21 October 2009

NOVAS AVENTURAS DA TARTARUGA DE LANZAROTE



Há uma criatura, supostamente ESCRITOR, que afirma:

"Quem é que vai ler um livro daquele tamanho, assim por dedicação? Só por obrigação, e, mesmo assim, é natural que vá passando umas quantas páginas..."

(primeiro: o "livro daquele tamanho" - a Bíblia - são 73 livros de tamanho muito mais maneirinho; segundo: não é por nada mas, a um escritor, ouvir dizer que "só se lê um livro daquele tamanho por obrigação", quer dizer... fica mal)

"A questão de Caim sempre achei aquilo um pouco estranho. Porque deus aceita o sacrifício de Abel e rejeita o sacrifício de Caim? Porquê? Dêem as voltas que derem, não há teólogo nenhum que explique isto. Deus, supostamente, criou a humanidade naquele pequeno embrião que é a família - Adão, Eva e os três filhos - (...) Caim era lavrador. Abel criava gado. Abel ofereceu a deus a gordura do cordeiro e Caim não tinha mais nada para oferecer senão o fruto do trabalho, umas espigas... (...) Deus ficou muito satisfeito com Abel e o sacrifício de Caim rejeitou-o. (...)"

(porquê?... assim, à letra mesmo, não é nada de transcendente que não apareça todos os dias nas telenovelas; usando um ou dois neurónios, parece que poderá ser uma referência simbólica aos conflitos entre pastores nómadas e agricultores sedentarizados; mas, se quisesses ser mesmo literal, havia aí (como, aliás, aqui) bife do lombo mais saboroso: então, Adão, Eva, os três putos... como é que a espécie humana continuou a reproduzir-se sem badalhoquice incestuosa?)

"Deus é vingativo, rancoroso, má pessoa, não é de fiar"

(portanto: não só é mau, vingativo, rancoroso e de pouca confiança, como é... pessoa! Logo, existe - com ateus destes vou ali e já venho)

"O Livro de Job começa com uma reunião no céu onde está deus com os seus anjos, arcanjos, tronos e, e, e... tudo isso (querias dizer "dominações", não era?) e, estranhamente, está também Satã. Satã é o anjo mau, o anjo rebelde. Porque é que ele está ali? Não nos dizem porque ele está ali"

(pá... como explicar-te?... é que, mesmo no parlamento celestial... há oposição!)

Não mudando de assunto, já isto é muito bom:


Bruce Springsteen - "Adam Raised A Cain"

(2009)
A TARTARUGA DE LANZAROTE



"Se, de aqui a 100 anos, se fizer o levantamento da construção da Língua - isso é uma das tarefas do ESCRITOR - devida a Saramago, a resposta é ZERO. Não há uma única ideia, uma frase memorável, um aforismo que possamos contar aos vindouros. Aquilo é mau, mal escrito, e serve, como máquina de fabricar chouriços, só para enriquecer uma editora e o próprio. A esta hora, o Bom Comunista, se ao menos isso ele ainda tivesse em si, já devia ter transformado os lucros fenomenais numa Fundação de diminuição das Assimetrias Sociais, mas a tartaruga analfabeta prefere refugiar-se em Lanzarote, a fazer o papel da alma incompreendida e exilada". (post integral aqui, por oferta da N)

Nota: 1) assino por baixo, aí a 80% (não, as mariquices hippies do Novo Testamento continuam a não me comover); 2) de Saramago, cheguei à página 60 e tal do Evangelho Segundo Jesus Cristo e desisti: não - obviamente - em solidariedade com a Vaticano S.A. mas por a indigência da escrita ser ofensiva; tentei, ainda, um outro de que nem me recordo o nome e idem; gente que prezo garante-me que O Ano da Morte de Ricardo Reis é assaz legível... pode ser que, um dia...

(2009)
AINDA OUTRA VERSÃO ALTERNATIVA DO GÉNESIS



Segundo José Saramago, "bem exemplificativa da degradação de costumes a que irremediavelmente conduz a moral reaccionária e decadente da burguesia exploradora".

(2009)
CHRISTINA COURTIN - "BUNDAH"



(2009)

20 October 2009

DIGAM LÁ SE A DOUTRINA DA VATICANO S.A.
NÃO CONSEGUE, ÀS VEZES, TER ATÉ PIADA?




"Com efeito, o homem inteligente e livre, foi constituído em sociedade por Deus Criador; mas é sobretudo chamado a unir-se, como filho, a Deus e a participar na sua felicidade. Ensina, além disso, a Igreja que a importância das tarefas terrenas não é diminuída pela esperança escatológica, mas que esta antes reforça com novos motivos a sua execução". (Concílio Vaticano II - As raízes do ateísmo e a resposta da Igreja)

É favor ler o texto na primeira acepção de "escatologia". Como diria Rabelais: "Oh quão maravilhosa matéria fecal!"

(2009)
LETRA "B"



Big Star - #1 Record + Radio City

Há certas afirmações que muito dificilmente poderão ser proferidas sem provocar, instantaneamente, reacções emocionadamente incandescentes. Por exemplo, esta: os Big Star (confessadamente) aprenderam tudo com os Beatles e, rapidamente, ultrapassaram os mestres. Acrescentem-lhe outra: aos Beatles, agrafaram os Byrds e Beach Boys (hipótese para tese de mestrado em musicologia pop: a importância da letra “B” na passagem da década de 60 para a de 70 e seguintes) e, em três álbuns – ainda que poucos os tenham escutado –, definiram, por muitos anos, o "state of the art" em matéria de música popular anglo-americana numa dimensão que, só, talvez, os Velvet Underground terão ultrapassado.



Mesmo tanto tempo depois, é uma declaração de guerra, claro. Tentemos enterrar os machados e escutemos, em modo remasterizado-para-salvar-o-que-resta-da-indústria, Record #1 (1972) e Radio City (1974). Onde existiu, em qualquer outro lado, antes e depois, tal concisão melódica, de mãos dadas com idêntico requinte harmónico vocal, superior bordado de guitarras eléctricas e simultâneo "punch" rock? Peter Buck, dos R.E.M, (é só um exemplo) responde por nós: em lado nenhum. Mais em filigrana, um, mais musculado, o outro (Third/Sisters Lovers, 1978, abria para outros obscuros lugares), Chris Bell e Alex Chilton inventavam um fértil futuro. Como deve dizer-se, vénia.

(2009)

19 October 2009

O MITO DA QUEDA SEGUNDO A DONA GERTRUDES
(aliás, José Saramago)



Adão e Eva - Lucas Cranach, 1526

Tal como a pré-publicação de Caim pelo "El País" o revela: Dona Gertrudes repete, palavra por palavra, o que lhe ensinaram na catequese - com inclusão da imaginária "maçã" nunca referida na Bíblia e só muitos séculos mais tarde inventada pela arte religiosa europeia -, perdendo, assim, uma óptima oportunidade (Dona Gertrudes vê-se como intelectual, uma "intelectual do povo" mas intelectual) de se atirar a um dos mais intrigantes nacos do Génesis. Aquele em que Jeová proíbe que Adão e Eva comam, não de nenhuma "maçã", mas do "fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal". Isto é, a permanência no Jardim do Paraíso pressupõe o desconhecimento do Bem e do Mal, isto é da MORAL. Dona Gertrudes é uma exegeta literalista mas certas saborosas surpresas que uma leitura literal pode proporcionar escapam-lhe. Ou então, repugna-lhe a ideia que a felicidade possa ser um estado de amoralidade e prefere-lhe a versão-BD-para-o-povo-com-maçã-e-tudo que sempre é mais fácil de descascar.

(2009)
CAIM - O MUSICAL
(a partir de uma ideia original
de José Saramago)




(2009)
DEFESA (PRATICAMENTE) ATEIA DA BÍBLIA



Não tendo especial admiração pela personagem, não me tendo rendido nem um bocadinho ao pouco que dela li (e que não me despertou vontade de voltar a tentar), e nada próximo das suas afinidades políticas - passadas e presentes -, reconheço que, à primeira vista, sabe bem ouvir dizer, publicamente, coisas como:

"A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana"

"A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável"

"O Corão, que foi escrito só em 30 anos, é a mesma coisa. Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos!"

"Mas há coisas muito mais idiotas, por exemplo: antes, na criação do Universo, Deus não fez nada. Depois, decidiu criar o Universo, não se sabe porquê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias. Descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?"

"Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus" (aqui)

Só que, logo depois, não é difícil compreender como essas opiniões nascem exactamente da mesma pobre incubadora cultural e "literária" que gera os "crentes": "righteousness" moral, absoluta falta de sentido de humor, entendimento "de porteira" dos textos bíblicos (e respectivo comentário à mesma altura), indignação simétrica da erudição de catequista.

José Saramago, permita que eu, agnóstico de longo curso, a um milímetro do ateísmo militante, lhe diga: a Bíblia (ou melhor, o Antigo Testamento - esqueçamos as mariquices hippies do Novo) é uma fabulosa colecção de livros recheada de trepidante acção, violência "gore", "nonsense" transbordante, óptima pornografia, alguma bela poesia e "sci-fi" visionária. Sempre que posso, estou agarrado a ela. Já agora, a "sequela", conhecida como Livro de Mormon (aqui e, mais genericamente, aqui), para além de ser um genial "fake", também não é nada de se deitar fora.

(2009)

18 October 2009

STREET ART, GRAFFITI & ETC (XXXV)

Lisboa, Portugal, 2009









(2009)
JUILLIARD POP



Christina Courtin - Christina Courtin

Imaginem o que poderia ser, em termos actuais, uma superbanda: o guitarrista Marc Ribot (Tom Waits e inúmeras outras notabilidades de downtown-New York), Greg Cohen (baixista e acordeonista de currículo semelhante com Laurie Anderson pelo meio, aqui, também, enquanto co-produtor), o teclista Benmont Tench (ele, fidelíssimo dos Heartbreakers, de Tom Petty, mas também regular de Johnny Cash, U2, Sam Phillips, Bob Dylan, Roy Orbison, Rolling Stones, Elvis Costello e Fiona Apple), o baterista Jim Keltner (não há espaço para incluir metade dos ilustres), o multi-instrumentalista, produtor e "film-musician", Jon Brion (Aimee Mann, a bela Fionna, Brad Mehldau e filmes de P.T. Anderson e Michel Gondry na carteira) e ainda outras notabilidades injustamente avulsas.



Estão todos no álbum de estreia de Christina Courtin, recém-licenciada da Juilliard em violino e – como Joan Wasser, Shara Worden ou Regina Spektor, outras tantas "meninas de conservatório" – óptima e erudita "songwriter" (algures entre o melhor de Kristin Hersh, Joni Mitchell e Spektor), capaz de escrever “I thought I was a person too, turns out I’m a monster just like you” e de, por só, episodicamente, aqui, pegar no violino, desafiar a velha escola com a frase (no seu site) “Take that, Juilliard!”.

(2009)

16 October 2009

A ULTRA, HIPER, MEGA-COMPLEXA COISA POLÍTICA LUSA,
TÃO, TÃO, TÃO, QUE SÓ MALTA COM PÓS-DOUTORAMENTOS
EM "CIÊNCIA" POLÍTICA PODERÁ SER CAPAZ DE PERSCRUTAR




HIPÓTESE A - Sócrates/PS/Governo e/ou a "oposição" entram a "partir tudo": casamentos gay vs. avaliação de professores; TGV/aeroporto vs. PMEs e "apoio social", etc...;

Objectivos: demissão do governo/dissolução do parlamento, "por não haver condições de governabilidade" (parece que, agora, se diz "governança", embora isso seja mais urbano/municipal, ainda que identicamente parolo);

Condicionantes: Sócrates/PS/Governo supõem que, assim, podem voltar ao paraíso (maioria absoluta); PSD renasceu das calcinadas cinzas e supõe que, assim, pode voltar ao paraíso (maioria absoluta); BE/PP/PCP hesitam na dimensão das migalhas que lhes caberão do banquete mas acabam (todos ou só os suficientes) por alinhar;

Imponderáveis: Aníbal, o norte-africano, voltou a tomar as gotas, não larga a caixa de emails e decide que se está nas tintas para não ser reeleito (ou, "com enorme sentido de Estado", exclui a hipótese de reeleição se tudo correr muito mal); Aníbal, o norte-africano, voltou a tomar as gotas, não larga a caixa de emails e quer ser reeleito porque, supostamente, o PSD renasceu das calcinadas cinzas; Aníbal, o norte-africano, esqueceu-se da gaveta onde guardou o frasco das gotas, pergunta "o que são emails?" e nomeia um Governo de Unidade Nacional até 25 de Abril de 2074; Medina Carreira é avisado do risco sério de ser morto, a tiro, no Terreiro do Paço, restaurando-se a monarquia;

Momento possível: aquela (tantos anos até, finalmente, conseguir escrever isto!...) "janela de oportunidade" - quando o Aníbal, o norte-africano, ainda manda -, algures entre Março/Abril e Setembro de 2010, Odisseia nos Paços;

Consequências: Sócrates ganha eleições com maioria absoluta (ou relativa: volta tudo à casa de partida e Zeus nos valha); PSD ganha eleições com maioria absoluta (ou relativa: volta tudo à casa de partida e Zeus nos valha); Zeus nos valha em 25 de Abril de 2074; simplificando, e, em geral, Zeus nos valha.



HIPÓTESE B - ceninha perversamente light: todos vigiam todos, eu voto isto (e denuncio-te porque não votaste) e tu votas aquilo (e denuncias-me porque não votei); fazemos todos xixi nos cantinhos da casa para dizer "aqui mando eu" - dava jeito que a casa tivesse (mas, desgraçadamente, não tem) mais do que quatro cantinhos; o PS fica com os Armani coçados mas respira o suficiente para garantir a vidinha a mais umas dúzias de láparos; a "janela de oportunidade" (duas seguidas!... nem acredito) passa de fininho e o próximo PR (seja quem for) que se amanhe;

Objectivos: (assobiando para o ar, "quem, eu?"); Aníbal, o norte-africano, se os químicos do frasco apontarem para aí, reeleito e a reforçar a medicação (se não apontarem, será o que Zeus quiser); "business as usual"; muitos novos dias de imensos loureiros;

Condicionantes: as dúzias suficientes de láparos com a vidinha garantida; as gotas; a caixa de emails; as migalhas convenientes para "as margens do sistema";

Imponderáveis: as gotas; a caixa de emails; "a crise"; Obama assassinado por braço armado radical do KKK que o Partido Republicano, imediatamente, repudia; Portugal falha o play-off para o Mundial da África do Sul; Osama Bin Laden ressuscita ao 3º dia;

Momento possível: from here to eternity;

Consequências: simplificando, e, em geral, Zeus nos valha (o Medina, antes de ser baleado no Terreiro do Paço, diz que é entre 2015 e 2020 que a coisa dá o berro).

(nada disto, realmente, importa muito: é só um esboço de manifesto para exigir a justíssima equiparação de habilitações do Professor Karamba às dos "politólogos" da excelsa academia)

(2009)
E VÃO MAIS CINCO PARA O KEEPVID...















(2009)

15 October 2009

O PENSAMENTO FILOSÓFICO PORTUGUÊS (XXVIII)

Jorge Coelho


Quando Jorge Coelho, eminente empreiteiro, optimista antropológico e Tarzan da crítica musical, coloca Amália Rodrigues no seu devido lugar e, de caminho, aproveita para reduzir o que escrevi à merecida insignificância, só resta meter o rabo entre as pernas e reconhecer que, perante um mestre (de obras), há que guardar o mais respeitoso silêncio.

"Eu vi um espectáculo fabuloso, há quatro ou cinco dias, da Amália Hoje: pegaram em canções que são tristes, canções que têm o destino traçado, e transformaram-nas em música pop, alegre, virada para o futuro. Eu acho que também temos que acreditar que é possível ter um futuro melhor". (Jorge Coelho, aqui, no "Gato Fedorento")

(2009)
FAKE TARZANS
(remake daqui)


Dişi Tarzan (real. Kayahan Arikan, Turquia, 1971)


Tarzan Korkusuz Adam (real. Kunt Tulgar, Turquia, 1974)



(2009)