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14 February 2021

O "Ur-Fascismo" (V)

"4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar a crítica. O espírito crítico faz distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica entende o desacordo como instrumento de avanço do conhecimento. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição. 

5. O desacordo é também um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e procura o consenso explorando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou prematuramente fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascista é, portanto, racista por definição.

6. O Ur-Fascismo nasce da frustração individual ou social. Tal explica  porque uma das características típicas dos fascismos históricos foi o apelo às classes médias frustradas, sentindo mal-estar por qualquer crise económica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. No nosso tempo, em que os velhos 'proletários' estão a transformar-se em pequena burguesia (e os 'lumpen' se auto-excluem da cena política), o fascismo irá encontrar nesta nova maioria a sua audiência" (Umberto Eco, Como Reconhecer o Fascismo/Da Diferença Entre Migrações e Emigrações, 1997)

02 March 2021

O "Ur-Fascismo" (VII)
"13. O Ur-Fascismo assenta num 'populismo qualitativo'. Numa democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto dos cidadãos só está dotado de um impacto político do ponto de vista quantitativo (seguem-se as decisões da maioria). Para o Ur-Fascismo, os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e o 'povo' é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime a 'vontade comum'. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode possuir uma vontade comum, o líder pretende ser o seu intérprete. (...) O povo é, assim, só uma ficção teatral. (...) No nosso futuro perfila-se um populismo qualitativo TV ou Internet, em que a resposta emotiva de um grupo seleccionado de cidadãos pode ser apresentada e aceite como a 'voz do povo'. Devido ao seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo tem de opor-se aos 'putrefactos' governos parlamentares. Uma das primeiras frases pronunciadas por Mussolini no parlamento italiano foi: "Eu poderia transformar esta sala surda e pardacenta numa caserna para os meus manípulos'. De facto, arranjou logo um alojamento melhor para os seus manípulos, mas pouco tempo depois liquidou o parlamento. Sempre que um político lança dúvidas sobre a legitimidade do parlamento por já não representar a 'voz do povo', já podemos dizer que cheira a Ur-Fascismo" (Umberto Eco, Como Reconhecer o Fascismo/Da Diferença Entre Migrações e Emigrações, 1997)

09 December 2020

 O "Ur-Fascismo" (I)

"O termo 'fascismo' adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou vários aspectos, e poder-se-á sempre recomhecê-lo como fascista. Retire-se ao fascismo o imperialismo e teremos Franco e Salazar; retire-se o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescente-se ao fascismo italiano um anti-capitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescente-se o culto da mitologia céltica e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julius Evola. Apesar desta confusão, considero que será possível indicar uma lista de características típicas do que poderei chamar o 'Ur-Fascismo', ou o 'fascismo eterno'. Estas características não poderão ser ordenadas num único sistema: muitas contradizem-se reciprocamente, e são típicas de outras formas de despotismo ou de fanatismo. Mas basta que esteja presente uma delas para fazer coagular uma nebulosa fascista". (Umberto Eco, Como Reconhecer o Fascismo/Da Diferença Entre Migrações e Emigrações, 1997)

Edit - ... olha aqui uma nebulosazinha asinina a coagular...

21 March 2021

O "Ur-Fascismo" (VIII)
"O Ur-Fascismo ainda paira à nossa volta, às vezes em trajos civis. Seria tão confortável para nós se alguém assomasse à cena do mundo e dissesse: "Quero reabrir Aushwitz, quero que as camisas negras tornem a desfilar em parada pelas praças italianas!" Mas, ai, a vida não é assim tão fácil. O Ur-Fascismo ainda pode voltar sob as vestes mais inocentes.O nosso dever é desmascará-lo e apontar a dedo cada uma das suas novas formas - diariamente, em todo o mundo". (Umberto Eco, Como Reconhecer o Fascismo/Da Diferença Entre Migrações e Emigrações, 1997)

22 February 2021

O "Ur-Fascismo" (VI)

"7. Aos que estão privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que o seu único privilégio é o mais comum de todos, o de terem nascido no mesmo país. É esta a origem do 'nacionalismo'. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade à nação são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obessão da conspiração, possivelmente internacional. Os partidários têm de se sentir assediados. O modo mais fácil de fazer emergir uma conspiração é o de fazer um apelo à xenofobia. Mas a conspiração também tem de vir de dentro: costumam ser os judeus o melhor bode expiatório, dado que apresentam a vantagem de estarem ao mesmo tempo dentro e fora" (Umberto Eco, Como Reconhecer o Fascismo/Da Diferença Entre Migrações e Emigrações, 1997)

04 January 2021

O "Ur-Fascismo" (III)

"2. O tradicionalismo implica a rejeição do modernismo. Tanto os fascistas como os nazis adoravam a tecnologia, enquanto os pensadores tradicionalistas costumam rejeitar a tecnologia como negação dos valores espirituais tradicionais. Contudo, embora o nazismo tivesse orgulho nos seus sucessos industriais, o seu louvor da modernidade era só o aspecto superficial de uma ideologia assente no 'sangue' e na 'terra' (Blut und Boden). A rejeição do mundo moderno estava camuflada como condenação do modo de vida capitalista, mas dizia principalmente respeito à negação do espírito de 1789 (ou de 1776, obviamente). O Iluminismo e a época da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Neste sentido, o Ur-Fascismo pode definir-se como 'irracionalismo'". (Umberto Eco, Como Reconhecer o Fascismo/Da Diferença Entre Migrações e Emigrações, 1997)

16 December 2020

O "Ur-Fascismo" (II)

"1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho do que o fascismo. Não foi apenas típico do pensamento contra-revolucionário católico após a Revolução Francesa, mas nasceu na época helenística tardia como uma reaçcão ao racionalismo grego clássico. Na bacia do Mediterrâneo, os povos de religiôes diferentes (todas aceites com indulgência pelo Panteão romano) começaram a sonhar uma revelação recebida na aurora da história humana. (...) Estava confiada aos hieróglifos egípcios, às runas dos celtas, aos textos sagrados, ainda desconhecidos, das religiões asiáticas. Esta nova cultura deveria ser sincretista. "Sincretismo" não é só, como indicam os dicionários, a combinação de formas diferentes de crenças ou práticas. Uma combinação destas tem de tolerar as contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é só porque todas aludem, alegoricamente, a qualquer verdade primitiva. Como consequência, não pode haver avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e nós só podemos continuar a interpretar a sua obscura mensagem. Basta olhar para o sumário de todo e qualquer movimento fascista para achar os principais pensadores tradicionalistas" (Umberto Eco, Como Reconhecer o Fascismo/Da Diferença Entre Migrações e Emigrações, 1997)

02 February 2021

O "Ur-Fascismo" (IV)
"3. O irracionalismo depende também do culto da acção pela acção. A acção é bela em si, e portanto tem de ser realizada antes de e sem qualquer reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso a cultura é suspeita na medida em que se identifica com comportamentos críticos. Da afirmação atribuida a Goebbels ("Quando oiço falar de cultura, saco logo da pistola") ao uso frequente de expressões como "Porcos intelectuais", "Convencidos", "Snobs radicais", "As universidades são covis de comunistas", a suspeita em relação ao mundo intelectual tem sido sempre um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais empenharam-se principalmente em acusar a cultura moderna e a intelligentzia liberal de ter abandonado os valores tradicionais" (Umberto Eco, Como Reconhecer o Fascismo/Da Diferença Entre Migrações e Emigrações, 1997)