23 November 2020

ESCUTAR O MUNDO


“Interessa-me muito perceber por que tocamos a música que tocamos. Sinto que a forma como desejo tocar não está presa a nenhum lugar tradicional em particular. Tenho necessidade de cantar e tocar e os sotaques, os dialectos, e o modo como tudo me sai tem a ver com o caminho que vou percorrendo, os lugares para onde levo o meu violino e onde conheço gente”, diz Rowan Rheingans à “fRoots”. Será mesmo muito interessante compreender como Anna e Rowan Rheingans – as Rheingans Sisters –, duas moças de Grindleford, uma terreola de menos de 1000 almas, no Derbyshire, chegaram a tão assombroso lugar como aquele que descobrimos em Receiver, o seu quarto álbum. E ele situa-se algures entre Sheffield (refúgio de Rowan) e Toulouse, a Suécia e a Noruega (paragens de abrigo e deambulação de Anna), coordenadas de uma música que ignora fronteiras mas conhece bem as suas origens: “Temos uma noção muito precisa da atmosfera que pretendemos criar – as cores, as texturas, a igual importância dos textos, da melodia, dos arranjos. A qualidade encantatória de muita música de dança tradicional tal como a repetição de motivos do minimalismo clássico sempre nos atrairam muito”.

(álbum integral aqui)

Tão aparentemente rude quanto sofisticado, entre o forno de lenha e o conservatório, espécie de "avant-folk scandi noir", Receiver é um "travelogue" occitano-escandinavo com um polo britânico, que vai registando encontros e intimidades de "bourrées", "rondeaux", polcas e mazurkas com "hardanger fiddles" nórdicos, imagina que Trondheim fica mesmo ali nas montanhas do Béarn, à beira das Apalaches e logo a seguir ao Leicestershire, e que esse é o local mais propício para evocar rituais magrebinos e o Bloody Sunday irlandês. Inspiradas pelos transparentes “solargraphs” (fotografias "pinhole") de Pierre-Olivier Boulant – e armadas de vozes, violino, viola de arco, banjo, flabuta, sinos, Hammond, guitarras, "pocket piano" e sintetizador –, as Rheingans inventaram a maravilha a que chamam “um artesanato de frequências” e cujo único segredo é “esperar e escutar o mundo”.

2 comments:

t. said...

'entre o forno de lenha e o conservatório'

Só isto valeria a audição.

João Lisboa said...

:-)