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12 November 2007

TOP 100 DO SÉCULO XX (V)
(organizado - ordem alfabética - para a revista Op em 2003)



JUNE TABOR - Angel Tiger
THE KINKS - The Kink Kronikles
KRAFTWERK - Trans-Europe Express
LAURIE ANDERSON - Big Science/Life On A String
LEILA - Like Weather
LEONARD COHEN - Songs Of Love And Hate


[numa outra lista de 1999/2000 que ficou seriamente amputada e incompleta surgiu isto:

LEONARD COHEN
Songs Of Love And Hate
Produção: Bob Johnston
Intervenientes: Leonard Cohen; arranjos de Paul Buckmaster
Primeira edição: Columbia, 1969

Sexo, morte e Deus. Amor e ódio. Paraíso e Inferno. Leonard Cohen nunca escreveu sobre outros temas (mas há outros temas?). Tanto enquanto (muito bom) poeta, novelista (sofrível) e "songwriter" (sublime). E nunca o escreveu de modo tão arrasadoramente total como no seu terceiro álbum da capa a preto e branco onde o rosto por escanhoar — não, nessa altura ainda não estava instituido o chique da "barba de três dias" — evita o nosso olhar com algo que, muito menos do que um sorriso, é um esgar de escárnio e desafio. Desde as primeiras palavras ("I stepped into an avalanche it covered up my soul"), é um puro exercício da mais letal intoxicação que se inicia. E o começo da mais radical iniciação que intoxica. Para sempre. "You who wish to conquer pain you must learn, learn to serve me well" define as regras, "your laws do not compel me to kneel, protest and bare" é a chegada ao último estádio de todos os rituais gnósticos, "the crumbs of love you offer me are the crumbs I left behind" reinventa o erotismo sagrado e "I have begun to long for you, I who have no greed, I have begun to ask for you, I who have no need" regressa ao desgraçado nível humano. E tudo só na primeira canção, com as espirais narcóticas das cordas de Paul Buckmaster no mais doce dos estrangulamentos. Judeu, sufi, zen, tântrico e cristão herético. Mas, depois, há ainda a inominável e desesperada encenação da descida ao abismo de "Dress Rehearsal Rag", o grotesco teatro do vazio de "Diamonds In The Mine" e "Sing Another Song, Boys", a esotérica e lendária vertigem material de "Love Calls You By Your Name", as flamejantes bodas alquímicas de "Last Year's Man" e (sobretudo) "Joan Of Arc" e, acima de todas, "Famous Blue Raincoat", a canção de abandono, liberdade e desprendimento, mais que perfeita de todos os tempos. Com a assinatura final "sincerely, L. Cohen".

OUVIR TAMBÉM: Suzanne Vega (Suzanne Vega)]

LIQUID LIQUID - Liquid Liquid
LLOYD COLE & THE COMMOTIONS - Rattlesnakes

[numa outra lista de 1999/2000 que ficou seriamente amputada e incompleta surgiu isto:

LLOYD COLE & THE COMMOTIONS
Rattlesnakes
Produção: Paul Hardiman
Intervenientes: Stephen Irvine, Neil Clark, Lawrence Donegan, Blair Cowan, Lloyd Cole, Ann Dudley (arranjos de cordas)
Primeira edição: Polydor, 1984

A poeira da sublevação punk tinha definitivamente assentado. A "new wave" tinha cumprido a contento a sua missão histórica de pegar nos destroços resultantes do motim e, a partir deles, reconstruir um vocabulário pop de novo enxuto e viável. Era, pois, o momento apropriado para a eclosão de uma nova geração de "songwriters" pop que, mais uma vez, sem cair na infinita e enjoativa reciclagem de modelos anteriores, no interior da clássica "guitar band", se aprestava para acrescentar novos capítulos ao "songbook" da música popular. Elvis Costello assumia a função de santo padroeiro e, à sua sombra, a pop britânica e esferas de influência adjacentes renovavam-se. Os Smiths de Morrissey e Marr terão, possivelmente, encarnado a figura de ícones lendários mas foi a Lloyd Cole & The Commotions que calhou a responsabilidade de conceber e concretizar a mais imaculada colecção de canções pop — no que isso significa de simultaneamente imediato e sofisticado — que os anos 80 escutariam. A meio caminho entre influências reconhecidas e pastiches deliberados (dos Byrds, de Bob Dylan, dos Love, da soul), fazendo do "name dropping" uma forma literária pop superior e reinventando o "tricot" das guitarras electricas e o veludo dos arranjos de cordas como estojo de luxo para melodias e textos de elevado teor de contágio dedicados ao louvor e ao escárnio de figuras com "cheekbones like geometry and eyes like sin", "sexually enlightened by Cosmopolitan" e que evocam "Eve Marie Saint in 'On The Waterfront'", "Jules Et Jim" e Simone de Beauvoir, Rattlesnakes estabeleceu um novo padrão de referência pop. Que o próprio Lloyd Cole e respectiva geração só irregularmente voltariam a atingir.

OUVIR TAMBÉM: Easy Pieces e Mainstream (Lloyd Cole & The Commotions); Bad Vibes e Love Story (Lloyd Cole); Imperial Bedroom (Elvis Costello); The Smiths e The Queen Is Dead (The Smiths); Reading, Writing & Arithmetic (The Sundays); Before Hollywood, Liberty Belle & The Black Diamond Express e 16 Lovers Lane (The Go-Betweens); High Land Hard Rain (Aztec Camera); You Can't Hide Your Love Forever (Orange Juice); Suzanne Vega (Suzanne Vega); Dreamtime (Tom Verlaine); Jordan-The Comeback (Prefab Sprout); Apple Venus-Vol. 1 (XTC); 69 Love Songs (The Magnetic Fields)]

LOU REED - Transformer/New York/Magic And Loss/Songs For Drella (c/ John Cale)/The Raven
LOVE - Forever Changes

[numa outra lista de 1999/2000 que ficou seriamente amputada e incompleta surgiu isto:

LOVE
Forever Changes
Produtor: Arthur Lee/Bruce Botnick/David Angel (arranjos)
Intervenientes: Arthur Lee, Bryan MacLean, Johnny Echols, Ken Forssi, Mike Stuart, Hal Blaine, Billy Strange, Don Randi
Primeira edição: Elektra, 1967

Em 1966, os Love foram a primeira banda de rock a assinar com a Elektra. O que só é importante na medida em que a segunda foram os Doors. Em plena Los Angeles do "flower power", Arthur Lee, um esquizofrénico "borderline", rebaptizou os Grass Roots como Love mas, de acordo com a sua atitude e estilo de vida, havia quem achasse que o grupo se deveria chamar Hate. Influenciado pelos Byrds, Hendrix, Stones e pela atmosféra psicadélica da era, Lee era alternadamente descrito como "a black freak on the white scene" ou — devido à sua devoção a Mick Jagger — "um negro americano a imitar um branco inglês que imita um negro americano". Os primeiros álbuns (Love, 1966 e Da Capo, 1967) eram puro psicadelismo "west coast" mais folk ou hard-rock mas seria com Forever Changes que o culto dos Love se estabeleceria. Inicialmente pensado com produção de Bruce Botnick e Neil Young, as obrigações deste para com os Buffalo Springfield acabariam por entregar a Botnick a difícil gestão de um grupo que se recusava a actuar ao vivo e de que três quintos estavam irremediavelmente agarrados à heroína. Com músicos de estúdio (Blaine, Strange e Randi), para acorrer às emergências, foram gravados "Andmoreagain" e "The Daily Planet" o que serviu para espicaçar o brio dos "junkies" de serviço e registar a matriz de toda a pop orquestral futura. Guitarras de flamenco, melodias perfeitas, secções de cordas e sopros e o sublime "songwriting" alucinado que a época autorizava instituiram a lenda. Forever Changes transformou radicalmente o mundo da pop e, ainda hoje — na vertente melódica e orquestral —, damos por isso.

OUVIR TAMBÉM: Curtains (Tindersticks), A Short Album About Love (The Divine Comedy), Nighttown (The Walkabouts), Ocean Rain (Echo & The Bunnymen)]

(2007)

13 June 2007

1967, UM ANO MUITO POUCO COMUM



De acordo com o calendário gregoriano, 1967 foi um “ano comum”. Isto é, um ano não bissexto, de 365 dias. Mas não atribuamos demasiadas responsabilidades ao papa Gregório XIII que, a 18 de Janeiro de 1582, o promulgou para substituir o anterior calendário juliano: nem através de ligação directa ao Grande Arquitecto do Universo poderia ele ter previsto a dimensão exacta pela qual o ano em que John Coltrane, Che Guevara, Woody Guthrie e René Magritte morreram e Kurt Cobain, Julia Roberts, Nicole Kidman e Noel Gallagher nasceram foi tudo menos um ano comum. No mundo, em geral, e na cultura pop, em particular, 1967 foi, indiscutivelmente, um daqueles anos de viragem e ruptura que não deixaria pedra sobre pedra do que para trás ficara e que marcaria irremediavelmente as quatro décadas que, até hoje, se lhe seguiram.


The Beatles - Strawberry Fields Forever

Porque é impossível não o referir, recorde-se já que foi em 1967 que, a 26 de Maio, os Beatles publicaram Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Enquanto marco simbólico do ano e da era, a sua importância permanece mas deve também adiantar-se que, no âmbito mais restrito da sua ressonância na cultura pop posterior, já viu bem melhores dias: não só todo o resto que os Beatles editaram no mesmo período de doze meses – os singles “Penny Lane”/”Strawberry Fields Forever”, “All You Need Is Love”/”Baby You’re A Rich Man” e “Hello Goodbye/”I Am The Walrus” e o duplo EP “Magical Mystery Tour” – é francamente mais rico e interessante como, em sucessivas votações dos “all time best” (na última, do número de Junho da “Mojo”, para “os 100 discos que mudaram o mundo”, ficou-se por um modesto 16º lugar), tem vindo, aceleradamente, a ver a sua cotação desvalorizada relativamente a diversos outros concorrentes e até face a outras gravações da banda de Lennon e McCartney como Revolver, ou mesmo (na recentíssima da “Mojo”) ao single de 1963, “I Want To Hold Your Hand” (um honroso segundo lugar atrás de “Tutti Frutti”, de Little Richard).


Pink Floyd - Interstellar Overdrive

As oscilações do gosto terão a sua própria lógica mas a verdade é que, num ano em que – política, social e culturalmente – aconteceu incomparavelmente mais do que em muitas décadas, escolher um único objecto/figura emblemáticos não andaria muito longe de confiar no acaso de um lançamento de dados. Tomem, então, nota:
1) álbuns de estreia pop/folk/rock – The Velvet Underground & Nico, seguido, também em 1967, de White Light/White Heat; The Songs Of Leonard Cohen; The Doors (e, no final do ano, Strange Days); The Piper At The Gates Of Dawn, dos Pink Floyd; Safe As Milk, de Captain Beefheart; Are You Experienced?, da Jimi Hendrix Experience (e ainda Axis: Bold As Love); Mr. Fantasy, dos Traffic; The Grateful Dead; Buffalo Springfield (Neil Young+Stephen Stills) e (sobretudo), no Outono, Buffalo Springfield Again; Chelsea Girl, de Nico; David Bowie; Surrealistic Pillow, dos Jefferson Airplane, antecedendo After Bathing At Baxter’s; Moby Grape; Blowin’ Your Mind, de Van Morrison; Electric Music For The Mind And Body, de Country Joe & The Fish (que publicariam também I Feel Like I’m Fixin’ To Die); The Thoughts Of Emerlist Davjack, dos Nice (casulo de Keith Emerson, futuramente Emerson, Lake & Palmer); H. P. Lovecraft; Big Brother & The Holding Company (voz. Janis Joplin).


The Jimi Hendrix Experience - Purple Haze

2) obras-primas avulsas, objectos de culto e sementes de futuro – Goodbye And Hello, de Tim Buckley; Forever Changes e Da Capo, dos Love; Pleasures Of The Harbor, de Phil Ochs; Absolutely Free, dos Mothers of Invention; 5000 Spirits Or The Layers Of The Onion, da Incredible String Band; Days Of Future Passed, dos Moody Blues; The Who Sell Out; Something Else By The Kinks; Between The Buttons e Their Satanic Majesties, dos Rolling Stones; Walk Away Renee/Pretty Ballerina, dos Left Banke; Ptoof, dos Deviants; Tenderness Junction, dos Fugs; Tangerine Dream, dos Kaleidoscope; Mass In F Minor, dos Electric Prunes; Younger Than Yesterday, dos Byrds; Disraeli Gears, dos Cream (Eric Clapton+Jack Bruce+Ginger Baker); John Wesley Harding, de Bob Dylan; Easter Everywhere, dos 13th Floor Elevators.

Que outro ano, anterior ou posterior, se poderá gabar de ter fundado uma mão-cheia de géneros musicais (o psicadelismo dos Pink Floyd, Grateful Dead, Country Joe & The Fish, Kaleidoscope, Traffic, Fugs, H. P. Lovecraft, Jefferson Airplane ou de Their Satanic Majesties; o rock-sinfónico/progressivo dos Nice ou Moody Blues; o “noise”, com White Light/White Heat; os blues “cósmicos” de Jimi Hendrix, Big Brother ou Cream – ainda que, aqui, haja, que reconhecer os antecedentes dos Yardbirds; as incursões pelos idiomas clássico, da vanguarda contemporânea/electrónica e das músicas orientais dos Electric Prunes, Tim Buckley, Nico, Incredible String Band, Love, Frank Zappa/Mothers of Invention, Phil Ochs e dos próprios Beatles que, já em Revolver, por aí haviam deambulado; a ópera-rock com The Who Sell Out), de ter revelado (ou confirmado ao segundo álbum) figuras que marcariam indelevelmente a pop até hoje – Lou Reed, John Cale, Van Morrison, Neil Young, Jimi Hendrix, Nico, David Bowie, Tim Buckley, Leonard Cohen, Frank Zappa, Captain Beefheart – e, de um modo geral, ter participado intensamente nas convulsões que, daí em diante (e o Maio francês estava apenas a um ano de distância), virariam o século XX do avesso. A música aspirava o espírito do tempo e, ao expirá-lo, acelerava a rotação do mundo.


The Velvet Underground - I'm Waiting For The Man

De facto, o ano em que, logo a 2 de Janeiro, Charlie Chaplin estreava o seu último filme (A Condessa de Hong Kong) e que, a 19 de Dezembro, ouviria o professor John Wheeler formular, pela primeira vez, o conceito de “buraco negro”, foi um período de movimentos e eventos contraditórios: se a Guerra dos Seis Dias (entre 5 e 10 de Junho) incendiava irreversivelmente o Médio Oriente, o golpe de estado “dos coronéis” na Grécia instalava mais uma ditadura europeia e o general Westmoreland garantia que a vitória americana no Vietname era certa, o “Gathering of the Tribes for a Human Be-In” que, a 14 de Janeiro, reunia 30 000 pessoas no Golden Gate Park de S. Francisco, fazia convergir para um mesmo lugar as várias sensibilidades heterodoxas da época (ecologistas, velhos beatniks, feministas, novos hippies, anarco-freaks, militantes anti-Vietname, contestatários estudantis, activistas anti-segregacionistas, radicais de esquerda, gurus místicos e apóstolos lisérgicos), dava a palavra a oradores como Allen Ginsberg, Jerry Rubin e Timothy Leary (que lançaria o mote do ano com o seu famoso “Turn on, tune in, drop out” aparentemente “soprado” por Marshall MacLuhan, enquanto o “underground chemist”, Owsley Stanley, abastecia generosamente as massas com LSD – ilegalizado desde 16 de Outubro de 1966 – especialmente sintetizado para a ocasião), oferecia o palco aos Jefferson Airplane, Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service e, acima de tudo, anunciava o “Summer of Love” que, meses depois, faria convergir para o distrito de Haight Ashbury, Berkeley e da baía de S. Francisco mais de 100 000 “flower children” em busca de “amor livre”, comunitarismo, transcendência e bucolismo utópicos “à la” Thoreau, êxtases químicos instantâneos e toda a parafernália cultural e filosófica que estaria na raiz da “New Age” e da contracultura “underground”.


Timothy Leary - How to Operate Your Brain

No entanto, a 15 de Janeiro, um dia depois do “Human Be-In”, no Ed Sullivan Show, os Rolling Stones, a bem da moral e dos bons costumes, seriam forçados a cantar “Let’s spend some time together” em vez do “Let’s spend the night together” original e, um mês mais tarde, Mick Jagger e Keith Richards veriam a polícia londrina invadir-lhes uma festa privada e acusá-los de consumo e posse de drogas pelo que, a 29 de Junho, acabariam mesmo por ser presos. Foi, sem dúvida, um ano em que manter-se a par das notícias não terá sido fácil: no mesmo dia em que as “tribos” se congregavam no Golden Gate Park, o “New York Times” revelava que o exército americano realizava experiências em matéria de guerra biológica; a 1 de Março, a Revolução Cultural Chinesa termina com o regresso dos Guardas Vermelhos à escola, oito dias antes de Svetlana Alliluyeva, filha de Estaline, fugir para os EUA e, no penúltimo dia do mês, os Beatles são fotografados para a capa de Sgt Pepper's, uma semana antes de levantar voo o primeiro Boeing 737 (a 11 de Dezembro, seria o baptismo de vôo do Concorde).
Outra linha de acontecimentos decorre paralelamente: a 28 de Abril, Cassius Clay/Muhammad Ali recusa combater no exército dos EUA e, embora, a 12 de Junho, o Supremo Tribunal de Justiça norte-americano (do qual, a 30 de Agosto, Thurgood Marshall seria o primeiro membro afro-americano) tenha declarado inconstitucionais todas as leis que proibiam os casamentos interraciais, isso não impede que, a 15 de Julho – dois dias antes da morte de John Coltrane –, expludam violentos motins raciais em Detroit (43 mortos, 342 feridos, 1400 edifícios incendiados) que alastram a Nova Iorque, Washington D.C. e Alabama, e, a 21 de Setembro (quatro dias depois da estreia do musical hippie, Hair), dezenas de milhares marcham sobre Washington contra a guerra do Vietname enquanto Allen Ginsberg entoa mantras com o objectivo de “fazer levitar o Pentágono”.


Peace March - Thousands Oppose Vietnam War, 1967

A atmosfera cultural do “Verão do Amor” (que, na edição de 7 de Julho da “Time”, a “cover story” intitulada "The Hippies: Philosophy of a Subculture." descrevia como "Do your own thing, wherever you have to do it and whenever you want. Drop out. Leave society as you have known it. Leave it utterly. Blow the mind of every straight person you can reach. Turn them on, if not to drugs, then to beauty, love, honesty, fun”) seria, entretanto, perfeitamente caracterizada pelo Monterey Pop Festival – 200 000 participantes e o primeiro festival pop/folk/rock, ao ar livre e gratuito -, na Califórnia, no qual actuaram Jimi Hendrix, The Who, The Byrds, Jefferson Airplane, Ravi Shankar, Hugh Masekela, The Grateful Dead, Janis Joplin com os Big Brother & The Holding Company, The Association, Buffalo Springfield, Country Joe & The Fish, Moby Grape, Quicksilver Messenger Service, Laura Nyro, Canned Heat, Simon & Garfunkel, The Paul Butterfield Blues Band, The Steve Miller Band, os Blues Project e Otis Redding, que morreria a 10 de Dezembro, num acidente de avião.


Janis Joplin c/ Big Brother and the Holding Company

Não foi a única baixa do universo cultural a lamentar: entre Maio e Agosto, juntar-se-lhe-iam Edward Hopper, Vivien Leigh, Jayne Mansfield, o poeta Carl Sandburg, o dramaturgo Joe Orton, René Magritte, o manager dos Beatles, Brian Epstein e Woody Guthrie. Tragédia de enorme dimensão foram as cheias de Lisboa, a 26 de Novembro, com 462 vítimas mortais que se somariam às das guerras coloniais em curso, às do Vietname ou às decorrentes do abate pela República Popular da China de dois aviões norte-americanos que teriam violado o seu espaço aéreo.
Mas, mais visível ou invisivelmente, havia forças várias em movimento: a 26 de Junho (um dia antes de, em Enfield, no Reino Unido, o Barclays Bank abrir a primeira máquina multibanco), Karol Wojtila – futuro João Paulo II – é ordenado cardeal e, pela mesma altura, Lech Walesa começa a trabalhar como electricista, nos estaleiros Lenine, de Gdansk; a 4 de Julho, o Parlamento britânico descriminaliza a homossexualidade, Antony Hewish e Jocelyn Bell Burnell, da Universidade de Cambridge, descobrem o primeiro pulsar e, no final do ano (que se iniciara com a morte de Jack Ruby, assassino de Lee Harvey Oswald, putativo assassino de John Kennedy), Christiaan Barnard realiza, na cidade do Cabo, na África do Sul, o primeiro transplante cardíaco. O “zeitgeist” da era impulsionaria, ainda Ralph J. Gleason e Jan Wenner a fundar a “Rolling Stone” (para onde Greil Marcus – salário: 30 dólares por semana – , Hunter S. Thompson ou Lester Bangs escreveriam), sobrevivente única de “rock magazines” históricos como a “Crawdaddy!” e “Creem”. Muitos anos mais tarde, reflectindo sobre a atmosfera desses anos, um dos seus alegados heróis, Leonard Cohen, diria: “Os hippies não me interessaram especialmente. Em particular, quando começaram a poluir os rios e a deixar lixo por todo o lado, quando iam para o campo adorar Deus e a Natureza. Eram péssimos campistas! Eu que fui escuteiro posso dizê-lo”. (2007)

04 April 2017

1967 



Queiram corrigir, por favor, se erro houver. Mas terá existido, antes ou depois, ano como aquele que, há exactamente meio século, nos ofereceu tamanha cornucópia musical? Recordemos, então: 1) Estreias: The Velvet Underground & Nico; The Piper At The Gates Of Dawn – Pink Floyd; The Songs Of Leonard Cohen; Safe As Milk – Captain Beefheart & His Magic Band; Are You Experienced? – The Jimi Hendrix Experience; Mr. Fantasy – Traffic; The Grateful Dead; Chelsea Girl – Nico; David Bowie; Blowin’ Your Mind – Van Morrison; Electric Music For The Mind And Body – Country Joe & The Fish; The Doors; Song Cycle – Van Dyke Parks; Scott – Scott Walker; Lumpy Gravy – Frank Zappa; Moby Grape; Big Brother & The Holding Company; More Than a New Discovery – Laura Nyro: The Thoughts Of Emerlist Davjack – The Nice; H. P. Lovecraft; Ptooff! – The Deviants; Walk Away Renée/Pretty Ballerina – Left Banke; Silver Apples Of The Moon – Morton Subotnick; Guitarra Portuguesa – Carlos Paredes; 2) Confirmações nesse mesmo ano: Axis: Bold As Love – The Jimi Hendrix Experience; Strange Days – The Doors; I-Feel-Like-I'm-Fixin'-to-Die – Country Joe & The Fish; 



3) Clássicos, sementes e futuros objectos de culto: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, Magical Mystery Tour e os singles "Penny Lane"/"Strawberry Fields Forever", "All You Need Is Love"/"Baby, You're a Rich Man" e "Hello, Goodbye"/"I Am the Walrus" – The Beatles; Surrealistic Pillow e After Bathing At Baxter’s – Jefferson Airplane; Forever Changes – Love; Goodbye And Hello – Tim Buckley; Pleasures Of The Harbor – Phil Ochs; Absolutely Free – Mothers of Invention; 5000 Spirits Or The Layers Of The Onion – Incredible String Band; Again – Buffalo Springfield; Younger Than Yesterday – The Byrds; Days Of Future Passed – The Moody Blues; John Wesley Harding – Bob Dylan; Butterfly – The Hollies; Strange Strings – Sun Ra & His Astro Infinity Arkestra; Future – The Seeds; Easter Everywhere – The 13th Floor Elevators; Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim; Tangerine Dream – Kaleidoscope; Insight Out – The Association; Tim Hardin 2; Jacques Brel 67; The Electric Prunes e Underground – The Electric Prunes; Everything Playing – The Lovin’ Spoonful; Mellow Yellow e A Gift From a Flower to a Garden – Donovan; Disraeli Gears – Cream; Wildflowers – Judy Collins; Something Else By The Kinks; The Who Sell Out; Between The Buttons, Flowers e Their Satanic Majesties Request – The Rolling Stones; Smiley Smile e Wild Honey – The Beach Boys. QED?...

17 September 2022

 
(sequência daqui) Demorou só uma década a limar as arestas, à excepção da faixa de abertura, “Underwater” que, desde a publicação como single, em 2000, precisou de 22 anos para alcançar a configuração ideal. Não é exactamente um álbum mas algo entre um mini-álbum e um EP robustecido (5 faixas num total de 30 minutos), intitulado, tal como o duo Fraser-Reece, Sun’s Signature. Damon fala de Bernard Herrmann e John Barry como estimulantes estéticos, Elizabeth prefere resguardar-se das possíveis influências de outros músicos mas gostaria de “conduzir-nos numa viagem como a de Forever Changes, dos Love”. Pensem numa "Song To The Siren" ampliada e mobilada de vibrafones, dulcimers, Moogs, mellotrons, címbalos, e celestas por Alison Goldfrapp, paisagista sonora de Felt Mountain. É por aí.

31 August 2018

DISTOPIA

(clicar na imagem para ampliar)

Babelsberg, a curta distância de Berlim, é o maior distrito de Potsdam, capital do estado de Brandenburg. Foi lá que, em 1945, Estaline, Truman e Churchill se encontraram para a conferência que assinalou o fim da Segunda Guerra Mundial, e é onde se situa também o Filmstudio Babelsberg, o estúdio de cinema em grande escala mais antigo do mundo, no qual Fritz Lang filmou Metropolis, Josef von Sternberg, O Anjo Azul e Leni Riefenstahl montou O Triunfo da Vontade. Para Gruff Rhys (aliás, Gruffudd Maredudd Bowen Rhys, motor criativo dos galeses Super Furry Animals), contudo, até há dois anos, não passava de um nome que vira, de passagem, numa tabuleta à beira da estrada, quando em digressão pela Alemanha, e que anotara por lhe fazer recordar a Torre de Babel bíblica. A Babelsberg que o artista russo Uno Moralez concebeu para a capa do último álbum de Rhys, essa, parece saída de High-Rise, de J. G. Ballard: uma enorme torre de apartamentos luxuosos onde Cristo se senta à mesa com Donald Trump (que o fotografa – ou lhe mostra "tweets" – no telemóvel), um dinossauro em traje de executivo dedilha maços de dólares e, no céu, Deus comanda drones à distância, enquanto, lá em baixo, se avista a estátua de um qualquer Kim Jong-un. 



A figura do canto inferior direito – apenas uma silhueta negra que, com um velho rádio-gravador portátil perto de si, observa a cena – só poderá ser Gruff Rhys que, mais ou menos conscientemente, somando guerra, Metropolis, Ballard, Riefenstahl, Trump e mitologia bíblica, chegou a Babelsberg, o álbum - simetria perfeita com Praxis Makes Perfect (2013), do alter-ego Neon Neon, ensaio sobre o guerrilheiro aristocrata Giangiacomo Feltrinelli, marquês de Gargnano, fundador dos Gruppi d'Azione Partigiana. Desta vez, acompanhado pela National Orchestra do País de Gales que interpreta os sumptuosos arranjos de Stephen Mc Neff (algures entre Forever Changes, Jim Webb e Divine Comedy), a utopia redentora dá lugar à ansiosa distopia (“No silver linings, this is the end, get your phone out to document, selfies in the sunset (…), it's the last film that we'll ever see, Armageddon wants company, the backdrop's blazing red and everyone is equal in the valley of the dead”), a montagem da armadilha é óbvia (“Architecture of amnesia, scare the people with hysteria”) mas a saída que resta mete medo (“I'm keeping my eyes peeled for military takeover at night”). Nesta Babelsberg não há conferências de paz.

16 June 2007

SARGENTO, SIM


Sargeant Pepper’s Lonely Heart Club Band não foi o primeiro álbum conceptual da pop moderna (essa distinção deverá ser atribuída a Freak Out!, dos Mothers Of Invention, publicado em 1966) nem sequer foi, realmente, um álbum conceptual. Segundo os próprios Beatles, a ideia de criar uma banda e personagens/heterónimos deles próprios foi rapidamente descartada no alinhamento final após a segunda canção (“With A Little Help From My Friends”, interpretada por Ringo Starr/Billy Shears) e apenas a “reprise” do tema-título na penúltima faixa procurou, em quase desespero de causa, recuperar o que restava do plano inicial.



Do ponto de vista das alegadas “inovações revolucionárias” no que ao idioma pop/rock diz respeito, pouco contém que eles próprios não tivessem já explorado – e de forma francamente mais conseguida –, no ano anterior, em Revolver: “She’s Leaving Home” é uma parente muito pobre de “Eleanor Rigby” e “For No One”, “Love You To” humilha sem dó a canja mística de “Within You Without You”, “I’m Only Sleeping” já experimentara a utilização das “reverse tapes” no solo de guitarra, os pastiches/exercícios de estilo de “Got To Get You Into My Life” (Memphis soul), “Good Day Sunshine” (Lovin’ Spoonful) e “Here, There And Everywhere” (Beach Boys) reduzem o vaudeville-de-trazer-por-casa de “When I’m Sixty Four” e “Lovely Rita” à sua verdadeira dimensão e “Tomorrow Never Knows” (processamento electrónico de vozes e instrumentos, “tape loops”, técnicas da “musique concrète”) mete literalmente num chinelo todo o alegado vanguardismo da filarmónica do sargento.



Que sobra, então? O soberbo puzzle de “A Day In The Life”, o magnífico ensaio de colagem verbal e sonora de “Being For The Benefit Of Mr. Kite" e a levitação lisérgica em technicolour de “Lucy In The Sky With Diamonds”. Tivessem “Penny Lane”, “Strawberry Fields For Ever” (compostas para Sgt Pepper’s mas finalmente excluídas para edição em single – esse, sim, um single conceptual sobre as reminiscências de Liverpool de Lennon e McCartney), “Baby You’re A Rich Man”, “I Am The Walrus”, “Hello Goodbye” ou até mesmo “All You Need Is Love” (todos publicados em 1967) integrado o pelotão e, aí sim, teríamos um disco capaz de, no mesmo ano, dar luta a Forever Changes, Goodbye And Hello, Safe As Milk, The Velvet Underground & Nico, The Piper At The Gates Of Dawn ou Are You Experienced?. Afinal, à maior banda pop da época, bastou, contudo, estar no lugar certo, na altura certa (publicado a 26 de Maio, Sgt Pepper’s daria praticamente o pontapé de saída ao “Summer of Love”), para que o seu álbum mais fraco pós-Rubber Soul e pré-Abbey Road pudesse oferecer a um sargento os galões de marechal. (2007)