17 April 2017

Arena - Brian Eno - Another Green World (real. Nicola Roberts, 2010)


"Quando a vida humana, ante quem a olhava, jazia miseravelmente por terra, oprimida por uma pesada religião, cuja cabeça, mostrando-se do alto dos céus, ameaçava os mortais com seu horrível aspecto, quem primeiro ousou levantar contra ela os olhos e resistir-lhe foi um grego [Epicuro], um grego que nem a fama dos deuses, nem os raios, nem o céu com seu ruído ameaçador, puderam dominar; antes mais lhe excitaram a coragem de espírito e o levaram a desejar ser o primeiro que forçasse as bem fechadas portas da natureza. Mas triunfou para além das flamejantes muralhas do mundo, percorreu com o pensamento e o espírito, o todo imenso, para voltar vitorioso e ensinar-nos o que não pode nascer e, finalmente, o poder limitado que tem cada coisa, e as leis que existem e o termo que firme e alto se nos apresenta. E assim, a religião é por sua vez derrubada e calcada aos pés, e a nós a vitória nos eleva até os céus. Temo, porém, que por acaso julgues que penetras em elementos ímpios de doutrina e te metes pela senda do crime. Pelo contrário: na maior parte das vezes foi exatamente a religião que produziu feitos criminosos e ímpios" (Lucrécio, De Rerum Natura)
Michael Chapman - "Falling From Grace"

15 April 2017

Cambada de mariquinhas!... Peregrino que é peregrino sofre, sangra e baba-se até à insolação final (durante a qual vai, de certeza, ver o solzinho a dançar)!!!... não há cá paneleirices de "Ai doem-me tanto as bolhas nos pezinhos... estou mesmo a precisar é de apoio psicológico, massagens e podologia"...
"(...) Na verdade, um homem como Trump não está nunca do 'lado certo', porque o seu único lado é a sua voz interior dentro da cabeça e, juro-vos, que é a última voz que desejaria ouvir. Infelizmente o mundo todo agora tem de a ouvir (...)" (JPP)
HAVERÁ NOTÍCIAS BOAS?


Quando, a 13 de Outubro passado, a Academia Sueca atribuiu a Bob Dylan o Nobel da literatura, foi necessário esperar quinze dias até que ele emitisse sinais de que tinha tido conhecimento da distinção e que, sim, estava disposto a aceitá-la (“Na verdade, algumas das minhas canções – 'Blind Willie McTell,' 'The Ballad of Hollis Brown,' 'Joey,' 'A Hard Rain,' 'Hurricane' e mais algumas – possuem, definitivamente, um valor Homérico”). E, se não lhe fosse muito incómodo, passaria por Estocolmo, a 10 de Dezembro, para o receber. Aconteceu, no entanto, que, por isto e por aquilo, acabou por não lhe dar jeito e, em seu lugar, enviou emissárias: Patti Smith (que meteu os pés pelas mãos em "A Hard Rain’s A-Gonna Fall") e Azita Raji, embaixadora dos EUA na Suécia, encarregada de ler o discurso de aceitação no qual, declarando-se “presente em espírito”, primeiro, confessava nunca ter sonhado que tal prémio poderia alguma vez ser-lhe entregue e, depois, estabelecia a comparação com Shakespeare que, como ele, em nenhum momento terá parado para se perguntar “se o que fazia era literatura”. 



Por essa altura, o poeta planetariamente homenageado (e vilipendiado) tinha acabado de publicar, sucessivamente, dois álbuns sem uma única sílaba sua mas integralmente dedicados à interpretação de clássicos do Great American Songbook: Shadows In The Night (2015) e Fallen Angels (2016). Poderia (ingenuamente) supor-se que, pós-Nobel, o supremo Zimmerman contemplaria a hipótese de legitimar os galões académicos, oferecendo ao mundo nova e indiscutível prova da sua excelência literária. Afinal, aquilo que nos caiu no regaço, na véspera do dia das mentiras – altura em que, por fim, aproveitando a circunstância de o concerto agendado para o Stockholm Waterfront Congress Centre lhe ficar em caminho, deu um pulinho a uma cerimónia privada, com a presença de doze membros da Academia, em que lhe foram entregues medalha e diploma (o cheque de 891 000 dólares só o recebe depois de dar uma palestra até Junho) – foi Triplicate, terceiro, quarto e quinto volumes da série iniciada com Shadows In The Night.



Bastava pensar um pouco: alguém imaginaria seriamente que Robert Allen Zimmerman - aliás, Bob Dylan, Elston Gunn, Tedham Porterhouse, Blind Boy Grunt, Robert Milkwood Thomas, Lucky Wilbury, Boo Wilbury, Sergei Petrov, Jack Frost e (em Pat Garrett & Billy the Kid)... Alias - aos 75 anos, deixaria de fazer exactamente aquilo que lhe apetecesse, quando lhe apetecesse e como lhe apetecesse? Tinha, além de mais, um óptimo pretexto: de modo muito semelhante ao que sucedera com o seu Self Portrait (1969) – quase unanimemente esquartejado pela crítica –, em 1980, Frank Sinatra (intérprete da maioria das canções de Shadows In The Night, Fallen Angels e Triplicate) publicara Trilogy: Past Present Future, que seria alvo de reivindicações de “retirada imediata do mercado” por parte de fãs desiludidos. Prestar-lhe-ia, pois, uma homenagem implícita: dividido em três painéis (´Till The Sun Goes Down”, “Devil Dolls” e “Comin’ Home Late”), Triplicate – explica Dylan, no seu site, em extensa entrevista a Bill Flanagan – “encena uma trajectória de vida que vai do tolamente absurdo ao profundamente sério, passando pelo ridículo e o grosseiro, e, chegando ao limite, interroga-se se não há notícias boas. Não deveria haver notícias boas?...”



Actuando como um prisma através do qual faz desfilar e ilumina o panteão do cancioneiro norte-americano, o mesmo Dylan que, em Love And Theft (publicado a 11 de Setembro de 2001), cantava “The future, for me, is already a thing of the past”, reestabelece elos quebrados (“Embora não parecesse, o rock’n’roll era uma extensão da música das big bands de swing que eu ouvia antes de descobrir Elvis Presley. Mas o rock era de alta energia, surgido das trevas, uma arma cromada perigosa que explodia à velocidade da luz”) e termina, pela mão de Kern e Hammerstein, perplexo: “What is the good of me by myself? Why was I born? Why am I living? What do I get? What am I giving? Why do I want a thing I daren't hope for? What can I hope for? I wish I knew”.