09 November 2008

ACADEMIA DE POLÍCIA



Claro que interessa conhecer os motivos, as curvas e as contracurvas que conduziram uma aluna de violino da classe – na universidade de Boston – de um discípulo de David Oistrakh, a transformar-se em instrumentista e “songwriter” pop. Mas francamente mais intrigantes eram as razões para que Joan Wasser tivesse optado pelo “nom de plume” de Joan As Police Woman. Visivelmente esgotada por um carrossel de voos e entrevistas mas nem por isso com menos vontade de conversar, a ex-companheira de Jeff Buckley conta uma história que diz bastante acerca de si e do seu sentido de humor: “A meio dos anos 70, havia uma série policial de televisão, com a Angie Dickinson, chamada Police Woman. Passava-se em S. Francisco e ela desempenhava o papel de uma agente da polícia infiltrada. Creio que foi a primeira série do género a ter uma mulher como protagonista. Só a conheci quando passou em repetição mas cresci a ver séries policiais. Era muito 'cool'... também havia a Charlie’s Angels mas essa era demasiado 'fofinha', esta era mais como o Kojak. Quando comecei os espectáculos a solo com o meu nome verdadeiro, as pessoas supunham que iriam assistir a um concerto de violino, não sabiam que eu escrevia canções. Tive de inventar um nome para mim. Num dia em que tinha vestido qualquer coisa muito anos 70, um amigo disse-me ‘Joan, incorporaste o espírito da Angie, no Police Woman?’ E foi assim que me tornei Joan As Police Woman”.



O outro lado da biografia, então. Das aulas de piano, desde os seis anos, até aos dois álbuns a solo (Real Life, 2006, e To Survive, 2008), passando pelo percurso como violinista ao lado de Lou Reed, Sparklehorse, Tanya Donelly, Mary Timony, Antony e Rufus Wainwright: “Estudei violino clássico na universidade mas, ao mesmo tempo, comecei a tocar em todas as situações que ia descobrindo. Adoro a música clássica mas era, para mim, evidente que não iria fazer dela a minha vida. Queria tocar música nova e interessava-me mais tocar as peças que os professores da minha escola compunham. Quantas vezes será ainda possível tocar o concerto para violino de Brahms melhor do que já o foi? Eu não era uma criança prodígio, nunca seria capaz de o fazer”. O primeiro ensaio de autonomia estética foram bandas como os Lotus Eaters e Hot Trix mas, principalmente, os Dambuilders: “Gravei vários discos com eles e toquei por todo o lado. Não me passava pela cabeça escrever canções, o que me preocupava era descobrir uma forma de integrar o violino num contexto pop sem que soasse a falso”.



Alto! O que significa realmente isso de “integrar o violino num contexto pop sem soar a falso”? Será o retorno à escola de pensamento John Cale? “Isso mesmo. Procuro encaixar-me entre a guitarra e o baixo e tocar muito mais ritmicamente do que melodicamente. E também uso muito os pedais de distorção, delay, fuzz... No meu primeiro álbum, em “Christobel”, muita gente me veio dizer que adorava o solo de guitarra… na verdade, era o meu violino. Comecei por tocar um violino de cinco cordas que incluía o dó grave da viola de arco, gosto dos registos graves. Uma das piores formas de fazer sobressair o violino é abusar dos agudos”. Antes de prosseguir com a narrativa autobiográfica – e Joan recita-a, ordenada e cronologicamente arrumada, numa impecável “timeline” –, parece oportuno perguntar-lhe se sente alguma particular afinidade com outras recentes “songwriters” e instrumentistas de formação académica desviadas para a pop, como Shara Worden (My Brightest Diamond) ou Regina Spektor: “Conheço a Shara e falei uma vez com a Regina mas, a ela, não a conheço bem. No fundo, todas estudámos música e desejamos criar algo de nosso. Os conhecimentos que temos de harmonia permitem-nos ir além daquilo que é mais habitual no idioma da pop que, em grande medida, descende dos blues. Estamos bastante habituadas a lidar com 'clusters' de acordes, com alguma complexidade harmónica. Que diabo!...ter tocado Mahler aos catorze anos há-de, inevitavelmente, ter produzido algum efeito”.



Etapa seguinte. Ponto final nos Dambuilders e a difícil transição do papel de violinista para o de compositora e cantora: “Quando a banda acabou, isso despertou-me a vontade de explorar outras vias e comecei a tocar guitarra o que, naturalmente, me estimulou a cantar, precisava de ouvir melodias. Em palco, sentia-me muito confortável com o violino mas, sempre que tinha de cantar, ficava paralisada de terror! Não estava segura da minha voz, tinha medo de a usar. Mas a minha personalidade sempre me empurrou para me atirar àquelas coisas que me assustam, desde que me aperceba que posso aprender algo com isso. Escrevi, então, as primeiras canções e pus de pé uma banda, Black Beetle – os músicos que tocavam com o Jeff Buckley – em que, tanto o Michael Tighe, o guitarrista, como eu, estávamos a aprender a escrever canções. Gravámos um disco mas nunca o publicámos. Por volta de 2000, comecei a dar concertos a solo para me obrigar a ir mais longe vocalmente, sem a bengala de uma banda. Tinha tocado com imensos músicos espantosos e poderia continuar a fazê-lo durante o resto da vida mas a decisão de pôr a minha música em primeiro lugar estava tomada”. Dois álbuns, dois EP e meia dúzia de singles mais tarde, apetece saber quais os modelos e referências (se os há... mas há sempre, mesmo quando, voluntária ou involuntariamente, ocultos) que Joan Wasser, da academia para os palcos pop, sente que poderão ter sido lançados para o caldeirão da sua escrita.



Não hesita um segundo: “No que respeita à comunicação das emoções, adoro a Nina Simone. Cantou imensas canções que não eram dela mas, de cada vez que cantava, sentia-se que ela estava toda naquele momento e era impossível não partilharmos das suas emoções. E continuo a sonhar ser capaz de escrever uma canção como as do Neil Young. Mas também gosto muito do David Bowie e da Joni Mitchell... é uma lista interminável. De momento, não tenho ouvido mais nada senão Al Green. Há tempos, também tive uma recaída de Stevie Wonder: de cada vez que o ouvimos, descobrimos coisas novas, aquele universo continua vivo!”. Mas há ainda outro universo que continua vivo. E que regressa, radiante, à superfície sempre que lhe dão uma oportunidade para isso. Como aconteceu, no programa de música clássica, “Visionaries”, da BBC World News (segundo Joan, ainda não emitido), que a convidou para derramar louvores sobre o compositor russo Shostakovich: “Sempre falei muito acerca dele em entrevistas, é uma música que me emociona imenso. É muito programática, como acontece na música para cinema. Tem um carácter muito destemido: por vezes, é brutal, outras, soturna, e noutras ainda, alegre e vibrante. Também gosto muito de Sibelius, Bartók, Ravel, Britten, Stravinsky... iria ser outra lista sem fim. Todos os grandes são sempre verdadeiramente grandes!”.

(2008)

08 November 2008

UMA MODESTA PROPOSTA PARA PREVENIR  QUE, EM PORTUGAL, AS CRIANÇAS DOS POBRES SEJAM UM FARDO PARA OS PAIS OU PARA O PAÍS, E PARA AS TORNAR BENÉFICAS PARA A REPÚBLICA (ou o problema da Educação) *



1 - Encerramento imediato de todas as Escolas Superiores de Educação e Piagets afins e impedimento de exercício da actividade durante 20 anos aos elementos dos respectivos corpos docentes;

2 - Regresso da formação de professores às Universidades;

3 - Extinção tendencial (avaliada caso a caso) nos curricula universitários de todas as cadeiras de "ciências" da Educação;

4 - Reciclagem obrigatória, durante dois anos, nas Universidades, de todos os professores licenciados nos últimos quinze anos por ESEs e Piagets, para aquisição dos conhecimentos nas suas áreas de docência que, no período de "formação", lhes foram sonegados (naturalmente, uma vez que a responsabilidade da sua deficiente preparação é imputável ao Estado, deverão manter os respectivos salários e regalias);

5 - Provas nacionais de avaliação de conhecimentos nas respectivas áreas de docência para TODOS os professores, concebidas e realizadas nas Universidades: os resultados inferiores a 14 valores implicam reciclagem compulsiva nas Universidades ou (opção do professor) aposentação imediata.

* (título inspirado em Jonathan Swift; mas, nesta versão, com toda e qualquer partícula de ironia cirurgicamente extraída: é mesmo a sério)

(2008)

07 November 2008

MUDAR O MUNDO? *



Hector Zazou - Songs From The Cold Seas

"Se a música não serve para mudar o mundo, então serve para quê?" é a interrogação que coloca Hector Zazou no momento em que, após uma série de publicações, se aventura à transmutação das tradições dos mares gelados, ao mesmo tempo que trabalha numa nova instrumentação da Arte da Fuga, de Bach. Podíamos passar a pergunta a Laurie Anderson e ouvi-la responder que "a função da arte não é fazer do mundo um lugar mais justo mas apenas um lugar mais maravilhoso". O que, se não transforma radicalmente os termos do problema, pelo menos, desloca o centro de gravidade da ética para a estética. E, nessa circunstância, ajuda um pouco a responder ao que Zazou sugere: mesmo que não tendo outra utilidade (Oscar Wilde, recorde-se, ia bastante mais longe: "All art is quite useless"), contribui para determinar a visão que construímos do mundo. Isto é, a sua representação individual e subjectiva, em última análise, virtual.


Värttinä - "Emoni Ennen"

Assentemos os pés no chão: quantos cidadãos do planeta podem verdadeiramente afirmar que conhecem em profundidade a vida e a cultura da Sibéria, do Alasca, da Gronelândia, da Islândia, das ilhas Hébridas, da Suécia, da Finlândia, da ilha de Hokaido? Certamente, demasiado poucos para constituir sequer uma minoria significativa. Mas todos os que, de agora em diante, escutarem Songs From The Cold Seas passarão a ser capazes de imaginar uma atmosfera de sons e ambientes que circularão pelas vozes e instrumentos de Björk, Siouxsie, John Cale, as Värttinä, Jane Siberry, Suzanne Vega, Barbara Gogan, Balanescu Quartet e Harold Budd. De uns, sabemos quase tudo. Dos outros (e há muitos mais) aprenderemos que Lena Willemark é uma das maiores cantoras tradicionais suecas, que a gronelandesa Marina Schmidt se inspira em Bob Dylan e nos xâmanes de Tulé, que Lioudmila Khandi é uma voz espectral do norte da Sibéria, que Elisha Kilabouk e Koomook Nooveya praticam os cantos Inuit do Grande Norte canadiano, que Tokiko Kato interpreta canções da minoria ainu de Hokaido como uma Juliette Greco do Sol Nascente ou que Vimme Saari é um notável representante das melopeias "joiking", da Lapónia. Porque, de facto, nesta sua visão pessoal das canções dos mares frios, Hector Zazou repetiu o procedimento que, nas Nouvelles Polyphonies Corses e em Sahara Blue, tinha utilizado: recolher um determinado material "em bruto" e propô-lo como pretexto para a colaboração com uma infinidade de músicos das mais diversas origens. A saber, todos os anteriores e ainda Marc Ribot, B.J. Cole, Mark Isham, Renault Pion, Budgie (Banshees), Brendan Perry (Dead Can Dance), Sara Lee (ex-Gang Of Four), Catherine-Ann McPhee, Jerry Marotta, Lightwave, as Angelyn Titot e outros demasiado numerosos para referir exaustivamente.


Värttinä - "Yötulet"

Como surge, então, este cenário que supomos árido e glacial traduzido para a linguagem sonora contemporânea? A pergunta quase contém a resposta: se existem discos onde a intemporalidade e a mais absoluta modernidade se cruzam em perfeitíssimo exercício de geometria, Songs From The Cold Seas é, decerto, um deles. Poderia ser dissecado faixa por faixa mas o tríptico de abertura é suficiente para lhe identificar a direcção e o sentido: "Annukka Suaren Neito", com a energia vocal das Värttinä sobre um fervilhante tapete rítmico de electrónica e percussões (Budgie, Brendan Perry e as Angelyn Titot), a espessa distorção das guitarras e o grito do trompete de Mark Isham, cede, insensivelmente, o lugar a "Visur Vatnsenda-Rosu" onde a voz de Björk flutua liberta da gravidade, à superfície de uma imóvel melodia infinita, mergulhada na ondulação dos teclados de Zazou e do clarinete de Renault Pion. Em contraste, a seguir, "The Long Voyage - com música de Zazou e texto retirado do poema "Silhouettes", de Oscar Wilde -, apresenta-se como uma reafirmação do rumo da trajectória nas vozes de Suzanne Vega e John Cale, em plena ebulição rítmica no interior de um sonho: "Ocean is a voyage, a long, long voyage, going up, up, up". É o sinal para o prosseguimento desta expedição estética que se concluirá com uma ofegante "Song Of The Water" canadiana, depois do Balanescu Quartet se ter enleado nas cordas de um koto japonês sob a acrobacia do "yodel" de Lioudmila Khandi, de Catherine-Ann McPhee ter voado sob o piano imponderável de Harold Budd e de Siouxsie ter recitado palavras de Wilford Gibson enxertadas no tecido de um canto xamânico. E é também a revelação de um novo mundo definitivamente transfigurado a partir da sua matéria sonora, sempre disponível para todas as mutações.

* (não faço a menor ideia qual o motivo porque, em 1995, escrevi três textos acerca de Songs From The Cold Seas; como o anterior nem era particularmente brilhante, repesco, agora, este - poupo-vos ao terceiro)

(1995)

06 November 2008

SIMON & GARFUNKEL - "AMERICA" (1972)



(2008)
ANN NIXON COOPER:
WE HAVE COME SO FAR, WE HAVE SEEN SO MUCH



Ann Nixon Cooper (n. 9 de Janeiro, 1902, Shelbyville, Tennessee)

"This election had many firsts and many stories that will be told for generations. But one that's on my mind tonight is about a woman who cast her ballot in Atlanta. She's a lot like the millions of others who stood in line to make their voice heard in this election except for one thing - Ann Nixon Cooper is 106 years old. She was born just a generation past slavery; a time when there were no cars on the road or planes in the sky; when someone like her couldn't vote for two reasons - because she was a woman and because of the color of her skin. And tonight, I think about all that she's seen throughout her century in America - the heartache and the hope; the struggle and the progress; the times we were told that we can't, and the people who pressed on with that American creed: Yes we can.



At a time when women's voices were silenced and their hopes dismissed, she lived to see them stand up and speak out and reach for the ballot. Yes we can. When there was despair in the dust bowl and depression across the land, she saw a nation conquer fear itself with a New Deal, new jobs and a new sense of common purpose. Yes we can. When the bombs fell on our harbor and tyranny threatened the world, she was there to witness a generation rise to greatness and a democracy was saved. Yes we can. She was there for the buses in Montgomery, the hoses in Birmingham, a bridge in Selma, and a preacher from Atlanta who told a people that "We Shall Overcome". Yes we can.



A man touched down on the moon, a wall came down in Berlin, a world was connected by our own science and imagination. And this year, in this election, she touched her finger to a screen, and cast her vote, because after 106 years in America, through the best of times and the darkest of hours, she knows how America can change. Yes we can. America, we have come so far. We have seen so much. But there is so much more to do. So tonight, let us ask ourselves - if our children should live to see the next century; if my daughters should be so lucky to live as long as Ann Nixon Cooper, what change will they see? What progress will we have made?" (discurso de vitória de Barack Obama, Grant Park, Chicago)

(2008)
NAÇÕES UNIDAS


Trans-Global Underground - International Times

No quartel-general da Nation Records, sede de um trio tão essencial da música actual como os Loop Guru, Fun-Da-Mental e Trans-Global Underground, há uma espécie de mantra implícito que todos entoam em uníssono: "Existe, aí fora, um mundo inteiro cheio de sons. Ainda que nos possa parecer estranho, oiçamo-lo, usemo-lo e construamos a nossa música a partir desse planeta sonoro". Por isso, já lhes chamaram em conjunto "sampladelic troubadours". Mas se, de um modo geral, se referem obsessivamente a Brian Eno, às músicas árabes e orientais, a Steve Reich, La Monte Young, Can ou às técnicas de colagem de Robert Rauschenberg, os Trans-Global Underground preferem falar de si mesmos em termos menos transcendentes. Dizem simplesmente "We're the dirty underbelly of world fusion". Aliás, a própria designação da editora, Nation, deve ser lida em sentido lato, levando em devida consideração a ampliação do conceito que o título do primeiro álbum dos TGU propunha: Dream Of a 100 Nations. Assim mesmo: o sonho de uma rede sonora global, concretizando, em termos estéticos e musicais, o ideal de umas Nações Unidas onde, se existe tensão, ela se deverá resolver através do exercício de colisão criativa das diferenças.



Nesse disco que houve quem descrevesse como "um safari psíquico através do National Geographic Magazine", lado a lado e em sobreposição, coexistiam samples afro-indo-árabes, batidas de dança, assombrações de um universo virtual e, frequentemente, a voz simbolicamente judaica-árabe-belga-britânica de Natacha Atlas que fazia as suas interpretações descolar do solo e, em palco, ao caleidoscópio de um mundo em vertigem, acrescentava uma dança do ventre peculiar que tanto remetia para as mil e uma noites como para um terreiro de candomblé.



International Times, o segundo capítulo da saga TGU, é outra vez um remoínho de música de dança alojado no umbigo do planeta que atrai para si uma visão holográfica do mapa cultural: desmaterializado mas ainda tridimensional, eclético mas a denunciar a precisão de um conceito que a tudo impõe coerência, com um pé em cada cultura mas aspirando a uma universalidade para que o apelo rítmico serviria de livre trânsito. Como uma rosa dos ventos em rotação delirante sobre o código genético da espécie, transcrita em linguagem digital. De facto, enquanto mosaico eufórico de percussões magrebinas, guitarras eléctricas, ragga, rap, violinos egípcios, música de filmes indianos ou techno ambiental, a música dos TGU invoca um certo excesso metafórico. Mais exactamente, ela é esse mesmo excesso, colorido com uma "etnicidade" que a realidade não reconhece (se aqui existe alguma "etnia" é a do "melting pot" metropolitano) mas que faz todo o sentido em pleno contexto de contágio de eras, lugares e culturas. Se a música do universo real ainda não é esta, o seu espírito já começou a ser invadido. E é exactamente aí que se adivinha a imagem do mundo que vem a seguir.

(1994)
CITY GHOSTS (XIV)

Lisboa, Portugal, 2008















(2008)

04 November 2008

ELECT THIS CANDIDATE WITH
THUNDEROUS CERTITUDE
AND RIGHTEOUS RECTITUDE!




"On any other day, count me with the contrarians. Count me, on any other day, with the provocateurs, the losers, the indecent, the ironists, the elitists, the outsiders, the anti-populists, and with perverse gods of sarcasm and perpetual despair. But not today. Today I'm not a Momus but a person who stands together with the vast undifferentiated mass of people, not just in America but all over the world, who have a single, simple, fervent wish, hope and desire: that this man should become the next president of the United States of America. By some fluke, freak, or piece of incredibly lucky fortune, a good, intelligent, sane, enlightened, cosmopolitan and potentially great man has come to the fore in American politics, perhaps as much despite the system as because of it. All the evidence suggests that he will win this election, perhaps as much despite the conservatism of the American electorate as because of it. It feels wonderful, for once, to be so unoriginal, to be lost in this enormous planetary crowd and to share this crowd's wishes, its excitement, its probable coming delight. This, at last, is our prodigal moment, the moment when it all starts swinging back our way.



I'm not an American, though I do write for an American paper -- the American "paper of record", and the paper the Republicans despise more than any other. I don't have a vote in this election, but I certainly have a stake in its outcome, as does the entire world. At a crucial moment in history, the stakes could hardly be higher. Like everyone else I know, I like this man. I want this man to win a great victory, and return America -- as much as any single man can, with the will of the world behind him and the wind filling his sails -- to the place of honour and standing and decency it has so sadly and signally lost over the course of these last eight appalling, disgraceful, banal, toxic, tortuous, murderous and war-mongering years, years in which that exemplary Enlightenment document, the American Constitution, has been mocked, menaced and mangled. I say it without a trace of irony, a smidgen of decadence, or a whiff of doubt: Viva Barack Hussein Obama -- may the land truly slide for you today! Americans, do the right thing and elect this excellent candidate with thunderous certitude and righteous rectitude. And tomorrow, let a better era begin". (aqui)

(2008)
"LOVE ON ICE" - MOMUS

We're all cuddles and smiles
At the press photocall
Though you hate to touch me
And I couldn't love you at all
Because I'm not an ordinary guy
And you're not an ordinary girl
But that's how we have to appear now we're
The best in the world

And The Sun is uncharacteristically wise
When it captions the photograph
'Love on ice'
Love on ice



Jayne Torvill and Christopher Dean (1984)

One perfect couple on four perfect blades
We execute two perfect figures of eight
We accept the bouquets but we'd just like to say
Before these flowers wither like all accolades
I'm only doing this for Christopher
And you're only doing it for Jane

In the Radio Times and on breakfast TV
Our faces appear because young healthy faces
Are what the world's dying to see
In an advert promoting a diet
We skate to a halt and say 'Try it!'
But how could a straight have a figure or skate
Without my anxiety?
And the caption they use in the Radio Times
And over their products is
'Love on ice'
Love on ice

One perfect couple on four perfect blades
We execute two perfect figures of eight
We accept the bouquets but we'd just like to say
Before these flowers wither like all accolades
We want to come out of the closet
We'd give up the life of the stars
If Christopher wasn't our manager
And Jane didn't do our cocaine and our PR



Jayne Torvill and Christopher Dean (1984)

It began to go wrong
But the press wouldn't leave us alone
We lost to a couple of Soviets who skated like robots
And when we came home
The tabloids said I'd died of AIDS
And you'd set up camp with the Greenham Brigades
And the serious papers we offered our story said 'Sorry'
And slammed down the phone
But in City Limits they mentioned us twice
In a feature and letter they titled respectively
'Love on ice' and 'Gay love on Ice'

One perfect couple on four perfect blades
We execute two perfect figures of eight
But the ice is a mirror in which people see
Their nation and their sexuality
And now we've come out of the closet
No-one remembers our names
And Christopher isn't our manager
And we need the PR more than Jane needs our cocaine


(2008)

03 November 2008

O ESTETA NÓMADA



Hector Zazou & Swara - In The House Of Mirrors




Hector Zazou & Katie Jane Garside - Corps Electriques

Quando, a 8 de Setembro passado, Hector Zazou morreu, devorado, em meses, por uma neoplasia do sistema linfático, desapareceu muito mais do que um músico invulgar. Com ele, extinguiu-se também todo um universo sonoro particularíssimo que, se foi suficientemente celebrado na devida altura – à escala, naturalmente, de uma música que nunca viveu de cortejar multidões –, não se poderá exactamente afirmar que deixou descendência. Olhado de forma desatenta, poderia afirmar-se que se tratou apenas de um teórico-prático (e, não deixando de ser fertilmente prático, Zazou gostava, de facto, de teorizar intensamente) da “world music” encarada sob uma perspectiva intelectual, quase académica. Observado – e, sobretudo, escutado – mais de perto, no entanto, o que descobrimos é uma espécie de Brian Eno de raio planetário que, embora preferindo trabalhar sobre as diversas tradições musicais locais, não se restringia a elas e as encarava a todas essencialmente como matéria-prima sonora, pronta para ser reconfigurada, moldada e subtilmente desterritorializada.



Ajuda um pouco conhecer melhor a biografia de Zazou, aliás, Pierre Job, nascido na Argélia em 1948 e, no início da década de 60, emigrado com os pais “pieds-noirs” (mãe francesa, pai espanhol) para Marselha. Casa de partida, a meias com Joseph Racaille, nos muito beefheartianos e “soixant-huitards”, Barricades, rapidamente reconvertidos em ZNR, agora, alimentados a Satie e “krautrock”. Pausa para o regresso de Pierre Job, jornalista, chefe de redacção da “Actuel” dos anos 80, a revista dos tópicos “nouveaux et intéressants”, do novo cosmopolitismo nómada e do “futurismo primitivo”. É durante uma viagem pelo Congo e Zaire com o director; Jean-François Bizot, que Zazou, o músico, reemerge e, ao lado do zairense Bony Bikaye, percorre as primeiras etapas da sua aventura transcultural.



Ele que se descreveu como “uma árvore com as raízes espalhadas pelo mundo”, entre intervalos de neo-classicismo, prosseguiria com as Nouvelles Polyphonies Corses, Sahara Blue, Songs From The Cold Seas e Strong Currents, onde, em improvável mas surpreendentemente coerente coabitação, se reuniram John Cale, Gerard Depardieu, David Sylvian, Björk, Rimbaud, Laurie Anderson, Ryuichi Sakamoto, Lisa Germano, corais corsos, Khaled, Suzanne Vega, Harold Budd, Siouxsie Sioux, Bill Laswell, Jane Birkin, Sussan Deyhim, xâmanes do Ártico, Jon Hassel, Barbara Gogan, Manu Dibango, as Värttinä ou Lisa Gerrard. Mas, paralelamente e em simultâneo, estimulado pelo pensamento de Raymond Roussel, Deleuze e Derrida, colaboraria também com o físico e pintor Bernard Caillaud, produziria Sandy Dillon, a siberiana Sainkho, a tibetana Yungchen Lhamo, a uzbeque Sevara Nazarkhan, deixaria a meio – por divergências de rumo estético – um mítico “lost album” de Né Ladeiras, e seria escutado ao lado de Robert Fripp, Brian Eno e Peter Buck.


Katie Jane Garside

In The House Of Mirrors e Corps Electriques, os seus dois últimos álbuns (ambos de 2008), são a derradeira demonstração desse compulsivo nomadismo mental. No primeiro, colocou frente a frente instrumentistas virtuosos da Índia e do Uzbequistão (violino, alaúde, tambur), um violinista húngaro, o pianista de flamenco, Diego Amador, o gaiteiro e flautista galego, Carlos Nuñez e o trompetista norueguês, Nils Petter Molvær, e, de acordo com um programa ímplicito (“Ir ao coração do som, ver o tecido sonoro como através de um microscópio, apreender as notas por meio de um processo de ampliação de certos elementos: notas e ressonâncias formam vagas que obrigam o instrumentista a mergulhar para além da superfície da onda até ao interior do próprio som”) e uma piscadela de olho a The Lady From Shanghai, de Orson Welles, abriu generosos espaços para a respiração dos timbres e para a predominância de um espírito de austeridade estética – dir-se-ia que se limitou a propor a atmosfera acústica adequada –, só, aqui e ali, subtilmente desviada por quase indetectáveis “loops” de percussão, aguadas e “glitches” electrónicos que potenciam magnificamente o pretendido jogo de espelhos. Corps Electriques, de novo com Molvær e os fidelíssimos Lone Kent e Bill Rieflin, entrega o primeiro plano à voz de Katie Jane Garside, veterana “riot grrrl” (Daisy Chainsaw e Queen Adreena, com passagem pelos Test Department), performer e fotógrafa, que, aqui, inventa uma personagem extrema, entre Lydia Lunch e a Björk de Vespertine, numa sucessão de cenários distópicos próximos dos de Blade Runner, distorções e estridências, imponderabilidades inquietantes e inalações narcóticas de pós-trip hop. A perfeita despedida (dupla) de Zazou.

(2008)
A TEIA-FAIRPORT

Fairport Convention - What We Did In Our Holidays e Unhalfbricking

(What We Did In Our Holidays integral aqui)
 
Há discos cujas editoras, por superior imperativo legal transnacional, deveriam estar obrigadas a reeditar ao primeiro indício de desaparecimento no mercado. Os dois primeiros dos Fairport Convention (se descontarmos o ensaio “de aquecimento” de Fairport Convention, 1968, quando Judy Dyble – famosa por, em concerto, nas canções em que não intervinha, se sentar à boca de cena, a tricotar – ainda era a cantora do grupo) caem, de pleníssimo direito, nessa categoria: raras vezes na história da música popular contemporânea se reuniu numa única banda tão prodigiosa e fecunda semente de tanto do que viriam a ser algumas das mais notáveis trajectórias (individuais e colectivas) do último meio século. Não por acaso, em The Complete Rock Family Trees, de Pete Frame, publicado pela Omnibus Press em 1993, a gigantesca genealogia dos Fairports ocupa lugar de relevo. Dos Steeleye Span aos Fotheringay (cujo oculto e, até agora, ignorado segundo álbum acaba de ser exumado) ou The Bunch, às séries Morris On/Compleat Dancing Master, às diversas encarnações da Albion Band, às discografias de Sandy Denny e Richard Thompson (a solo e com Linda Thompson), à persistente carreira dos sobreviventes que, anualmente, desde 1977, se reúnem no Cropredy Festival, ou aos inúmeros pontos intermédios e outras dificilmente recenseáveis intersecções, a teia-Fairport é densa, intrincada e extraordinariamente rica.



E, afinal, em What We Did On Our Holidays e Unhalfbricking (ambos de 1969), não era impossível adivinhar que aquela banda na qual, aos 23 anos, Ashley Hutchings fazia o papel de ancião (Ian Matthews tinha 22, Sandy Denny, 21, Simon Nicol, 18, e Martin Lamble e Richard Thompson, 19) tinha digerido por completo a história do rock e da folk e, em versões de Dylan ou Joni Mitchell, em revisões de “tradicionais” ou em assombrosos temas originais – “Fotheringay”, “Autopsy”, “Meet On The Ledge”, “Who Knows Where The Time Goes”, “Genesis Hall” – estava madura para entrar de imediato nos compêndios. Faltava apenas Liege & Lief (ainda de 1969, annus mirabilis-Fairport), alegada pedra inaugural do folk-rock britânico – apesar de “A Sailor’s Life”, de Unhalfbricking, já o anunciar – para que a trilogia de ouro de uma discografia de infrequente prata se concluísse. Reedite-se assim que, de novo, se esgotem.

(2008)

02 November 2008

OLIVEIRA DA FIGUEIRA



"Eu imagino o ar entalado do ministro dos Negócios Estrangeiros, um homem civilizado e capaz, moderado e 'diplomata', no bom sentido da palavra, ao ver o que se estava a passar, ao ver o seu primeiro-ministro a fazer de vendedor de cobertores como se estivesse numa feira manhosa, promovendo o 'verdadeiro computador ibero-americano'. Sócrates, na pele de vendedor de uma empresa privada, a JP Sá Couto, que produz em regime de monopólio um computador que o Estado português 'compra', sem concurso público, em condições mal explicadas e mal esclarecidas, deu mais um passo num processo bizarro de envolvimento do Estado português como caixeiro-viajante de uma só empresa portuguesa. Imagino o que dirão as outras empresas do mesmo ramo, esmagadas perante esta competição desigual. (...)



Mas a história só piora cada dia. Ela está a degradar cada vez mais a nossa política externa, com momentos ridículos, pasto dos Gatos Fedorentos, tanto mais que se passam numa cimeira internacional. É penoso ver Sócrates a dar computadores, numa extensão do e-escolinhas, aos chefes de Estado ibero-americanos, perante o sorriso irónico da maioria dos chefes de Estado, que, ou aproveitavam a descontracção para ir ver o correio íntimo ou o site dos jornais da oposição dos seus países (quando ainda sobrevive a oposição), ou o puro desinteresse daqueles que não estão ali para ouvir aquelas brincadeiras um pouco inconvenientes. Sócrates nem sequer se apercebe, que, quando diz que o computador é resistente aos líquidos, pela cabeça daqueles adultos empedernidos, os líquidos que se imaginam não são propriamente nem água, nem leite, nem iogurte.



Mais. Sócrates obviamente nunca faria uma cena daquelas num conselho europeu, e nessa diferença está a rebaixar os seus anfitriões, como se estivesse ali a fazer de sr. Oliveira da Figueira, a trocar umas contas de vidro por ouro entre os tuaregues do deserto. Sócrates falava para os 'índios'. E os 'brancos' na reunião, como Zapatero, estavam noutra. Um desses índios, explicou ele, uma criança grande chamada Chávez, uma criança descuidada e desajeitada, até tinha atirado o 'Magalhães' ao chão para lhe gabar a resistência. E nem sequer passava pelo óraculo da televisão a mensagem de 'Não tentem repetir isto em casa'. Gostava de ver as criancinhas, perante o olhar horrorizado dos pais, a atirar o 'Magalhães' contra as paredes. Experimentem e mandem a conta a Chávez e a Sócrates.



Eu tinha vergonha de lá estar e ouvir um primeiro-ministro de Portugal a dizer que os seus assessores não precisavam de outro computador para trabalhar a não ser o 'Magalhães', concebido para as crianças do ensino básico, o que implica que devem passar o dia a soletrar a tabuada com carneirinhos e florzinhas a voar no ecrã. Deve ter sido assim que foi feito o Orçamento pelos assessores, a jogar ao 'peixinho' no 'Magalhães', até que uma 'mão invisível' saindo da sombra, certamente com um Dell ou um Sony Vayo ou um MacBook Air ou um qualquer computador muito a sério, lá escreveu a anónima alteração da lei do financiamento partidário. Essa não foi feita de certeza num 'Magalhães'. É que, se fosse verdade que os seus pobres assessores tivessem de laborar nos seus gabinetes de 'Magalhães' à frente, o que obviamente não é verdade, isso diria muito sobre o infantilismo de toda esta conversa. (...)" (José Pacheco Pereira - texto integral aqui)

(2008)
VAMOS TER TANTAS, MAS TANTAS
SAUDADES DA SARA PAULA...




"Republican vice-presidential candidate Sarah Palin has been taken in by a prank call from a Canadian comedian posing as French President Nicolas Sarkozy. Marc Antoine Audette invited her to hunt baby seals by helicopter, and told her she could make a good president. But she told him he would have to wait eight years".



"Republican Vice Presidential candidate Sarah Palin has become the victim of a prank phone call by a Canadian comedian posing as the French president. The man impersonating Mr Sarkozy, Marc Antoine Audette, explained to BBC 5live's Up All Night programme why he made the call".

(ouvir aqui)

(2008)