Por isso, se existe alguma verdade no que, a 3 de Agosto, em “Making Punk A Threat Again”, Spencer Ackerman escrevia no “Foreign Policy” – “As Pussy Riot são - e tomando de empréstimo, por um segundo, o lema dos Clash - a única banda que realmente interessa” – vendo nelas o derradeiro elo de vencedoras, pelo martírio, numa longa linhagem de heróis punk parcos de vitórias reais, será mais exacto encará-las como brigada de teatro de guerrilha urbana mais afim das tácticas Situacionistas do que do, ainda assim, convencional, modus operandi punk: não existem discos físicos das Pussy Riot que possam ser comprados ou descarregados da net. O que há são momentos – sobre um andaime erguido nos corredores do metro de Moscovo, na rua, em equilíbrio sobre o tejadilho de um autocarro, na Praça Vermelha –, primária e entusiasticamente coreografados, gritados num idioma incompreensível para todos os não-russos por um número variável de personagens femininas coloridas de rosto oculto, registados e lançados para o mundo-www, sem necessidade de intermediária "indie" ou "major". E capazes de, apesar de todos os obstáculos, fazer passar, instantaneamente, o recado. Ou de, no dia do julgamento, oferecer aos surpreendidos moscovitas a descoberta das estátuas da capital russa com as cabeças cobertas pelos icónicos passa-montanhas multicores. Porque se, afinal, o punk pode ser, de novo, ameaçador, é por aqui que deverá ser procurado e não – como, seguramente, Greil Marcus seria o primeiro a reconhecer – no "box-set deluxe" remasterizado (3CD + 1 DVD) de Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols, prontinho para sair daqui a um mês.
29 August 2012
Por isso, se existe alguma verdade no que, a 3 de Agosto, em “Making Punk A Threat Again”, Spencer Ackerman escrevia no “Foreign Policy” – “As Pussy Riot são - e tomando de empréstimo, por um segundo, o lema dos Clash - a única banda que realmente interessa” – vendo nelas o derradeiro elo de vencedoras, pelo martírio, numa longa linhagem de heróis punk parcos de vitórias reais, será mais exacto encará-las como brigada de teatro de guerrilha urbana mais afim das tácticas Situacionistas do que do, ainda assim, convencional, modus operandi punk: não existem discos físicos das Pussy Riot que possam ser comprados ou descarregados da net. O que há são momentos – sobre um andaime erguido nos corredores do metro de Moscovo, na rua, em equilíbrio sobre o tejadilho de um autocarro, na Praça Vermelha –, primária e entusiasticamente coreografados, gritados num idioma incompreensível para todos os não-russos por um número variável de personagens femininas coloridas de rosto oculto, registados e lançados para o mundo-www, sem necessidade de intermediária "indie" ou "major". E capazes de, apesar de todos os obstáculos, fazer passar, instantaneamente, o recado. Ou de, no dia do julgamento, oferecer aos surpreendidos moscovitas a descoberta das estátuas da capital russa com as cabeças cobertas pelos icónicos passa-montanhas multicores. Porque se, afinal, o punk pode ser, de novo, ameaçador, é por aqui que deverá ser procurado e não – como, seguramente, Greil Marcus seria o primeiro a reconhecer – no "box-set deluxe" remasterizado (3CD + 1 DVD) de Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols, prontinho para sair daqui a um mês.
18 June 2022
"A RÚSSIA É UM PESADELO"
A 21 de Fevereiro de 2012, Nadya Tolokonnikova, Maria (Masha) Alekhina e Yekaterina Samutsevich pularam sobre o altar da Catedral do Cristo Salvador, em Moscovo, e entoaram uma “oração punk” em que imploravam à Virgem que livrasse os russos de Vladimir Putin. Imediatamente presas e julgadas, as três Pussy Riot – na verdade, não uma “banda” mas uma brigada de teatro de guerrilha de cerca de 10 performers e 15 elementos responsáveis pela logística técnica (incluindo filmagem, montagem e distribuição de vídeos via-Internet) –, seriam condenadas por um tribunal de Moscovo a uma pena de dois anos de prisão “por hooliganismo e incitação ao ódio religioso”. Na altura, afirmariam: “Não são as três cantoras das Pussy Riot que estão a ser julgadas. É o aparelho de Estado da Federação Russa que está a ser julgado e que, infelizmente para si mesmo, se deleita em publicitar a sua crueldade para com os seres humanos, a indiferença perante a sua honra e dignidade, o pior do que aconteceu na História da Rússia até hoje. Lamento profundamente que este tribunal não seja muito diferente das troikas estalinistas”. Libertadas em Dezembro de 2013, numa manobra de relações públicas antes dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, Masha e Nadya, fora e dentro da Rússia, através de videos, acções de agit-prop, publicação de livros e concertos, nunca baixaram os braços. O que, tal como agora aconteceu com Masha – à beira de uma digressão europeia que passaria por Portugal –, as obrigou a uma táctica de fuga permanente.
Há semanas, quando, aparentemente, iria haver uma possibilidade de termos esta conversa, ela acabou por ser impossível. Ao mesmo tempo, surgiu na imprensa internacional a notícia de que, por essa altura, a Masha, via Bielorússia e Lituânia, tinha fugido para a Islândia sob o disfarce de entregadora de refeições...
É, de facto, verdade. Estava a preparar-me para dar início a esta digressão e vi-me obrigada a resolver, de urgência, uma série de problemas. Sabia que iriam surgir grandes dificuldades na passagem da fronteira, tinha a minha casa constantemente vigiada pela polícia... Tive de arranjar forma de resolver esses problemas da maneira mais expedita possível.
(daqui; segue para aqui)







