06 December 2022

 
(sequência daqui) Quando, porém, o assunto se desvia para a esfera musical propriamente dita, há que encarar as coisas com mil outros cuidados. Voltando a Renegades, Bruce confessa: “Comecei a tocar guitarra em 1964 e passei o secundário a tocar, Tínhamos os Rolling Stones e os Beatles mas, logo a seguir, também apareceram o Sam & Dave e a Motown, e aprendemos a escrever com os grandes compositores da Motown”. Obama, a propósito, observa: “Os negros são rebaixados, discriminados, porém, a cultura está contantemente a apropriar-se, a regurgitar e a processar o estilo que advém de se ser um forasteiro e de saber o que é ser infeliz, ter visto serem-lhe inflingidas aquelas cicatrizes, ter de viver do ar e fazer das tripas coração. E o rock’n’roll faz parte desse processo”. Muito correctamente, Springsteen acrescenta: “Para falar sobre raça, é preciso, em certa medida, desconstruir o mito da mistura de culturas que, na sua essência, nunca foi uma realidade. Admitir que uma grande parte da nossa história se baseou na pilhagem, na violência, e tendo por alvo as pessoas de cor. Envergonharmo-nos da nossa culpa colectiva. Teríamos de reconhecer a nossa cumplicidade diária e reconhecer que estamos ligados à história do racismo”. (segue para aqui)

Frank Wilson

04 December 2022

MAGNÍFICO IMPOSTOR


Em Renegades: Born In The USA, o belíssimo livro que regista as 8 conversas entre Bruce Springsteen e o ex-presidente, Barack Obama, originalmente difundidas em podcast (entre Fevereiro e Abril de 2021), a certa altura, Springsteen revela: “Só comecei a conduzir aos 24 anos. Andava à boleia para todo o lado. Não tinha carta e não sabia conduzir. Ia para a estrada, só eu e o meu polegar. Durante 10 anos, desde os meus 14, andei sempre à boleia. Lancei dois álbuns mas não tinha carro. Não sabia reparar um carro, caso se avariasse. Porém sabia o que um carro era, aquilo que simbolizava...” Por outras palavras, o enorme escritor de canções responsável pela poética mitologização dos infinitos "highways" norte-americanos, foi, durante algum tempo, mais outro poeta-fingidor, magnífico impostor, de quem nunca ninguém ousou duvidar. Na verdade, poderá considerar-se existir até alguma espécie de reincidência. Durante a longuíssima série de concertos a solo, “Springsteen On Broadway”, que, entre 2017 e 2018, apresentou, logo de início, poria as cartas na mesa: “Nunca tive um emprego sério em toda a minha vida. Nunca trabalhei das 9 às 5. Nunca trabalhei 5 dias por semana. Até agora. Nunca estive no interior de uma fábrica e, no entanto, não tenho escrito sobre outra coisa. À vossa frente, está um homem que teve um imenso e absurdo sucesso escrevendo acerca daquilo sobre que nunca teve a mínima experiência pessoal. Inventei tudo. É para que vejam quão bom eu sou”. (daqui; segue para aqui)


Commodores 
  

02 December 2022


 
(sequência daqui) Gravado entre a Primavera e o Verão de 2021, foi literalmente sacudido por duas tempestades: a que abalou o Mèxico e, enquanto escrevia a faixa de abertura, "Paloma" (“I woke up at the darkest hour, every light upon the shoreline was out, I gazed out into the deep blue, as the thunderous waves roared, in the black of night, I wouldn’t be taken aback, if the water came up and swept us out to sea“), deixou Alela às escuras; e o furioso ciclone na região do Pacific Northwest que atiçou devastadores fogos florestais mas também a escrita de "Howling Wind" (“Howling wind, there's a howling wind, a wild wind that's howling through all that we've built”), metáfora para “estes tempos de incerteza, fragilidade, guerra, doença e brutalidade”. Delicada folk de câmara iluminada pelos arranjos de cordas de Heather Woods Broderick.
Apenas para que conste que as "Novas Oportunidades" agora dão por outro nome (via OMQ)