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24 November 2024

MEA MAXIMA CULPA (VII)

(publicado no nº 11 da "Granta")

(sequência daqui) Mas verdadeieamente sísmico foi o encontro imediato com os Rollerskate Skinny! No "field report", relataria quase telegraficamente "um concerto de rock flamejante (como em 'gótico flamejante') construído sobre um 'patchwork' de Sonic Youth na técnica de esforço dos materiais, Echo & The Bunnymen na complexidade da arquitectura, Pixies na disciplina formal e Neil Young no arrojo clássico, num somatório elevado à milésima potência". Porém, escutado Horsedrawn Wishes (1996), não houve hipérbole insuflada que bastasse para traduzir o estado alterado de consciência por via exclusivamente sonora. Começava — evidentemente — com "Toca-me então a mim finalmente dizer: eu vi o futuro da pop e ele chama-se Rollerskate Skinny!" e terminava, claro, bradando "Peço imensa desculpa mas este não é o meu álbum do ano, estou a reservar-lhe o lugar da década. Quanto ao século, se não se importam, dêem-me mais algum tempo para pensar". Pelo meio, avistava "uma prodigiosa (estou a pesar bem as palavras) montagem de 30 anos de pop, aos quais o trio de 'dubliners' extraiu todas as fibras vivas e, como Frankensteins competentes, a partir delas criou um novo organismo (...), rebuçados de melodia embrulhados em esquadrias de ruído, cenários surreais atravessados por intromissões lunares, moinhos sonoros e corais docemente labirínticos. Um edifício construído como uma catedral medieval desenhada por um Hyeronimus Bosch que trabalhasse para Walt Disney, com tanto de arte pop como de iluminura gótica (...), 'flashes' de Pet Sounds e o género de caótico bricabraque psicadélico de alquimistas esotéricos como Van Dyke Parks e os XTC. Queiram perdoar a miserável limitação das referências: aqui também há Gershwin, Pixies, Steve Reich, música concreta, Glenn Branca, Kevin Ayers e Ramones. Muito raras vezes 12 composições fizeram tão perfeito sentido de modo a ser absolutamente impossível excluir umas ou destacar outras. Aquilo com que muitos outros sonharam, os Rollerskate Skinny realizaram".

Seis meses mais tarde, no entanto, no balanço de final do ano, acalmada a extra-sístole e controlada a temperatura corporal, limitavam-se a surgir numa lista de 20 "clássicos, neoclássicos e estetas da colagem alucinada nos vários sectores do espectro pop/rock" que "através de reedições e novas publicações (...) marcaram distâncias em relação ao revisionismo puro e simples de que o 'britpop' se arvorou em paladino". Horsedrawn Wishes, segundo álbum da banda cujo nome fora subtraído a uma frase de The Catcher In The Rye, de J. D. Salinger ("She's quite skinny, like me, but nice skinny, rollerskate skinny") seria também o último. Várias vezes me interroguei se não me teria transformado num involuntário lançador de mau olhado sobre indefesos jovens génios irlandeses. (segue para aqui)

03 August 2022

PIROTECNIA BARROCA 

Haverá, certamente, de chegar um dia em que, ao escrever-se sobre a publicação de um disco, de um livro ou a estreia de um filme, não seja inevitável incluir as palavras “pandemia”, “confinamento”, “coronavirus” (e todos os sinónimos ou variações afins), enquanto marcadores de um “antes”, um “depois”, e daquele “durante” em que tudo o que deveria ter acontecido ficou suspenso. Ou foi realizado de modo muito diferente do que tinha sido planeado. Não será, porém, ainda o caso de Endless Rooms, dos australianos Rolling Blackouts Coastal Fever. Saiba-se, então, que, na manhã da sexta-feira 13 de Março de 2020, quando os três guitarristas – Joe White, Fran Keaney e Tom Russo –, o baixista Joe Russo e o baterista Marcel Tussie se preparavam entusiasmadamente para o concerto nas escadarias da Ópera de Sydney que, no dia seguinte, iriam partilhar com os seus heróis, os Pixies, tiveram conhecimento de que estes o haviam cancelado e abandonado a Austrália. Como em muitos outros países, o primeiro-ministro, Scott Morrison, proibira os ajuntamentos “não essenciais” de mais de 500 pessoas, a ter início na segunda-feira seguinte.

"The Way It Shatters"

Na noite da própria sexta-feira, pesaram prós e contras e acabaram por decidir que, no domingo, poucas horas antes de as restrições entrarem em vigor, dariam um último concerto gratuito no pub The Vic On The Park, em Marrickville. No passado, já lá haviam tocado para uma sala vazia. Desta vez, anunciaram uma lotação máxima de 250 pessoas… que seria, naturalmente, excedida. Como, mais tarde, Fran Keaney confessaria ao “New Musical Express”, “O que, na sexta-feira, nos tinha parecido bem, no domingo já não era exactamente igual. Não que nos sentíssemos irresponsáveis. Sentíamos apenas que não estava a ser uma celebração tipo ‘Uau!... É a véspera do dia em que vamos todos para os abrigos!’, um último ‘hurra!!!’, mas só uma sensação desalentada de ‘e, agora, vamos ter de ir todos para casa...’” (daqui; segue)

20 May 2021

Vaughan Oliver | 4AD album covers 
 (II) (ver aqui e aqui)
 
 
Clan Of Xymox - Clan Of Xymox
 
Colourbox - Colourbox
 
Pixies - Doolittle
 
Red House Painters - Down Colorful Hill
 
The Breeders - Mountain Battles

15 May 2021

Vaughan Oliver | 4AD album covers (I)
(ver aqui e aqui)


Cocteau Twins - Victorialand
 
Throwing Muses - Throwing Muses

Tarnation - Gentle Creatures
 
Pixies - Surfer Rosa

Dead Can Dance - Spleen And Ideal

27 April 2021

Dry Cleaning - "Oblivion" (Grimes)
 
(sequência daqui) Mas o que era, na verdade, aquilo a que se convencionou chamar “o som 4AD”, o qual, mesmo antes de comprarmos um álbum, podíamos, de certa maneira, antecipar? “Não me parece que a 4AD fosse assim tão diferente de outras como a Mute, a Factory, Rough Trade ou Cherry Red. Isso valia apenas para alguma música. A maior banda da 4AD, os Pixies, não se encaixava nessa matriz sonora em que temos tendência para pensar. É um grande tema de reflexão que não cabe numa peça jornalística mas penso que a 4AD era muito mais variada do que se supõe. Quando se afirma que a editora, nos anos 80, tinha uma sonoridade muito própria, é apenas verdade até certo ponto, não na totalidade. Isso resulta do modo como tendemos a encarar o passado: mesmo quando essa percepção não corresponde à realidade, a memória que dele construimos substitui a realidade”. No entanto, ainda que os Cocteau Twins não fossem os Pixies e os Dead Can Dance nada tivessem a ver com as Breeders, poder-se-ia, ainda assim, desenhar um retrato-robot da típica banda 4AD? “Nessa percepção da editora, eu diria que a clássica banda-4AD foram, realmente, os Cocteau Twins. Os Dead Can Dance também, por aquela sensação de alargamento do horizonte, de assombro... É assim que a maioria das pessoas continua a ver a 4AD. Porque, nos anos 90, falavam dela mas, na verdade, não a conheciam. Apenas identificavam a estética das capas e os Cocteau Twins. Passa-se o mesmo com a Factory: sobreviveu a música dos Joy Division e a ideia de tratar-se de um bando de gente infeliz de Manchester mas esqueceram-se as toneladas de lixo que publicaram. As pessoas gostam de olhar para as memórias do passado e acreditar que tiveram um significado importante. E de imaginar um passado que foi muito melhor do que o presente”. (segue para aqui)

22 April 2021

SEGREDOS, SONHOS E MEDOS

Quando, em 1980, Ivo Watts-Russell e Peter Kent fundaram a 4AD, o plano era manter-se em actividade durante 10 anos e, no último dia de 1990, fechar as portas. Ainda esse dia estava longe de chegar e já Watts-Russell – o mais novo de oito irmãos de uma linhagem aristocrática arruinada –, na segunda metade dos anos 80, confessava ser incapaz de virar costas às bandas (Cocteau Twins, This Mortal Coil, Dead Can Dance, Clan of Xymox, Bauhaus, Modern English, Birthday Party, Xmal Deutschland, Colourbox, The Wofgang Press, Momus/The Happy Family...) que haviam transformado a editora num dos mais luminosos faróis da cena "indie" britânica. Segundo Martin Aston, autor de Facing The Other Way: The Story Of 4AD (2013), o sucesso da 4AD assentou no desprendimento comercial de Ivo Watts-Russell – que, logo em 1981, ficaria sozinho à frente da editora – e numa inclinação estética que privilegiava “sentimentos e segredos ocultos, sonhos ansiosos e medos sufocados, esperança e raiva, criados por uma trupe de 'beautiful freaks' que não desejavam ser vistos”.

O horizonte alargar-se-ia até à outra margem do Atlântico onde iriam descobrir os Pixies, Throwing Muses e Breeders mas, em 1999, Ivo venderia a sua quota da editora à Beggars Banquet – para a qual, desde o início, a 4AD fora pensada como incubadora de novas bandas – e exilar-se-ia até hoje no deserto do Novo México. A partir de 2007 com Simon Halliday no comando das operações, sem abdicar significativamente do perfil original, o catálogo foi-se diversificando e alargando (Mountain Goats, TV On The Radio, The National, Scott Walker, Beirut, Bon Iver, Tune-Yards, St. Vincent, Efterklang, Grimes, Future Islands, U.S. Girls, Holly Herndon, Aldous Harding, Big Thief), chegando, agora, o momento de celebrar quatro décadas de existência com a publicação de Bills & Aches & Blues (primeiro verso de "Cherry-Coloured Funk", dos Cocteau Twins) uma espécie de recuperação actualizada do conceito This Mortal Coil no qual bandas actuais revisitam temas dos “clássicos” 4AD. (daqui; segue para aqui)

24 April 2018

NA ALTURA CERTA 



Há menos de um ano, nos ecrãs de televisão de todo o mundo, Chrysta Bell habitava as assombrações de David Lynch em Twin Peaks: The Return, enquanto, ao mesmo tempo, numa existência paralela (também catalisada por Lynch), publicava o precioso álbum We Dissolve, produzido por John Parish. Agora, em 4 das 20 datas da tournée europeia de 2018, pudemos vê-la e ouvi-la onde mais improvável seria: Coimbra, Arcos de Valdevez, Ovar e Torres Novas. No Outono passado, Relatives In Descent, dos Protomartyr, situava-os num patamar equiparável ao dos National segundos antes de Alligator e ainda recomendavelmente longe de Sleep Well Beast – “uma música devastadora, estridentemente política, mas menos interessada em ditar problemas e soluções do que em cartografar a topografia emocional de estar vivo e aterrorizado em 2017”, como sobre ele escreveu “The A.V. Club”. Escassa meia dúzia de meses depois, a banda de Joe Casey e Greg Ahee, numa noite de aguaceiros, subia ao palco na pombalina e granítica Musicbox. 



No Teatro Gil Vicente, em Coimbra, Chrysta Bell foi a aparição de uma Rita Hayworth de alabastro, algo como a sobreposição dos perfis de Siouxsie, Cleópatra e Batwoman, numa coreografia entre "lap dance" e dança do ventre, e armada de uma voz capaz de ir do sussurro ao registo de diva operática. De This Train ao recente EP homónimo, contra um pano de fundo de labaredas, cortinas vermelho-bordel de Twin Peaks e excertos de clips de Lynch, escoaram-se dezassete luxuosas canções por vezes, mais próximas de uma (per)versão do "wild mercury sound" de Dylan do que da "torch song" – a novíssima "Blue Rose", contudo, é melodia orgástica impurissimamente "torch" –, coisa tão ardentemente física quanto a milagrosa cintura pélvica da "femme fatale" que as interpretava. Menos cantor do que "diseur"/exorcista de demónios erguido sobre as ruínas proletárias de Detroit, Joe Casey transformou a sala do Cais de Sodré num cenário onde um rock Neolítico – queimando algumas etapas – sonha com um futuro Românico. A acústica do lugar pode converter todos os textos em pura poesia fonética (mas, se quiséssemos ir por aí, nunca ninguém teria colocado um pé dentro do CBGB), porém, naquela densa construção sonora de uns Pixies com menor profundidade de campo, é impossível não declarar rendição perante o napalm da guitarra e a quadratura estalinista de baixo e bateria. Aqui e ali, fora dos hipermercados estivais de música, ainda é possível ir estando atento às coisas certas, na altura certa.

14 September 2017

DESPERTAR


Desde há anos que os R.E.M. (via Peter Buck) e as Sleater-Kinney (via Corin Tucker) alimentavam uma discreta sociedade de mútua admiração. Tanto assim que, logo a seguir ao "harakiri" do grupo de Michael Stipe, em 2011, e durante a suspensão de actividades das pós-"riot grrrls" de Olympia, entre 2007 e 2014, Buck e Tucker começaram, sem demasiada pressa, a reunir as peças para o que, sob o nome de Filthy Friends, haveria de ser a mais recente encarnação de uma das assombrações da história do rock: o “supergrupo”. Acolheriam a bordo Scott McCaughey, Bill Rieflin (antigos "compagnons de route" dos R.E.M.), Kurt Bloch (veterano da cena alternativa de Seattle), e, episodicamente, Krist Novoselic (Nirvana). Se, de início, o pretexto era o de actuar como banda de "covers" de David Bowie – e foi nessa qualidade que, em Janeiro do ano passado, uma semana após a morte de Bowie, se apresentaram no “Todos Santos Music Festival”, anualmente organizado por Peter Buck na Baja California –, ainda em 2012, Buck e Tucker tiveram uma visão do futuro e ele era assustador. E, meio século depois de Dylan, decidiram-se a escrever a "The Times They Are A-Changin’" contemporânea. 


Só a publicariam, porém, em 2016, no último mês da campanha presidencial, no site “30 Days 30 Songs – Musicians for a Trump Free America”, declarando: “Já antes de Trump anunciar a candidatura, apercebemo-nos de quanto o país estava a mudar cultural e politicamente. A realidade é ainda mais feia e desanimadora. Desejamos de todo o coração poder dizer ‘adiós’ a Trump no dia da eleição”. Como bem sabemos, não puderam. Mas, agora que os Filthy Friends publicam o primeiro álbum (Invitation), na voz de Corin – algo entre Grace Slick e Patti Smith –, "Despierta" soa, paradoxalmente, ainda mais poderosa: “Despierta, senador, the time is nearly here, the gold watch strapped around your wrist must have stopped some time ago, the day is fading quickly and the hour is nearly here, the whitest chalk upon this land is about to disappear, holding onto the past won’t make it repeat, it’s time to get up, I think you’re in my seat (…), your time is over, your power’s peaked, adiós, senador, I have come to get the keys”. Será, inevitavelmente, a bandeira que irá à frente num desfile de 12 belíssimas canções sobre as quais, naturalmente, a sombra dos R.E.M. paira. Mas também as dos Television, dos T. Rex ou dos Pixies contribuem para que, neste caso, “supergrupo” deva ser lido literalmente.

01 September 2016

APURAR E DECANTAR

  
Segundo Neil Hannon, aparentemente, o assunto deixa-se esclarecer em poucas palavras: “Suponho que Foreverland foi inspirado pela minha história pessoal dos últimos seis ou sete anos e por documentários de História da BBC4”. Com que andou, então, Hannon ocupado desde que, em Maio de 2010, publicou Bang Goes The Knighthood? Na verdade, toda uma carreira paralela: com Thomas Walsh, dos irlandeses, Pugwash, inventou The Duckworth Lewis Method, cujo primeiro álbum homónimo (2009) era "a kaleidoscopic musical adventure through the beautiful and rather silly world of cricket”, e o segundo, Sticky Wickets (2013), reinvestia na mesma modalidade; no ano seguinte, dedicou-se à escrita de um musical, Swallows and Amazons, a partir de uma série de romances dos anos 30, de Arthur Ransome; em 2012, sobre os Sevastopol Sketches, de Tolstoy, criou a sua primeira ópera, Sevastopol, e, logo a seguir, In May, teatro-musical de câmara com libreto de Frank Alva Buecheler, sob a forma de 24 canções para a voz de Leentje Van de Cruys, o piano de Fredrik Holm, e as cordas do Ligeti Quartet; por fim, há dois anos, estreou To Our Fathers In Distress, uma peça para o orgão recém-restaurado do Royal Festival Hall, côro e ensemble de cordas, dedicada ao pai, bispo da Church Of Ireland e doente de Alzheimer. “With my background in foolish pop, it's still a surprise and an honour to be asked to do such things”, confessaria ele, na altura. 


A modéstia será genuína mas, por muito ligeiras e irónicas que as canções dos Divine Comedy pareçam, ninguém se atreveria a classificá-las como “foolish pop”. Coisa fácil de compreender, aliás, na recente e assaz reveladora entrevista à Boundless, na qual, sem máscaras, desenha a sua genealogia musical: a Electric Light Orchestra, de Roy Wood e Jeff Lynne (“Goste disso ou não, a ELO é a minha mais profunda influência. Na minha música, podem identificar-se tiques da ELO por todo o lado. Posso estar a pensar nos Walker Brothers mas o que sai é ELO”), Scott Walker e “a lot of French stuff” (“No fim da adolescência, andava obcecado com a pop orquestral dos anos 60 e com as canções francesas. Em grande parte, isso deve-se a Scott Walker e às suas interpretações de Jacques Brel. Era tão brutalmente honesto e poético... claro que daí até Gainsbourg e Piaf foi só um salto. E como tambám gostava de cabaret alemão e bandas sonoras de filmes, tudo acabou por se combinar”), e Michael Nyman (“Quando comecei, era uma epítome do puto indie dos anos 80: antes de mais, era fã absoluto dos R.E.M. e dos Pixies e de alguns 'shoegazers' mais obscuros – Pale Saints, Chapterhouse, Ride... mas, quando vi os filmes do Peter Greenaway, fui completamente abalado pelo modo intenso e punk como o Michael Nyman fazia soar um quarteto de cordas. Afastei-me cada vez mais da ideia do quarteto básico de rock. Por volta do meio dos anos 90, tentei articular um pouco as duas coisas”).


Não é preciso lupa para confirmar que, se não surge, realmente, nada de surpreendentemente novo em Foreverland, os traços essenciais da música dos Divine Comedy mantêm-se intactos. A última meia década terá servido para apurar e decantar o estilo mas quem como o diminuto Hannon seria capaz de desenhar, em cinemascope, um auto-retrato em "Napoleon Complex" (“Who pulls the strings, who makes the deals, stands five foot three in Cuban heels?”), fazer transportar (em portentosa música e vídeo mock-Greenaway) o 1.60m para a corte de Catarina da Rússia e, em 3’12”, incluir aula de História e declaração de amor (com “Ekaterina Alexeyevna” como texto da "bridge") ou criar uma BSO de recorte exótico para potencial thriller em "Desperate Man#? Apenas o mesmo Neil Hannon que deixou "Other People" tal qual a gravara no telemóvel, num quarto de hotel, "a cappella", pronta a deixar-se raptar, em voo orquestral, para um céu de Hollywood.

18 July 2011

RETROMANIA


















Joy Division/New Order - Total/From Joy Division To New Order

Nas primeiras linhas da "Introdução" de Retromania: Pop Culture’s Addiction To Its Own Past, de Simon Reynolds – 458 páginas absolutamente decisivas para a navegação sem demasiados acidentes no oceano da cultura (não exclusivamente) pop contemporânea –, pode ler-se: “Vivemos numa idade pop enlouquecida pelo retro e obcecada por comemorações. Reunificações de bandas e tournées de regresso, álbuns de homenagem e 'box-sets', festivais de aniversário e interpretações ao vivo de álbuns clássicos. Será que o maior perigo para o futuro da nossa cultura musical é... o seu passado? Talvez isto soe desnecessariamente apocalíptico. Mas o cenário que estou a imaginar não é o de um cataclismo mas o de uma gradual perda de gás. A pop chegará ao fim não com um BANG mas com um 'box-set' cujo quarto disco nunca chegaremos a escutar e com um bilhete caríssimo para o concerto em que os Pixies ou os Pavement executarão aquele álbum que ouvimos até ao vómito no primeiro ano da faculdade”.


New Order - "Ceremony"

É capaz de não ser fácil imaginar quanto isto é verdade e de que forma, semanalmente, se vão acumulando caixotes sobre caixotes de reedições de outras reedições anteriores. O catálogo Joy Division/New Order já tinha sido submetido a este processo mas, hélas!, faltava ainda o formato "best of" em edição conjunta. Comprimido em dezoito faixas, só poderia ser severamente incompleto. Mas francamente pior do que isso é o tom patologicamente retromaníaco das "liner notes" de David Quantick que, para demonstrar a superior magnificência da banda de Ian Curtis e descendência directa, lança mais uma outra pazada sobre qualquer vaga hipótese de futuro: “Ainda hoje, podemos silenciar o entusiasmo de um fã adolescente pelo seu grupo de rock favorito, chamando-lhe a atenção para que, seja ele qual for, não é os New Order nem os Joy Division”.

18 May 2010

O FILHO DO BISPO ENCONTRA-SE BEM



The Divine Comedy - Bang Goes The Knighthood

Neste álbum, em "Can You Stand Upon One Leg", Neil Hannon sustenta, em falsetto, um sol durante exactamente 28.9 segundos. "Neapolitan Girl", num registo quase-National Geographic, aborda o tema da, alegadamente, mais antiga profissão do mundo e a canção-título desenvolve-o em variante BDSM. Em "At The Indie Disco", num total de vinte e um versos, consegue alojar referências aos Cure, Morrissey, Soft Cell, Blur, New Order, My Bloody Valentine, Pixies, Stone Roses e Wannadies (e, nas imagens do respectivo videoclip, adicionem-lhe duas ou três vezes isso). "I Like" opta pelo estilo de versejar de que “I like the way you make me laugh, I like your brain both left and right half, I like the songs you sing when you’re bathing, I like the dog when he’s behaving” é um exemplo esclarecedor e, se googlarmos a frase “maybe this recession is a blessing in disguise” (de "The Complete Banker"), descobriremos que ela apareceu em dezenas de artigos sobre o último fim do mundo tal como o conhecemos. Na capa, de chapéu de coco, cachimbo, papillon e cálice na mão, Hannon, na banheira, toma um banho de espuma acompanhado pelo tal cão que, às vezes, se porta bem (o que, na circunstância, até parece ser o caso). Será que o filho do bispo de Clogher ensandeceu? Não necessariamente. Mais importante do que isso: de tão destrambelhado cocktail, resulta alguma coisa com a qual valha a pena perder tempo? Resulta, sim.



Coloquemos, então, a questão segundo um ponto de vista darwiniano: na origem das espécies-pop por meio da selecção natural, Neil Hannon foi o Paul McCartney que correu bem. Ambos têm o mesmo ouvido abençoado para detectar uma boa melodia à distância e não a deixar escapar, mas se, seis em cada dez vezes, McCartney a converte em xarope de melaço, Hannon poderá não construir nenhuma catedral de Chartres a partir dela mas também nunca a obrigará a passar vergonhas. O ex-Beatle tem armários atravancados de "Ob-la-di Ob-la-das" e "All Together Nows" mas, nas prateleiras do nano-irlandês, o pior que se descobre é Frank Lampard escondido atrás de uma rima de "The Lost Art Of Conversation". Um, após enviuvar da banda-mãe, imaginou-se o elo perdido entre a tradição sinfónica clássica e o pub da esquina, o outro nunca sonhou mais alto nem mais baixo do que com Scott Walker (e, vá lá, Jacques Brel, Chekhov, Scott Fitzgerald e o festival da Eurovisão).



É por isso que embora, de Promenade a Casanova ou Fin de Siècle, se possam degustar iguarias músico-literárias de finíssimo paladar, caso se tropece num qualquer Bang Goes The Knighthood ou Victory For The Comic Muse (o último, de 2006), poderemos não ter mesa de banquete real garantida mas nunca haverá motivo para receios de desastre irremediável. À nossa espera, estarão sempre um "Down In The Street Below" ou "When A Man Cries" de recorte impecavelmente clássico e (lá está) walkeriano, outro "Have You Ever Been In Love" a seguir o caminho das pedrinhas lançadas por Burt Bacharach, o perverso "jeu de massacre" em vestes de valse-musette de "Bang Goes The Knighthood" ou o sarcástico exercício de investigação sociológica vaudevillizada em "Assume The Perpendicular", para compensar das duas ou três ligeirezas frívolas com que o seriíssimo cavalheiro que faz questão de nos recomendar Graham Greene, Paolo Conte, a Penguin Café Orchestra, as esculturas de Botero ou a série Cosmos, de Carl Sagan, por vezes, insiste em se divertir. Tranquilizai-vos, nada a temer: não há sequer aqui a vaga sombra de um "We All Stand Together".

(2010)

28 September 2009

SANGUE POLAR



Hanne Hukkelberg - Blood From A Stone

Em 2007, Hanne Hukkelberg tinha acabado de editar Rykestrasse 68 e caracterizava a sua atitude perante a criação musical assim: “Quando estou a compor, penso de uma forma muito visual, crio imagens e filmes na minha cabeça acerca das músicas que vou compor e da direcção em que as vou conduzir”. O que, na altura, tanto valia para esse álbum como para o anterior Little Things (2005), duas preciosas jóias de relojoaria sonora que, integrando instrumentação convencional e "found sounds" diversos, acolhiam microuniversos que apenas se deixavam infinitamente revelar após prolongado e atento convívio. Em Blood From A Stone, talvez se possa dizer que – se nada de verdadeiramente radical aconteceu relativamente ao modus operandi – Hanne Hukkelberg passou a pensar as canções mais exactamente enquanto canções e, sem lhes amputar a dimensão visual, é, agora, uma lógica propriamente musical que comanda todo o processo.



Na origem, terá estado a velha paixão adolescente pelos Pixies – dos quais, em Rykestrasse 68, já incluíra uma versão de "Break My Body" –, por Siouxsie & The Banshees e, acrescentaria eu, o lado menos véus-e-rendas dos Cocteau Twins. Gravado na ilha de Senja, na costa noroeste da Noruega, e voltando a contar com a colaboração do fidelíssimo produtor Kåre Vestrheim, é um pouco como se a atmosfera polar tivesse puxado para a superfície o lado mais agreste e angulosamente art-punk de Hukkelberg – os "found sounds" (frigoríficos, fogões, pedras) permanecem mas solidamente embutidos na arquitectura global –, acentuando asperezas e um ímpeto rítmico primordialmente visceral.

(2009)

26 January 2007

Clap Your Hands Say Yeah - Clap Your Hands Say Yeah



A estética do "copy+paste" nada contém de maligno em si mesma. Posso facilmente imaginar um magnífico híbrido sonoro composto da voz de Solomon Burke com a guitarra de Jimi Hendrix e a maquinaria de Brian Eno. Ou Nick Cave, em dueto com Billie Holiday, acompanhado por Bo Diddley e dispondo de Morricone aos comandos da nave. Mas tão belíssimas quimeras apenas conseguiriam ganhar vida própria se o Frankenstein de turno não se satisfizesse com o mero trabalho de corte e costura e, em simultâneo, tratasse de accionar a tecla do "shuffle", procurando atingir aquele plano superior da "random accuracy" onde as partes se esboroariam no todo, gerando um novo e assombroso organismo. A riqueza genética da(s) matéria(s)-prima(s) seria, nauralmente, decisiva. E tanto mais fértil quanto menos explorada anteriormente. É precisamente por contrariar esta última alínea do protocolo laboratorial que o álbum de estreia dos norte-americanos Clap Your Hands Say Yeah é verdadeiramente surpreendente: a voz de Alan Ounsworth é David Byrne via-Gordon Gano (Violent Femmes), as guitarras passam os Velvet Underground pela peneira dos Feelies e o baixo mimetiza todas os graus da escala que vai dos Joy Division aos New Order, passando pelos Cure. Com alguma histeria residual dos Pixies, a elegância mal amanhada de Jonathan Richman e a charanga de ferro-velho que, da Band Of Holy Joy a Tom Waits, muito bons serviços já prestou.



Nada de novo, então?... Errado: algum catalizador desconhecido terá caído, por acidente, no tubo de ensaio, pelo que a criatura CYHSY, apesar de constituída por tecidos com bastante uso, é um espécime bem interessante. Curiosamente, segundo os próprios, a fórmula da poção é outra: Nina Simone, Neil Young, Bob Dylan, Brian Eno, Beach Boys, Temptations, Clash, Phil Spector, Richard Thompson, Springsteen... mais outros tantos. É provável que eles não saibam o que dizem. Tal como nós nunca estaremos muito certos do que fala o surrealismo maltrapilho dos textos (um exemplo só e logo o primeiro: "Run the lip off sunshine shore, betray white water, delay dark forms, slap young waves on wooden bones, don't touch the laughter and away we go"). Não importa. Por uma vez, é possível dizer "believe the hype!" sem problemas respiratórios.