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11 June 2026

"Remenanuèch"
 
(sequência daqui) Logo na faixa de abertura, “Remenanuèch”, estabelece-se a tonalidade global com uma intensidade quase punk, narrando a domesticação de um drac (dragão) metamórfico. “Adissiatz Palhassonaira” conduz o diálogo vocal do duo para um território no qual cada cantora se ocupa de melodias e textos diferentes antes de convergirem numa micro-coda translúcida. “Au Nòst’ Casalòt” intensifica ainda mais a experiência com percussão como um metrónomo de metal corroído. “Jana D’Aimet”, última faixa e clímax absoluto do disco, é uma composição monstruosamente exigente em que passagens solenes irrompem em explosões vocais extáticas. Dufau e Fraysse gargalham, murmuram e uivam como se evocassem algo antigo e perigoso sob a superfície ardente da música. Produzido em conjunto com o visionário catalão Raül Refree, as Cocanha haviam imediatamente antes publicado o álbum 4132314 em colaboração com os catalães Los Sara Fontan e Tarta Relena, no qual prestam homenagem às trabalhadoras da antiga fábrica têxtil de Barcelona, Fabra i Coats: através de padrões numéricos de tecelagem, traduziram os números em estruturas rítmicas e frases melódicas, articulando-as com canções tradicionais de trabalho. A tal actividade muito pouco apreciada no Pays de Cocagne.

08 June 2026

Cocanha feat. Edredon Sensible - Flame Folclòre - Live
 
(sequência daqui) Flame Folclòre (terceiro álbum das Cocanha, após I Ès ?, 2017, e Puput, 2020) é uma obra inquieta e arrebatadora que transforma tradições ancestrais em algo ferozmente contemporâneo, impulsionado por ritmos hipnóticos, pandeiretas de cordas, percussões corporais e harmonias explosivas. É, pois, na matéria do próprio álbum que se encontra um duplo gesto artístico e político relevante: as representantes actuais da Cocanha original cantam integralmente em occitano (uma língua minoritária com cerca de 600 000 falantes que se estendem pelo Pays d’Oc, no sul de França, e chegam até aos Pirenéus e ao norte de Itália), durante muito tempo marginalizado pelo Estado francês, que o encarava como manifestação exótica, folclórica, e peculiar, mas sem qualquer importância. As Cocanha, porém, em vez de o tratar como folclore de museu, injectam-lhe urgência e vitalidade. A sua música torna-se "um acto de recuperação da língua, da memória coletiva e da tradição, uma força subversiva e libertadora: a alegria colectiva como acto político". (segue para aqui)

05 June 2026

NO JARDIM DO PARAÍSO
Quando, após a Revolução Francesa de 1789, os revolucionários vitoriosos encarregaram o padre católico Henri Grégoire de estudar as línguas regionais, o seu relatório de 1794 tornar-se-ia a pedra angular das políticas que proibiam o uso de qualquer língua além do francês na vida pública, no ensino e nas escolas. Apesar disso, estas línguas continuaram a ser faladas nos bairros operários, nas fábricas, nas docas e nas zonas rurais fora de Paris. É, numa delas, o occitano, que, desde a sua formação em 2014, as Cocanha - isto é, Caroline Dufau e Lila Fraysse - têm vindo a reinventar a música da Gasconha, do Languedoc e dos Pirenéus, a partir do trabalho sobre fragmentos do repertório tradicional. E foi a partir do contacto com os Carmina Burana – essa opulenta colecção de poemas e canções de Goliardos, libérrimos monges devassos medievais – que tropeçaram na primeira referência ao País de Cocanha: uma terra imaginária de liberdade e abundância, "onde se prestava culto ao prazer e ao ócio, e o trabalho e a velhice eram desconhecidos". Algo como um jardim do paraíso pagão no qual, segundo se explica em Cocanha - A História de Um País Imaginário (de Hilário F. Júnior), "os cocanianos passam a vida a comer, beber e fazer sexo. A fundirem-se com a Natureza. Logo, a Cocanha não é uma festa qualquer, é um tipo especial, é a festa por excelência, uma orgia".  (daqui; segue para aqui)

"Diuré Samsir"

26 April 2026

NÃO SERÁ UM ACASO

No início de 2023, aquando da publicação de Anadolu Ejderi, da turca Gaye Su Akyol, foi oportunidade para parar um pouco e reflectir sobre o imenso e maravilhoso mundo que, ao longo dos anos, fomos capazes de ir descobrindo sempre que nos demos ao trabalho de espreitar para lá dos muros do nosso quintal. Recordámos, então, a afegã Elaha Soroor, a saudita-paquistanesa Arooj Aftab e a israelo-iraniana Liraz, o - pelos piores motivos - recém-descoberto universo ucraniano (Folknery, DakhaBrakha, Torbán, Dakh Daughters, Joryj Kloc) ou o inesgotável baú das inúmeras variantes chinesas contemporâneas. Na verdade, era apenas uma actualização do que já antes, em Setembro de 2021, havia sido recenceado: preciosidades como Le Mystère des Voix Bulgares, Les Nouvelles Polyphonies Corses, Cocanha, San Salvador, Lankum, John Francis Flynn, Lisa O'Neill e Stick In The Wheel. Podemos, pois - enquanto as occitanas Cocanha não nos revelam o seu último álbum ("Flame Folclòre") e as estonteantes napolitanas La Niña não nos oferecem uma oportunidade de, ao vivo, nos fazer levitar ao som de Furèsta -, ir abrindo uma vaga para o quarteto integralmente feminino Seera, oriundo de Riade, capital da Arábia Saudita, estado islâmico no qual a condição feminina não é propriamente exemplar. (daqui: segue para aqui)

Seera - "Shams"

15 April 2022

 

"Meu Coração Emigrou"

(sequência daqui) Mas como surgiu, afinal, a ideia para um álbum no qual, à excepção de José Salgueiro (percussões e fliscorne) e Catarina Anacleto (violoncelo), apenas se escutam a(s) voz(es) de Amélia Muge sobrepostas no mil-folhas sonoro dos arranjos e cenografia electrónica de António José Martins? “Durante a pandemia quando, aparentemente, não era possível fazer nada e a própria disponibilidade mental nos obrigava a estar quase todo o dia frente à televisão a tentar perceber o que se passava. Por outro lado, parecia que a única coisa que tínhamos era a voz, só contactávamos com as outras pessoas através do telefone. Perante isto, pensei que fazer um novo trabalho era quase uma questão de sobrevivência mental. Por outro lado, o que poderia eu fazer que usasse o mínimo de recursos possivel dado que o contacto com outros músicos seria complicado? Claro que ter o António José Martins é logo possuir os recursos de uma central nuclear. Pensei, pois, no Zé mais as vozes de mim. E foi isso que aconteceu. À medida que se foi avançando com o trabalho, mais eu percebi que trabalhar apenas com esta ideia da voz não era um recurso pequeno, era um recurso enorme. Ligado a toda a experiência e a todas as memórias. Não numa atitude de 'antes era tão bonito, eu podia fazer isto, ai agora já não posso', mas como recurso a retirar de uma experiência vivida que nos permite ir um bocadinho mais além. Isso, articulado com o conhecimento que tenho do trabalho de outros músicos como a Laurie Anderson, as Zap Mama ou, mais recentemente, as Cocanha e os San Salvador. Houve sempre muita gente com quem trabalhei ou que ouvi e que iam tendo um bocadinho a ver com a minha própria experiência. Cada um ouve como pode e como sabe. Sabia que podia diversificar a minha voz em matéria de timbres, de alturas, de ressonâncias. Tinha as minhas experiencias com os outros e o conhecimento daqueles com quem nunca trabalhei mas sempre me inspiraram. Uma voz é feita de muitas vozes”. (segue para aqui)

28 December 2021

 
 
(sequência daqui) "Se um desejo de felicidade e de inocência suscitava nas almas devotas a ideia do paraíso terrestre, para os miseráveis e famélicos de todos os tempos a imagem das delícias de Cocanha sempre suscitou desejos mais terrenos de sair da penúria e satisfazer apetites mais animalescos e imperiosos. Os vários relatos dirigem-se muitas vezes aos deserdados, anunciando que também para eles é chegada a hora de viver à vontade. A lenda da Cocanha não nasce em ambientes impregnados de misticismo, mas entre as massas populares que passam fome há séculos. A liberdade de que se goza em Cocanha é tal que, como no Carnaval, as coisas podem ser viradas de pernas para o ar e um aldeão pode zombar de um bispo. De facto, associado à lenda da Cocanha, temos o tema do mundo às avessas, com homens puxando um arado guiado por um boi, um moínho ao contrário, onde o moleiro usa a canga no lugar do asno, um peixe que pesca o pescador ou animais que admiram seres humanos em jaulas" (Umberto Eco - História das Terras e Lugares Lendários)

11 April 2021

(sequência daqui) "Numa quase citação do fabliau, segundo o qual os dorminhocos da Cocanha ganham cinco soldos e meio, num pequeno povoado descrito por Rabelais, as pessoas ganham para dormir 'cinco ou seis soldos por dia, mas aqueles que roncam bem forte ganham sete soldos e meio'. Outra criação rabelaisiana, a abadia de Thélème, onde não há clausura, restrições de horário, separação de sexos, celibato, voto de castidade, pobreza e obediência, também apresenta claras ressonâncias cocanianas. Ali todas as mulheres são belas, como na Cocanha medieval. Ali o desejo de cada um procura satisfazer o dos outros, da mesma forma que na Cocanha, ao atender aos próprios desejos 'uns fazem a felicidade dos outros'. Ali, expressamente, a regra é 'fay ce que voudras' (faz o que quiseres), correspondente ao 'Ninguém ousa proibir algo' do texto do século XIII". . (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 7)
 
Cocanha - "La valsa d'Emiliana" (do álbum i ès ?)

31 March 2021

(sequência daqui) "Apesar de a Igreja preconizar o livre consentimento dos cônjuges no matrimónio, apesar de o amor cortesão fazer da mulher aparentemente 'a senhora' do trovador, em ambos os casos esta, na verdade, servia os interesses masculinos. (...) Mas, na Cocanha, em função do seu espírito panteísta, sexo e sentimento formam um todo que se manifesta de forma constante e natural. Não há necessidade de um espaço específico para o jogo amoroso, como a côrte no caso trovadoresco, ou um espaço para legitimar a união sexual, como a igreja no caso do cristianismo. (...) A Cocanha ultrapassa o conceito amoroso tanto cristão quanto feudal, ao possibilitar liberdade sexual - ali faz-se amor nas ruas -, sem com isso diminuir o padrão moral das pessoas, que são virtuosas como os clérigos e corteses como os trovadores". (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 6)

Cocanha - 5 Cants Polifonics A Dançar (na íntegra aqui)

20 March 2021

(sequência daqui) "A narrativa cocaniana é uma luta alegórica que valoriza o Carnaval diante da Quaresma. A terra maravilhosa com os seus excessos alimentares, alcoólicos e sexuais é um Carnaval ininterrupto. (...) Ao contrário das demais festas, cujo espírito pagão não tinha sido anulado pela evangelização, a Quaresma era essencialmente cristã. Apesar de as suas restrições terem sido flexibilizadas ao longo da Idade Média, ela continuava a ser um dos grandes símbolos da cultura eclesiástica, daí a forte e difundida resistência laica a ela. (...) A Quaresma também é ridicularizada pelo Fabliau de Coquaigne, segundo o qual ela ocorre no país maravilhoso apenas uma vez a cada vinte anos. E ainda por cima, sem restrições alimentares ou sexuais. A Cocanha, terra da vida (fartura, juventude, sexo livre), nega a Quaresma, símbolo da morte (jejum alimentar, abstinência sexual, decadência física)" (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 5)
Cocanha - "Dempuèi Auriac" (do álbum i ès ?, aqui na íntegra)

09 March 2021


(sequência daqui) "Enfim, os cocanianos passam a vida a comer, beber e fazer sexo. A integrarem-se, portanto, na Natureza. A fundirem-se com ela. Logo, a Cocanha não é uma festa qualquer, é um tipo especial, é a festa por excelência, é uma orgia. É o momento (ilimitado no caso cocaniano) no qual, graças a cantos, danças e vinho, atinge-se o ékstasis ("sair de si"), possibilitando a sensação de enthusiasmós ("ter um deus dentro de si"), consequentemente de manía ("loucura sagrada"), enfim, de órguia (possessão divina na celebração). (...) De maneira semelhante às antigas festas gregas em honra de Diónisos, a Cocanha é uma comemoração de carácter agrário, carnavalesco, orgiástico, igualitário, propiciatório" (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 4: segue para aqui)
(álbum integral aqui

27 February 2021


(sequência daqui) "The Land of Cockayne is one of the oldest English utopias, even pre-dating Thomas More. For the feudal and downtrodden peasant class of the Middle Ages, troubadours singing of Cockayne offered a compensatory vision of unimaginable plenty without effort; where unending physical and gastronomical pleasure was on tap and no punishment was meted out for laziness. 'The Big Rock Candy Mountain', a song originally collected in the 1930s by John Lomax, updates Cockayne for the Great Depression's discontents. Fittingly, the song as recorded by Burl Ives in 1949, was one of the first singles in the new Americam 'folk guitar' idiom to hit the big time back in the Old Country. The hobo's paradise where 'there ain't no short-handed shovels, no axes, saws, or picks... where you sleep all day, where they hang the Turk that invented work' is a post-industrial iteration of utopia that sounded mighty fine to a grey, somber Britain licking its war wounds" (Rob Young - Electric Eden/Unearthing Britain's Visionary Music) (segue para aqui)

Harry McClintock - "Big Rock Candy Mountain" (de O Brother, Where Art Thou?, de Joel e Ethan Coen, 2000)