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04 May 2013

UM TIPO MELHOR QUE O DYLAN 



11 de Setembro de 1970. Vini Lopez, o baterista dos Steel Mill, tinha-se enrolado numa desnecessária trapalhada de drogas e, com o objectivo de recolher fundos para pagar a um advogado que o livrasse de sarilhos maiores, a banda decidira dar um concerto no Clearwater Swim Club de Middletown, New Jersey, cidade famosa por “não haver criminalidade, não ter habitantes negros e pelos hábitos autoritários da polícia local”, como conta o "middletowner" Steve Van Zandt, então baixista da banda. Um minuto depois das dez da noite – hora limite fixada para o final do concerto –, armadas até aos dentes, as forças policiais do chefe Joseph McCarthy (nome assaz apropriado), “como num Western clássico”, perfilaram-se sobre as colinas que circundavam a piscina de Clearwater e, no meio da confusão previsível, marcharam sobre o palco e desligaram o PA. Imperturbáveis, os Steel Mill continuaram a actuar e, em particular, o cantor, compositor e guitarrista, Bruce Springsteen, logrou manter, até ao fim, magneticamente colados em si os olhos de todos aqueles dos 5 000 fãs que, entretanto, não tinham sido engavetados. 


Uma busca no YouTube por "Bruce Springsteen + Steel Mill" dá-nos a ouvir uma típica banda de hard-rock da época, não especialmente memorável e que, facilmente, denuncia a ementa musical de que Springsteen & Cº se nutriam: Cream, Hendrix, Steppenwolf, Allman Brothers, Yardbirds, Iron Butterfly... caldo de cultura assaz diferente do que, supostamente, deveria estar na origem de uma personagem que, antes de se tornar ela própria, a indústria desejou que acreditássemos estar perante o “novo Bob Dylan” (e não será uma aterradora versão de "Suzanne", de Leonard Cohen, pelos pré-Steel Mill, The Castiles, que fará alguém mudar de ideias). Foi, no entanto, exactamente nesses mesmos termos que, dois anos e uma “reinvenção pessoal” depois, o "manager" Mike Appel o apresentou a John Hammond, executivo da Columbia: “Com que então foi você que, segundo parece, descobriu o Bob Dylan... vamos lá ver se tem, realmente, bom ouvido, pois trago-lhe aqui um tipo melhor que o Dylan!” E o fulano que não apenas “descobrira” Dylan como também Billie Holiday, Count Basie e inúmeros outros, embora procurasse disfarçar o entusiasmo, interiormente, rendeu-se, de imediato, a "It’s Hard To Be A Saint In The City", "Growin’ Up" e "Mary Queen Of Arkansas" que acabariam por figurar no magnífico e eternamente mal amado álbum de estreia, Greetings From Asbury Park, N.J. (1973).


Tão pouco amado que, na inexplicável recém-publicada Collection: 1973 – 2012 – após dois Greatest Hits (1995 e 2009) e The Essential (2003), que finalidade serve? – se usa do subterfúgio de The Wild, The Innocent & The E Street Shuffle ter sido igualmente editado em 1973 para, sem mentir nas datas de início e fim, expulsar sumariamente Greetings... de um alinhamento de 18 canções com o qual nada se aprende. Existe, entretanto, uma boa alternativa: a leitura de Bruce, de Peter Ames Carlin (Ed. Simon & Schuster), última, óptima e definitivamente esclarecedora biografia do descendente de Casper Springsteen que, no século XVII, emigrou da Holanda para o Novo Mundo.

17 October 2010

SOTAQUE AMERICANO


Lloyd Cole é gente muito cá de casa. Um daqueles autores que, por motivos que nunca esclareceremos completamente, se torna convidado frequente dos palcos portugueses e que, mesmo tendo há muito deixado de habitar o Olimpo das divindades pop (desde que, há 21 anos, se mudou para a Costa Leste americana, a Inglaterra natal só intermitentemente o recorda e, na Europa, Alemanha e Portugal são os seus portos de abrigo), mantém uma base eleitoral suficiente para, regularmente o reeleger como representante da canção-pop de fino recorte literário. Broken Record, o último e magnífico álbum, é pretexto para uma mini-digressão de cinco concertos * e para uma conversa acerca do que é ser um inglês no novo mundo e não estar a ir para novo.

Ao fim destes anos todos de quase dupla nacionalidade, qual lhe parece ser a diferença entre fazer parte de uma banda visceralmente britânica e tocar com músicos maioritariamente americanos?
Se eu quisesse ser um pouco pedante, diria que existe uma diferencia entre o balanço da secção rítmica de uma banda inglesa e de uma banda americana. Na forma como os instrumentos funcionam em conjunto, agora, é possível que esteja um pouco mais próximo do que acontecia nos Commotions. O meu objectivo era que, neste disco, a banda soasse como o Highway 61, do Dylan. Ou como ‘Something On Your Mind’, da Karen Dalton. Ninguém está, realmente, a solar mas os músicos trocam melodias diferentes entre si. O que, quando se trabalha com bons músicos, se consegue.



Mas pode afirmar-se que viver durante todo este tempo nos EUA, de alguma forma o americanizou?
Há frases americanas que uso mas também sempre as usei. O meu vocabulário musical provém do Leonard Cohen e do Bob Dylan e da literatura que lia quando era jovem que era, predominantemente, americana. A propósito deste disco, um fã criticou-me por usar a expressão “stupid ass”, segundo ele, um britânico não deveria dizer isso. (risos) Mas eu vivo lá há 21 anos e compreendi que, se insistisse em falar o inglês britânico, uma de duas coisas aconteceria: ou não seria compreendido, ou passaria a vida a ouvir “oh tão giro!... diga lá isso outra vez”. Por isso, sim, é verdade que me americanizei um pouco e que o meu próprio sotaque se modificou.

A intenção da minha pergunta era mais acerca do seu sotaque musical...
Não me parece. A minha estética continua a ser europeia. Mas a música que sempre fiz, desde Rattlesnakes, é baseada em diversas formas americanas: rhythm ‘n’ blues, rock’n’roll, blues, folk, country... mas nunca folk britânico.


Por acaso, neste disco, pela primeira vez, tem uma canção, "Man Overboard", que poderia, facilmente, ser vista como uma variação sua sobre uma "sea shanty"...
Talvez mais com uma "sea shanty" escocesa do que inglesa. Há, neste álbum, diversas coisas que decorrem de ter actuado como folk singer durante dez anos, apenas com a guitarra. ‘Man Overboard’ poderá fazer pensar numa "sea shanty" mas também poderia ser uma canção dos primeiros tempos do Leonard Cohen. Mas, voltando à sua pergunta, os Commotions sempre se dedicaram a formas musicais americanas submetidas a uma estética europeia. Se reparar nas diferenças entre os R.E.M e os Commotions – que tocavam tipos de música semelhantes –, na música deles havia qualquer coisa que os aproximava mais dos Allman Brothers do que dos Rolling Stones. Os Commotions, apesar de tocarem pop, partilhavam com os Stones o facto de tocarem música americana com uma estética britânica: interessava-nos mais a elegância do que a paixão, interessava-nos a concisão. Nos Stones, uma canção nunca durava mais do que três minutos... há alguma dos Allman que seja inferior a cinco? Suponho que tudo isso permanece no que faço agora. A maioria dos músicos poderá ser americana mas a estética é europeia.


Outro aspecto que quase se esfumou da sua escrita foi a obsessão pelo "name dropping" enquanto tique de estilo...
Nunca me pareceu que fosse exactamente um tique. Mas, neste álbum, nem crio, necessariamente, as personagens através de imagens. Algumas delas nem sequer têm personagens, são apenas acerca de ideias. ‘If I Were A Song’ trata de uma das perguntas que mais detesto que me façam: essa canção é sobre quê? Uma canção não é acerca de coisa nenhuma, é uma coisa como isto (pega numa jarra), uma entidade. Uma entidade estranha porque não é corpórea, não a podemos agarrar mas pode ser escutada e encarada de várias formas. Os pontos de referência podem ser outras canções.

O que permanece constante é a sua preocupação com a passagem do tempo: em Mainstream, tinha uma canção, "29", acerca da tragédia iminente de ser trintão; há três anos, em Antidepressant, escrevia acerca de um tipo "no longer angry, no longer young, no longer driven to distraction, not even by Scarlett Johansson"; numa entrevista, declarou que não o entusiasmava demasiado a ideia de que, aos 75 anos, será, de certeza, parecido com o Orson Welles; e, agora, não foi, seguramente, um acaso que a porta que surge na capa do disco tenha o número 49...
Foi coincidência, foi. Uma boa coincidência mas não foi por esse motivo que escolhi essa fotografia. Por um lado, estou feliz por ser mais velho. Os jovens são estúpidos e é preciso muito tempo até conseguir libertá-los da estupidez e levá-los a ter, pelo menos, alguma noção das suas limitações. O que é também a beleza da coisa: pensar que sabemos tudo, fazermos uma viagem e imaginarmos que conhecemos o mundo todo. E que também proporciona a confiança indispensável para sermos ambiciosos. Mas do lado físico do envelhecimento... não gosto mesmo nada! Ter sido fotografado durante toda a nossa vida adulta e, de repente, vermos fotos actuais... brrr! A minha piada actual é que, durante 24 anos, escrevi acerca do envelhecimento. Agora, escrevo sobre ser velho.


(2010)