16 August 2010

MOMENTO DE SINGULAR FELICIDADE ESTÉTICA 
EM QUE DIVERSAS SENSIBILIDADES ERÓTICAS 
SE CRUZAM COM O DIVINO EM CAPAS DE LP







(daqui)

edit: mais aqui.

(2010)
O ORIENTE É VERMELHO

China overtakes Japan as world's second-largest economy












(fotos de supermercado chinês no Zeedijk, Amsterdão)

(2010)

15 August 2010

ALEGRE AMSTERDÃO (IV)

Gay Pride 2010 - 2
 
 












(2010)
DESMONTAR PEÇA POR PEÇA A CRIMINOSA TRAFULHICE
DAS "CIÊNCIAS" DA EDUCAÇÃO
QUE A AMESTRADA DE
BOSTON
PROFESSA É UM ACTO DE SERVIÇO PÚBLICO




Santana Castilho aqui, através daqui.

(2010)
ÍMPIAS CITAÇÕES (III)


"Man is a Religious Animal. Man is the only Religious Animal. He is the only animal that has the True Religion - several of them. He is the only animal that loves his neighbor as himself and cuts his throat if his theology isn't straight. He has made a graveyard of the globe in trying his honest best to smooth his brother's path to happiness and heaven... The higher animals have no religion. And we are told that they are going to be left out in the Hereafter. I wonder why? It seems questionable taste" (Mark Twain)

(2010)
PROGRAMAÇÃO DE VERÃO (I)



O label "pensamento filosófico português" em reposição integral.

(2010)

14 August 2010

VINTAGE (VI)

Working Week - Venceremos (c/ Tracey Thorn e Robert Wyatt)




Working Week - "Storm Of Light" (c/ Julie Tippett/Driscoll)



(2010)
THE ANSWER


Gertrude Stein - Pablo Picasso, 1906

There ain't no answer.
There ain't never going to be an answer.
There never has been an answer.
That's the answer.

(Gertrude Stein, citada por Tara Ann McFadden em Pop Wisdom: A Little Guide to Life)

(2010)

13 August 2010

THE HOERENGRACHT - ED & NANCY KIENHOLZ



No Museu de História de Amsterdão.

(2010)
TEEN SPIRIT



Os Pontos Negros - Pequeno Almoço Continental

Eles dizem “Não sei ler escalas em clave de sol, e muito menos em clave de fá, para Mozart, Chopin e Ravel, sou um mal agradecido do pior que há” e não poderia existir melhor cartão de visita: de um só golpe, inscrevem-se, instantaneamente, na grande tradição de uma outra música clássica, a iniciada por Elvis Presley que também, muito descontraidamente, declarava “Não sei ler música, no meu ramo de actividade não é necessário”. E os Pontos Negros parecem ser a mais recente confirmação da tese: de obscura banda de garagem chocada no viveiro das catacumbas da Igreja Baptista de Queluz e dada à costa na grande maré FlorCaveira/Amor Fúria de 2008, rapidamente saltou para a arena do circo das multinacionais, desesperadas por entrever um oásis no meio do infindável deserto de uma crise que, para elas, chegou muito antes da crise-propriamente-dita, tal como uns valentes milhões de desempregados a conhecem.



E irão os moços dar uma enorme alegria – regional, portuguesa, portanto, não tão enorme assim, mas quem dá o que tem… – a Doug Morris, o CEO do Universal Music Group? Não é impossível. Pelo menos, desde o anterior Magnífico Material Inútil, é obrigatório reparar que, se o “teen spirit” permanece integralmente presente, aquele lado mais desagradável das borbulhas do acne parece definitivamente resolvido. Nem tudo é perfeito mas há condimentos simpaticamente vampireweekendianos enxertados na matriz panque (mantenhamo-nos fiéis à terminologia das origens), um bem apreciável e inteligente domínio da dinâmica da besta pop/rock e, particularmente, em "Se O Variações Fosse O Meu Barbeiro" – todo um programa, como se imagina –, uma assaz promissora derrapagem para a electricidade descontroladamente em roda-livre que não lhes fica nada mal. A seguir com muita, muita atenção.

(2010)
ALEGRE AMSTERDÃO (III)

Gay Pride 2010 - 1
 

 









(2010)
AINDA HÁ QUEM SE PREOCUPE A
SÉRIO COM O ENSINO SUPERIOR



(da "Metro" de Amsterdão)

(2010)

03 August 2010

FALA AQUILO QUE SÃO



Lula Pena - Troubadour

O processo é um pouco como o que ocorre com a recitação do "dhikr" islâmico, do "aum" indiano ou do rosário cristão: Lula Pena deixa-se levar pela entoação auto-encantatória das palavras estimulada pelo dedilhar da guitarra, até que voz, cordas e textos sejam uma só coisa e, desta forma, um canal se abra para o mais absolutamente livre jogo de associação de fragmentos de melodias, estilhaços de poesia, auras de harmónicos, arquejos rítmicos, percussões cardíacas. Se, há doze anos, em [Phados], perdíamos o pé na constante ondulação da rota sonâmbula por que Lula nos conduzia, em Troubadour, a sensação não é menos intrigante:



como quem reescreve um interminável palimpsesto, Chico Buarque, José Afonso, Atahualpa Yupanqui, Herberto Hélder, Frederico de Freitas, David Mourão Ferreira, Eden Ahbez, Dolores Duran, Mirah ou Alejandra Pizarnik cavalgam-se, rasuram-se, sobrepõem-se, mutilam-se, elidem-se e procriam, numa hipnótica encenação, possivelmente dividida em sete actos, mas que deverá ser experimentada de um fôlego único. Nas “chaves de leitura” dispersas pela capa do álbum, a primeira alude, naturalmente, à caixa de Pandora e o pano ergue-se sobre o som de uma gaita de amolador e de um diálogo de rua onde alguém, programaticamente, determina: “Vê se falas aquilo que é”. Durante os seguintes seis actos, Lula “fala aquilo que são” as silhuetas de todas estas personagens, numa polifonia para uma só voz. Segundos antes de o pano cair, murmura-nos: “Meu amor?... Sim, diz… Já disse”. Tudo isto teve lugar a 10 de Janeiro, nos estúdios Golden Pony, em Lisboa. Noutro qualquer dia, em lugar diferente, Troubadour teria outro destino e falaria com outras vozes.

(2010)

02 August 2010

A LUA, A SUL















(2010)
POR ESTA SELVA ADENTRO

Em 2000, inesperadamente, foi avistado um ovni nos céus da música portuguesa. Era um álbum, [Phados], gravado dois anos antes para uma editora independente belga, e só nessa altura distribuído, quase acidentalmente, em Portugal. Finalmente escutado e com a bússola estética visivelmente desnorteada, não me ocorreram palavras mais apropriadas para descrever a autora, Lula Pena, do que estas: “Pensem numa Marlene Dietrich minimalista, numa Amália gótica, numa Nico árabe ou numa Bethânia muito melhor, acompanhada por uma guitarra acústica tal como a tocariam uns Young Marble Giants lusófonos. É bem mais do que isso. Mas continua a ser difícil de explicar”. Só um pequeno universo foi abalado e Lula, tal como aparecera, voltou a sumir-se, nómada pelo mapa da Europa e regiões limítrofes, durante doze anos. Agora que regressa – a Portugal e aos discos – com Troubadour, havia, inevitavelmente, uma longuíssima lista de interrogações para lhe apresentar. Estas são só algumas:

Nenhuma razão no mundo, nenhum dever moral, obriga a que quem grava um primeiro álbum tenha de gravar um segundo. Mas, gravando um segundo, por que se leva doze anos até o fazer?

Houve tentativas de gravar outros discos mas não aconteceram. Houve desistências minhas, desistências alheias, impasses... estive, inclusivamente, para disponibilizar, gratuitamente, online, a gravação de um concerto, já assim num limite. Doze anos, a uma escala humana, até poderá ser natural, mas, a uma escala comercial, é estranho. Este que agora surge nem sequer é o que esteve para ser durante todos estes anos. Houve reportórios que foram sendo tocados e há registos disso tudo.

Tens, portanto, uma espécie de arca pessoana?

Sim, mas é uma arca confusa. Este disco é de um reportório mais de agora. Continuei a fazer concertos e a tentar gravar mas o reportório foi-se transformando ao longo dos anos. O que aqui está é o que chegou ou que sobreviveu a estes doze anos e outro que foi chegando e que, se calhar, é um embrião de qualquer coisa que virá a seguir.



O que aconteceu, então, para que, agora, se tornasse possível publicar este disco?

Foi um conjunto de factores. Não começou, exactamente, agora. Nos últimos três anos, concentrei-me mesmo nesse sentido, conheci pessoas, que me permitiram gravar, como o Filho Único ou a Mbari, que me possibilitaram, por assim dizer, uma escala humana para o fazer. Até aí, tinha tido propostas com um carácter mais comercial, cheguei a estar diversas vezes em estúdio. Agora, há mais gente a fazer coisas que têm mais a ver comigo, gente que, de facto, tem uma paixão por música.

Recordo-me de um concerto teu, em 2001, na Culturgeste, em que tocou contigo um músico iraquiano, Osama Abdulrasol, em alaúde, qanoun e bendir...

Sim, e com um vibrafonista belga. Deveria ter sido, supostamente, a ocasião para o lançamento de um disco que se chamaria “Profissão de Fé”. Foi, justamente, esse que pensei em colocar online. Mas sopraram muitos ventos adversos… Houve um movimento oscilatório de produtores interessados mas em que o meu trabalho deixava de ser o meu trabalho para se transformar num outro produto.

Mas, sem entrar em detalhes privados, que andaste a fazer, então, durante estes doze anos?

Escrever, criar documentos sonoros, colagens, manipulações de textos, fui compondo, fiz música para cinema também (para um documentário e para uma longa), e tenho, claro, o desejo que isso possa ser partilhado com as pessoas. Mas, durante estes doze anos, as coisas foram acontecendo desta forma bastante tranquila como é o disco Troubadour: tranquilo, num desassossego qualquer instalado por ter regressado a Lisboa sem planos de ficar mas ir ficando e, a certa altura, dar-me conta de que já não podia sair daqui. Esta coisa de nunca ter raízes em lado nenhum começou a questionar-me de várias formas. E, sobretudo, comecei a organizar mais as coisas que escrevo, a enquadrá-las num disco, num livro ou num audiolivro. O nomadismo era óptimo para o fado e para outros urbanismos de origem incerta. Não tinha um destino, estava a deixar que o novelo se desenrolasse, que eu pudesse ficcionar o suficiente para tornar aquilo real. Mas acho que está na altura de começar a concretizar mais as coisas.



Entre o [Phados] e o Troubadour que pontos de afinidade e que cortes sentes que há?

A respiração não é a mesma. Ou a cabeça não é a mesma. O que têm em comum é o facto de ser a voz e a guitarra, outra vez, mantém-se essa necessidade da palavra, da voz, o reforço visível dessa fragilidade, isso ainda não aprofundei talvez porque tenha havido esse hiato enorme de doze anos.

Um tinha como título uma palavra portuguesa com a ortografia alterada, o outro já recorre a uma palavra francesa...

A modificação ortográfica apontava como que para um mapa, “o mapa começa aqui”, o Troubadour, mesmo que de origem provençal, é-nos mostrado nesse mapa genético, cultural: encontrar, “trouver”, “trovar”.

Aplica-se a palavra “compor” aquilo que fazes?

“Recompor”, se calhar. Abro um canal, porque a música e as palavras o permitem e, depois tudo aquilo que é pequenino – as síncopas, os silêncios, os erros ortográficos – existe a uma escala viva, orgânica. De repente, tenho uma chave que me permite ir ao passado e ao futuro. É o gozo que tenho nesse trabalho e aceitar que gravo um disco e aquilo é o registo daquele momento, projectado o mais que posso, de forma intemporal. Neste contexto em que eu vivo, não posso viver sem nenhum rendimento tenho de fazer alguma coisa concreta, tenho de jogar o jogo...



Durante estes doze anos, dir-se-ia que até pudeste...

Mas não foram, propriamente, doze anos muito fáceis. É o preço que se paga se não queremos que nos sejam retiradas determinadas liberdades que não são caprichos, são necessidades básicas, primárias, orgânicas e humanas. Esta gravação é efémera no sentido em que a posso situar, foi um momento de transição num período mais negro e difícil para mim em que nem as cordas da guitarra são novas, não tive dinheiro para as comprar. Eu tenho as ferramentas que tenho neste momento e não entrei em cosméticas. Decidi que aquelas cordas têm também uma história para contar. Estão lá todas essas fraquezas, todos esses pontinhos num biorritmo qualquer.

Qual a relação entre todas as citações que caligrafaste na capa do disco e os sete “actos” em que ele foi dividido?

Serão “actos” num sentido teatral mas que, neste caso, serão realizados por quem o está a ouvir, por quem vai ler os textos que são chaves de leitura para se conseguir detectar essas impressões sonoras. O Troubadour é uma personagem nesse grande teatro que ajuda a identificar os sentidos com que nos possamos relacionar.

Segues alguma dieta cultural particular para que, após a digestão, resultem discos como o [Phados] ou o Toubadour?

Não. Essa dieta não é baseada em ir comprar a comida ao supermercado e ela já vir embalada, já vir cortada. Eu meto-me por esta selva adentro e entro em instinto de sobrevivência. Não sei o que há para comer mas vou ter de sobreviver. Preciso de silêncio, isso eu sei. A partir daí, tudo começa a aparecer – naturalmente ou de forma construída.



O lado propriamente musical é quase apenas um suporte, um estímulo, para aquela quase "stream of consciousness" em que vais apanhando farrapos, fragmentos de canções com interpolações tuas pelo meio, não é?

Sim, evocação e invocação também para criar um estado favorável, uma alteração de consciência para que isso aconteça. Mas há momentos em que a voz e a guitarra são uma só coisa, não estou mais alerta para uma ou para outra. É isso que eu procuro. Mas é muito difícil estar sempre nesse estado.

Uma situação de concerto vai um bocado contra isso: naquele dia e aquela hora vais ter de convocar os espíritos...

Porque é um concerto, os espíritos já estão lá (risos), já sei que me vou confrontar com eles. Mas as coisas ainda estão excessivamente padronizadas: por que motivo se ouve música em auditórios com as cadeirinhas muito arrumadinhas umas ao pé das outras, não se pode fumar, não se pode beber, não se pode ritualizar. Preparo-me sem expectativas para o público porque eu também estou a assistir ao público.

Entre as suas várias utopias, o Agostinho da Silva sonhava com um modelo de universidade sem horários nem currículos que era apenas um lugar onde, quando nos apetecesse saber mais sobre História ou Matemática ou Geografia, estariam lá as pessoas que nos poderiam orientar...

Mas isso é genial, excelente!...

Onde queria chegar é que, em matéria de concertos, isso também se poderia aplicar, seria, talvez, a solução ideal: tu estavas em casa e, quando apetecesse a alguém ouvir-te, só precisava de te bater à porta, tu servias uns cafés e umas bebidas e, quando te apetecesse, pegavas na viola e cantavas...

Exactamente. Sabes que, aqui há uns anos, estive para pôr um anúncio nos classificados a dizer que a Lula Pena cantava ao domicílio. Mas, depois, fui desaconselhada de o fazer...

(2010)