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11 July 2024

"Aey Nehin"
 
(sequência daqui) Foi no intervalo de tempo entre esses dois álbuns (com Love In Exile, de 2023 - na companhia do pianista e compositor,  Vijay Iyer, e do multi-istrumentista Shahzad Ismaily -, de permeio) que a miúda paquistanesa emigrada aos 19 anos para os EUA com o objectivo de frequentar o Berklee College of Music identificou exactamente o alvo que perseguia: se o ambiente familiar liberal já a orientara para a devoção a Stan Getz, Miles Davis, Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Abbey Lincoln, em paralelo com a música clássica sufi de Abida Parveen, em Boston e, posteriormente, Brooklyn a missão consistia agora em criar uma sonoridade que não decorresse de nenhum modelo pré-existente. "Vulture Prince foi um álbum profundamente ancorado na tradição e na minha interpretação do que isso significa, do que significa a herança cultural, do que significa a nossa casa, do que a poesia Urdu descreve e como articular tudo isso. Mas, uma vez que o fiz, de certo modo, libertei-me e criei uma base para aquilo que pretendia construir". 20 anos após a chegada à Big Apple e concluída a formação no Berklee, permite-se já declarar com total segurança ao "Exclaim Magazine: "Não me deixo confinar pelas regras da música. Sendo alguém que cria coisas novas, trata-se talvez apenas de irreverência. Mas é uma atitude de ousadia e coragem que me parece faltar muitas vezes na música. Temos demasiado medo. É a consequência de vivermos numa sociedade profundamente capitalista na qual é obrigatório que as coisas se vendam. Para mim, foi sempre absolutamente natural ir contra a corrente e estar-me nas tintas para o resto". (segue para aqui)

13 June 2024

"Floating On A Moment" (ver aqui também)
 
(sequência daqui) Verdadeiramente importante, porém, foi a obsessão pelo trabalho de invenção de um universo sonoro único que terá começado quando, ainda um pouco perdidos acerca do que realmente buscavam, Beth tropeçou numa caixa onde guardava cortinados e declarou "Gosto deste som!" Daí, resultaria o timbre de baixo a utilizar a que se seguiriam, entre outras fontes sonoras pouco ortodoxas, Tupperwares, cordas de guitarra muito fora de prazo, cabaças percutidas debaixo de água, frigideiras de paella, cantis de couro, cordas de juta, secções de sopros com flautas de bisel e clarinetes, e "uma coisa de que ninguém sabe o nome mas que soa como um contrabaixo, é parecido com um ukulele sem trastos e com cordas de borracha que é um pesadelo para afinar". Ao contrário do que poderia supôr-se, nada disto visou alguma vez criar uma atmosfera "exótica" ou bizarra mas sim ajustar-se o mais perfeitamente possível ao surdo desespero que a voz e os textos de Beth Gibbons carregam (“Smiling with white teeth, the taste of ammonia, the need a delusion, a choice made to fail, ‘cos the dreams are for sale from afar”, canta em "For Sale" sobre fundo médio-oriental desfocado), enquanto os arranjos de James Ford sobrepõem sucessivos planos sonoros, multiplicam contrapontos e desarrumam os lugares de repouso habituais. Beth Gibbons é, alternadamente Billie Holiday, Eartha Kitt, Shirley Bassey, Janis Joplin, Björk, Nico, Beth Gibbons até. (segue para aqui)

22 June 2023

SEM NUNCA NOS PERDERMOS 

 
Conhecemos Arooj Aftab aquando da publicação, em 2021, de Vulture Prince, precioso exercício de fusão molecular entre ghazals paquistaneses, a poesia de Rumi, guitarra acústica, harpa, trompete, sintetizadores, violino e contrabaixo, respondendo ao apelo da voz de sereia de Arooj. Ela nascera na Arábia Saudita mas, durante a adolescência, emigrara com a família – “progressistas, liberais, super cool” que, contou ela à “Songlines”, lhe deram a conhecer Stan Getz, Miles Davis, Billie Holiday e Ella Fitzgerald, em paralelo com a música clássica sufi de Abida Parveen - para o Paquistão. Daí, aos 19 anos, viajaria até Boston para estudar no Berklee College of Music, acabando por fixar-se em Brooklyn. A propósito do Grammy para Best Global Music Performance que, em 2022 lhe foi atribuído, diria: “Tenho raízes em tantos lugares diferentes. Passei os últimos 20 anos a viver e a crescer musicalmente em Nova Iorque. Por isso, não me vejo na qualidade de artista ‘world’ ou ‘global’. A minha música é o resultado das minhas experiências. Não quero ter nada a ver com esta tolice de me arrumarem numa caixa. Aprendi que as coisas que herdamos podem provir de onde quer que estejamos. É esse o motivo por que a música que faço vai além da tradição. É singular, minha, parte da minha vida”. (daqui; segue para aqui)

"To Remain/To Return"

17 October 2022

ESSÊNCIA LYNCHIANA

Com Angela Jennifer Lambert (aliás, AJ Lambert) nada é, realmente, como se imagina. Após uma “juventude perdida” a bordo de ilustres bandas desconhecidas (ou quase) – Sleepington, Looker, Here We Go Magic –, com quem se dirigiria ela para os estúdios de Steve Albini, em Chicago, com o objectivo de gravar um EP (Lonely Songs, 2018) comemorativo dos 60 anos de Only The Lonely (1958), de Frank Sinatra? Evidentemente, Greg Ahee, dos Protomartyr, escolha instantânea de AJ que, não escondamos mais o jogo, é neta de Frank e filha de Nancy Sinatra. E, quando, aos 44 anos, se decidiu, enfim, por um percurso de cantora, para além de concertos de voz e piano em que interpretava os clássicos do avô, que reportório escolheu para si no álbum de estreia, Careful You (2019)? John Cale, Chris Bell, TV On The Radio, Spoon, Billie Holiday, e duas pepitas de Ol' Blue Eyes, de entre uma lista de candidatos onde se incluiam também Robert Wyatt, Elvis Costello e David Bowie. (daqui; segue para aqui)

"How Many"

27 October 2020

A CASA DAS MIL GUITARRAS

 

Bruce Springsteen tinha 22 anos e precisava de contar as moedas de cêntimo, uma a uma, até perfazer o modesto dólar necessário para pagar a portagem do Lincoln Tunnel, no trajecto de New Jersey a Nova Iorque. Mas, nessa altura, já tinha conseguido ser recebido por John Hammond, o lendário “descobridor” de Billie Holiday, Aretha Franklin, Count Basie, Bob Dylan, Leonard Cohen, Robert Johnson, Arthur Russell ou Benny Goodman, que – conta na autobiografia, Born To Run (2016) –, ao escutar "It’s Hard To Be A Saint In The City", lhe disse “Tens de assinar pela Columbia Records. Foi maravilhosa. Toca outra”. Procurando recompor-se (“Senti o coração a subir por mim acima, partículas misteriosas a dançarem-me sob a pele e estrelas distantes a fazerem disparar as minhas terminações nervosas”), tocou 'Growin’ Up' “e, depois, uma coisa chamada 'If I Was The Priest'. Ele adorou os elementos católicos, sublinhou a ausência de clichés e disse que tinham de tratar das coisas para que o Clive Davis (então, o presidente da Columbia) me ouvisse. (...) Tinha subido aos céus e falado com os deuses que me disseram que cuspia trovões e lançava raios. Estava a acontecer!”. A divindade Clive Davis deixou-se também seduzir mas, como recorda agora Springsteen no filme de Thom Zimny que acompanha a publicação do novo Letter To You, não resistiu a comentar que as canções estavam sobrecarregadas de palavras, “se não tiveres cuidado, acabas por esgotar a totalidade da língua inglesa. Essas coisas são para o Bob Dylan!”. Bruce tomou nota mas, interiormente, não deixou de as sentir como um enorme elogio: “Bob Dylan inspirou-me e deu-me esperança. Apontou correctamente o Norte e fez as vezes de farol para nos ajudar a descobrir o caminho por entre o novo caos em que a América se tornara. Ele hasteou uma bandeira, escreveu as canções, cantou as palavras essenciais à época e, naquele momento, à sobrevivência emocional e espiritual de muitos jovens americanos”, escreveria também em Born To Run.

"If I Was The Priest" – mas também "Janey Needs a Shooter" e "Song For Orphans" –, no entanto, não encontrariam lugar na estreia, Greetings From Asbury Park, N.J. (1973), e teriam de esperar quase meio século até que, agora que a ninguém passa pela cabeça crismá-lo como “o novo Dylan”, ele próprio se sente à vontade para libertar o Zimmerman que houve (e ainda há) em si. Foi quando vasculhava os arquivos em busca de pepitas para o sucessor de Tracks (1998) – um álbum de inéditos e outtakes exumados da sua arca sem fundo – que Springsteen tropeçou nas três canções e decidiu retomá-las: “De onde essas vieram, ainda há mais umas quantas. Não há nenhuma intenção especial nisso. Apeteceu-me cantar o que habitava a cabeça daquele miúdo, com a minha voz e a minha banda actuais. Pareceu-me uma combinação interessante e acho que resultou bastante bem. Foi um divertimento enorme, os textos dessas canções são completamente loucos” explicou ele durante uma Zoom session para a América do Sul, Portugal e Espanha. Surreal e dylaniamente loucos, sem dúvida, embora os “elementos católicos” que John Hammond adorou sejam, afinal pouco menos do que heréticos (“Sweet Virgin Mary runs the Holy Grail saloon, for a nickel she'll give you whiskey and a personally blessed balloon, and the Holy Ghost is the host with the most, he runs the burlesque show, where they'll let you in for free and they hit you when you go, Mary serving Mass on Sunday and she sells her body on Monday to the bootlegger who paid the highest price, he don't know he got stuck with a loser, she's a stone junkie what's more she's a user, she's only been made once or twice by some kind of magic”). Mas a entrada de "Janey Needs a Shooter" é puríssimo "Like A Rolling Stone" em grande ecrã, e a ansiosa enunciação do jorro de palavras de "Song For Orphans" (“Cheerleader tramps and kids with big amps sounding in the void, high society vamps, ex-heavyweight champs mistaking soot for soil”) confirmam a ideia de que o que, então, emergia não era apenas um talentoso discípulo de Bob Dylan mas sim alguém a caminho de ser um seu igual.

Quando, em 2011, Leonard Cohen recebeu o prémio Principe das Astúrias das Letras, contou pela primeira vez como tudo o que, na guitarra, viriam a ser os alicerces da sua música, tinha aprendido com um jovem guitarrista de flamenco espanhol com quem, por acaso, se cruzara num parque de Montreal e que, após três aulas informais, nunca mais voltaria a encontrar, acabando por saber que ele se suicidara. Na génese de Letter To You, existem também um guitarrista esquivo e uma guitarra mágica: “Há, pelo menos, seis ou sete anos, que não escrevia canções para a banda. Tinha outros projectos (o álbum e filme Western Stars, os espectáculos na Broadway durante mais de um ano e a autobiografia). Mas não tinha desistido da ideia de um álbum com a E Street Band e, se fosse capaz, um álbum de rock. Uma noite, quando saía da Broadway, um jovem, suponho que italiano, dirigiu-se a mim com uma guitarra na mão. Pensei que pretendia que eu a autografasse mas não, queria oferecer-ma. Era, realmente, uma guitarra bonita de um fabricante que desconhecia. Agradeci-lhe e levei-a para casa onde, durante meses, ficou esquecida na sala. Um amigo, George Theiss, que tinha sido quem me convidara para a minha primeira banda, The Castiles, estava muito doente, com poucas semanas de vida. Fui visitá-lo e, quando num breve espaço de tempo ele morreu, dei-me conta de que, naquela altura, eu era o único sobrevivente da banda da minha adolescência. Foi então que, em Abril do ano passado, peguei na tal guitarra e escrevi a primeira canção, "Last Man Standing". De repente, a barragem rebentara e, em menos de 10 dias, todas as canções do álbum estavam escritas. Andava pela casa e todos os dias escrevia uma canção, no quarto, no bar, na sala... Nunca mais voltei a ver o rapaz italiano mas tenho de lhe agradecer: foi a guitarra que me ofereceu que esteve na origem deste álbum”.

  

Theiss e os Castiles (“Knights of Columbus and the Fireman's Ball, friday night at the Union Hall, black leather clubs all along Route 9, you count the names of the missing as you count off time”) não são os únicos fantasmas que assombram Letter To You. Essa poderá ter sido a sua escola de música – “Aprendi praticamente tudo naquela banda, tocávamos Sam & Dave, os Beatles, Bo Diddley, Jimi Hendrix... Foi um momento único para fazer parte de um grupo. Se, em 1966, alguém quisesse contratar uma banda, teria de ser uma mão cheia de putos de 16 anos, não havia gente de 25 anos a tocar. Fosse onde fosse, só podia ouvir-se música tocada por adolescentes...” – mas, ao longo da grande jornada da E Street Band, também já Clarence Clemons (hoje substituido pelo sobrinho, Jake Clemons) e Danny Federici ficaram pelo caminho. São deles as sombras que pairam em "One Minute You’re Here" (“I thought I knew just who I was and what I'd do but I was wrong, one minutе you're here, nеxt minute you're gone”), "Ghosts" (“Old buckskin jacket you always wore, hangs on the back of my bedroom door, boots and the spurs you used to ride, click down the hall but never arrive”) e "I’ll See You In My Dreams" (“I got your guitar here by the bed, all your favorite records and all the books that you read, and though my soul feels like it's been split in the seams, I'll see you in my dreams”). Tudo gravado ao vivo, em quatro dias, no estúdio da quinta de Springsteen em Colts Neck, essa "House Of A Thousand Guitars", porto de abrigo para Bruce, Roy Bittan, Nils Lofgren, Patti Scialfa, Garry Tallent, Steven Van Zandt, Max Weinberg, Charlie Giordano e Jake Clemons, no qual nunca deixa de se invocar “a força da ideia americana de democracia, vergonhosamente abandonada e espezinhada”.

30 November 2019

AMOR, SEXO, CULPA, REDENÇÃO E ÊXTASE (IV)


De facto, a roupa demorou bastante tempo até lhe secar no corpo. Embora o momento em que decidiu começar a escrever e a cantar as suas canções, seja impreciso, Sylvie Simmons confia em Barbara Amiel que jura que isso terá ocorrido no verão de 1965, em Toronto, numa suite do hotel King Edward, quando interpretou como um sinal positivo o facto de, ao som dos seus poemas e das melodias que ia improvisando numa harmónica, noutro ponto da sala, um casal ter-se envolvido de forma assaz íntima. Mas, entre o instante em que, em 1967, John Hammond – o tipo que tinha lançado as carreiras de Billie Holiday, Bob Dylan, Aretha Franklin e, daí a uns anos, Bruce Springsteen – propôs assinar contrato com Leonard Cohen a um executivo da Columbia, e este vociferou “Um poeta de 32 anos? Estás doido?” e o definitivo reconhecimento global em diferido de "Hallelujah" (extraído de Various Positions, de 1984, que, inicialmente, nem teria distribuição nos EUA) através das versões de Jeff Buckley e John Cale, e, I’m Your Man (1988), decorreriam duas longuíssimas décadas em que o sucesso europeu não tinha correspondência do outro lado do Atlântico.


Pelo meio, houvera o pesadelo das gravações de Death Of A Ladies Man com um tresloucado Phil Spector, armado e rodeado de seguranças igualmente armados no estúdio, o desorientado envolvimento com o charlatanismo da Cientologia (onde conheceu Suzanne Elrod), os concertos para as tropas israelitas, durante a guerra do Yom Kippur (“A guerra é maravilhosa. É absolutamente económica nos gestos e nos movimentos. Cada gesto é preciso, cada esforço dá o máximo. Ninguém brinca em serviço”, observaria, qual coreógrafo ou treinador desportivo), os concertos em hospitais psiquiátricos e o comboio fantasma das digressões encharcadas em todas as variedades de estimulantes e tranquilizantes sob o comando titubeante do “Captain Mandrax”. Em I’m Your Man, Cohen conduzia a voz até profundidades literalmente subterrâneas - “I was born like this, I had no choice, I was born with the gift of a golden voice", ironizava em "Tower of Song" – e justificava-se alegando que “Não é uma estratégia, acho que é dos cigarros e do whisky”, enquanto, às portas do Apocalipse iminente, trovejava: “Everybody knows that the dice are loaded, everybody rolls with their fingers crossed, everybody knows the war is over, everybody knows the good guys lost, everybody knows the fight was fixed, the poor stay poor, the rich get rich, that's how it goes, everybody knows”. E, ao “LA Weekly” anunciava “A catástrofe já aconteceu e a questão que agora encaramos é: qual é o comportamento adequado numa catástrofe?


Entre 1994 e 1999, fez-se acolher no mosteiro zen de Mt. Baldy, o lugar onde habitavam "os fuzileiros do mundo espiritual", e que, desde 1973, episodicamente frequentava como terapia alternativa. O judeu canadiano, Cohen, ordenado monge como Jikan, o Pouco Convincente, mas também o fundador da Ordem do Coração Unificado, era, agora, motorista e cozinheiro de Kyozan Joshu Sasaki Roshi, o velho japonês nonagenário que fundara o centro e que, confessaria, o ensinara a distinguir correctamente um Rémy Martin de um Courvoisier. “Se o Roshi fosse professor de Física na Universidade de Heidelberg, eu teria aprendido alemão e teria ido até Heidelberg para estudar Física. O Roshi não debate seja o que for. Não está interessado em confrontar pontos de vista nem em tagarelar. Uma pessoa entende ou não entende, ponto final. Ele não nos transmite o género de verdades assombrosas que esperamos da parte dos mestres espirituais, porque ele é um mecânico – não fala acerca da filosofia da locomoção, fala acerca da reparação do motor. Em grande medida, ele fala com um motor avariado. O Roshi é a transmissão directa”. Quando saiu, em 1999, ao seu CV de operador de torno mecânico hidráulico vertical, operador de máquina de fundição em molde e assistente de analista de tempo e movimento, podia, agora, acrescentar um certificado do San Bernadino County que o habilitava a trabalhar como empregado de mesa e cozinheiro. E a depressão tinha-se evaporado.


Tinha jurado nunca mais regressar às digressões mas o tremendo desfalque nas suas finanças perpetrado pela contabilista que, desde sempre o acompanhara, obrigou-o a fazê-lo, sem demasiada amargura nem esforço excessivamente visível. Ao catálogo adicionaria Ten New Songs (2001), Dear Heather (2004), Old Ideas (2012) e Popular Problems (2014) e, duas semanas antes de morrer, You Want It Darker. Se, em Old Ideas falava da missão de escrever “a manual for living with defeat”, na apresentação de Popular Problems, em Londres, advertia: “Se soubesse de onde vêm as boas canções, ia até lá muito mais vezes. Pedem-me, frequentemente, conselhos. É um engano porque o meu método é obscuro e não pode ser replicado. Escrever canções é semelhante a ser uma freira: é o matrimónio com um mistério. Procuro sempre descobrir o caminho para o centro de uma canção. Tal e qual como no resto da vida. E o resultado não é muito melhor… o único conselho que posso dar é que, se não desistirmos dela, uma canção acabará sempre por ceder. Mas não me perguntem quanto tempo poderá isso levar…” Em "Morning Glory" , de Dear Heather, balbuciou: "No words this time? No words. No, there are times when nothing can be done, not this time. Is it censorship? No, it's evaporation". Porém, quando poucas semanas antes dele, Marianne morreu, conseguiu ainda que ela escutasse o que lhe escrevera: “Chegou aquela altura em que estamos tão velhos que os nossos corpos começam a desfazer-se e acho que vou seguir-te muito em breve. Quero que saibas que estou tão próximo de ti que se estenderes a mão talvez consigas tocar na minha. Sabes que sempre amei a tua beleza e a tua sabedoria. Por agora, quero desejar-te apenas uma boa viagem. Adeus velha amiga e amor eterno. Encontramo-nos ao fundo da estrada”.

09 April 2019

NÃO BASTA O MUNDO


Oito cavas arcadas de violoncelo sobre um "drone" de cigarras digitais preparam o cenário para o que, em menos de dois minutos, ficará nietzscheanamente resolvido: “First of all, there is no god, ‘cause I went out and killed my god and laid his body in the dirt, I killed him clean, so it did not hurt”. Mais à frente, em registo de "lounge jazz" sideral, a necessária consequência: “Oh darling, I am a heathen, oh, evil hearted me, something lower than dirt, I hear ‘em callin’ me heathen, oh, like they think it hurts”. Quase no final, o funk cubista serve de gatilho para o disparo: “I wanna break free from my body, shaken loose my skin, 'cause I had a thought I am a god, of this I am convinced”, escuta-se em "Dope Queen Blues". Sim, blues. Por muito que Silences soe a assombrosa ópera lynchiana escrita por uma Fiona Apple urdindo uma "wall of sound" filigranada, Adia Victoria – negra, da Carolina do Sul, educada no opressivo fervor Adventista do 7º Dia ¬, ao “New York Times”, jura que se trata de blues: “Quero tornar os blues perigosos outra vez. Não é apenas uma sonoridade. Os brancos cometeram um erro crasso ao supor que lhes tinham desvendado o mistério e podiam pô-los a render. É nessa altura que aparece sempre uma negra esperta a subverter tudo de novo. E aqui estou eu”.



Na verdade, foi tudo um pouco mais complexo. Ao produtor, Aaron Dessner (The National), Adia propôs um enigma: “Como seria se Billie Holiday se perdesse no interior de uma canção dos Radiohead?...” Billie seria encontrada, encarcerada num "loop" de "Lady Sings the Blues", nos últimos 60 segundos de "The City", mas as coisas não ficariam por aí. De quem foi buscar o título do primeiro album – Beyond the Bloodhounds – ao livro de memórias de Harriet Jacobs, Incidents in the Life of a Slave Girl (1861), para Silences, recorreu à obra homónima (1978) de Tillie Olsen (sindicalista, comunista, escritora e feminista), interpretou canções de Gainsbourg, Portishead e Robert Johnson, e ajoelha perante Nina Simone, Flannery O’Connor e a poetisa surrealista Joyce Mansour, só podia aguardar-se algo à altura do que, em "Devil Is a Lie", proclama: “They say the weak shall inherit the earth, but the world was never enough”. O primeiro enorme álbum de 2019 é bastante mais alto do que isso. E só lhe fica bem ser assinado por quem não hesita em afirmar “Não acredito em música apolítica. Tomamos posição e comentamos o que se passa no mundo. Toda a música e arte são políticas”.

01 May 2018

EM FÚRIA 


Na sexta-feira 24 de Junho de 2016 – o dia a seguir ao referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia que os partidários do Brexit venceram com 51.9% dos votos – Clottie Cream, L.E.D., Naima Jelly e Rosy Bones assinavam contrato nos escritórios da Rough Trade. Porém, para as quatro Goat Girl, o momento foi agridoce: a felicidade por, sem sequer um único single gravado, terem recebido a benção da histórica "indie" era amargada pela consciência do tremendo disparate político que pouco mais de metade do país, na véspera, havia cometido. Sem vontade para medir as palavras, três meses depois, publicavam "Scum" – “I honestly do think that someone spiked their drinks, how can an entire country be so fucking thick? Hold tight to your pale ales, bite off your nationalist nails, we're coming for you, please do fear, you scum aren't welcome here” –, exercício de libertação da bílis acompanhado por um video de Holly Whitaker no qual duas dezenas de pessoas, uma a uma, são alimentadas à força. Não é abusivo dizer que, sob coordenadas estéticas diferentes, as Goat Girl são o equivalente do Sul de Londres aos "east londoners", Stick In The Wheel: gente decididamente enraivecida com a História política e social recente do país e da cidade e com muito pouca vontade de se manter em silêncio. 



Mas, se o grupo de Nicola Kearey e Ian Carter prefere uma rudeza folk de recorte modernista, o álbum de estreia homónimo das Goat Girl tanto faz pensar nas Throwing Muses como nas Slits, PJ Harvey ou até na sonoridade ferruginosa de Tom Waits. Elas, quando interrogadas, referem os Silver Jews, The Fall, Patti Smith, Billie Holiday e Sonic Youth. Algures entre Peckham e Brixton, zonas por enquanto libertadas da erosão gentrificadora, numa cena cujo polo é o "pub" The Windmill e o “So Young Magazine” a central informativa, pertence ao novíssimo quarteto feminino a mais intrépida voz: em fúria contra os pequenos pulhas anónimos (“Creep on the train with his creepy gold chain, creep on the train with his dirty trouser stain, I really want to smash your head in”), amotinada contra a corja política (“Build a bonfire, put the Tories on the top, put the DUP in the middle and we’ll burn the fucking lot”) e a sua acção tóxica (“Phallic building, cyanide killing all that was clear, find an antidote for this accumulating smoke”), e capaz de transformar uma canção do "musical" Bugsy Malone (1976) em palavra de ordem: “I was born to be a dancer, I won't take no for an answer”.

04 December 2017

O FURTO


Caroline Hughes, “Queen of the Gypsies”, ia já pelos 60 e tal anos e vivia numa caravana puxada por cavalos, junto à Old Wareham Road, em Canford Heath – uma charneca de Dorset –, quando, entre 1963 e 1968, Ewan MacColl, Peggy Seeger e Charles Parker a gravaram, interpretando "The Cuckoo", de um total de 90 temas tradicionais. "Somewhere", incluindo citações de Beethoven, Tchaikovsky e o génio de Leonard Bernstein e Stephen Sondheim, era uma canção que surgia no segundo acto do musical West Side Story, estreado na Broadway em 1957. "Auld Lang Syne" (isto é, "long long ago"), é um poema de Robert Burns adaptado a uma melodia escocesa, que, em particular nos países anglófonos, é usado como despedida do ano velho. Ruth L. Tongue, folclorista de Sommerset, responsável pela recolha de inúmeros espécimes, da Idade Média a baladas vitorianas, salvou do esquecimento "On Berrow Sands" (sobre as traiçoeiras correntes do Canal de Bristol e as gaivotas que se apossavam das almas dos pescadores e marinheiros afogados) e "The Shepherd And His Dog" (retrato bucólico de uma aurea mediocritas britânica). "You Don’t Know What Love Is", de Don Raye e Gene de Paul, integra o índice dourado do Great American Songbook, tendo já sido adoptada por dezenas de músicos (Ella Fitzgerald, Chet Baker, Miles Davis, John Coltrane, Pharoah Sanders, Keith Jarrett, John Martyn, Diamanda Galás, Billie Holiday...). "Dont Think Twice, It’s Alright", tinha melodia subtraída a "Who's Gonna Buy Your Chickens When I'm Gone" ensinada por Paul Clayton a Bob Dylan que, em 1963, a incluiu em The Freewheelin' Bob Dylan


Estão todas (mais dois instrumentais e outros tantos tradicionais sem atribuição de paternidade) em Nightfall, segundo álbum para a ECM de June Tabor, Huw Warren (piano) e Iain Ballamy (sax soprano e tenor), que passaram a tomar por designação colectiva o título da belíssima gravação anterior, Quercus (2013). E, como invariavelmente acontece com Tabor, sem necessitar de gestos iconoclastas nem profanações ostensivas, apropria-se integralmente do reportório que interpreta. Aqui, da mesma forma que em Quercus (e já em At The Wood’s Heart, 2005) partilhando o furto com Ballamy (quase uma segunda voz) e Warren (a impressionista moldura harmónica do lirismo jazzy) e oferecendo-nos o que supúnhamos conhecer de um modo que nunca ouvíramos.

13 December 2016

PARA DURAR 


Na madrugada de 13 de Maio de 1988, o trompetista e cantor de jazz, Chet Baker, foi encontrado morto, em Amsterdão, sob a janela do seu quarto no Hotel Prins Hendrik, na Prins Hendrikkade, perto do Zeedijk, então, uma zona de tráfico de drogas e marginalidade, vizinha do "red-light district" de De Wallen e, hoje, artéria central da Chinatown local. No quarto 210 – daí em diante, designado como "The Chet Baker Room" –, sem nenhuma surpresa para quem o conhecia, havia cocaína e heroína. À esquerda da porta de entrada do hotel, seria afixada uma placa de bronze com um baixo-relevo de Baker tocando trompete e onde se lê “he will live on in his music for anyone willing to listen and feel”. Howe Gelb foi um dos que ouviram e sentiram. Definitivamente terminados os Giant Sand (“Between the exponential cubed expansion of the band to the sheer audacity of its three-decade lifespan, Giant Sand are now dead”), a gravação do 22º volume da sua discografia a solo iniciar-se-ia, não por acaso, em Amsterdão, no Fireball Studio. 



O desafio era “escrever uma mão cheia de canções capazes de perdurar”, inspiradas nos standards de Cole Porter, Hoagy Carmichael, Monk ou Bacharach, “tal como Sinatra, Billie Holiday, Julie London ou Chet Baker os cantavam”. Por outras palavras, se Bob Dylan optou por publicar dois álbuns dedicados à interpretação de clássicos do American Songbook, Gelb preferiu criar os seus próprios Future Standards, contribuindo para adensar o enigma desse território que é “o lugar ideal para o confronto entre a cabeça e o coração, a razão e os impulsos inexplicáveis”. Recorrendo apenas a um trio de piano, contrabaixo e bateria (e ocasional guitarra) a aconchegar a voz dele e da mui julielondoniana Lonna Kelley, Howe Gelb, interiorizou, de facto, com inteiro sucesso, aquele espírito "late night" – a que o Tom Waits inicial deu corpo e chamou Closing Time – e a “science of love revealed and reveled, the celebration and the lament”, como se, por um instante no tempo (enquanto cantam improbabilidades tais que “Let the others spend all their whiling contemplating the apropos”), se tivessem deixado habitar, em simultâneo, pela lânguida névoa "loungey" de London e a quase imaterialidade do sopro vocal de Baker, aqui e ali, irremediavelmente tocados pelas insondáveis trevas de Cohen. 

05 June 2015

UMA HISTÓRIA ÉPICA


A mãe, Emily, era bisneta de Cornelius Vanderbilt – o magnata de origem holandesa, que edificou um império assente na rede de caminhos de ferro norte-anericanos e uma das mais poderosas dinastias WASP –, e o pai, John Henry, filho de um general da Guerra Civil, era advogado e próspero banqueiro. A família herdara um palácio de cinco andares na 91st Street, junto ao Central Park, com escadarias de mármore, elevadores, biblioteca, court de squash, e um salão de baile com lotação para 200 pessoas. Nas Vitrolas dos modelos mais recentes, escutava-se, em permanência, Mozart, Beethoven e Brahms e os cinco meninos da família Hammond tinham aulas de música em casa, com professores particulares. O mais novo, John Henry Hammond II, nascido em 1910, tinha estudado viola de arco mas, desde muito cedo, preferia-lhe, claramente, a música negra.



Após a obrigatória (e falhada) passagem pelo curso de Direito de Yale, o interesse pelo jazz, a música popular e a escrita acerca deles (e das questões políticas e sociais associadas), falaram mais alto e, nos restantes 50 e tal anos da sua vida, na qualidade de produtor discográfico, devemos-lhe a “descoberta” de Billie Holiday, Aretha Franklin, Count Basie, Bob Dylan, Leonard Cohen, Robert Johnson, Arthur Russell, Benny Goodman e Bruce Springsteen. É um dos "indies" (os "record men" verdadeiramente amantes da música e de diamantes em bruto) em luta contra os "cowboys" (os tubarões da indústria) de Cowboys And Indies: The Epic History Of The Recording Industry, recém-publicado clássico instantâneo com quase 400 páginas, de Gareth Murphy. Começa, bem nos primórdios, pelas invenções fonográficas de Bell, Edison e Berliner, prossegue cronologicamente, de década em década, revelando as inúmeras e coloridas personagens de um meio de que apenas conhecemos os frutos e, só raramente, as emaranhadíssimas e problemáticas raízes, e desagua na mui acidentada actualidade, que, “observada do cimo da montanha, se assemelha a um incêndio florestal, o qual, embora cruel, será, talvez, apenas uma parte dos ciclos épicos da Mãe Natureza. Por estranho que pareça, segundo ensinam os cientistas, as florestas precisam de um fogo catastrófico em cada século para renovarem o solo de que se alimentam”.

04 May 2013

UM TIPO MELHOR QUE O DYLAN 



11 de Setembro de 1970. Vini Lopez, o baterista dos Steel Mill, tinha-se enrolado numa desnecessária trapalhada de drogas e, com o objectivo de recolher fundos para pagar a um advogado que o livrasse de sarilhos maiores, a banda decidira dar um concerto no Clearwater Swim Club de Middletown, New Jersey, cidade famosa por “não haver criminalidade, não ter habitantes negros e pelos hábitos autoritários da polícia local”, como conta o "middletowner" Steve Van Zandt, então baixista da banda. Um minuto depois das dez da noite – hora limite fixada para o final do concerto –, armadas até aos dentes, as forças policiais do chefe Joseph McCarthy (nome assaz apropriado), “como num Western clássico”, perfilaram-se sobre as colinas que circundavam a piscina de Clearwater e, no meio da confusão previsível, marcharam sobre o palco e desligaram o PA. Imperturbáveis, os Steel Mill continuaram a actuar e, em particular, o cantor, compositor e guitarrista, Bruce Springsteen, logrou manter, até ao fim, magneticamente colados em si os olhos de todos aqueles dos 5 000 fãs que, entretanto, não tinham sido engavetados. 


Uma busca no YouTube por "Bruce Springsteen + Steel Mill" dá-nos a ouvir uma típica banda de hard-rock da época, não especialmente memorável e que, facilmente, denuncia a ementa musical de que Springsteen & Cº se nutriam: Cream, Hendrix, Steppenwolf, Allman Brothers, Yardbirds, Iron Butterfly... caldo de cultura assaz diferente do que, supostamente, deveria estar na origem de uma personagem que, antes de se tornar ela própria, a indústria desejou que acreditássemos estar perante o “novo Bob Dylan” (e não será uma aterradora versão de "Suzanne", de Leonard Cohen, pelos pré-Steel Mill, The Castiles, que fará alguém mudar de ideias). Foi, no entanto, exactamente nesses mesmos termos que, dois anos e uma “reinvenção pessoal” depois, o "manager" Mike Appel o apresentou a John Hammond, executivo da Columbia: “Com que então foi você que, segundo parece, descobriu o Bob Dylan... vamos lá ver se tem, realmente, bom ouvido, pois trago-lhe aqui um tipo melhor que o Dylan!” E o fulano que não apenas “descobrira” Dylan como também Billie Holiday, Count Basie e inúmeros outros, embora procurasse disfarçar o entusiasmo, interiormente, rendeu-se, de imediato, a "It’s Hard To Be A Saint In The City", "Growin’ Up" e "Mary Queen Of Arkansas" que acabariam por figurar no magnífico e eternamente mal amado álbum de estreia, Greetings From Asbury Park, N.J. (1973).


Tão pouco amado que, na inexplicável recém-publicada Collection: 1973 – 2012 – após dois Greatest Hits (1995 e 2009) e The Essential (2003), que finalidade serve? – se usa do subterfúgio de The Wild, The Innocent & The E Street Shuffle ter sido igualmente editado em 1973 para, sem mentir nas datas de início e fim, expulsar sumariamente Greetings... de um alinhamento de 18 canções com o qual nada se aprende. Existe, entretanto, uma boa alternativa: a leitura de Bruce, de Peter Ames Carlin (Ed. Simon & Schuster), última, óptima e definitivamente esclarecedora biografia do descendente de Casper Springsteen que, no século XVII, emigrou da Holanda para o Novo Mundo.

24 February 2011

O CONVITE À VIAGEM















Se Cristina Branco estivesse virada para se inventar problemas, tinha a fórmula perfeita para um mesmo à mão. A saber: ela que, desde o início, fez questão de sublinhar que, apesar de cantar fados, não se via como fadista (ou, pelo menos, do modo como, tradicionalmente, se encara o “ser fadista”), agora que confessa sentir-se mais próxima do que nunca do espírito do fado, tanto em concerto como em disco, a percentagem de fados que inclui tende a encolher seriamente. E, quando lhe chamo a atenção para que isso volta a acontecer no novíssimo Não Há Só Tangos Em Paris, primeiro contra-ataca (“Mas estão lá dois fados tradicionais!...") e, depois, encaracolando a argumentação, acaba por levar a água ao seu moinho: “Eu diria até que é um encontro definitivo com o fado mais tradicional. Acho que me identifico mais, agora, com certos fados e, na forma como o interpreto, sinto que já consigo dizer o que quero através dele. Não é uma coisa de agora, se calhar, já vem desde o Live, nos concertos aparecem fados tradicionais. Sou mais crescida. É preciso maturidade. E maturidade vocal. Hoje, posso dizer que é assim que o sinto, esse é o meu fado. Antes, parecia um pardalito a cantar. Tanto pelo timbre como pela forma de interpretar. É o palco e o que vamos ouvindo, o eco da nossa voz e a nossa experiência artística que nos dá isso, não é só a vida. Não me venham com essas tretas, não sou uma mulher sofrida, uma ‘mulher do fado’... nada disso, muito pelo contrário, acho que tenho uma vida perfeitamente normal”.
















Porquê, então, esta bissectriz entre fado e tango? “Gosto de me reinventar nas músicas e de descobrir coisas novas nelas, como se estivessem escondidas atrás de algumas palavras E, acima de tudo, porque têm muito em comum: ouvindo discos antigos do Gardel, de repente, dizia ‘Caramba, isto é um fado!...’ Tal como se poderia afirmar que "A Moda das Tranças Pretas" é um tango... “Exactamente!” Porém, o índice de surpresas-não-fado neste álbum vai bastante mais longe do que isso, acolhendo também "Les Désesperés", de Jacques Brel, ou uma inesperada melodia de João Paulo Esteves da Silva para a "Invitation Au Voyage", de Baudelaire’... “É inesperada? Sim, deve ser, porque tudo o que, até agora foi feito em torno desse poema, não tem nada a ver com o que está ali… Lendo o Spleen e "L’invitation Au Voyage", há duas coisas distintas: o respeito imenso que os franceses têm pelo Baudelaire e uma leitura de uma portuguesa daquilo que é o poema mais iluminado que está ali naquele livro. Foi sempre considerado por outros autores como uma coisa soturna mas não me parece nada que exprima uma atitude deprimida ou depressiva, fala da viagem e da vontade de partir, porque teria de ser uma coisa negra?… Quando se ouve a música do João Paulo, ela tem muito mais a ver com aquele poema do que tudo o que conhecia antes. Cheguei a propor que o disco se chamasse “Invitation Au Voyage” mas disseram-me que não podia ser”.



A ideia é a do transatlântico que passa por Buenos Aires, pára em Lisboa e (em pirueta geográfica) atraca em Paris, a viagem e a vontade de partir: “Há um outro tema que também fala disso e da dualidade do narrador da história, o "Anclao En Paris": é a história de um argentino (deve ser um bandido que não pode voltar para Buenos Aires) que foge para Paris e ali fica exilado. Tem uma saudade louca de Buenos Aires mas o "faubourg" é uma coisa que também lhe apela muito ao coração. Aí pelo meio, há o sentimento da saudade mas também uma necessidade grande de permanecer no desconhecido. Já, no Ulisses, estes temas estavam presentes, são os temas da minha vida, não posso fugir muito daqui”. Desta vez, porém, ao contrário do anterior Cronos, o conceito não esteve inteiro e acabado desde o princípio: “Houve coisas que surgiram há algum tempo como o ‘Soluço’, do Vasco Graça Moura. Aquilo é um orgasmo, tem muito a ver com a sensualidade. A dada altura, pensei fazer um disco que remetesse para outro anterior, o Sensus. Depois pensei naqueles álbuns antigos da Amália, o fado e o tango e o Gardel e os anos 20... e tudo aquilo começou a mexer comigo.




A minha intenção foi reunir temas diferentes num mesmo propósito. Houve pessoas a quem pedi especificamente poemas, nomeadamente ao Carlos Tê – pedi-lhe um folhetim e que fizesse a música também: o texto enviou-mo logo, a música demorou seis meses, estava um bocado aflito… –, à Manuela de Freitas pedi um tango... pedi-lhe uma daquelas histórias de faca e alguidar e ela escreveu o 'Talvez' e mais uma outra para o fado ‘Súplica’, ‘Se Não Chovesse Tanto Meu Amor’. E, depois, o António Lobo Antunes que não tive a ousadia de contactar mas pedi a um grande amigo meu, o Júlio Pomar, que o fizesse e ele escreveu-me aquela coisa maravilhosa (‘Quando Julgas Que me Amas‘). Para além disso, como gosto muito da simplicidade do Pedro, dos Deolinda, que capta muito bem aquelas subtilezas picarescas da nossa sociedade, pedi-lhe que escrevesse uma daquelas histórias do arco-da-velha que cheirasse a fado por todos os lados e dali saiu ‘Não Há Só Tangos Em Paris’. Sem querer, porque, na altura, nem lhe disse que ia cantar Brel e Baudelaire, ele acabou por passar exactamente pelos sítios que eu queria e o fado acabou em Paris, de repente"
.














Na lista de afinidades estéticas e poéticas que acabam por ir parar aos álbuns e concertos de Cristina (já cantou Joni Mitchell, Chico Buarque, José Afonso, Amália), um dia, ainda poderão ir, facilmente, parar outras vacas sagradas: “Assim de ‘vacas americanas’... (risos) a Ella, Billie Holiday, Sarah Vaughan... mas também o Cohen, o Dylan. Recentemente, fiz um trabalho com a Sinfonietta de Amesterdão em que cantei o Cohen, o Brel, o Schumann, o Debussy. Faz todo o sentido. É quase incontornável não cantar os autores, do fado ou outros, que me fazem crescer”. Fechemos, enfim, o círculo e encontremos-lhe a lógica possível: “Quando canto um fado tem de fazer muito sentido, tem de mexer muito comigo para o cantar. Mas é sempre um fado com um 'twist', eu não canto fado como ele, normalmente, se canta. E porque acontece isso? Porque dou liberdade a quem compõe as músicas, proponho sempre que olhem para a música como olham para mim. E, de facto, aquilo raramente dá fado!...” (risos)

(2011)

01 April 2009

BILLIE HOLIDAY - "STRANGE FRUIT"



Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.



(2009)

01 January 2009

OLD, WEIRD KAREN



Karen Dalton - Green Rocky Road

Quase quarenta anos depois de se ter voluntariamente removido da cena musical e década e meia após, sem-abrigo, toxicodependente e seropositiva, ter sido encontrada morta nas ruas de Nova Iorque, Karen Dalton transformou-se num mito-folk equivalente aos de Billie Holiday, no jazz, ou de Nico, no pop/rock. A corte de admiradores – da seita “freak folk” a gente mais respeitável como Nick Cave ou Bob Dylan – não cessa de lhe ornamentar a lenda (episódio mais recentemente exumado: “Katie’s Been Gone”, das Basement Tapes da Band com Dylan, ter-lhe-ia sido dedicada por Richard Manuel) e a obra gravada vai regressando à superfície.


Karen Dalton - "Blues Jumped The Rabbitt"

Na sequência da reedição dos dois álbuns “oficiais” (It’s So Hard To Tell Who’s Going To Love You The Best, 1969, e In My Own Time, 1971), no ano passado, foi a vez da gravação ao vivo, Cotton Eyed Joe, e, agora, deste registo de gravações domésticas (de 1962 e 1963), apenas acompanhada à guitarra de doze cordas e banjo. Não acontece demasiadas vezes mas, neste caso, é obrigatório reconhecer que, ao culto, não faltam justificações: a voz áspera e ensopada de vida muito pouco fácil de Karen Dalton, num punhado de temas tradicionais, é mil vezes mais “old weird America” do que todos os pastiches actuais.

(2008)

01 June 2008

SEX KITTENS, VESTIDOS E FLUÍDOS ORGÂNICOS



Vários - Divas/Exotica

Ao contrário do que possa pensar-se, a história dos vestidos com manchas incriminadoras de fluídos orgânicos masculinos não começou com Bill Clinton e Monica Lewinsky. Mamie Van Doren (a única sobrevivente das famosas três "M" de Hollywood, juntamente com Monroe e Mansfield), por exemplo, garante que, na realidade, Rock Hudson não era irredutivelmente gay mas sim bissexual e que possui um vestido com as nódoas apropriadas capazes de o provar. Para além disso, a "first sex kitten in cyberspace" de quem se dizia que "a terceira coisa em que nela se reparava era o facto de não saber, de todo, cantar" não se incomodava nada com a má língua e cantava mesmo, como se comprova em Divas/Exotica, uma extensão da colecção Ultra Lounge que reune um conjunto de dezoito sereias cantoras do cinema e da música, dedicada a uma missão: "corrigir todos aqueles que pensam que já ouviram tudo". É nessa exacta medida que este álbum se assume como "um antídoto contra o grunge de quatro acordes e o drum'n'bass de um só acorde. Aqui se encontram dezoito mulheres com idade para serem vossas avós e com uma única ideia na cabeça. Aqui se descobrem algumas melodias que nunca imaginámos que regressassem e outras que nunca desapareceram. Umas já eram autenticamente estranhas quando apareceram, outras foram justamente celebradas como clássicos. Outras ainda, exploravam um mundo crepuscular à maneira de Ed Wood onde um certo entusiasmo tonto vencia o mau gosto e uma devastadora ausência de talento".



Colocada a questão de outra maneira, não há nenhuma razão plausível para que quem viaja até ao sétimo céu na companhia dos Pizzicato Five não seja capaz de se fazer transportar até ao mesmo lugar pela mão destas divas. Elas podem ser bastante entradotas (ou nem sequer já serem vivas) mas, acreditem, não foram sempre assim. E, quando gravaram estas canções, estavam ainda suficientemente capazes de ensinar meia dúzia de coisas a todas as Madonnas e Sharon Stones deste mundo. Ann Margret — a loiríssima sueca que contracenou com Elvis Presley — era uma deusa, para a mais "antiga" Marlene Dietrich gravar um quase-rock como "Near You" equivalia a uma heresia, "Teach Me Tiger", de April Stevens, era uma condenação às eternas labaredas do inferno e "That Makes It", de Jayne Mansfield, "Let's Misbehave", de Eartha Kitt (segundo Cole Porter), "Heatwave", de Marilyn Monroe ou "Go, Go, Calypso" de Mamie Van Doren tinham o que bastava para convocar uma reunião de urgência do Comité Central da Santíssima Inquisição de todas as épocas.



Claro que a passagem do tempo atenua (e até valoriza) os tais "mau gosto e devastadora ausência de talento" mas, nesta compilação, se, de um lado, há as puríssimas transgressões de Brigitte Bardot ("Je me donne a qui me plait ça n'est jamais le même mec"), a saborosa frivolidade de Sophia Loren em "Zoo Be Zoo Be Zoo", a "gaieté" parisiense de Josephine Baker de "Don't Touch My Tomatoes" ou a gloriosa descerebração luso-tropical de Carmen Miranda em "Mamã Eu Quero", por outro lado, também existem outras coisas um bocadinho mais sérias (mas que não estragam o bom ambiente geral) como "Do Your Duty", de Billie Holiday, o magnífico "Forbidden Fruit", de Nina Simone, "Jezebel", de Edith Piaf, a acetinada sofisticação de Astrud Gilberto em "So Nice", o bondiano "Goldfinger" de Shirley Bassey, o exotismo "over the top" e supostamente étnico da voz de múltiplas oitavas de Yma Sumac ou o outro calypso ("Since Me Man Has Done Gone And Went") de Maya Angelou, poetisa, historiadora, actriz, escritora, dramaturga, activista dos Direitos Civis, nomeada para o prémio Pulitzer e — lá vamos nós outa vez... — devota de Bill Clinton, para além de bailarina sensual e competentíssima cantora de calypsos.



(1999)