Robert Wyatt Documentary - Little Red Robin Hood (Francesco Di Loreto & Carlo Bevilacqua, 1998)
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16 January 2024
10 September 2019
UMA GRANDE DESORDEM
“Reina uma grande desordem debaixo dos céus” afirmou Mao Tsé-Tung, como igualmente o diriam milhares de outros, em todos os séculos e todas as latitudes, embora só ele tenha acrescentado a conclusão “e a situação é excelente”. Hoje, poucos discordarão que a situação é tudo menos excelente e, fechando um pouco o ângulo de visão – isto é, folheando o último número da “Wire” –, haverá até motivos para imaginar que, o primeiro verso do “Uivo” de Allen Ginsberg (“I saw the best minds of my generation destroyed by madness”) continua perfeitamente actual. Ou, pelo menos, uma inquietante desordem invadiu as suas mentes. Há 5 anos, o crítico de música e fundador da ZTT, Paul Morley, tivera uma revelação divina e anunciara ao mundo que “A pop é do século passado. O futuro é da música clássica!” Agora, num dossier da revista dedicada às “adventures in sound and music”, cujo tema é a “celebration of music’s love affair with excess, overload, lavishness and volume”, o habitualmente astuto Simon Reynolds denuncia os “preconceitos pós-punk” e entrega-se à reavaliação do “solo de guitarra”, confessando ter sucumbido ao seu “requinte ordinário”.
Como atenuantes para o pecado original, alega uma juventude sujeita à doutrinação do "less is more" (“O minimalismo não era apenas uma preferência estética mas uma atitude moral e ideológica: um nivelamento igualitário, permitindo a entrada de amadores com uma mensagem urgente mas musicalmente incapazes”) e condicionada pela aversão à guitarra como símbolo fálico (“Se apoiávamos a revolução feminista no rock (...), tínhamos de nos opor a exibições de virtuosismo masturbatório. Os solos eram, se não abertamente fascistas, pelo menos, um retrocesso reaccionário em direcção ao machismo da guitarra-enquanto-arma”). E conta que terá sido ao escutar "Purple Haze", de Jimi Hendrix, e "Marquee Moon", dos Television, que as suas convicções começaram a vacilar: a partir daí, descobriria Neil Young, os Butthole Sufers, Dinosaur Jr, Meat Puppets, Royal Trux, e, “numa derradeira convergência”... os Queen e “o esplendor da guitarra de Brian May, uma ideia de beleza de um camponês ou de um ditador. Anti-punk até à medula, talvez a última e verdadeira emergência da rebeldia rock no show business”. Haverá alguma forma de fazer ver a Morley e Reynolds que, embora as oscilações do gosto façam tanto parte da história do mundo quanto a guerra e a paz, para renegar algo, não é absolutamente imprescindível abraçar o pior do seu contrário nem convocar para o combate dos tribalismos estéticos Bach vs Abba ou The Fall vs Soft Machine?
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22 March 2015
Daevid Allen (1938 – 2015)
"There’s a million ways to laugh. Sometimes absurdism can be subversive. Sometimes it’s necessary to look further, beyond the Pot-Head Pixies and Flying Teapots and see what’s on the other side. In a sense Daevid Allen is no longer with us, in another he’ll always be here so long as we play the records, he’s just evolved to another form, transmuted into the music. This sounds frivolous. It’s not. It’s part of the magic he deals with, part illusory, part dexterity. Jazzer Sun Ra claimed to be from Saturn. His cosmic philosophy was ludicrous, his avant-garde improvisations could be breathtaking. When Christopher David Allen (as he was then) fetched up in Dover, from his native Australia, via a stint at 9 Rue Git-le-Coeur, the Paris ‘Beat Hotel’, he was listening to the endless pulse of Sun Ra. This was around 1961, and jazz was the cool underground. The drummer in Daevid’s first free-Bop trio was a young Robert Wyatt, with Hugh Hopper on bass. When the group eventually evolved into Soft Machine it took its name from the ‘Beat’ junk-mythologies of William S Burroughs too. Daevid had discovered the Beats back home in Melbourne while working a scuffed bookshop. Poetry can be spontaneous Bop jazzetry. It takes your head into places straight ‘serious’ art cannot. It can be the jolt that tips you over into altered states. All this was alchemy for the soul. From Charlie Mingus to Robert Graves. Accident, chance and serendipity were part of its strategy. So when, after playing Côte d’Azur dates with the Softs, Daevid was refused re-entry to the UK due to visa problems, he gravitates to Paris in time for ‘les évènements’, which was the place to be. ‘Egalité! Liberté! Sexualité!’ is another mythic-layer occupying the zone between prankster insurgency and subtle brain-games. He recites Beatnik poetry in fractured Franglaise which is also an assault on the senses (...)" (daqui; + aqui)
04 October 2009
ESTRANHOS NUMA TERRA ESTRANHA
Gong - 2032
Impedido de entrar em Inglaterra porque o seu visto de residência expirara, expulso de França devido a uma intervenção demasiado entusiástica nos tumultos do Maio de 68, acabado de regressar de Maiorca a Paris, quando a atmosfera política já serenara, que faz o australiano Daevid Allen, sem um tecto para dormir? Evidentemente, pega na lista telefónica local, abre-a ao acaso e liga para o primeiro número onde lhe poisam os olhos. E, sim, o senhor Reynard que o atende do outro lado, responde-lhe que até tem uma casa para alugar, vazia desde há trinta anos, no meio de uma floresta. Aqui começava a segunda encarnação dos Gong. Antes disso, Allen já vivera, no início da década de 60, no Beat Hotel, também em Paris, onde conhecera William Burroughs e Terry Riley, traficara haxixe e flirtara com a vanguarda Fluxus, fizera parte da primeira formação dos Soft Machine (que abandonou quando os Beatles, os Stones, os Pink Floyd e os Who começaram a aparecer nos concertos da banda, o que lhe pareceu demasiado "mainstream"), e, por sugestão de Robert Wyatt, no rescaldo dos sarilhos de Maio, refugiara-se na comuna artística maiorquina de Deià, na qual conviveu com o poeta Robert Graves, escritores, músicos e místicos sufi, e descobriu o saxofonista Didier Malherbe que, naturalmente – depois de ter estudado flauta de bambu, na Índia, e sopros norte-africanos, na Tunísia -, vivia na caverna de um pastor de cabras.
Do núcleo inicial dos Gong, sobrara a companheira Gilli Smyth, alucinada académica britânica e professora da Sorbonne, cúmplice de aventuras sonoras que envolviam “space whispering”, flautas, guitarra eléctrica e um estojo de instrumentos de cirurgia ginecológica do século XIX. Alimentados a uma dieta de músicas orientais, free-jazz, LSD, Situacionismo, rock, Alfred Jarry, "tape-loops", absurdismo, patafísica e sci-fi demente, na imprescindível trilogia Flying Teapot, Angel’s Egg (ambos de 1973) e You (1974), entraram em contacto com o Planeta Gong, atribuíram o verdadeiro sentido ao termo psicadelismo e empenharam-se na preparação dos humanos para a chegada dos extra-terrestres.
Mil e uma peripécias, trips sem regresso, separações e reuniões mais tarde, no seu 40º aniversário, anunciam-nos que devemos preparar-nos para acolher a benigna invasão em 2032 e, com o guitarrista Steve Hillage no comando (às vezes, excessivamente presente...) das operações, são uns Gong amansados por um funk redondo mas ainda desejável e irrecuperavelmente lunáticos (e Allen e Smyth são já septuagenários) que reencontramos, por entre danças com gnomos, “Robo Warriors” e “Yoni Poems” – eternamente “strangers in a strange land”. Haverá por aqui uma moral? Há, sim: lida a História de trás para a frente, Devendra Banhart e seita psych afim não passam de betos tenrinhos armados em freaks de fim-de-semana.
(2009)
14 February 2008
CATEDRAL SUBMERSA

Robert Wyatt & Friends - Theatre Royal Drury Lane,
Sunday 8th September 1974
Sempre que sou submetido ao interrogatório-tipo "Qual é o disco da sua vida?" ou, em alternativa, "Qual o melhor álbum de sempre?", invariavelmente hesito, perdido pelo meio de uma lista onde Colossal Youth (Young Marble Giants), Music For A New Society (John Cale), Songs Of Love And Hate (Leonard Cohen), Highway 61 (Bob Dylan), The Ascension (Glenn Branca), The Velvet Underground & Nico ou I Want To See The Bright Lights Tonight (Richard & Linda Thompson) vão entrando e saindo da "shortlist" à medida das circunstâncias de temperatura e pressão ou dos ângulos de incidência da luz no momento. Mais uma outra boa dúzia de candidatos se pode ainda perfeitamente perfilar, à espera de substituir algum dos anteriores mas, para além de todos esses, existem sempre dois que não arredam pé: Astral Weeks, de Van Morrison, e Rock Bottom, de Robert Wyatt.
Este último, está, entretanto, muito para além de ser apenas um favorito pessoal: segundo álbum a solo de Wyatt, após The End Of An Ear (1970) e a discografia a bordo dos Soft Machine e Matching Mole, é um daqueles momentos únicos em que, no interior daquilo a que (pouco perspicazmente) se chamou "progressive rock", a música transcendeu inexoravelmente todas as categorias. A voz e as composições de Wyatt, um colectivo de músicos reunido sob uma conjunção astral irrepetível, tocando por pura telepatia, e uma atmosfera de catedral submersa, engendraram algo que nunca antes se havia escutado e que não mais voltou a acontecer. Não é, pois, de admirar que o lendário concerto de apresentação do álbum (a 8 de Setembro de 1974, cerca de um ano depois do acidente que confinou Wyatt a uma cadeira de rodas) se tenha tornado objecto de culto, multiplicado, até hoje, em inúmeros "bootlegs". Ei-lo, então, finalmente, disponível em publicação "oficial" e só restará dizer que valeu inteiramente a espera: Wyatt, Fred Frith, Hugh Hopper, Mongezi Feza, Gary Windo, Mike Oldfield, Ivor Cutler, Laurie Allan, Dave Stewart, Nick Mason e Julie Tippetts (ex-Driscoll) obedecem à determinação bíblica "Fiat lux!" e, percorrendo a totalidade de Rock Bottom acrescentada de composições anteriores de Wyatt, oferecem-nos um dos raríssimos "live" literalmente imprescindível. (2005)

Robert Wyatt & Friends - Theatre Royal Drury Lane,
Sunday 8th September 1974
Sempre que sou submetido ao interrogatório-tipo "Qual é o disco da sua vida?" ou, em alternativa, "Qual o melhor álbum de sempre?", invariavelmente hesito, perdido pelo meio de uma lista onde Colossal Youth (Young Marble Giants), Music For A New Society (John Cale), Songs Of Love And Hate (Leonard Cohen), Highway 61 (Bob Dylan), The Ascension (Glenn Branca), The Velvet Underground & Nico ou I Want To See The Bright Lights Tonight (Richard & Linda Thompson) vão entrando e saindo da "shortlist" à medida das circunstâncias de temperatura e pressão ou dos ângulos de incidência da luz no momento. Mais uma outra boa dúzia de candidatos se pode ainda perfeitamente perfilar, à espera de substituir algum dos anteriores mas, para além de todos esses, existem sempre dois que não arredam pé: Astral Weeks, de Van Morrison, e Rock Bottom, de Robert Wyatt.
Este último, está, entretanto, muito para além de ser apenas um favorito pessoal: segundo álbum a solo de Wyatt, após The End Of An Ear (1970) e a discografia a bordo dos Soft Machine e Matching Mole, é um daqueles momentos únicos em que, no interior daquilo a que (pouco perspicazmente) se chamou "progressive rock", a música transcendeu inexoravelmente todas as categorias. A voz e as composições de Wyatt, um colectivo de músicos reunido sob uma conjunção astral irrepetível, tocando por pura telepatia, e uma atmosfera de catedral submersa, engendraram algo que nunca antes se havia escutado e que não mais voltou a acontecer. Não é, pois, de admirar que o lendário concerto de apresentação do álbum (a 8 de Setembro de 1974, cerca de um ano depois do acidente que confinou Wyatt a uma cadeira de rodas) se tenha tornado objecto de culto, multiplicado, até hoje, em inúmeros "bootlegs". Ei-lo, então, finalmente, disponível em publicação "oficial" e só restará dizer que valeu inteiramente a espera: Wyatt, Fred Frith, Hugh Hopper, Mongezi Feza, Gary Windo, Mike Oldfield, Ivor Cutler, Laurie Allan, Dave Stewart, Nick Mason e Julie Tippetts (ex-Driscoll) obedecem à determinação bíblica "Fiat lux!" e, percorrendo a totalidade de Rock Bottom acrescentada de composições anteriores de Wyatt, oferecem-nos um dos raríssimos "live" literalmente imprescindível. (2005)
13 January 2008
Kevin Ayers - Joy Of A Toy, Shooting At The Moon,
Whatevershebringswesing e Bananamour
Para quem não esteja familiarizado com a personagem, pode muito bem dizer-se que Kevin Ayers é exactamente aquilo que Syd Barrett teria sido com uns valentes gramas de LSD a entupirem-lhe os circuitos cerebrais substituídos com vantagem por algum whisky e gin e bastante sol do Mediterrâneo. Típico excêntrico de extracção britânica, dandy preguiçosamente diletante que se entreteve a transformar o espírito "progressivo" dos anos 70
numa espécie de divertimento de salão para cavalheiros freak de tendência surrealista, após, com Robert Wyatt, ter ajudado a fundar um dos raríssimos colectivos "prog" que deixaram herança perdurável — os Soft Machine —, pareceu-lhe mais interessante reverter esse património de experimentação musical para o interior de canções que conciliavam um "soit disant" tradicionalismo de songwriter com imensa falsa candura, uma considerável dose de esquizofrenia deliciosamente "fake" e q.b. de bizarrias sonoras.
Agora reeditados (com uns quantos bónus, outakes e as raridades previsíveis neste tipo de operações) os seus primeiros quatro álbuns de 1969, 1970, 1971 e 1973 — depois disso, honra lhe seja, seguindo o sábio princípio "I'm naturally lazy but what can I do?", também não se esforçou muito, não indo, até hoje, além de mais umas oito ou nove gravações — ajudam a confirmar a imensa falta que gente desta estirpe sempre faz para o desejável cultivo de uma imaginação rica e desordenadamente povoada. Mais acentuadamente indispensável nas delirantes alquimias de Joy Of A Toy, Whatervershebringswesing e Bananamour, um tanto perdido nos labirintos sonoros de Shooting At The Moon, a Kevin Ayers apetece sempre dizer: se não for incomodá-lo muito, importava-se de nos oferecer mais um álbunzito para o nosso deleite privado? (2003)19 December 2007
A FÓRMULA CORRECTA
Kevin Ayers - The Unfairground
Quando a “Uncut” lhe perguntou “vinho, mulheres ou canções: o que é melhor?”, Kevin Ayers respondeu que é a combinação das duas primeiras que melhor funciona em benefício da terceira. Mas fez questão de acrescentar que “tal como quando se fala dos filhos, não desejaria eleger publicamente nenhuma das hipóteses como favorita”. Quinze anos depois do apenas aceitável Still Life With Guitar e muitos mais de uma quase interminável seca criativa após o início com os Soft Machine e os óptimos individuais Joy Of A Toy (1968), Shooting At The Moon (1970) e Whatevershebringswesing (1972), Ayers parece ter descoberto a fórmula correcta que equilibra devidamente os três ingredientes.
Soft Machine - 1967: "Why Am I So Short", c/Robert Wyatt, Mike Ratledge e Kevin Ayers
Seja ela qual for, resultou, sem dúvida, em benefício destas dez magníficas canções que (na companhia de velhos e novos companheiros como Hugh Hopper, Robert Wyatt, Bridget St John, Phil Manzanera e gente dos Neutral Milk Hotel, Architecture In Helsinki ou Teenage Fanclub) reconstituem intacto o requintado psicadelismo aristocrático das origens. Ou como a queda de um dandy não tem de ser irremediavelmente definitiva. (2007)
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