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17 November 2020

ANARQUITECTURA

“O cérebro dos bebés tem centenas de milhões de ligações neuronais, muito mais do que as que possuimos quando adultos. Que significa isto? Que os bebés são mais inteligentes do que nós? Que, à medida que crescemos, nos tornamos cada vez mais estúpidos até atingirmos um determinado patamar de estupidez que é aquele em que a maioria de nós se encontra? Mantemos as ligações que nos são úteis e, através de um processo de desbaste e eliminação, desfazemo-nos de todas as outras até que aquelas que restam definem o que somos enquanto pessoas, como vemos o mundo e este, aparentemente, faz algum sentido para nós. É por essa altura que começamos a fazer perguntas como ‘quem sou eu?’, ‘o que desejo?’, ‘como fiz isto?’, ‘o que estão aquelas pessoas ali a fazer?’, ’estão a olhar para mim?’, ‘são como eu?’, ‘deveria ir falar com elas?’...” Minutos antes, David Byrne tinha-nos conduzido numa visita guiada pelas circunvoluções, recessos e interstícios do cérebro humano – com modelo tridimensional em exibição – tal como a planeara em "Here", a última faixa de American Utopia (2018), o álbum que, concebera, a quatro mãos, com Brian Eno.

 

Mais à frente, por altura de "Lazy" (“Now some folks they got money and some folks lives are sweet, and some folks make decisions and some folks clean the streets, imagine what it feels like, imagine how it sounds, if everything were perfect and everything works out”), observará: “Objectivamente, nunca consegui entender por que razão olhar para uma pessoa deveria ser mais interessante do que olhar para qualquer outra coisa, por exemplo, uma bicicleta, um belo pôr-do-sol ou um pacote de batatas fritas. Mas... é verdade, observar as pessoas é o melhor”. E, durante 1 hora e 45 minutos, é exactamente isso que Byrne e as 11 câmaras comandadas por Spike Lee nos desafiam a fazer, a partir das imagens e sons captados no palco do Hudson Theater, da Broadway, em Nova Iorque.

 

Seria aí que – após a digressão que se seguiria à publicação do álbum –, com a colaboração da coreógrafa Annie-B Parson (que, desde Here Lies Love, o "musical" sobre Imelda Marcos, de 2010, trabalha com Byrne), ele reconfiguraria o espectáculo enquanto "stage show", em cena de Outubro de 2019 a Fevereiro deste ano, quando foi, subitamente, interrompido pela pandemia. Milagrosamente, tinha havido ainda tempo para que Spike Lee e a directora de fotografia, Ellen Kuras (braço armado de Jim Jarmusch, Martin Scorsese, Michel Gondry ou Sam Mendes) pudessem filmar duas noites. “A cãmara tinha de dançar, acompanhar os músicos/bailarinos e compreender a coreografia”, explicou David Byrne ao “New York Times”, a propósito do modo como Spike Lee se concentrou no objectivo de “derrubar a quarta parede”.

Filmando dos bastidores, no interior do próprio palco como quem observa de perto os detalhes de um quadro, em inesperados "freeze frames", ou em vertiginosos planos picados verticais, Lee e Kuras deixam-se capturar pela exultante anarquitectura coreográfica – radical exuberância gestual sob rigorosa disciplina militar colectiva – que, num palco totalmente despido de microfones, colunas e cabos, os 12 músicos (americanos, canadianos, brasileiros e franceses), carregando consigo guitarras, teclados e percussões, interpretam em explosivo contraponto visual das 22 músicas – de American Utopia mas também de Rei Momo (1989), Grown Backwards (2004), Everything That Happens Will Happen Today (2008, com Brian Eno), Love This Giant (2012, com St. Vincent), e dos Talking Heads. A pretexto de "I Zimbra", sobre poema de Hugo Ball, recorda como os dadaistas usavam o "nonsense" para procurar fazer sentido de um mundo sem sentido. Exactamente o mesmo mundo que, hoje, em "Hell You Talmbout", de Janelle Monáe, reemerge numa lista de 20 nomes de vítimas negras da violência policial (“Say his name!”), em ardente expressão comunitária coral-percussiva. Como se tudo pudesse vir a ser perfeito e funcionar em harmonia. (No Porto/Post/Doc, Rivoli, Porto, sexta-feira 20,19h, e 27, 14.30h)

09 October 2012

VINTAGE (CVI)

Björk - "Joga"

Real. Michel Gondry

All these accidents,
That happen,
Follow the dot,
Coincidence,
Makes sense,
Only with you,
You don't have to speak,
I feel.

Emotional landscapes,
They puzzle me,
Then the riddle gets solved,
And you push me up to this

State of emergency,
How beautiful to be,
State of emergency,
Is where I want to be.

All that no-one sees,
You see,
What's inside of me,
Every nerve that hurts,
You heal,
Deep inside of me,
You don't have to speak,
I feel.

Emotional landscapes...

11 July 2008

IMAGINEMOS
(porque, hoje, este clip veio à conversa, apesar
de eu ter confundido os Vines com os Hives)




The Vines são uma banda australiana de pop/rock igual ao litro. Não fazem nada que, musicalmente, não tenha sido já realizado milhões de vezes antes deles, satisfazem-se plenamente com o encargo de banda sonora descartável para ócios "teen", dali não sai coisa que, mesmo sem necessidade de grande transcendência, se abeire do tornozelo do "angst" versão-Nirvana, da cantarolice facção-Beatles ou do electrochoque no tímpano tendência Mötörhead. São lisos, chatos e anónimos. Vão durar os proverbiais seis meses e vão passar à história. Quero dizer, não vão fazer História. Mas podia não ter sido assim. Bastava que o conceito que presidiu à realização do videoclip de "Ride" (o primeiro single retirado do último álbum, Winning Days) fosse a fiel tradução da música da banda: numa enorme sala tipo ginásio, após a aparição dos quatro canónicos elementos do grupo, como por milagre, o espaço vai-se enchendo de dezenas (muitas dezenas) de outros músicos tocando o mesmo line-up de instrumentos em simultâneo com os Vines originais. O que se continua a escutar, porém, é apenas a cançãozeca da treta interpretada pelos quatro músicos que "Ride" se limita a ser. Mas imaginemos que não era assim: os cem, duzentos guitarristas, baixistas e bateristas que se vêem na imagem tocavam mesmo! E, deliremos um pouco mais, tocavam todos músicas diferentes!!! Tanto a versão "moderada" — "wall of sound" de mega-banda com centenas de elementos a tocar "Ride" — como a versão "radical" — cacofonia terminal, muitos decibéis acima de pista de aeroporto —, seriam, decerto, francamente mais interessantes do que a popzinha anémica que, afinal, os moços australianos debitam. Mas não temos que nos espantar: há muito tempo que videoclips e respectivos realizadores (neste caso, Olivier e Michel Gondry) caminham esteticamente muitos passos à frente da maioria das bandas e músicos para quem trabalham. Para ficarmos somente por um registo de genialidade-pop, diga-se a evidência: é urgente e indispensável um Quentin Tarantino na música.

(2004)