20 March 2009

EM NOME DA "MAIS VELHA ALIANÇA", DEPOIS DE
 SÃO NUNINHO, É FAZER CLAQUE POR SÃO TONI


Em directo do National Prayer Breakfast, em Washington, um guia de leitura do discurso de São Toni

Onde Tony Blair, olhando em plano picado sobre Jerusalém, consegue fazer a remix de meia dúzia das mais célebres ficções históricas, sem se rir:

"I spend much of my time in the Holy Land and in the Holy City. The other evening I climbed to the top of Notre Dame in Jerusalem. You look left and see the Garden of Gethsemane. You look right and see where the Last Supper was held. Straight ahead lies Golgotha. In the distance is where King David was crowned and still further where Abraham was laid to rest. And of course in the centre of Jerusalem is the Al Aqsa Mosque, where according to the Qur'an, the Prophet was transported to commune with the prophets of the past".

Ou "tirem-me o Dawkins da frente que um gajo já nem de autocarro pode andar em Londres descansado":

"Religious faith is assailed by an increasingly aggressive secularism, which derides faith as contrary to reason and defines faith by conflict. Thus do the extreme believers and the aggressive non-believers come together in unholy alliance".


Santa Cherie, a outra metade da Divina Sizígia

Para o que um pai ateu está guardado ou há profes que nunca é demais manter debaixo de olho:

"I remember my first spiritual awakening. I was ten years old. That day my father - at the young age of 40 - had suffered a serious stroke. His life hung in the balance. My mother, to keep some sense of normality in the crisis, sent me to school. My teacher knelt and prayed with me. Now my father was a militant atheist. Before we prayed, I thought I should confess this. 'I'm afraid my father doesn't believe in God'. I said. 'That doesn't matter' my teacher replied 'God believes in him. He loves him without demanding or needing love in return'".

...por outro lado, há "civil servants" que valem muito mais que o seu peso em platina:

"I recall giving an address to the country at a time of crisis. I wanted to end my words with 'God bless the British people'. This caused complete consternation. Emergency meetings were convened. The system was aghast. Finally, as I sat trying to defend my words, a senior civil servant said, with utter distain: 'Really, Prime Minister, this is not America you know'".



São Toni preenche o impresso de candidatura à beatificação mas sonhando, lá no fundo, com a canonização:

"I believe restoring religious faith to its rightful place, as the guide to our world and its future, is itself of the essence. The 21st Century will be poorer in spirit, meaner in ambition, less disciplined in conscience, if it is not under the guardianship of faith in God".

Um caso típico de "fala por ti" (porém, na circunstância, verdade, verdadinha):

"'Fear of God' means really obedience to God; humility before God; acceptance through God that there is something bigger, better and more important than you".

Tradução do inglês técnico - "naquele dia da cimeira dos Açores, eu tinha comido qualquer coisa que me caíu mal, foi isso":

"When I was Prime Minister I had cause often to reflect on leadership. Courage in leadership is not simply about having the nerve to take difficult decisions or even in doing the right thing since oftentimes God alone knows what the right thing is. (...) And it is in that 'not knowing' that the courage lies".

(2009)
THERE'S A NEW POWER IN AMERICA - ATHEISM
Andrew Sullivan



There is one thing that is not allowed in American national politics – and that is atheism. “In God We Trust” is on the currency; and the number of congressional members who avow no faith at all are about as plentiful as those who are openly gay (none in the Senate; five in the House). Under the last president, religious faith – evangelical Christianity or Benedict-style Catholicism – was a prerequisite for real access to the inner circle. But the requirement is not just Republican. Among the more excruciating campaign events of last year was a faith summit for the Democrats in which candidates vied with one another to express the most piety. Barack Obama’s Christianity – educated, nuanced, social – is in many ways more striking than that of, say, Nixon, Truman or Eisenhower. Americans are losing faith, though; and those who have it are moving out of established churches. The nonreligious are now the third biggest grouping in the US, after Catholics and Baptists, according to the just-released American Religious Identification Survey. The bulk of this shift occurred in the 1990s, when they jumped from 8% to 14% of the population – but they have consolidated in the past decade to 15%. (...)



America, it turns out, is a more complicated spiritual place than the stereotypes might imply. Islam is still tiny – and integrated and largely successful. Catholicism, while buoyant among new Hispanic immigrants (who are, nonetheless, drifting rapidly towards evangelicalism in the southern hemisphere whence they came), has plummeted in its heartland. Think of Massachusetts, the home of the Irish and Italian and Portuguese. In 1990, Catholics accounted for 54% of all residents of the Kennedys’ state. That’s now 39%. The bulk of these ex-Catholics joined no other faith group – and the number of residents claiming no religion at all jumped from 8% to 22%. Of course, the sex abuse scandal played a powerful part. One of the chief enablers and protectors of abusive priests, Cardinal Bernard Law, was based in Boston and escaped real accountability by being given a prestigious sinecure in Rome. The Irish and Italians in Massachusetts did not forget. (texto integral aqui)

(2009)
PEDEM-NOS O VOTO, DIREMOS NÃO!



(assim de repente, entre o meio-dia e a uma, tirando uma ou outra - várias - ingenuidade(s) "anticapitalista(s)", secando o molho anarcóide e deixando só a coisa pelo nervo e osso - i.e., abstenção activa -, até nem me parece mal como higiene biliar...)

O capitalismo é um sistema sem lei, que alimenta e serve os interesses dos grandes grupos económicos e de todos os que lhe seguem o modelo. Um sistema norteado por valores cujos princípios básicos potenciam o crescimento da injustiça e desigualdade sociais, da alienação e expropriação dos direitos fundamentais dos indivíduos, da exclusão, da exploração desenfreada de pessoas, animais e natureza, do fomento de necessidades de consumo, hábitos e procedimentos desnecessários que causam ciclos de guerra, sofrimento e miséria. As democracias “representativas” inculcam massivamente no imaginário dos cidadãos que os resultados dos actos eleitorais significam procuração irrevogável para o Estado agir, em seu nome, de forma omnipotente e omnipresente.

A democracia resume-se assim a isso mesmo: de tanto em tanto tempo fazer variar nos assentos do Poder aqueles que apenas estão lá não para nos representar como proclamam, mas para fazer cumprir todas as políticas decididas algures nos centros financeiros internacionais. Desta forma, a vontade dos povos e dos indivíduos não tem qualquer poder decisório. No entanto, são chamados sazonalmente ao cumprimento do seu “dever”, a horas e nos lugares certos, sendo-lhes outorgado um falso carácter determinante, vendendo-se assim a ilusão de que mandar representa, apenas, obedecer ao sentimento maioritário.

Para a prossecução deste embuste arenga-se que as eleições projectam um sublime acto de escolha. Com maior ou menor propaganda e manipulação, com mais ou menos promessas demagógicas que não colhem apenas os incautos, o sistema capitalista desce à terra de quatro em quatro anos, submetendo-se estoicamente à prova das feiras, dos comícios em terras inóspitas, dos beijos e abraços à saída das missas. Tem o seu banho democrático, diz-se orgulhoso por isso e afirma-se posteriormente encartado para decidir o que quiser decidir. São, depois, as regras da democracia “representativa” a gerarem a rotatividade na protecção do aparelho de Estado e na defesa das políticas rigidamente definidas que, a nível super-estrutural, o capitalismo impõe para prosperar e garantir a sua ditadura. São as terapias impostas para que o pulmão não se debilite, seja qual for o corpo (partido ou agrupamento político) que lhe dá abrigo.

O sistema capitalista tem sabido lutar bem por este seu paradigma, exigindo a quem dele vive o respeito e aceitação do Estado como entidade reguladora das relações sociais. Os jogos de alianças, a necessidade de apresentar alternativas e soluções como sinal de afirmação construtiva fizeram encostar a "extrema-esquerda" e a "esquerda" à "direita" e parte da "direita" à "esquerda" e ao "centro", juntando-se todos no Parque das Nações a comerem um caldo de maioridade e sensatez. Por isso, nenhuma, mas mesmo nenhuma, força partidária equaciona, hoje, a legitimidade dos cidadãos se sentirem defraudados com o que fazem do seu voto. Outra coisa, aliás, não poderia acontecer: por muito que possa doer a muita gente boa que palmilha caminhos de insubmissão, certo é que a participação nos órgãos de poder institucional significa a aceitação cordata das suas regras de funcionamento e a reverencial simpatia pelo Estado e pelo sistema que o mantém. Há que assumir sem rodeios que nas sociedades modernas a exploração violenta, desumana, arcaica e irracional que o sistema capitalista exerce legalmente vem resultando da "carta branca" fornecida pelos plebiscitos eleitorais. Percebendo a importância que as eleições dão ao sistema capitalista, ao longo das últimas três décadas várias foram as mobilizações em torno da defesa política da abstenção. Não havendo campanhas públicas sistematizadas nem qualquer sector a emergir colectivamente, o poder foi-se aproveitando disso para atribuir os resultados incomodativos à "preguiça", ao "tempo de praia", à "chuva diluviana", à "abstenção técnica", à não "limpeza dos cadernos eleitorais", à "mobilidade dos cidadãos".

Como se "ir à praia" em dia de eleições não devesse ser enquadrado numa atitude política assumida, denunciadora da rejeição do circo da sociedade do espectáculo; como se o "direito ao não voto" fosse menos legítimo que o "direito ao voto". Reduzir a participação eleitoral aos que alimentam e se alimentam do sistema, transformá-los em criadores, actores e espectadores da sua própria encenação poderá ser uma interessante tarefa revolucionária geradora de ataques localizados aos órgãos vitais desta sociedade dominante. Nesta lógica de combate deverá ser claro que uma plataforma de entendimento e acção em defesa da abstenção, que se almeja poder funcionar sem qualquer mecanismo reprodutor dos poderes conhecidos, nunca deverá ser entendida como um fim em si mas antes como um meio para reforçar o ataque sistémico ao capitalismo. Ao longo da história a sociedade humana foi sendo encaminhada para sistemas de funcionamento autocrático e dirigista ao arrepio das normas de relação fraternas, solidárias e horizontais. A introdução das regras mercantilistas, do desempenho individual, da competição e do orgulho na propriedade privada adulteraram a lógica comunal, transformando o ser humano num produto que deve mais do que tem a haver! A desumanização das sociedades dos novos tempos transformou as pessoas em números prontos para o massacre.

Isto não é inevitável! Sabemos de múltiplas lutas de resistência que foram capazes de mostrar que outro mundo é sempre possível ainda que o devir nos tenha acrescentado frustrações. Todos esses processos históricos encontram-se catalogados nos protótipos da utopia, tendo, alguns deles, sido concretizados. Este parece ser o grande combate de quem enjeita o poder institucional e não quer agir sozinho. A luta pela felicidade e pelo mundo harmonioso também passa por aqui sem aqui se esgotar! Liberdade não é poder escolher os tiranos, mas sim não querer nenhum.

Todas as rebeliões começam por uma recusa. Para justificar a tirania, virão pedir-nos o nosso voto.

OLHOS NOS OLHOS, DIR-LHES-EMOS QUE NÃO!

Plataforma Abstencionista
Novembro 2008

(2009)
VIGÉSIMO NONO COMUNICADO DO C.A.L.A.
(Comité de Apoio a Laurinda Alves)




Da obra maior da candidata Laurinda - Atitude Xis: Um olhar positivo sobre a vida -, divulgamos hoje o poema/texto confessional "Gosto Muito", momento fundador do optimismo lírico lusitano e lugar de confluência cósmica onde um panteísmo ingénuo se confunde com o "stream of consciousness" joyceano e com o arrebatamento emocional que Cristina Caras Lindas plasmou nesse outro marco geodésico da literatura contemporânea, Sandálias de Prata.

GOSTO MUITO...

Gosto muito
da lua cheia
do silêncio puro
da geometria da minha rua
dos dias compridos
de abraços demorados
de sorrisos no elevador
de pessoas autênticas
de conversas eternas
das janelas todas abertas sobre o rio e a cidade
de luzes baixas e amarelas dentro de casa
de quadros grandes
da cor do fogo
de todas as estrelas do céu
do sol da manhã e da luz do dia
do barulho do mar ao entardecer
da maré vazia ao fim do dia
do vento quando deixa marcas na areia lisa
do rumor vegetal das folhas nas árvores
do manto lilás das folhas de jacarandá que cobre o chão
de coincidências, surpresas e milagres
de ver pessoas felizes
de olhos que riem
de cidades grandes com rio
da voz dos que amo
de estar calada
da casa cheia de amigos
de jantares improvisados
de ouvir tocar piano e violino sempre
de ficar abstracta, às vezes
de livros e de poetas



de acordar tarde
de certas rotinas
de me esquecer das horas
da areia da praia ao meio dia, quando está a ferver
das vozes descombinadas no ar nas tardes de calor
do rapaz que passa na mota, ao meu lado
de quando sai a correr para a última fotografia com a luz do dia
dele muito mais do que ninguém
de saber que ele sabe isso
gosto da luz dourada do entardecer reflectida nos seus olhos
gosto da intimidade
da verdade e da cumplicidade
de templos e lugares sagrados
de horizontes líquidos
do azul infinito
de riscos brancos no céu
da cor púrpura do entardecer
de histórias de pessoas
de descobrir umas mãos fortes
de ir mais longe com alguém
dos que rezam comigo
da lua árabe só com uma estrela, no alto do céu
de ficar em casa, embalada nos barulhos da casa
de ainda ter comigo todos os que mais amo
de adormecer e de sonhar acordada
de amar e ser amada
de ser alguém especial
do amor dos amigos também
de estar com eles na praia até ser noite
de tantas outras coisas
e da vida, todos os dias.


(2009)

19 March 2009

ALMA HERÉTICA



Cristina Branco - Kronos

A interrogação coloca-se desde o início e só é importante na medida em que permita compreender com maior clareza a música que Cristina Branco canta. E não deixa de ser curioso reparar que se trata da música que ela “apenas” canta mas não assina – a marca de autor(a) está na voz. A vexata quaestio, então: é fado ou não é fado? Objectivando um pouco (embora não exaustivamente), a propósito do primeiro álbum “oficial”, Murmúrios (1999), Cristina dizia que ele tinha provocado “um burburinho incrível porque, não cantando fado tradicional, fui buscar coisas do Sérgio Godinho, do José Afonso”. Sobre O descobridor: Cristina Branco canta Slauerhoff (2000), ela confessava que “não seriam exactamente fados mas temas muito tristes que acabam por estar muito próximos do espírito original do fado, umas vezes são fado, outras não, temos essa tendência para procurar coisas que não se conformem demasiado com as regras”. Em Ulisses (2005), o reportório abarcava petas e compositores como José Afonso, Fausto, Vitorino, Joni Mitchell, Vasco Graça Moura, Júlio Pomar, David Mourão-Ferreira ou Paul Éluard.



E, agora, após, o Live (2006) dedicado a Amália e Abril (2007) sobre José Afonso, Kronos é – como já eram Sensus (2003) ou Ulisses – um arco conceptual de melodias e textos de José Mário Branco, Sérgio Godinho, Amélia Muge, Hélia Correia, Vitorino, Janita Salomé, Victorino d’Almeida, Mário Laginha, Carlos Bica, João Paulo Esteves da Silva, Ricardo Dias ou Manuel Alegre. E... é fado? A ortodoxia decretará que só vagamente isso acontece. O resto do universo ficará eternamente grato a Cristina, não se cansará de lhe suplicar que continue a emprestar a transparência da voz a canções como “Bomba Relógio” (Sérgio Godinho), “O Meu Calendário”, “Histórias do Tempo” (Amélia Muge), “Bichinhos Distraídos” (Mário Branco) ou “Fado do Mal Passado” (Pomar/Vitorino d’Almeida) e, fado, tango, blues ou bossa-nova, em pas-de-deux com a guitarra de José Manuel Neto – como ela diria: “pronto, é fado!” – ou o piano de Ricardo Dias, não se arrependa nunca de possuir uma alma musical tão admiravelmente herética.

(2009)
AH, PRONTO, ENTÃO ERA ISSO...



O bispo de Gap, em França, considera que as palavras do Papa foram mal interpretadas: “Sabemos que nem toda a gente tem possibilidade de obter preservativos e que, em alguns casos, o mesmo preservativo é utilizado várias vezes e por pessoas diferentes, mas é claro que o Papa não vai entrar nestes detalhes. Penso que é isto que queria dizer quando evocou o problema”. (aqui)

...de facto, os detalhes são um bocadinho badalhocos mas, se virmos bem, nada que se compare, em grau de badalhoquice, com a história da igreja católica. Por outro lado, há que reconhecer que o Sumo Patífice até pode ser o género de criatura com quem fica mal ser visto em público mas não deixa de ter sentido de humor:

"Bento XVI convidou a Igreja católica a 'defender vigorosamente os valores essenciais da família africana' * ante as consequências da 'modernidade e da secularização na sociedade tradicional'. Também enfatizou a formação dos fiéis para resistir à 'expansão das seitas e dos movimentos esotéricos e a influência crescente das formas de religião supersticiosas, ** assim como o relativismo'". (aqui)



* "Polygamy existed all over Africa as an aspect of culture or/and religion. Plural marriages have been more common than not in the history of Africa. Many African societies saw children as a form of wealth thus the more children a family had the more powerful it was. Thus polygamy was part of empire building. It was only during the colonial era that plural marriage was perceived as taboo. Esther Stanford, an African-focused lawyer, states that this decline was encouraged because the issues of property ownership conflicted with European colonial interest. It is very common in West Africa (Muslim and traditionalist)".

** apesar de, provavelmente, não ter um sentido de humor tão requintado como o do Sumo Patífice e não ser capaz de identificar um par de sinónimos (religião=superstição) mesmo que ele lhe salte da frigideira para o olho, a Dona Guilhermina deve ter sido das primeiras a aplaudir.

(2009)

18 March 2009

CONTRADIÇÃO DIALÉCTICA



(2009)
THE HORROR, THE HORROR...



OMG!... (I)

OMG!!... (II)

OMG!!!... (III) (noutra onda não particularmente diferente)

...ENFIM, RESPIRAR...

(2009)
DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO (III)



(roubado já não me lembro de onde mas parece-me que foi daqui)

(2009)
UMA ETERNA NÓMADA


Há cerca de dois anos, aquando da publicação de Abril (centrado na reinterpretação de canções de José Afonso), já no final da entrevista, quase casualmente, Cristina Branco confessava-me que o álbum seguinte já estava em fase de pré-produção, “a gente não pode parar!”. E, com um rigor superior ao de todos os profetas bíblicos, anunciava que “só sairá em 2009 e são doze poemas e doze compositores, todos portugueses. A intenção é que sejam os cantautores a compor: o Vitorino, o Janita (que fez apenas música para um poema fantástico da Hélia Correia), o Sérgio Godinho, tenho dois poemas do Júlio Pomar que gostava que fossem musicados pelo António Vitorino de Almeida, a letra para um tango do Vasco Graça Moura, dois poemas do Manuel Alegre escritos propositadamente para este disco e ainda deverão surgir outros nomes como o João Paulo Esteves da Silva, o Ricardo Dias e a Amélia Muge”. Obedeceria a um tema central, o tempo em sentido lato, e teria como título Kronos. Com uma precisão de relojoaria suiça, na data prevista e com os intervenientes planeados, ei-lo pronto e magnífico.


Hoje, Cristina não se recorda desses seus dons de vidência e conta que “nessa altura, já tinha algumas ideias dos autores que desejava convidar mas ainda não tinha feito convites. Com a Amélia Muge foi muito engraçado porque eu tinha referido na imprensa o nome dela, e um dia telefonou-me e disse-me ‘Onde moras? Vou ter contigo a tua casa!’. Convidei-a para jantar e disse-me que já tinha uma música e letra prontas para mim. E é aquela pérola, "O Meu Calendário". "Histórias do Tempo", a outra letra dela para uma música do Ricardo Dias que fecha o disco, é quase um resumo final. Mas eu sabia perfeitamente quem queria convidar”.Até as hipotéticas falhas (“Ainda terei de falar com o Fausto, se calhar, estou a antecipar demais algumas coisas”, na futurologia de há dois anos) se confirmaram…

Mas porquê o tempo como eixo conceptual? “Apetecia-me falar sobre isso, sobre o que perdi e ganhei, sobre a forma como evoluímos no tempo, mesmo fisicamente. Para além disso, passaram onze anos e dez discos, fazia-me sentido – com mais dois discos de permeio em que me permiti explorar o reportório das pessoas por quem tenho mais admiração na música portuguesa, a Amália e o José Afonso – fazer uma passagem para os cantautores portugueses. No fundo, são eles quem ainda está a escrever. O desafio que lancei foi, então, que me escrevessem um fado sobre o tempo”. Um fado, exactamente um fado, ou uma canção – fado ou não-fado – sobre esse tema? “Um fado, pedi sempre um fado. Claro que a maioria deles não são fados. Alguns, o Zé Mário Branco, por exemplo, tiveram o cuidado de, já com a música feita, me terem ligado a dizer que não tinham composto um fado porque não era assim que me viam. O Ricardo que foi responsável pelos arranjos ficou muito aflito porque tínhamos combinado fazer um disco de fados… As pessoas não me vêem assim, ponto final. Apetecia-me que fossem fados e gosto de me ouvir a cantar fado. Se ouvires o primeiro tema com o poema do Manuel Alegre, um dos que são mais assumidamente fado, está com imensa garra, é assim que eu canto fado e apetecia-me fazer aquilo pelo disco fora. Não aconteceu, têm atmosferas muito diferentes. Simplesmente, aceitei. A princípio, também fiquei um bocadinho atarantada mas, no fundo, aquilo sou eu. Óptimo, gosto dele como está”.

Pausa nas questões identitárias (que, como mais à frente se verá, preocupam muito menos Cristina Branco do que aqueles que a escutam) para dar lugar à forma como o público – o que ainda compra discos e aquele que, na muito preenchida digressão deste ano, muito desproporcionadamente se distribui quase todo por Holanda, França e Alemanha e só residualmente por Portugal – se apropriará de Kronos: “É provável que o conceito global do álbum possa escapar a quem o ouve e que ele acabe por ser escutado canção a canção. De início, tive essa intenção mas, quando se pede doze poemas e doze músicas, não pode haver uniformidade. De resto, nunca concebo um disco a pensar no modo como ele será recebido. Não faria sentido, não seria eu. Estaria a cantar aquilo que os outros desejariam que eu cantasse. Nunca tive esse tipo de imposição, sempre tive liberdade para fazer os discos como bem entendesse. Tenho a grande felicidade de trabalhar não para Portugal mas para França e sinto que tenho outra liberdade. Nunca escolhem temas, nunca discutem títulos de álbuns, nada”.


Qual será, então, o espaço certo no grande puzzle da música portuguesa onde Cristina se encaixa e se sente confortável? “É um lugar muito volante, não há uma gaveta onde me coloque. Até os senhores da Fnac têm dificuldade… um dia, vamos a votação, dêem-lhe um nome que eu aceito. Que é que eu faço? É fado, tem guitarra portuguesa, defina-se como fado. Para mim, é, mesmo quando me dizem que não se trata de fado. Eu comecei a ouvir fado muito tardiamente, não venho daquele universo, e passei directamente para a música que era feita para mim e não fui explorar a história do fado. Aceito que os puristas digam que fados há três ou quatro e o resto são cantigas. Aceito que aquilo que faço sejam cantigas. Mas não me podem impedir que eu chame fado aquilo que faço. Porque eu entendo que a sonoridade da guitarra portuguesa nos transporta imediatamente para aquele género. Mas não perco grande tempo com isso e até agradecia que dessem um nome àquilo que faço para se pôr termo a essa discussão. É-me indiferente. Faço aquilo de que gosto. Que seja o que as pessoas quiserem. Mas, de facto, não me sinto fadista porque ser fadista é quase uma atitude de vida. Se falares com a Raquel Tavares, por exemplo, ela defende aquele território que é muito seu, muito próprio, quase como uma bandeira. Acho fantástico mas isso eu não sou. Apetece-me ter a liberdade de cantar o que me der na gana, não quero esse tipo de grilhão no pé. Sou uma eterna nómada. O que modifica mais o género será a minha forma de interpretá-lo? Eu não faço aqueles melismas que são comuns no fado, quase que só digo as palavras. Isto transformará, de alguma forma, os cânones do fado?”. Inclina-se sobre o gravador e, com a mão em gesto de quem, à socapa, confia um segredo, sussurra: “Mas é fado, para mim, é fado”.

(2009)

17 March 2009

IF THERE'S ONE THING
I DON'T BELIEVE IN,
IT'S YOU, DEAR GOD!


"O Papa Bento XVI declarou hoje que a distribuição de preservativos não é a resposta adequada para se ajudar a África a combater a sida. No avião que o leva de Roma para Yaoundé, nos Camarões, o chefe da Igreja Católica insistiu em que o problema da seropositividade 'não se pode resolver com a distribuição de preservativos', pois que, 'pelo contrário, isso só irá complicar a situação'. O Vaticano recomenda a abstinência sexual para se combater a propagação das infecções com HIV e foi essa mesma linha que Bento XVI agora reafirmou no início de uma viagem de uma semana aos Camarões e a Angola. ("Público")


XTC - "Dear God"

(2009)

16 March 2009

ACTUALLY IT WAS ALL VERY SWEET AND INNOCENT



E, algures pelo meio de uma extensa entrevista na qual Rhys Chatham é tudo menos minimalista no que a exaltar a sua genialidade diz respeito, de súbito, o âmbito da pergunta

You were witness to the NYC no-wave scene in the late 70s/early 80s; what were your impressions of what was happening then and its aftermath?

é admirável e surpreendentemente excedido pela resposta:

"Actually, Brian Eno had asked me to be on that No-Wave album he did, but I forgot about the recording session he had organized for the different groups over on Greene Street, so I didn't get to be on it, which was too bad, never mind. God, I had so much fun in NY during that period. There was this great club called Hurrah's that Jim Fouratt used to run. It was really slick and all the bands loved to play there 'cause Jim made sure everybody got paid decently; a nice, big, fat flat-fee rather than a crummy split-the-gate thing.


Gang Of Four no Hurrah's

One night there was this double bill with the Contortions and the Screamers that I particularly remember because I was helping out with the sound. James Chance was doing his usual thing of going out and beating up the audience, it was great. But the real highlight of the evening for me was meeting Mike Gira's ex-girlfriend, Anne-Marie. Mike was in Swans with an amazing drummer named Jonathan Kane (who I later ended up working with) and Anne-Marie was doing publicity for Jim Fouratt at the club. And she had just split up with Mike. It turned out that she was the same sign as me, Gemini, and that we knew all the same people: Lydia Lunch, Scott and Beth B., Vivian Dick, Pat Place, Arto, John Lurie, James Nares, Adele Bertei... the whole gang! Anne-Marie was from a small hamlet in France called St. Brieuc and was studying modern dance when she wasn't working for Jim. She had this wild, spiky blond hair that went all over the place, along with fine features over delicate bones. I really had a good time talking with her and gradually became sexually attracted as I was doing so, especially in retrospect. During the Contortions setup, we had many opportunities to speak together. As we were talking, I couldn't help but notice that she kept folding her arms over her breasts. At first I thought this was because they were cold (her breasts), but after she repeated the gesture a number of times over the course of the sound check I gradually began to suspect that it was because she wanted to hide them. Anne-Marie had large breasts for a dancer; I think they might have been a B cup, which isn't after all THAT big, but dancers are weird about that kind of thing, they think that breasts aren't aerodynamic, or some weird shit like that.



Hiding her breasts had the effect of making me want to covertly study Anne-Marie's body at every available opportunity, which I'm happy to report that I managed to do as the evening wore on. I was only hoping that I wasn't being too obvious about it. Her clothes, though torn in all the usual and correct places, were completely black making it difficult to see what she really looked like, so I had to use my imagination at first. Anyway, after the Contortion's set, Anne-Marie invited me to a private area at Hurrah's which was the nice, airy space they had on the third floor; it was quite comfortable. Sitting together on the couch over glasses of chilled vodka and certain other controlled substances, I told Anne-Marie what an amazing person I thought she was. I confided that I was sexually attracted to her and asked if I might rest my head for a time upon her breast as a kind of prelude to an evening of tenderness, passion and emotions. After a bit of circumspection and reflection, she decided to be kind to me, so I dived right in, I mean, it was the end of the seventies for god's sakes! I could have stayed there forever, kissing and engulfing her tender extremities with my trumpet player's lips. Naturally, after a while, I felt inspired to explore other parts of her body.



Accordingly, I removed her jeans and buried my face deep within the crevice of her buttocks, which was protected by a thin white cotton material. I kissed her fragrant orifice through the white cotton over and over again, invading it with my busy tongue through the fabric of her underwear. I wet-kissed all around her unmentionable entrance and gateway-to-heaven area, fondling repeatedly and using my tongue in order to push and explore, while at the same time gently cupping her breasts with my long, pianist's fingers. Eventually, I asked Anne-Marie if it would be all right if I removed her panties. After the consent, I allowed my tongue to dart lightly over the slightly darker skin of her back passage, gradually pressing deeper and deeper, inhaling a slightly musky scent as I did so. Finally, I couldn't control myself any longer, so after first turning Anne-Marie about, I whipped the pride of my manhood out of my jeans which by this time was rigid with aching desire and drove the old ramrod home again and again! Anne-Marie used her shapely dancer's thighs to grab me from behind in order to bring me closer still, milking every available drop of my manly essence deep within her. Thus spent, I tenderly caressed her face and I merged her lips with mine in a final loving embrace before we returned to our respective duties to help with the load-out of our musician friends. The early eighties on the no-wave scene in NY were really great, man. I mean, there was open sex happening in most the clubs, at least the better ones... Tier 3, the Mudd Club, in the back room at CBGB's, it's no wonder I forgot all about Brian's fucking recording session! Not that we were into sex all THAT much, it's just that it was there and available. This was during the pre-AIDS period... you know? Actually, it was all very sweet and innocent, when you think about it".

(2009)
RAISE YOUR SPIRIT, LEVEL YOUR SOCIETY!



Inequality is bad for us. That's the message of The Spirit Level: Why more equal societies almost always do better, a new book by Richard Wilkinson and Kate Pickett, two epidemiologists from northern English universities (Nottingham and York). This is a book which draws political conclusions from scientific observations, and as such it's full of fascinatingly counter-intuitive insights, such as the idea that inequality makes the lives of the rich worse as well as the lives of the poor. The authors take up and run with Oliver James's point that capitalism makes you mentally sick, saying that it's not just the poor who suffer from the effects of inequality, but the whole population; mental illness is five times higher across the whole population of the most unequal societies than it is in the most equal ones. It's not being poor per se that sucks, it's living amongst people with very different life outcomes. Mental illness and obesity, drug addiction and violence, teenage pregnancy and the weakening of community life - all increase in more unequal societies.



The most equal societies studied in the book turn out to be Scandinavia and Japan. The least equal - pyramided by thirty years of Thatcherite and Reaganomic "incentivization" - are Britain, the USA and Portugal. As Lynsey Hanley points out in her review of The Spirit Level, there is now a 30-year male life expectancy gap between central Glasgow and parts of southern England. (post completo aqui)

(2009)
SEGUINDO AS PISTAS (II)

Sidney Nolan (gallery)


Bathers



Untitled - Horned Figure, 1956



Blue Kelly At Midnight, 1956



Untitled - Carcass, 1955



Kelly, 1959

(2009)