e, enquanto actriz, na pele da agente, Tammy Preston, em Twin Peaks: The Return (2017) -, convocou-a para, no seu Asymmetrical Studio, de Los Angeles, participar em sessões de improvisação e montagem sonora experimentais. A inspiração, recorda Lynch, vinha ainda de Angelo Badalamenti: "Ele costumava dizer, 'David, tudo se resume a estas 12 notas'. Mas esta música talvez contenha mais do que 12. Quando arriscamos acidentes e ousamos experiências, tudo é diferente". É verdade. Mas se, na obra cinematográfica de David Lynch, os desdobramentos e multiplicações de figuras e personagens desenvolvem uma fertilíssima (i)lógica própria, em Cellophane Memories, a voz de Chrystabell - um soprano velado, sussurrado sobre o microfone - fantasmaticamente duplicada, triplicada, "cut-up", "looped" e revertida, gera apenas uma massa sonora vocal confusa, desnecessariamente informe e sem rumo. (segue para aqui)

25 August 2024

O ISCO E O ANZOL
Não será exactamente como a história de Nicolás Maduro acerca das visitas que o já falecido Hugo Chávez lhe fazia sob a forma de um passarinho azul, mas anda lá perto. Conta, então, David Lynch que, durante um passeio noturno pela floresta, por cima das altas copas, avistou uma luz que cintilava. A luz transformar-se-ia na voz de Chrystabell que - aqui, à maneira do fenómeno psicadélico de Fátima - lhe revelaria um segredo. A própria Chrystabell, acerca do que daí resultou no álbum Cellophane Memories, explica que "possui muitas portas que ficaram abertas para nos maravilharmos. Como se fosse 'mood music'. Não porque crie um 'mood', mas porque é capaz de reflectir o 'mood' em que estivermos". E, acrescenta Lynch, "A transparência destas vozes multiplicadas e sobrepostas permite que, por trás de uma, possam escutar-se as outras. Como se fosse um celofane que evoca memórias", avisando que devemos esperar "o tipo de paisagens sublimes que muitas vezes se calcorreia em busca de um amante perdido: céus azuis e brancos, rosas vermelhas, trevas de tempestade, remoinhos de vento e perfumes estivais". (daqui; segue para aqui)

03 June 2024

ORDEM, CAOS E OS RUÍDOS DO MUNDO


A 22 do próximo mês de Agosto, celebram-se os 30 anos da publicação de Dummy, álbum de estreia dos Portishead, trio de Bristol constituído por Beth Gibbons (voz), Geoff Barrow (produção e multi-instrumentista) e Adrian Utley (guitarra). Oriundos do que ficaria conhecido como "The Bristol Scene", agregação informal de músicos e artistas do panorama alternativo local - Tricky, Massive Attack, Alpha, o "street artist" Banksy -, seria, essencialmente, a eles que ficaríamos a dever o que veio a designar-se como "trip-hop": uma tapeçaria sonora na qual, em doses infinitesimais, funk, jazz, hip-hop, bandas sonoras (John Barry, Lalo Schifrin, Ennio Morricone), soul, electrónica e experimentalismos vários se articulariam numa descendência contemporânea da "torch song" em registo "neo-noir" e de ressonâncias lynchianas. Beth escrevia textos dilacerantemente íntimos que Geoff não se esforçava por compreender ("Ele não faz a menor ideia do que eu estou a cantar. Não lhe interessa e admite-o sem problemas", confessaria, então, Beth) mas que, na sua missão de "sound designer" e garimpeiro de "beats", com a contribuição de Utley, reconfigurava como estojos sonoros ideais. (daqui; segue)

19 October 2022

"My Blood"

(sequência daqui) “Para mim, é tudo exactamente igual a quando Alan Lomax andava por todo o mundo a descobrir as músicas locais. As canções estão aí para ser colhidas”, dizia ela à WNYC. Isto, enquanto, com Greg Ahee e Michael Wallace, alimentava a fogueira dos Bloodslide, trio pós-punk de incandescências elétricas. Agora, em Dirt! Soda!, continuando rodeada de gente dos círculos privados de Bill Laswell, Julia Holter, Yves Tumor e Joan As Policewoman, à excepção de "Strings of Nashville", dos Pavement, e "Broken Hearted Wine", dos Codeine (fundidas numa liga metálica única), e de "Then You Can Tell Me Goodbye", de The Casinos, AJ assina todos os outros temas. E o que se escuta é coisa hipnótica de essência medularmente lynchiana, traduzida e expandida para o vocabulário já antes, em várias tonalidades, ensaiado por Julee Cruise, PJ Harvey, Nick Cave, Kate Bush ou Chrysta Bell.

17 October 2022

ESSÊNCIA LYNCHIANA

Com Angela Jennifer Lambert (aliás, AJ Lambert) nada é, realmente, como se imagina. Após uma “juventude perdida” a bordo de ilustres bandas desconhecidas (ou quase) – Sleepington, Looker, Here We Go Magic –, com quem se dirigiria ela para os estúdios de Steve Albini, em Chicago, com o objectivo de gravar um EP (Lonely Songs, 2018) comemorativo dos 60 anos de Only The Lonely (1958), de Frank Sinatra? Evidentemente, Greg Ahee, dos Protomartyr, escolha instantânea de AJ que, não escondamos mais o jogo, é neta de Frank e filha de Nancy Sinatra. E, quando, aos 44 anos, se decidiu, enfim, por um percurso de cantora, para além de concertos de voz e piano em que interpretava os clássicos do avô, que reportório escolheu para si no álbum de estreia, Careful You (2019)? John Cale, Chris Bell, TV On The Radio, Spoon, Billie Holiday, e duas pepitas de Ol' Blue Eyes, de entre uma lista de candidatos onde se incluiam também Robert Wyatt, Elvis Costello e David Bowie. (daqui; segue para aqui)

"How Many"

17 February 2022


 
(sequência daqui) Entende-se melhor olhando os videos que realizou para três das canções de Metal Bird, o terceiro álbum após os ainda insuficientemente definidos In Hell (2017) e Candy Colored Doom (2019): todos a preto e branco, "Butterflies" é puro David Lynch, com Eve despreocupadamente perseguindo e fotografando borboletas pelo campo enquanto, à distância, “the grim reaper” espia; "La Ronde" captura um sonho de luzes e movimento sob a grande roda de um parque de diversões; e "Prisoner" coreografa uma claustrofobia sonâmbula observada do lado de fora da vigia de um avião. Com Bryce Cloghesy/Military Genius no papel de Angelo Badalamenti, algures entre Hope Sandoval e Julee Cruise, desde a primeira faixa Eve Adams mostra o lugar mental que habita: “Time it comes running at your heels in the dark, chasing your memory like a dog with no bark, memories of mowing lawns and pink masquerades, ruby red slippers and the song that’s the same”.

14 February 2022

COMO UM CÃO QUE NÃO LADRA

“Escrevi a minha primeira canção quando andava por volta dos 12 anos. Chamava-se ‘I’ve Seen It All’ e ainda hoje me parece cómico ter sido tão incrivelmente triste. Não faço a mais pequena ideia de onde surgiu. Até aquela altura não tinha vivido nenhuma experiência traumática, tive uma infância óptima. Mas, mesmo nessa idade, as trevas já me fascinavam”, contou Eve Adams à “Uncut” numa entrevista em que a sua música era descrita como “baladas fatalistas de folk-noir” que “habitam uma zona crepuscular de ruinas românticas e devaneio melancólico onde o amor é tortuoso e volátil e a morte espreita sempre por entre as sombras”. Inspirações voluntariamente confessadas: a Concha Perez/Marlene Dietrich em The Devil Is A Woman (1935) e a Dorothy Vallens/Isabella Rossellini de Blue Velvet (1986). “Muitas vezes sinto como se não pertencesse verdadeiramente a esta era. Creio que muita gente sente também o mesmo. São tempos difíceis”. (segue para aqui)

27 August 2021


(sequência daqui) O que, na voz de quem, candidamente, confessa “I haven’t aged since I was four years old”, ganha, naturalmente, muito particulares sentidos aos quais, como acontece com os filmes de David Lynch, há que permitir que nos conduzam, sem resistência nem busca de explicação racional. Por que motivo a demolição sonora de "Bull of Heaven" desagua, sem pausa, no lirismo translúcido de "Obsidian Lizard"? Como coabitam ambos em "Before a Black Tea" onde Erin incorpora a voz de Mimi Goese (Hugo Largo)? Pode, num momento, dizer-se “take me for the music, take me for a human” e, no seguinte, “I've never been a human, but I'm a good friend”? Existe matéria nesta surreal ópera noturna para a imaginar (sugestão de Erin) como episódios inéditos das Canterbury Tales criados à imagem de The Wall (Pink Floyd), Until the End of the World (Wim Wenders) e da reinvenção da arquitectura de Nova Iorque por June Jordan e Buckminster Fuller? Ela também não sabe mas isso não tem importância nenhuma.

29 July 2021

 
 
(sequência daqui)  Discípulo confesso (e brilhante) de Scott Walker mas também eclético adepto de Sandy Denny, Magazine, The Pop Group, Martin Carthy, Sinatra, Jim O’Rourke, Bill Evans, Brecht e Planxty, em Song of Co-Aklan, tanto assume o registo de agitador inflamado (“Feeling affronted? Blame the unwanted!” e “There’s aliens for blaming and poor folks for defaming”) como o de niilista friamente amargo (“Time will erase us, scene by scene, gone like the fragments of a dream“), mas assegura não ter pretendido criar “um álbum didactico nem pregar coisa nenhuma: não desejo agredir ninguém com o monopólio da verdade. Vejo-me mais como um parasita do que se passa no mundo do que como um influenciador”. O que não foi, de todo, impeditivo de – na companhia de veteranos dos Mansions, Microdisney e Scritti Politti mas também do inclassificável Luke Haines – ter gravado algo como uma sinistra visão de John Cale enquadrada pela elegância cinemática de David Lynch.

19 April 2021

This Mortal Coil - "Song To The Siren" (banda sonora de Lost Highway, real. David Lynch, 1997)

(ver aqui; sugerido aqui)

22 February 2021

23 October 2020

10 March 2020

NÃO FOMOS OS PRIMEIROS


Distinga-se, primeiro, entre as homófonas “islet” e “eyelet”, ambas com origem no “francês médio” usado na Grã Bretanha entre o século XIV e o século XVI: “islet” (derivada de “islette”) significa “ilhota”; “eyelet” (de “oeillet”) deve traduzir-se por “ilhó”. Islet é um trio galês (Mark e Emma Daman Thomas e Alex Willams) oriundo de Cardiff, e Eyelet é o seu terceiro álbum. É útil também saber da existência de People Of The Black Mountains, um romance histórico de Raymond Williams, que se debruça sobre as gentes da fronteira do País de Gales, num imenso arco temporal entre o Paleolítico e o final da Idade Média (só a morte de Williams, em 1988, impediu que se estendesse até ao mundo moderno). Do mesmo modo, não fará nenhum mal conhecer The Good Immigrant (2016), recolha de 21 ensaios de autores negros, asiáticos e de outras minorias étnicas, coligida por Nikesh Shukla, acerca da experiência da emigração no Reino Unido. 



Tudo isso importa uma vez que, directa ou indirectamente, contribuiram para o que, em Eyelet se escuta. Gravado em Powys, na parte galesa das Black Mountains, a propósito dos 7 minutos de levitação de "Geese" – “From the outset it’s worth fighting for, brandish your outrage like a torch, walk up the hill to look down at the valley below, not the first here and no, I’m not going to go” –, Emma cita Raymond Williams e confessa: “Olho para estas montanhas e colinas e tenho consciência de que não fui a primeira pessoa a pisá-las. Penso nos muitos milhares de gerações que as olharam e em como não pertenceram a um único povo ou raça mas a muitos, num fluxo constante”. Em "Radel 10", por entre os ângulos arredondados da cavalgada de tablas, sintetizadores e da floresta de vozes, ouve-se o eco de The Good Immigrant: “Shall I go up and float in the air, or shall I go back where? Or disappear? No!” Lugar improvável de cruzamento de atmosferas sonoras lynchianas e transparências cristalinas, quanto mais Eyelet parece observar o mundo de longe, mais nítida é a imagem que capta.