Este pessoal fricolé e/ou com os miolos queimados tem uma grande queda para a asneirada
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22 January 2021
01 January 2013
2012 - EM FRENTE, PARA O PASSADO
Em Regresso Ao Futuro, Marty McFly/Michael J. Fox, a bordo de um DeLorean DMC-12 convertido em máquina de viajar no tempo, recua até Novembro de 1955 e, pelo meio de mil peripécias, alterando o rumo dos acontecimentos e a relação entre diversas personagens, não só procura evitar desastres futuros, como, de caminho, realiza o seu sonho de ser músico de rock’n’roll, criando "Johnny B. Goode" e o "duckwalk" e oferecendo, de bandeja, a Chuck Berry “that new sound you’re looking for”. A 10 de Dezembro último, o Google Doodle do dia (variações gráficas sobre o logo do Google com o objectivo de celebrar efemérides, eventos políticos, desportivos ou culturais, e aniversários de figuras marcantes) evocava Lady Ada Lovelace (1815 – 1852): filha de Lord Byron, e pioneira da computação (sonhava com a construção de um modelo matemático capaz de explicar como os pensamentos se formam no cérebro), a “máquina analítica”, precursora dos computadores, que o seu amigo Charles Babbage inventara e para a qual ela conceberia o primeiro algoritmo destinado a ser processado mecanicamente, fascinava-a a tal ponto que, em 1842, assegurava que ela “poderia compor músicas elaboradas e científicas em qualquer grau de complexidade e extensão". Mas, sensatamente, sublinhava que "a máquina analítica não tem quaisquer pretensões de originar coisa alguma. Pode apenas executar seja o que for que saibamos mandá-la fazer".
Dir-se-ia que, em 2012 (prosseguindo, teimosamente, o rumo por que a década anterior já enveredara), a cultura pop – com as honrosas excepções habituais – optou, em definitivo, por repetir a viagem de Marty Mc Fly. Mas, ao contrário dele, que tirou partido do passo atrás para forçar os acontecimentos a dar vários em frente, preferiu transportar na bagagem o equivalente contemporâneo da máquina do doutor Babbage e, sem “quaisquer pretensões de originar coisa alguma” (ainda que proclamando o oposto), entreteve-se a gerar infindáveis duplos e cópias a partir do catálogo de estilos e géneros passados. Confortavelmente empantufados nas décadas de 60, 70 e 80 (a de 90 já se perfila para entrar em cena também), aos Marty Mc Fly actuais não ocorre sequer a ideia de que é possível alterar as coordenadas em que se alojaram e fazer delas trampolim para um salto no futuro: Ariel Pink, Tame Impala, Lana Del Rey ou Beach House (para referir apenas alguns dos mais proeminentes nomes das numerosas tropas do cerco retromaníaco), conscientemente ou não, o que fizeram foi levar a sério uma entrevista, de 1995, de Brian Eno à “Wired”, na qual ele especulava sobre a hipótese de concepção de sistemas de software capazes de "criar" mais música "original" de Shostakovich, de Brahms, ou dele próprio.
Sharon Van Etten - "Magic Chords"
A consequência foi uma colheita musical em que, fora do perímetro cercado, apenas é possível identificar pouco mais de duas dezenas de gravações sem cheiro a mofo nem enjoativa sensação de "déjà vu" (para além da lista de 10, é importante referir, igualmente, Mr. M, dos Lambchop, Tramp, de Sharon Van Etten, Life Is People, de Bill Fay, Shields, dos Grizzly Bear, Wrecking Ball, de Bruce Springsteen, Who’s Feeling Young Now?, dos Punch Brothers, Long Black Cars, dos Wave Pictures, Tempest, de Bob Dylan, e mais três ou quatro) e, inclusivamente, no que à música portuguesa diz respeito, para além do fado à boleia da UNESCO, espírito verdadeiramente aventureiro só foi possível detectar na improbabilíssima aliança luso-grega de Amélia Muge e Michales Loukovikas, na continuação da saga dos Gaiteiros e na geometria em movimento dos Abztraqt Sir Q. O futuro segue (?) dentro de momentos.
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04 November 2012
DIGESTÃO DIFÍCIL
Ariel Pink’s Haunted Graffiti - Mature Themes
Não é preciso apertar muito com ele. Ariel Marcus Rosenberg (aliás, Ariel Pink) confessa logo tudo de bom grado: “Quando se gosta da música dos anos 60, vivemos dentro dela para sempre. Vivemos num momento em que aqueles que estamos a escutar deixavam crescer o cabelo pela primeira vez. Olhamos para as imagens e sentimos que podíamos, de facto, viver ali. A minha geração [Ariel tem 34 anos] nem sequer existia ainda. Mas ‘vivemos lá’. Não temos nenhum conceito do tempo”. A sua obsessão é “preservar algo que se está extinguir” e assegura que aprendeu tudo o que sabe desde os 5 anos, grudado à MTV, a sua verdadeira "baby-sitter". E, mesmo hoje, pelo meio das ocasionais birras em palco, jura que se recusa a ouvir música nova, só sai do apartamento por obrigação e não quer saber do que, por aí, se escreve. Estaríamos, então, perante um exemplo típico de eremita antissocial irremediavelmente engatado em marcha-atrás, daqueles que encheram as páginas de Retromania, de Simon Reynolds, se não se desse o caso de Reynolds, embora, naturalmente, embaraçado, se ter deixado embalar pelo seu suposto tempero “retrolicious” (“retro” + “delicious”): qualquer coisa como o ingénuo fascínio infantil, sem preconceitos, perante um brinquedo colorido com o qual os pais e os avós já se divertiram mil vezes mas que aparenta ser sempre novo ou, noutro registo, uma tentativa de diálogo, à beira do psicótico, com o passado.
Na realidade, a ementa de Ariel Pink não é assim tão restritiva: tanto se serve do psicadelismo sessentista como do prog e do glam dos 70s, não diz que não ao synthpop xunga de 80 e, vendo bem, qualquer pedaço de lixo que lhe passe por perto é bem-vindo. Mature Themes – segundo volume da discografia para a 4AD após Before Today (2010) que o transformou em "next big whatever", e um par de publicações domésticas na Paw Tracks, dos Animal Collective – documenta-o bem: dos Byrds ("Only In My Dreams") a Rod Stewart ("Pink Slime"), de Bowie enrolado com o Julian Cope da fase mais neurologicamente problemática ("Kinski Assassin"), aos Devo ("Is This The Best Spot?"), aos Neu! ("Nostradamus & Me") ou aos Visage ("Symphony Of The Nymph") – tudo em variante de karaoke baratucho onde o imitador de outro imitador procura recordar-se de como seria o original –, nenhum se escapa a picar o ponto no reportório. A digestão, já de si difícil, do objecto (há uma diferença entre a irreprimível atracção de alguém pelo lixo e prostrarmo-nos em êxtase perante a flatulência provocada pela sua deglutição) complica-se por via do, chamemos-lhe assim, imaginário poético do artista, matéria de fixação "teen" em “testicle bombs”, “blowjobs of death”, pontos G (“G spot! H bomb! Let’s go!”) e arrebatamentos líricos do género de “The bad breath of a cross-eyed goat eating children for a Monday morning”. O golpe de misericórdia, porém, é desferido pelo próprio, numa entrevista ao “Guardian”: quando interrogado porque usava o cabelo pintado de cor-de-rosa, candidamente, respondeu “Dirijo-me a adolescentes, tenho de me resignar a isso. Não posso parecer um avozinho resmungão”. E lá se vai o tolinho da aldeia "naïf" deslumbrado com a memória pop...
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