24 August 2010

THE GASLIGHT ANTHEM & BRUCE SPRINGSTEEN - "THE '59 SOUND"


Glastonbury 2009



Hyde Park 2009

(2010)

23 August 2010

22 August 2010

SANTÍSSIMA CRUZADA

Arcade Fire - The Suburbs

Garantem os relatos históricos que, quando, em 1087, Guilherme, o Conquistador, foi sepultado, em Caen, na abadia de Saint-Etienne, o seu corpo estava de tal forma obeso e inchado que, não cabendo no sarcófago que lhe havia sido destinado, o enorme esforço que foi necessário para aí o introduzir teve como pestilenta consequência o rebentamento do cadáver. Episódio assaz semelhante – por diversos motivos, como, adiante, se verá – ao primeiro falecimento do rock progressivo/sinfónico, pelo meio da década de 70 do século passado: não menos insuflada e pomposamente imperial, a música de todos os Yes, ELP, Pink Floyd, Barclay James Harvest ou Rick Wakeman da época só precisou de um apertão da canalha punk para conhecer destino tão pouco edificante quanto o do temível Guilherme. Mas, do mesmo modo que, com ele, aconteceu, apesar de defunto, a sua influência não se extinguiria facilmente: se, a partir do punk, a opção "less is more" determinaria, em boa medida, grande parte da produção das diversas sensibilidades indie/alternativas durante os períodos de 80 e 90, dos anos zero em diante, o apetite pela ênfase orquestral – já experimentado também, anteriormente, entre outros, pelos Echo & The Bunnymen, Tindersticks, Triffids ou Divine Comedy – regressaria e de forma particularmente voraz. Disciplinada, convenientemente emagrecida e esteticamente pertinente nos casos de Andrew Bird, Sufjan Stevens, St. Vincent, Noah & The Whale, Mumford & Sons, Grizzly Bear, My Brightest Diamond ou Fanfarlo (os ensinamentos históricos haviam sido devidamente digeridos através do filtro pop), porém, de novo, a escorregar para a grandiloquência messiânica com os Arcade Fire.


É muito difícil que uma educação mórmon não dê nisto (Jesca Hoop safou-se mas não é toda a gente que tem a sorte de poder ser "nanny" dos rebentos de Tom Waits): quem cresce a ouvir contar que Deus é de carne e osso e vive no planeta Kolob e que, se nos portarmos como Joseph Smith manda, iremos todos politeistamente procriar deusezinhos junto dele, só por acaso não dá consigo a proferir declarações portentosas e a imaginar-se o porta-voz iluminado de qualquer coisa. Win e William Butler foram à catequese dos Santos dos Últimos Dias e isso ajuda bastante a compreender o motivo por que hoje (ainda que não se afirmando como praticantes mórmons) continuam a fazer afirmações como "Os colégios internos, o exército e as igrejas são os únicos lugares onde as pessoas são obrigadas a permanecer em comunidade com gente que elas não escolheriam como companhia. Acho valiosa essa ideia de comunidade com pessoas com quem não temos nada em comum" ou “A Bíblia fala muito acerca do temor perante Deus. Esse é o tipo de medo que nos faz sentir o desejo de mudança”.


E também contribui utilmente para explicar as canções que os Arcade Fire interpretam: não há Grande Tema nem Interrogação Eterna que eles não se sintam tentados a abordar, preferencialmente naquele registo bombástico e monumental de quem galvaniza as tropas numa santíssima cruzada. Em The Suburbs, o alvo são os “kids” envenenados pela cultura-contemporânea-sem-alma-nem-coração que vegetam nos centros comerciais e que, mesmo sabendo que “the emperor wears no clothes, they bow down to him anyway”. O mundo está perdido, os subúrbios invadiram e devastaram a querida Mãe Natureza e, durante uma hora, qual sermão de proverbial tia velha, eles resmungam acerca de como (entrada para fanfarra sinfónica) “these days, my life I feel it has no purpose” e “tomorrow means nothing”. "City With No Children" assenta no riff de "Street Fighting Man", dos Stones, e, em "Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)", Régine Chassagne parece mesmo à beirinha de, a todo o momento, se poder transformar na Deborah Harry de "Heart Of Glass". São os dois melhores instantes do álbum.

(2010)

21 August 2010

ONDE RAY BRADBURY, TRÊS BLOGS (ESTE, O DE RUI TAVARES E "A ORIGEM DAS ESPÉCIES"), RACHEL BLOOM E UMA DIVINDADE FELINA SE ENCONTRAM


Rachel Bloom - "Fuck Me, Ray Bradbury" (daqui)




(2010)
O PENSAMENTO FILOSÓFICO PORTUGUÊS (LVI)

A tropa


O departamento de Estudos Étnicos e Crítica
Pós-Colonial no intervalo para o café

Já nos havíamos dado conta da vocação para a crítica de arte da bófia. É, por isso, menos surpreendente tomarmos conhecimento da existência de uma vibrante e convicta corrente de pensamento e crítica literária no interior da tropa:

"Um grupo de oficiais na reforma - entre os quais se conta o ex-chefe do Estado-Maior da Força Aérea, Morais da Silva - quer processar António Lobo Antunes por difamação e injúrias. Considerando-se insultados e ofendidos pelo 'chorrilho de infames mentiras' que o escritor usa sobre a guerra colonial, os militares - que cumpriram comissões de serviço em África - admitem mesmo dar 'um par de murros em público' ou 'ir ao focinho' do escritor que apelidam de 'bandalho' e de 'atrasado mental'". (no "Expresso" de hoje)

(2010)

VINTAGE (VII) 

The Clash - "London Calling"


(2010)

TRANSPIRAÇÃO



Bruce Springsteen & The E Street Band - London Calling/Live In Hyde Park (duplo DVD)

Steve Van Zandt está com um facies de peixe-balão e aquela pinta de fazer coagular o sangue do mais maligno Drácula que foi aperfeiçoando durante a sua vida paralela como Silvio Dante, nos “Sopranos”. Clarence Clemmons, o único saxofonista do mundo capaz de tocar com uma banda de rock sem que, do palco, comecem imediatamente a escorrer Amazonas de óleo, é um discreto (porém, contundente, quando necessário) faraó. Max Weinberg, após diversos anos à ilharga de Conan O’Brien, cada vez menos foge a ser visto como o atinado chefe de família, profissional de seguros, de dia, e baterista, à noite (mas, claro, com horários flexíveis).



E, se não existisse, Soozie Tyrell teria de ser inventada: não apenas porque o timbre do seu violino circula já na corrente sanguínea da E Street Band mas também pela não menos importante razão de que o seu glamour de loira cabeleireira suburbana é – na ausência de Patti Scialfa – o perfeitíssimo contraponto do bravo operário metalúrgico Springsteen, mouro de trabalho e jóia de rapaz que, mesmo já entrado nos sessenta, dá o litro como muitos de vinte não conseguem.



Perdoem-me se volto a citar Tiago Guillul mas, depois de três horas ininterruptas de concerto, em Hyde Park, com pôr-do-sol e tudo pelo meio, faltam-me as forças: “Sempre os mesmos acordes. Sempre os mesmos xilofones sentimentais. Sempre as mesmas capas péssimas em subtis variações de auto complacência. Sempre os mesmos optimismos insufláveis ianques. Sempre as mesmas queixinhas de classe média. Sempre a mesma coisa. Bruce Springsteen não sabe fazer maus discos". Este duplo DVD (um quase-greatest hits ao vivo) não só não é mau como é, deveras, óptimo. A intensidade pode ser, objectivamente, medida pelo alastrar das manchas de transpiração na camisa de Bruce: começam no segundo tema e, ao quinto, já está ensopada. E ainda faltam mais vinte e cinco.

(2010)

20 August 2010

PROGRAMAÇÃO DE VERÃO (II)



É oficial: o potencial de abertura histérica de telejornais e de lucros para as farmacêuticas do H1N1 está esgotado. Mas, como o "show" e o "business" não podem parar, já se perfila novo candidato pronto a substitui-lo: a temível bactéria NDM-1. Embora a estratégia de marketing pudesse ter sido melhor - NDM-1 presta-se, facilmente, a confusões com H1N1... - abram-se, pois, as apostas acerca de quanto tempo irá ser necessário até que a Organização Mundial de Saúde decrete a pandemia e as GlaxoSmithKline da vida apareçam com a vacinazinha redentora. E, educativamente, reponha-se a integral do label "H1N1".

(2010)
MARINA ABRAMOVIC - ROLE EXCHANGE



"In 1975, Marina Abramovic had been a professional artist for 10 years. On the evening of July 2 of that year, the artist exchanged places with Suze, a woman who was a professional prostitute for 10 years as well. Both took on each other's roles for four hours – Abramovic sat in the prostitute's display window in Amsterdam's red light district, while Suze stood in for Marina Abramovic at the opening of her exhibition at De Appel. Both of them bore full responsibility for their unusual four-hour occupation. Their experiences where registered by means of two Super 8 cameras (...)".



"Like many of Marina Abramovic' works, Role Exchange deals with the female body – in this case in relation to architecture, space and the extreme social contexts in which women operate. By adopting the role of prostitute, Abramovic places herself within a space defined by explicitly masculine criteria, in which women construct an identity or fantasy catered to men's desires. On the other hand, Suze, the prostitute, performs a role within another carefully constructed social context: the art world, where such an 'intrusion' from everyday life highlights an art space's particular rituals and power structures as well. In this way, Role Exchange emphasises and shifts our perceptions, categorisations and expectations of the social environment and asks the question of authenticity – pointing out that identity is constructed by performing within the social systems in which we find ourselves". (daqui; audio)


Em exibição, actualmente, no Museu de História de Amsterdão, integrado em The Hoerengracht.

(2010)

17 August 2010

ESFORCEMO-NOS, SIM



GNR - Retropolitana

Tudo pediria para colocar o teclado em piloto automático e deixá-lo escrever sozinho “oito anos após o último álbum de originais, Do Lado dos Cisnes, saúda-se o regresso dos GNR, com Retropolitana”. Tudo pediria mas não vale a pena incomodar-se a pedir. Porque, ainda que o percurso dos GNR, desde o brilhante trio de partida – Independança (1982), Defeitos Especiais (1984) e Os Homens Não Se Querem Bonitos (1985) –, tenha tido algum perfil de montanha russa, nunca, verdadeiramente, como neste disco se aproximou tanto do que se assemelha perigosamente a um plano inclinado final. Não traz felicidade nenhuma fazer profecias destas: poucas bandas se podem orgulhar de ter contribuído de modo tão decisivo para a gramática da pop lusa como o grupo de Rui Reininho, Toli César Machado e Jorge Romão (sem esquecer o génio de Alexandre Soares nos capítulos iniciais).



Dos textos de Reininho (escrevi e não me arrependo que, no último meio século, apenas Alexandre O’Neill e Caetano Veloso coreografaram a língua portuguesa como ele) à tradução da new wave e do pós-punk para o perímetro entre Minho e Guadiana, não foi, obviamente, por acidente que os novíssimos pop-rockers do eixo FlorCaveira/Amor Fúria incluíram os GNR no seu panteão de divindades tutelares. A pequena tragédia é que Retropolitana tem muito pouco ou quase nada que o redima. Musicalmente raso, naquele registo de preguiçosa modorra-FM desesperantemente resignada e previsível, o que ainda resta de aventureirismo descobre-se apenas numa ou noutra curva das palavras e, mesmo aí – embora Reininho esteja geneticamente impossibilitado de escrever uma má letra –, a considerável distância das gloriosas gincanas semânticas a que tão mal fomos habituados. Esforcemo-nos, então, por acreditar que não é ainda a descida final da montanha russa mas só aquela queda arrepiante antes da escalada seguinte.

(2010)
O VERDADEIRO CANDIDATO DOS PORTUGUESES SIMPLES QUE VIVEM EM MASSAMÁ E NÃO VIVEM EM CONDOMÍNIOS FECHADOS, QUE PASSAM FÉRIAS JUNTO AOS NORMAIS PORTUGUESES E NÃO PASSAM FÉRIAS EM HOTÉIS DE LUXO E DE CINCO ESTRELAS, ESTE HOMEM QUE VEM DO POVO E COMPREENDE O POVO... NÃO DEVERIA SER... O CANDIDATO ANTICAPITALISTA DA FRENTE PCP/BE?



(2010)
É VERDADE QUE O NATAL AINDA VEM LONGE
MAS NÃO SE PERDE NADA EM COMEÇAR JÁ A
PENSAR NUMAS PRENDINHAS PARA OS NOSSOS
AMIGOS E PARENTES DE MAIOR FÉ E DEVOÇÃO
















(mais sugestões interessantes aqui)

(2010)