(sequência daqui) É, por isso, inteiramente natural que a uma citação do Principezinho, de Saint-Exupéry, se siga outra de Mark Twain (“Some of the worst thing in my life never happened”), que daí se salte para as instalações de Realidade Virtual ou para o Lazzaretto Vecchio, em Veneza, primeira “ilha de quarentena” estabelecida em 1423 para o isolamento de leprosos e das vítimas da Peste Negra, ou que se evoque John Cage que passou muitas horas de deleite, nos bosques, dirigindo interpretações dos seus 4’33” de silêncio. É o próprio Cage – tal como Freud, Brian Eno ou Gertrude Stein - que nos fala pela voz da ventríloqua Laurie que, mais à frente, nos fará passar 2 minutos sob a queda de flores de cerejeira, nos apresentará a Isabella d’Este, "zen master" do Renascimento italiano, à "dérive" Situacionista de Guy Débord e aos jogos de ilusão de Alexandre Potemkine com Catarina a Grande, para, sem transição, comentar “Por falar em realidade, no Texas reabriu a época de caça. Desta vez, às mulheres grávidas”. Afinal, o que é uma história? “Tentar contar a história do fim do mundo é tão difícil como contar a do princípio. Há tantas versões da criação. Somos os primeiros humanos a enfrentar a possibilidade – alguns dizem a probabilidade – da nossa extinção. E somos os primeiros humanos a tentar encontrar as palavras para o dizer. Habitualmente, uma história é algo que contamos a alguém. Mas, se contamos uma história a ninguém, será ainda uma história?” (segue para aqui)
"Estou mesmo a ver-me, daqui a um ano, depois das legislativas...!
22 June 2010
ISTO NÃO É "O BALÃO DO JOÃO"
Natalie Merchant - Leave Your Sleep
Só quem nunca tenha, realmente, lido a Alice, de Lewis Carroll, é que poderá, equivocadamente, imaginar que se trata de um livro para crianças. Grace Slick e Tom Waits compreenderam-no, Tim Burton, não. E o mesmo se poderia dizer de uma infinidade de outros clássicos “infantis”, do Capuchinho Vermelho, de Charles Perrault, ao Principezinho, de Saint-Exupéry, histórias de suposta candura e inocência cujo sentido último dificilmente – e, muitas vezes, felizmente – será alcançado pelo hipotético público-alvo. Leave Your Sleep, o último álbum (duplo) de Natalie Merchant desde The House Carpenter's Daughter – uma colecção de versões de temas folk, de 2003 –, apesar de ter surgido, nos últimos seis anos, a partir das cantigas e embalos que Natalie foi criando para a filha, Lucia, desde que ela nasceu, não anda também muito longe desse modelo. Como ela própria confessa no belíssimo e informativo booklet de 80 páginas, em "hardback", “arranquei estes poemas obscuros e excêntricos das suas páginas lisas e amarelecidas e dei vida a uma parada de bruxas e raparigas destemidas, cegos e elefantes, gigantes e marinheiros e ciganos, igrejas flutuantes, ursos dançarinos, cavalos de circo, uma princesa chinesa, um moço de recados e muitos outros. (…) Os poetas são os guardadores da linguagem sagrada que descreve os nossos lugares santos – desconhecidos e impossíveis de conhecer. (...) O trabalho do poeta é rodear de silêncio tudo aquilo que vale a pena ser recordado”.
O trabalho de Natalie Merchant, esse, foi a sempre problemática tarefa de desocultar a música que cada texto traz em si e que está ou não disposto a revelar. Aqui, todos os vinte e seis se mostraram colaborantes, numa extensa lista que vai de Ogden Nash a e.e. cummings, Robert Louis Stevenson, Edward Lear, Gerard Manley Hopkins, Robert Graves, Christina Rossetti, Laurence Alma-Tadema ou às "nursery rhymes" da Mother Goose. Sim, isto não é, definitivamente, "O balão do João". E muito menos o é quando nos apercebemos que o elenco de mais de cem músicos que participaram nas gravações inclui gente como Wynton Marsalis, Medeski, Martin & Wood, os Klezmatics, o grupo de gospel, Fairfield Four, os irlandeses Lunasa e elementos da New York Philarmonic Orchestra, prontos a fazerem disparar melodias e palavras para todas as tonalidades de um micro-universo que contém em si bluegrass e barroco, R&B e pop de câmara, festa judaica e tradição nativa, swing e ecos das Apalaches, cabaret, Beach Boys, "chinoiseries" e New Orleans.
Se, como Natalie, igualmente, admite, “a agenda escondida deste projecto é vir a transformar-se numa produção teatral multimedia”, muitas expectativas deveremos alimentar acerca do que, em palco, há a esperar destas narrativas escritas por pregadores bígamos, crianças prodígio, corretores da Bolsa surrealistas e homossexuais geniais, repletas de monstros devoradores de crianças, morangos no oceano, velhas matronas azedas de vinte anos, figurões neuróticos, veleiros à deriva, tremendas maldições e "nonsense" delirante generosamente distribuído. É muito possível que Lucia não tenha, todas as noites, escorregado tranquilamente para o sono – pois se é o próprio lema do álbum que, numa quadra da Mother Goose, apela “Girls and boys, come out to play, the moon doth shine as bright as day, leave you supper and leave your sleep, and come with your playfellows into the street”... – mas que (mesmo, talvez, sem se aperceber completamente das peculiaridades do gosto da mãe quanto a canções infantis) se terá imensamente divertido, não sobram grandes dúvidas.