15 October 2008

AMÉLIA MUGE - UM TERREIRO DE PASSOS: 202 CANÇÕES
CCB, Lisboa, 7 de Dezembro



“Talvez por necessidade, talvez por resposta aos que me seguem, quando acabo um trabalho já estão na forja muitos outros. Se a criação fosse uma espécie de floresta-estufa diria que quando já existem plantas prontas a sair, há outras que ainda são apenas semente, outras já no viveiro, outras ainda simplesmente a precisar de tempo p’ra crescer.
Quando o António Cunha da UGURU me propôs, de certo modo, a entrada do agente sanitário, do comprador de plantas, do expert em inventários, isto é uma revisão da matéria produzida até aí, saí da estufa, esqueci a floresta e fui ao escritório, ao livro de registos, consciencializei as compras, os gostos gerais, os mais particulares, os únicos.
É tempo, sobretudo, de recolecção em prados conhecidos. De pegar em cada canção, olhá-la como se olha uma planta, ponderar o que é fruta, flor, cacto ou arbusto, escolher as mais resistentes, as que melhor se darão no mercado da praça, as mais vistosas, eventualmente as que, com formas estranhas, possam chamar a atenção porque definitivamente, mais ninguém tem iguais para vender.
É tempo de recolecção. De pôr as canções todas 'numa carreirinha, para ver até onde eu cheguei', como dizia a Rosa Ramalho a propósito das suas peças de cerâmica. Não serei seguramente só eu a fazer a escolha. Lembrarei, é claro, as que são mais fáceis de transportar, as que têm mais perfume, as que são mais resistentes, as que ficam de certeza, muito melhor na janela do vizinho do que na minha.” (AM)

(2008)
"ESTA DEMOCRACIA PORTUGUESA
VAI FICAR REDUZIDA A CACOS!"


Medina Carreira c/ Mário Crespo na SIC-N (14.10.08)









(2008)
LONELY DRIFTER KAREN - "PASSENGERS OF THE NIGHT"


Plaça De Las Camarelles, Barcelona

(2008)

14 October 2008

KRAUT-ENCICLOPÉDIA



Vários - Kraftwerk And The Electronic Revolution (DVD)

“Uma das coisas de que estávamos absolutamente conscientes era de que não tínhamos crescido no delta do Mississipi nem em Liverpool. A nossa geração tinha o dever de criar um contraponto a isso”, afirma Karl Bartos (Kraftwerk), logo na abertura desta enciclopédica maratona de três horas que inventaria, recolhe depoimentos, e cita audiovisualmente todos os imprescindíveis marcos do que ficou genericamente conhecido como “krautrock”.


"Kraftwerk, schizophrenic technologies" - doc. de Lionel Bennes no Youtube

Verdadeiro curso intensivo de iniciação, toma os Kraftwerk como eixo de agregação da narrativa histórico-musical mas, simultaneamente, refere antecedentes (Stockhausen, Schaeffer, Pierre Henry, a banda sonora de Forbidden Planet), enumera protagonistas (Can, Neu!, Cluster, Amon Düül, Tangerine Dream, Popol Vuh, Faust, Ash Ra Tempel, Conny Plank), anota interferências e descendência (Eno, Bowie, Cabaret Voltaire, Suicide, Giorgio Moroder, o “disco”), viaja do Zodiac Arts Lab de Berlim para Colónia e Dusseldorf, e concretiza a dupla proeza de despertar o apetite de quem ignora tudo sobre o tema e de, para os outros, apelar à reescuta integral da discografia desta prodigiosa aventura dos anos 60/70 alemães.

(2008)

13 October 2008

SHE & HIM - "YOU REALLY GOT A HOLD ON ME"



(2008)
CUMPRIR ORDENS
(extracto da entrevista da professora
Maria do Carmo Vieira à revista do "DN")




"Contagiados pela febre de catalogar e incapazes de pensar pela sua própria cabeça, têm-me descrito, uns, como 'lamentavelmente fascista', outros, como 'sonsa comunista', outros ainda, como estando 'a soldo do PSD para destruir o governo socialista', e há também quem me descreva como 'agitadora catastrofista', ignorando, sobretudo, estes últimos, que são eles próprios os agitadores ao pretender limitar a liberdade de pensamento e de expressão, que em boa-hora o 25 de Abril nos trouxe. Esquecem ainda que 'as ideias têm asas e ninguém as pode impedir de voar', recuperando as palavras do realizador egípcio, recentemente falecido, Youssef Chahine, no seu inesquecível filme O Destino.

Por conhecimento de causa, continuarei a afirmar que o nivelamento por baixo, que oficialmente se instituiu no ensino (lembremo-nos das palavras recentes do Dr. Jorge Pedreira a propósito do ensino em Portugal ser demasiado exigente), faz com que os alunos deixem de acreditar nas suas próprias capacidades, perdendo a vontade e a perseverança, que acompanham habitualmente o desenvolvimento de todo o estudo. É uma forma deselegante, no mínimo, mas também muito elitista, de dizer antecipadamente aos alunos, sobretudo aos da Escola Pública, que são uns incapazes. Com perversa doçura, qual droga que vai corroendo, entrega-se como oferta aos alunos 'o êxito a que têm direito' (palavras do coordenador do GAVE) que assim se viciam na crença de que tudo se consegue sem trabalho. E, no entanto, inteligentemente reflectiu Albert Einstein: 'O único sítio onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário'.

Inebriados pelo facilitismo e estimulados pelo passa palavra de 'em pouco tempo faz-se...' (e completamos a frase, o 2º ou 3º ciclos e o secundário) correm também muitos daqueles que, por motivos vários, interromperam, ou tiveram de interromper, os seus estudos, a inscrever-se nos cursos das novas oportunidades, não compreendendo, muitos, ou sequer admitindo, que os objectivos delineados assentam não na preocupação de formar, mas de atingir metas estatísticas.

É por ter conhecimento de como se processa este ensino 'pronto a vestir', desenhado na base de um suposto 'quadro de competências', que põe de lado a noção de programa, transformando-o em pózinhos de saber disto e daquilo (as tais aprendizagens ou saberes) e que rejeita o diploma, agora tornado certificado ('validação das aprendizagens'), de coisa nenhuma, que desejo transcrever as directivas comunitárias, as quais calarão quem tem vindo a insultar e a desmentir os que criticamente têm escrito sobre o assunto. (...) Lendo-os, compreendemos o manifesto desprezo pelas disciplinas de Humanidades, o aligeiramento da matéria científica, o facto de a Escola servir quase exclusivamente para responder ao mercado de trabalho, o porquê da conhecida e divulgadíssima expressão 'aprender a aprender', a defesa exaustiva da autonomia das escolas, ou ainda o espírito que rege a avaliação de desempenho dos professores, centrado nos bons resultados com os seus alunos, mediante o cumprimento acrítico das ordens impostas, num convite descarado à desresponsabilização do acto de ensinar. (...)

Não virão agora certamente desmentir a existência de um sistema perverso, cozinhado pela Comissão Europeia, que finge formar e educar, num manifesto desrespeito pelo papel da Escola e do professor, pela dignidade dos alunos, seja qual for a sua idade, e do próprio Saber. Cumprem-se ordens. Uma atitude que exige a abdicação de pensar e a anulação da nossa própria consciência e que tem servido de justificação ao longo da História para as maiores aberrações.

Por acaso já leram Desobediência Civil do escritor Henri Thoreau?" (o resto aqui)

(2008)
BOB, FRANK & AL
(prosseguindo daqui)



"In the weeks before recording [Oh Mercy], I kept asking Dan Lanois, 'Have you heard from Bob? Have you heard any songs?' Then, a week before we were due to start, we received a cassette from Bob. I thought, 'Great, we're going to hear some songs'. There was this little note: 'This 'll give you a good idea'. Dan and Mark Howard and I sat down to listen - and this Al Jolson music started. We were like 'What the fuck?'. So we fast-forwarded it. It was a whole tape of Al Jolson. We looked back at Bob's note: 'Listen to it. You can learn a lot'. When Bob arrived, though, I'd sort of forgotten this. Then, one evening, something came up about his favourite singers, who were influences, especially when it comes to phrasing. Bob said several times that phrasing was everything. And he said: 'My two favourite singers are Frank Sinatra and Al Jolson'. And I thought, wow, now I get it. I asked who his favourite songwriters were. 'Gordon Lightfoot and Kris Kristofferson. Those are the guys'. (Malcolm Burns, engenheiro de som, na "Uncut" de Novembro, 2008)

(2008)
LONELY DRIFTER KAREN
(Tanja Frinta, num mercado, em Paris)


(peço desculpa, em nome da jornalista francesa,
pela inanidade das perguntas)


(2008)
POP, POPULISM, UNPOP AND APOPTOSIS
(conferência de Momus, amanhã, pelas 6pm,
na Architectural Association de Londres)




The Ideology Of The "Iconic"

Blurb: "'Love her or loathe her'" says Kirsty Wark of Madonna, 'you cannot underestimate the impact she has had on music, or her iconic status.'
The word 'iconic' might be the best way into a discussion of where postmodernism's collapse of high and low has led us: to a situation in which opting out of mass market phenomena simply isn't considered to be an option. The 'iconic' as an ideology means that, regardless of taste, we all have to pay attention to -- and analyse, preferably in a sub-Barthesian manner infused with terms like 'guilty pleasures' and 'getting my fix' – a new canon in which commercial status and cultural status are one and the same thing. As a result, even in the academy quantitative terms have swamped qualitative ones, and criticism – co-opted and confounded by the comforting repetitions of celebrity culture and PR – is in crisis. As we approach the end of this postmodern tyranny, Momus signals what he calls Unpop as one possible exit strategy."



Since that blurb was written, though, I've refocussed the talk a bit after reading something Julian Gough wrote about David Foster Wallace (and this also relates to the debate we were having on Whimsy's blog about Nobel Prize judge Horace Engdahl saying American writers were "too sensitive to trends in their own culture" to participate in "the big dialogue of literature").

Anyway, Julian Gough's comment makes it sound as if too much referencing and too much condemning of popular culture are two sides of the same coin:

"In the absence of suffering, in the absence of a subject, American literary novelists again and again waste their power attacking America’s debased, overwhelming, industrial pop-culture. They attack it with the energy appropriate to attacking fascism, or communism, or death. But that pop culture (bad TV, bad movies, ads, bad pop songs) is a snivelling, ingratiating whimpering billion dollar cur. It has to be chosen in order to be consumed: so it flashes its tits and laughs at your jokes and replays your prejudices and smiles smiles smiles. It isn’t worthy of satire, because it cannot use force to oppress. If it has an off-button, it is not oppression. Attacking it is unworthy, empty, meaningless. It is like beating up prostitutes."

Pop might be worth attacking if its populism, for instance, shifted over into the political realm (as it certainly has done in the past, although I think this current political season is likely to be more influenced by pain than pleasure). But Gough's point stands, and as a result I think I'm going to talk more about "unpop" than pop, more about the things I approve of than the things I don't.



I also want to work in apoptosis, the technical word for programmed cell death in multicellular organisms. Unlike necrosis (traumatic cell damage), apoptosis is generally a healthy and benign thing: it shapes the healthy body. So I'll want to argue that one way out of the boring postmodernist obsession with pop culture would be a sort of cultural apoptosis: a weeding-out, from our organisms, of unneccessary pop-cultural forms.

(2008)

12 October 2008

(mas ainda...)
GOD HATES IT WHEN SARAH PALIN WINKS



"Don't you just hate it when Sarah Palin winks? Me too.

And so does the God of the Bible.
(Every time Sarah Palin winks, God kills a kitten. -- Lola-Cola)

Here's what the Bible says about it:

'A naughty person, a wicked man [or woman], walketh with a froward mouth. He winketh with his eyes ... he deviseth mischief continually; he soweth discord. Therefore shall his calamity come suddenly; suddenly shall he be broken without remedy.' (Proverbs 6:12-15)
'He [or she] that winketh with the eye causeth sorrow: but a prating fool shall fall.' (Proverbs 10:10)


Is that a prophecy? You Betcha! Sarah Palin is a winking fool that causes sorrow and discord wherever she goes." (aqui)

(2008)
CONCLUINDO A MARATONA
DE LEITURA BÍBLICA...




... com a denúncia pública de um covil de inimigos jurados da Palavra do Senhor a que todos os verdadeiros crentes deverão saber responder à letra.

Amen.

(2008)
ELE É TANTOS OUTROS



Bob Dylan - Tell Tale Signs: Bootleg Series Vol 8

O conceito das Bootleg Series, de Bob Dylan – iniciado em 1991 com os preciosíssimos Vol 1-3 – data de um tempo em que a indústria discográfica ainda imaginava ser possível derrotar os corsários do “bootlegging” no seu próprio terreno. Por outras palavras, tinha aprendido a lição das Basement Tapes, que, durante anos, haviam circulado clandestinamente até que, por fim, a edição oficial fizesse o enorme favor de ser publicada. Embora a conta-gotas, todo o espólio oculto de His Bobness iria sair dos arquivos, não existindo mais razões para que meliantes actuando na sombra delinquente da ilegalidade pudessem prosseguir a sua pérfida acção. Hoje, sabemo-lo bem, não só o mundo, tal como o conhecemos, está em vertiginosa extinção mas também a indústria discográfica se encontra no mesmo estado dos cadáveres que, embora clinicamente mortos, porque unhas e cabelo continuam a crescer, aparentam estar vivos.



Só isso poderá explicar que (num momento em que a cotação de Dylan é mais elevada do que em qualquer outra altura posterior à década de 60), ao mesmo tempo que, semanas antes da publicação de Tell Tale Signs pela Sony/BMG, o álbum já se encontrava disponível nos “dealers” habituais da Net, a editora anuncie a colocação no mercado de uma versão tripla “de luxo” a preço próximo dos 150 €. Será ou não um caso de “world gone wrong” mas, no que à obra de Dylan diz respeito, pagando na caixa registadora ou vendo-o cair no colo, gratuitamente, via “download”, só lhe podemos ficar gratos. Reunindo “rare and unreleased material” do período entre Oh Mercy (1989) e Modern Times (2006), deparamos com um verdadeiro cofre de jóias acumuladas a partir daquele momento em que, como descreve nas suas Chronicles (“Inúmeras vezes, quando me abeirava do palco, antes de um concerto, parava e pensava que não estava a cumprir a palavra que, a mim mesmo, havia dado. Qual era essa palavra, não me conseguia recordar precisamente, mas sabia que, algures, havia uma. (...) Uma pessoa estava desaparecida dentro de mim e eu necessitava de a encontrar. (...) Era um trovador dos anos 60, uma relíquia do folk-rock, um artesão da palavra de tempos idos, um chefe de estado fictício de um lugar que ninguém conhece. Estava no poço sem fundo do esquecimento cultural”), se apercebeu de que se tinha tornado numa sombra de si mesmo e decidiu, uma vez mais, reinventar-se.



Se todos os álbuns, daí em diante, cumpriram integralmente a promessa, as diversas “outtakes”, inéditos (só a gigantesca "Red River Shore" justificaria a totalidade do álbum se fosse - não é - necessário) e releituras de temas das duas últimas décadas revelam inúmeras outras facetas, abordagens e pontos de vista que, num assombroso sumário da obra destes anos debruçada sobre "this vision of death called life", obrigariam Todd Haynes, a construir-lhe mais meia dúzia de personalidades paralelas para uma "sequel" de I’m Not There.

(2008)

11 October 2008

10 October 2008

PARA FORA
(retomando daqui)



Sainkho - Out Of Tuva

Dizemos o quê quando falamos de world music, rock, jazz, folk, pop ou música contemporânea? A verdade nua e crua é que, hoje, para o que, de facto, importa, não falamos literalmente de nada. Pelo menos, não falamos de nada realmente substancial que seja capaz de resistir a uma análise metódica. Não terá sido sempre assim: houve um tempo em que não só cada uma dessas categorias como as suas diversas associações (jazz/rock, folk/rock, jazz/folk...) ainda faziam plenamente sentido. Mas cada vez mais se torna insustentável persistir nos velhos hábitos de arrumação musical. Sem pretender ser insanamente radical, é claro que, mesmo agora, não será sempre tão nítida essa pulverização dos antigos conceitos. No entanto, é mais do que evidente a persistente acumulação de discos que não oferecem outra alternativa que arremessar todos os velhos vícios mentais às urtigas e nos convidam a encarar a música como um único fenómeno, com naturais facetas e particularidades mas que são inclassificáveis em qualquer das gavetas estéticas que a preguiça intelectual tão eficazmente forrou.



Out Of Tuva, o disco da sul-siberiana Sainkho Namtchylak, não podia ser mais eloquente na exibição da plasticidade de uma música que, originária da república de Tuva, aceitou sem perdas todas as filtrações e reformulações que os tormentos estético-políticos da sua autora foram determinando, entre os anos de 1986 e 1983, período que documenta. Propondo, na origem, uma interpenetração de elementos tradicionais (inspirados no folclore religioso e xamânico local, politicamente incorrecto para as autoridades soviéticas da altura) com um vocabulário musical contemporâneo, todo o disco reproduz esse percurso de avanços e recuos, até à actualidade.



Passa pelas diversas etapas, da música popular às presentes colaborações com Hector Zazou, com capítulos intervalares nas gravações com orquestra ou com o colectivo experimental de Moscovo, Tri-O, em qualquer dos casos demonstrando a exuberante energia de uma música de matriz vocal que nunca se sabe quando é mais vibrantemente expressiva: se nas explorações atmosféricas que o contacto mais recente com o universo da Crammed Records lhe proporcionou (Zazou e os produtores Vincent Kenis e Gilles Martin), se no contágio de voz e instrumentos à beira do ruído hipnótico com os Tri-O, se no folclorismo - alucinantemente puro ou sofisticado na componente orquestral - que as primeiras gravações oferecem. Qualquer deles, porém, aproxima os movimentos vocais de Sainkho de outros que ouvimos a Meredith Monk ou Diamanda Galás e faz pensar numa certa continuidade oculta entre a memória de todas as tradições e o horizonte futuro para que outras pós-vanguardas apontam. Out Of Tuva é para ser lido à letra: para fora, em direcção ao resto do mundo, aberto a todos os cruzamentos imagináveis.

(1993)