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28 July 2026

A ESTRADA ABERTA
Jon Landau - o agente artístico que cunhou a profecia "Vi o futuro do rock'n' roll e ele chama-se Bruce Springsteen" -, costumava conversar com Bruce durante horas sobre música, livros e filmes (uma conversa ainda não interrompida). Enquanto gravavam Darkness On The Edge Of Town, recorda ele, Springsteen falou-lhe de um filme que tinha visto na televisão, sem ter memorizado o título. "Ele começou a descrevê-lo, e, a certa altura, interrompi-o: 'Bruce, isso é As Vinhas da Ira'.'". Ele respondeu: ‘É a melhor coisa que já vi’!" Perguntei-lhe: "O que é que gostaste mais?" E ele respondeu: "Tudo. As imagens, a intensidade, a concentração, a arte, tudo" E eu disse: "Sabes que foi o John Ford que o realizou?" E ele disse: "Sim, sim, já ouvi falar dele...". Foi nesse momento, diz Landau, que Springsteen começou a olhar para o cinema de uma forma completamente diferente. A adaptação de John Ford de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck (1940), deixou-lhe, talvez, a marca emocional mais profunda: "O humanismo do filme afectou-me profundamente. Quero um pouco disso na minha música". (daqui; segue)
 

15 July 2026

"Playground"
 
(sequência daqui) Long Wave Home, o seu 7º álbum, é, então, explica ela, uma aplicação prática do princípio "O que importa é garantir sempre a pessoa certa no lugar certo", um registo reduzido a voz, guitarra e arranjos minimalistas, que mostra a ex-nanny da descendência de Tom Waits e Kathleen Brennan pelo seu lado mais íntimo. A faixa que empresta o título ao álbum define o tom: numa espécie de Lego sonoro, um dedilhado circular rodopia sob a voz, que passa de um sussurro para algo quase áspero no espaço de uma única frase. Ela sempre foi uma cantora pouco convencional e, aqui, essa estranheza parece menos uma afectação e mais um imperativo — a única forma de transmitir estas canções que não domesticam as palavras ("If revolution can be sparked by a feeling, turn up the system, point the finger, send them reeling.” ("Signal To Noise") e, numa alusão ao inferno de Gaza e de todas as Gazas contemporâneas, se interroga "Are playgrounds for children, in them arises humanity, and so morality, to recognize a brutalizer, if rubble is playground, in all that their new eyes see, what kind of man becomes us?" ('Playground')

14 July 2026

QUE TIPO DE HUMANO?
"Em 2025, muitas pessoas saíram da minha vida... como um autocarro a entrar numa estação. Algumas dessas relações eram muito importantes, por isso, tive muito com que me debater nestes textos. Gravar o álbum foi uma viagem e uma busca — eu e um disco rígido numa autocaravana, parando em estúdios por toda a Inglaterra, para recolher material. Recrutei engenheiros de som, chamei Jesse D Vernon para fazer os arranjos dos metais e da percussão afinada e Sam Amidon para tocar uma variedade de instrumentos de cordas. Ao longo de três semanas, dormi debaixo de viadutos e de velhos carvalhos, e acordei em pastagens cintilantes cobertas de orvalho. Com o disco rígido e o coração cheios, regressei a Manchester, onde organizámos as sessões de estúdio sobre a matéria-prima recolhida e construímos o álbum" explicou Jesca Hoop na Bandcamp. (daqui; segue para aqui)

08 July 2026

 Marianne Faithfull  - "It's All over Now Baby Blue" (B. Dylan) |  de The Girl on a Motorcycle
 
(sequência daqui) Quando, em 1993, se apresentou pela primeira vez em Portugal, o modo como recordava os seus primeiros passos tinha já muito pouco de nostálgico: “Nessa altura, em meados dos anos 60, eu tinha um tremendo desprezo pela música pop. Quando jovem, artisticamente, era uma enorme snob. Queria ser actriz, tinha uma excelente voz que me fazia pensar numa carreira na ópera, queria dedicar-me a qualquer coisa séria. E, não sei muito bem como, acabei por ser desviada (de certo modo, por engano) para a pop. Agora, sinto-me muito satisfeita e reconhecida por isso. Mas, na altura, o que cantava parecia-me puro lixo. Em certa medida, foi só quando comecei a entender o Andy Warhol que realmente compreendi que a pop também era arte. Até aí, não passava de matéria descartável, pronta para usar e deitar fora”(segue para aqui)

02 July 2026

 
(sequência daqui) Há, porém, algo de paradoxal em Down Where the Willow and the Dogwood Grow. Apresentado como um novo tributo à obra de Tom Waits e Kathleen Brennan, o álbum não oferece uma única gravação inédita. Acaba, contudo, por funcionar como algo mais interessante: um reavaliador da extraordinária força das canções de Waits e Brennan num percurso que alterna entre baladas, blues andrajosos, canções de inspiração latina, gospel e peças quase faladas, reflectindo a impressionante diversidade do cancioneiro Waits/Brennan quando retirado da imensa sombra da sua personalidade. Ou como um espelho que, ao reflectir a obra através de vozes alheias - Solomon Burke, Bruce Springsteen, Willie Nelson, Lucinda Williams (que canta "Hang Down Your Head", a primeira canção oficialmente atribuída à parceria Waits-Brennan, publicada em Rain Dogs, 1985), Johnny Cash, Marianne Faithfull, Bob Seger, Diana Krall, John Hammond -, revela a qualidade rara de canções capazes de sobreviver a qualquer intérprete — inclusive ao seu criador. Afinal, um tanto ou quanto ironicamente, o título do álbum de homenagem haveria de ser extraído do texto de canção "Down There By The Train", o patinho feio inicial, em cuja primeira estrofe se lê: "There’s a place I know where the train goes slow, where the sinner can be washed in the blood of the lamb, there’s a river by the trestle down by sinner’s grove, down where the willow and the dogwood grow".

26 June 2026

 
(sequência daqui) Esta coleção homenageia não só a extraordinária versatilidade da composição de Waits, mas também a importância de um artista que continua a assombrar e a inspirar, partindo das margens para o centro. Poucos redefiniram o panorama da música popular, e da cultura em geral, como Tom Waits. Ao longo de cinco décadas, ele forjou uma estética singular que desafia os géneros e transforma o marginal em mito. Inspirando-se no vaudeville, no blues, no jazz, no folk, no teatro – e em praticamente tudo o que lhe chama a atenção – para criar algo inteiramente seu. Com a sua parceira criativa de longa data e esposa, Kathleen Brennan, ele desmontou e remontou a própria ideia de canção. O casal conheceu-se em 1978 no set de Paradise Alley (onde Waits fez a sua estreia como actor e Brennan trabalhou como argumentista). Embora se tenham casado apenas alguns anos mais tarde - "em Los Angeles, na Always Forever Yours Wedding Chapel, onde nos deram um saquinho que tinha lá dentro uma novela, The Vanishing Bride um Tampax, preservativos e um tira-nódoas. O escrivão chamava-se Watermelon" - começaram a colaborar em meados dos anos 80, dando início aos trabalhos mais experimentais de Waits com Swordfishtrombones, de 1985, e Franks Wild Years, de 1987. Trabalharam também com Robert Wilson em três musicais, The Black Rider (1989), Alice (1992) e Woyzeck (2000) (segue para aqui)

23 June 2026

Katherine Priddy - "Matches" 
 (ver aqui também)

 
(sequência daqui) Não por muito tempo. Alguns meses depois, Cash e Rubin deram-se conta de que tinham um músico em comum com Waits, o guitarrista Smokey Hormel, que, em missão de pombo-correio, foi para lhe perguntar se ele, por acaso, não teria alguma coisa guardada. Este rebuscou um pouco na memória e, não muito convictamente, sugeriu “Down There By the Train”: "Ei, tem tudo o que o Johnny gosta: comboios e morte, John Wilkes Booth, a cruz…" Depois de a canção lhe ter saido das mãos, Waits referiu que Cash "Fez-lhe algumas alterações, o que era de esperar. Eu faço o mesmo quando toco uma música de outro autor. É mesmo preciso fazê-lo, experimenta-se, e quando está um pouco apertado aqui, não encaixa bem ali, corta-se ou adapta-se. Queres que soe como se fosse tua". (segue para aqui)

21 June 2026

DAS MARGENS PARA O CENTRO

Quando, em 1993, Johnny Cash estava a trabalhar no seu memorável 81º álbum, American Recordings, o produtor Rick Rubin sugeriu-lhe convidar um grupo de compositores criteriosamente selecionados. Assinalando um ressurgimento na carreira de Cash, American Recordings excluiria qualquer tipo de produção sobrecarregada, deixando-o sozinho com uma guitarra e as letras. Para capturar o som na sua forma mais crua, o álbum seria gravado entre a sala de estar de Rubin e a cabana de Cash no Tennessee. Para além das cinco faixas escritas por Cash, o álbum incluiria, então, igualmente uma coleção de canções assinadas por um grupo eclético de artistas, de que faziam parte Nick Lowe, Kris Kristofferson, Leonard Cohen.e Loudon Winright III. Tom Waits também foi convidado a contribuir com uma canção. Mas, como ele contaria a Jim Jarmusch no substack "Every Tom Waits Song", havia apenas “Down There By the Train” que, até à altura, "ninguém quisera gravar. E também não conseguimos encontrar uma forma de o fazer que nos satisfizesse, por isso deixámo-la para trás. E lá ficou ela, à espera". (daqui; segue para aqui)

 

Lucinda Williams - "Hang Down Your Head"

15 June 2026

Daughters of Donbas - "Riddle"  
(Live in Lviv)


 Ukrainian Children — Stolen by Russia
 
 

14 June 2026

UM INSTANTÂNEO DO MOMENTO
Não são muitas mas há que prestar-lhes atenção. Falo das referências ao facto de Katherine Priddy ter dedicado boa parte do ano passado a participar na digressão Flying With Angels, de Suzanne Vega. Não só lhe fica muito bem no currículo ainda curto mas absolutamente imaculado, como não será, certamente, inferior à sensação que, em 2018, experimentou ao saber que, na "Mojo", Richard Thompson considerara o seu EP de estreia, Wolf, o melhor disco que escutara nesse ano. Aprender com os mestres foi, pois, aquilo de que Priddy desejou prestar contas nos belíssimos The Eternal Rocks Beneath (2021) e The Pendulum Swing (2024). “Queria terminar este álbum com um ponto de interrogação”, disse agora Priddy à "KLOF Mag" a propósito do último These Frightening Machines. "Embora tivesse esperado ter tudo resolvido no terceiro álbum e na minha terceira década de vida, acabei por aceitar que talvez uma parte de ser humano seja ser uma obra em constante evolução". (daqui; segue para aqui)