16 November 2008

PERDÃO E SALVAÇÃO



Micah P. Hinson - Micah P. Hinson & The Red Empire Orchestra



Micah P. Hinson - The Surrendering EP

Aos 19 anos, Micah P. Hinson estava na cadeia, dependente de tranquilizantes, a caminho da condição de “homeless”, sem um tostão e nenhum futuro. A sua “experiência-Mrs. Robinson” não poderia ter corrido pior: Melissa Berggren, uma ex-modelo da “Vogue” consideravelmente mais velha do que ele, apossara-se do seu coração imberbe, iniciara-o no abuso de comprimidos vários e, na ausência de fundos e de receitas médicas, daí à falsificação e ao desastre – com internamento psiquiátrico pelo meio – fora um pequeno trajecto. Oito anos mais tarde, em Dezembro de 2007, perante o público que o aplaudia na Union Chapel de Londres, Micah chamou a namorada, Ashley, ao palco, ajoelhou-se diante dela e pediu-a em casamento. Tudo isto poderia e deveria ser remetido para a categoria das coscuvilhices com que se entretém a imprensa “del corazón” se não tivesse muito (na verdade, se não tivesse tudo) a ver com as canções que Hinson escreve. Mais, muito mais do que a Laura, de Petrarca, ou a Beatriz, de Dante, mais até do que – para referir um exemplo próximo e de contornos idênticas – a Cassie, de David Berman (Silver Jews), Ashley não foi apenas musa inspiradora mas, sobretudo, anjo redentor.



A expressão bíblica não é excessiva: criado numa família cristã fundamentalista, na biografia (e na música) de Micah P. Hinson há feridas irremediavelmente abertas pelos demónios da culpa e do pecado (é ele mesmo quem fala de “salvation and forgiveness”) e pelo enfrentamento da figura do pai, professor na Abilene Christian University. Abilene, Texas: cem mil criaturas – 80% caucasianas –, 15% abaixo do limiar de pobreza, uma base da força aérea (o maior empregador local) e, aparentemente, a 17ª melhor cidade no sistema de ensino público norte-americano. Que não chegou, porém, para evitar que Micah, em poucos anos, estivesse inteiramente à altura de exceder largamente as condições que Sam Phillips, em 1954, impusera a Johnny Cash para aceitar gravá-lo: “Volta para casa, peca muito, e traz-me, depois, uma canção que valha a pena”. Hinson tinha (e continua a ter) uma figura de Elvis Costello pré-púbere mas, nas canções que escreve e na voz de sexagenário corroído pela nicotina, não há menos vida vivida do que nas de Cash ou Hank Williams.



E é exactamente aqui que se torna obrigatório desmontar o lugar-comum: “alt.country”, “americana”, “gothic-folk” são categorias a que a sua música, definitivamente, nunca se ajustará. No álbum de estreia, Micah P. Hinson & The Gospel Of Progress (2004), no seguinte, Micah P. Hinson & The Opera Circuit (2006), e no actual Micah P. Hinson & The Red Empire Orchestra (acrescido do EP de esboços e fragmentos, The Surrendering), se se adivinha a presença de alguns desses espectros, não só não são eles quem comanda as operações como o tempo e o lugar são irrelevantes. Porque também os de um Cohen mais rude, de um John Cale menos erudito ou (em particular, no último disco) do Scott Walker dos arrebatamentos orquestrais por aqui pairam. Não se procure nele o primeiro ou o último da interminável fila de novos candidatos a Townes Van Zandt com alma murcha de James Taylor. Micah P. é da estirpe dos maiores, dos duros e autênticos. E que, mesmo agora supostamente apaziguado, em equilíbrio instável sobre espirais de violino, frágeis valsas ébrias e incêndios de guitarra, continua sobressaltado por visões (“the flood came down to my knee and you were there drowning below”) e longe da beatitude (“I’m not afraid of the suffering or the pain, I’m just afraid of dying alone”).

(2008)

15 November 2008

MICAH P. HINSON & THE OPERA CIRCUIT


"Drift Off To Sleep"



"It's Been So Long"



"You're Only Lonely"

(2008)

14 November 2008

WANT BETTER SCHOOLS? HIRE BETTER TEACHERS
(Edward L. Glaeser, professor de Economia na Harvard University
e director do Rappaport Institute for Greater Boston)




"President-elect Barack Obama has declared that 'now is the time to finally meet our moral obligation - to provide every child a world-class education'. But how? Mindless increases in school spending will be an expensive fiasco that will generate more disillusionment than human capital. The clearest result from decades of education research is the importance of teacher quality. My colleague Tom Kane finds that students who are lucky enough to get a teacher in the top quarter of the teacher-quality distribution jump 10 percentile points in the student achievement distribution relative to children who end up with less able teachers. Improving teacher quality has about twice the impact on student outcomes as radically reducing class size. Just as the human capital of our citizens will determine the strength of our nation, the human capital of our teachers will determine the quality of our schools. The first step toward improving teacher quality is to attract more talented teachers. The second step is to improve teacher selection on the job, promoting the best and encouraging the worst to help society in some other way. (...)



The experience illustrates that it isn't easy to assess teacher quality with standard teaching credentials. If attracting a wave of good people into teaching is the first step, the second step is keeping the best teachers and redirecting the rest. Performance in the classroom is the best way to know if a teacher is a success. Teacher promotion and tenure needs to be based on clear performance measures, including student test scores. Perhaps teachers unions could start endorsing the use of test scores to evaluate their members and determine tenure. Even without formal performance metrics, principals are quite able to assess pedagogical talent. Several years ago, New York City School Chancellor Joel Klein championed a deal where principals received greatly enhanced authority in exchange for greater accountability. That sounds like a good deal for parents and children. Let the principals choose better-performing teachers and require the principals to leave if their school doesn't improve. Principals have inside knowledge. Like CEOs throughout our economy, they need to have the independent authority to use that knowledge.

This election marks a new beginning. Improving our schools may be the most important way that President-elect Obama can leave America stronger than he found it. He must avoid any small plans. America doesn't need an $18 billion Band-Aid. The country needs a massive education overhaul, and better teachers will be the most important element in that overhaul. Spending more and attracting able teachers is the best way to use resources to improve the human capital of our children and the future of our nation". (texto integral no Boston Globe)

(2008)

13 November 2008

EXPIAÇÃO



Micah P. Hinson - Micah P. Hinson & The Opera Circuit

Antepassado directo do “free folk” nas gavetinhas dos míopes profundos da catalogação, o “alt.country” é outro galho da mesma árvore folk/country (pelo menos, a fazer fé em Louis Armstrong que garantia que “all music is folk music, I ain’t never heard a horse sing”), no qual houve quem quisesse, à viva força, arrumar Micah P. Hinson, aquando da publicação, há dois anos, do seu primeiro e óptimo álbum, And The Gospel Of Progress.



Não era verdade, então, e ainda o é menos agora quando Micah P. Hinson And The Opera Circuit – de novo, criado na ressaca de outra temporada de dependência de “painkillers”, agora provocada por um acidente que atirou o “ex-con” de Abilene para uma cama de hospital – projecta tudo isso para aquela decadente e gloriosa equação Tom Waits meets Pogues meets Tindersticks meets Psychedelic Furs meets Lambchop, na qual, o universo rodopia à volta de meia dúzia de polcas debochadas, quartetos de cordas elegantemente cambaleantes, uivos de harmónica, trémolos de banjo, guitarra e bandolim, celebrações marítimas de vela enfunada, crescendos de guitarras panorâmicas e aquele género de festiva expiação da esquálida natureza do mundo em que não fica mal declarar, à sombra de um piano trôpego que já bebeu demais, “don’t leave me now, I must confess, haven’t been the worst, haven’t been the best, since you came, found the word ‘digress’ and made it a home”. E tudo isso é muito, muito belo.

(2006)
A LITTLE BIT CLOSER TO COLORBLIND



" (...) Not to put a sour note on the celebrations, but I can’t help wonder at what will happen to race relations in the US now. I suspect a lot of folks will feel that if a black man can be elected president, from a single parent household and with not a whole lot of connections and help, then why should other black folks deserve help and assistance? There may be a feeling that if Obama can do it, why can’t the rest of you out there pull yourselves up by your own bootstraps? There might be a feeling that, 'Hey, how can anyone claim that there is discrimination now? So why are we spending all this money to help folks?'



Well, the US is still largely a racist country that discriminates — that isn’t going to change in one night. But the election definitely does give one hope that most of the country can put that aside and inch a little bit closer to being colorblind. A friend who was going door to door for Obama in Pennsylvania, hitting the houses where the voters were undecided, got into discussions during which many of the white folks claimed to agree with Obama’s positions, but some, mysteriously, just couldn’t take the next step of saying they were going to vote for him. She, the volunteer, suspected it was race that might be holding them back, and carefully pressed them on that point. Some of them admitted that that’s what it was, whereupon she sometimes said, 'It’s OK to be racist [or something to that effect] but don’t you want to vote for what’s right for your country? You can still be racist and vote for a better life for yourselves'. Wow, don’t know if I could have pulled that line of reasoning out of a hat! No doubt about it, it’s a huge step that’s been taken. Gives one a little faith in human beings for a change". (post integral: David Byrne Journal)

(2008)

12 November 2008

TV GHOSTS (IV)















(2008)
MICAH P. HINSON & THE GOSPEL OF PROGRESS


"Don't You Forget"



"Stand In My Way"



"The Day Texas Sank To The Bottom Of The Sea"

(2008)

11 November 2008

S. MARTINHO? NÃO, CELEBRAÇÃO DO REI URSO!



Recordando e reforçando a defesa pagã do urso.

(2008)
QUASE UM REQUIEM



Micah P. Hinson - Micah P. Hinson & The Gospel Of Progress

Acorrem imediatamente à memória os melhores dos melhores: John Cale, Leonard Cohen, Johnny Cash, Townes Van Zandt. E, logo a seguir, alguns dos seus filhos dilectos: Tindersticks, Lambchop, Sparklehorse, David Berman. Micah P. Hinson é, realmente, um pouco de todos eles mas, nem de longe, num daqueles exercícios calculados de montagem de puzzles sonoros com as peças rigorosamente seleccionadas para lançar o anzol ao máximo público-alvo. Micah é a coisa a sério: um "ex-convict" de 23 anos, apanhado na armadilha de uma história de "love gone terribly wrong" com uma ex-modelo da "Vogue", consequentes receitas de sedativos falsificadas e outros ilícitos demasiado comprometedores. Fado.



E a tradução de tudo isso para um álbum que dá corpo ao milagre de não chafurdar no confessionalismo da desgraça: os textos são mínimos quando não apenas telegráficos (obsessões em "loop" como "it's all my fault", "there are things that I've said that don't mean a thing, anyway"), a música — não dar um átomo de crédito aos arquivadores preguiçosos que hão-de querer, à viva força, arrumá-lo na "alt.country", na "new folk" ou outras invenções adventícias — tão só as coordenadas de uma trajectória de inexorável queda em espiral ("At Last, Our Promises" faz pensar na asfixia de Music For A New Society), instantâneos de câmara para pequenas feridas de guitarra, piano, euphonium, acordeão, melódica, Hammond, mellotron, violoncelo ou flauta, valsas de espectros pálidos, amabilidades de salão um segundo antes do salto através da vidraça, fanfarras fatigadamente amargas, melodias circulares esvaídas. Quase um requiem. E belo como poucos.

(2004)
OH, AS SAUDADES!...



(2008)

10 November 2008

PIMBA CHIQUE

 

Madredeus & A Banda Cósmica - Metafonia

Quando Pedro Ayres de Magalhães inventou os Madredeus, os ingredientes conceptuais incluíam uma certa visão diluída de meia dúzia de estereótipos da “portugalidade” que costumam figurar nos folhetos turísticos (a melancolia indígena, a inevitável “saudade”, as sofridas mulheres de negro, o tremendo e épico mar e uma pitada de “folclorismo” urbano/rural sobre o pano de fundo de um “ersatz” do fado), concentravam-se num formato de ensemble acústico e, essencialmente, na voz de Teresa Salgueiro. Dando de barato que, de tal esquematismo concebido a régua e esquadro, dificilmente poderia resultar algo musicalmente muito interessante, é forçoso reconhecer que o que essa fórmula tinha para dar se esgotou nos dois primeiros álbuns, Os Dias da Madredeus (1987) e Existir (1990): cançonetas ligeiras e ingenuamente melodiosas, uma visão de Portugal retirada dos antigos livros da instrução primária e uma banda sonora que não incomodava nem os jantares pequeno-burgueses nem as recepções das embaixadas. O potencial “de mercado” era evidente, tanto entre fronteiras como, bem mais importante, “lá fora”. E o potencial concretizou-se e ampliou-se, mesmo que as publicações seguintes fossem já só uma penosa repetição da receita, esticada até às margens da “new age” menos potável. Com o abandono final de Teresa Salgueiro (restando, da formação original, apenas Pedro Ayres), a opção por uma dupla de cantoras e a inclusão de bateria, guitarra eléctrica, harpa e violino, o “produto Madredeus” afocinhou em plena indigência pimba-chique: a música é massacrantemente rudimentar (o que a longa duração da maioria das faixas ainda evidencia mais), os textos, confrangedores, dir-se-iam escritos por pré-adolescentes fraquinhos a Português (só dois exemplos: “Pedi uma muamba e já vou na segunda, se voltar a Luanda também tomo mais uma” e “Vozes em comoção, terra que não se faz, vozes que não se dão, não atingem a paz, tratam-se mal e sem razão, tornam mortal a situação”) e a Mariana Abrunheiro – uma belíssima intérprete que não merecia que lhe fizessem isto – e Rita Damásio pede-se apenas que mimetizem Teresa Salgueiro. O nadir absoluto.

(2008)

09 November 2008

CIDADES (VIII)

Amsterdão (Hortus Botanicus), Holanda, 2007















(2008)
ACADEMIA DE POLÍCIA



Claro que interessa conhecer os motivos, as curvas e as contracurvas que conduziram uma aluna de violino da classe – na universidade de Boston – de um discípulo de David Oistrakh, a transformar-se em instrumentista e “songwriter” pop. Mas francamente mais intrigantes eram as razões para que Joan Wasser tivesse optado pelo “nom de plume” de Joan As Police Woman. Visivelmente esgotada por um carrossel de voos e entrevistas mas nem por isso com menos vontade de conversar, a ex-companheira de Jeff Buckley conta uma história que diz bastante acerca de si e do seu sentido de humor: “A meio dos anos 70, havia uma série policial de televisão, com a Angie Dickinson, chamada Police Woman. Passava-se em S. Francisco e ela desempenhava o papel de uma agente da polícia infiltrada. Creio que foi a primeira série do género a ter uma mulher como protagonista. Só a conheci quando passou em repetição mas cresci a ver séries policiais. Era muito 'cool'... também havia a Charlie’s Angels mas essa era demasiado 'fofinha', esta era mais como o Kojak. Quando comecei os espectáculos a solo com o meu nome verdadeiro, as pessoas supunham que iriam assistir a um concerto de violino, não sabiam que eu escrevia canções. Tive de inventar um nome para mim. Num dia em que tinha vestido qualquer coisa muito anos 70, um amigo disse-me ‘Joan, incorporaste o espírito da Angie, no Police Woman?E foi assim que me tornei Joan As Police Woman”.



O outro lado da biografia, então. Das aulas de piano, desde os seis anos, até aos dois álbuns a solo (Real Life, 2006, e To Survive, 2008), passando pelo percurso como violinista ao lado de Lou Reed, Sparklehorse, Tanya Donelly, Mary Timony, Antony e Rufus Wainwright: “Estudei violino clássico na universidade mas, ao mesmo tempo, comecei a tocar em todas as situações que ia descobrindo. Adoro a música clássica mas era, para mim, evidente que não iria fazer dela a minha vida. Queria tocar música nova e interessava-me mais tocar as peças que os professores da minha escola compunham. Quantas vezes será ainda possível tocar o concerto para violino de Brahms melhor do que já o foi? Eu não era uma criança prodígio, nunca seria capaz de o fazer”. O primeiro ensaio de autonomia estética foram bandas como os Lotus Eaters e Hot Trix mas, principalmente, os Dambuilders: “Gravei vários discos com eles e toquei por todo o lado. Não me passava pela cabeça escrever canções, o que me preocupava era descobrir uma forma de integrar o violino num contexto pop sem que soasse a falso”.



Alto! O que significa realmente isso de “integrar o violino num contexto pop sem soar a falso”? Será o retorno à escola de pensamento John Cale? “Isso mesmo. Procuro encaixar-me entre a guitarra e o baixo e tocar muito mais ritmicamente do que melodicamente. E também uso muito os pedais de distorção, delay, fuzz... No meu primeiro álbum, em “Christobel”, muita gente me veio dizer que adorava o solo de guitarra… na verdade, era o meu violino. Comecei por tocar um violino de cinco cordas que incluía o dó grave da viola de arco, gosto dos registos graves. Uma das piores formas de fazer sobressair o violino é abusar dos agudos”. Antes de prosseguir com a narrativa autobiográfica – e Joan recita-a, ordenada e cronologicamente arrumada, numa impecável “timeline” –, parece oportuno perguntar-lhe se sente alguma particular afinidade com outras recentes “songwriters” e instrumentistas de formação académica desviadas para a pop, como Shara Worden (My Brightest Diamond) ou Regina Spektor: “Conheço a Shara e falei uma vez com a Regina mas, a ela, não a conheço bem. No fundo, todas estudámos música e desejamos criar algo de nosso. Os conhecimentos que temos de harmonia permitem-nos ir além daquilo que é mais habitual no idioma da pop que, em grande medida, descende dos blues. Estamos bastante habituadas a lidar com 'clusters' de acordes, com alguma complexidade harmónica. Que diabo!...ter tocado Mahler aos catorze anos há-de, inevitavelmente, ter produzido algum efeito”.



Etapa seguinte. Ponto final nos Dambuilders e a difícil transição do papel de violinista para o de compositora e cantora: “Quando a banda acabou, isso despertou-me a vontade de explorar outras vias e comecei a tocar guitarra o que, naturalmente, me estimulou a cantar, precisava de ouvir melodias. Em palco, sentia-me muito confortável com o violino mas, sempre que tinha de cantar, ficava paralisada de terror! Não estava segura da minha voz, tinha medo de a usar. Mas a minha personalidade sempre me empurrou para me atirar àquelas coisas que me assustam, desde que me aperceba que posso aprender algo com isso. Escrevi, então, as primeiras canções e pus de pé uma banda, Black Beetle – os músicos que tocavam com o Jeff Buckley – em que, tanto o Michael Tighe, o guitarrista, como eu, estávamos a aprender a escrever canções. Gravámos um disco mas nunca o publicámos. Por volta de 2000, comecei a dar concertos a solo para me obrigar a ir mais longe vocalmente, sem a bengala de uma banda. Tinha tocado com imensos músicos espantosos e poderia continuar a fazê-lo durante o resto da vida mas a decisão de pôr a minha música em primeiro lugar estava tomada”. Dois álbuns, dois EP e meia dúzia de singles mais tarde, apetece saber quais os modelos e referências (se os há... mas há sempre, mesmo quando, voluntária ou involuntariamente, ocultos) que Joan Wasser, da academia para os palcos pop, sente que poderão ter sido lançados para o caldeirão da sua escrita.



Não hesita um segundo: “No que respeita à comunicação das emoções, adoro a Nina Simone. Cantou imensas canções que não eram dela mas, de cada vez que cantava, sentia-se que ela estava toda naquele momento e era impossível não partilharmos das suas emoções. E continuo a sonhar ser capaz de escrever uma canção como as do Neil Young. Mas também gosto muito do David Bowie e da Joni Mitchell... é uma lista interminável. De momento, não tenho ouvido mais nada senão Al Green. Há tempos, também tive uma recaída de Stevie Wonder: de cada vez que o ouvimos, descobrimos coisas novas, aquele universo continua vivo!”. Mas há ainda outro universo que continua vivo. E que regressa, radiante, à superfície sempre que lhe dão uma oportunidade para isso. Como aconteceu, no programa de música clássica, “Visionaries”, da BBC World News (segundo Joan, ainda não emitido), que a convidou para derramar louvores sobre o compositor russo Shostakovich: “Sempre falei muito acerca dele em entrevistas, é uma música que me emociona imenso. É muito programática, como acontece na música para cinema. Tem um carácter muito destemido: por vezes, é brutal, outras, soturna, e noutras ainda, alegre e vibrante. Também gosto muito de Sibelius, Bartók, Ravel, Britten, Stravinsky... iria ser outra lista sem fim. Todos os grandes são sempre verdadeiramente grandes!”.

(2008)

08 November 2008

UMA MODESTA PROPOSTA PARA PREVENIR  QUE, EM PORTUGAL, AS CRIANÇAS DOS POBRES SEJAM UM FARDO PARA OS PAIS OU PARA O PAÍS, E PARA AS TORNAR BENÉFICAS PARA A REPÚBLICA (ou o problema da Educação) *



1 - Encerramento imediato de todas as Escolas Superiores de Educação e Piagets afins e impedimento de exercício da actividade durante 20 anos aos elementos dos respectivos corpos docentes;

2 - Regresso da formação de professores às Universidades;

3 - Extinção tendencial (avaliada caso a caso) nos curricula universitários de todas as cadeiras de "ciências" da Educação;

4 - Reciclagem obrigatória, durante dois anos, nas Universidades, de todos os professores licenciados nos últimos quinze anos por ESEs e Piagets, para aquisição dos conhecimentos nas suas áreas de docência que, no período de "formação", lhes foram sonegados (naturalmente, uma vez que a responsabilidade da sua deficiente preparação é imputável ao Estado, deverão manter os respectivos salários e regalias);

5 - Provas nacionais de avaliação de conhecimentos nas respectivas áreas de docência para TODOS os professores, concebidas e realizadas nas Universidades: os resultados inferiores a 14 valores implicam reciclagem compulsiva nas Universidades ou (opção do professor) aposentação imediata.

* (título inspirado em Jonathan Swift; mas, nesta versão, com toda e qualquer partícula de ironia cirurgicamente extraída: é mesmo a sério)

(2008)

07 November 2008

MUDAR O MUNDO? *



Hector Zazou - Songs From The Cold Seas

"Se a música não serve para mudar o mundo, então serve para quê?" é a interrogação que coloca Hector Zazou no momento em que, após uma série de publicações, se aventura à transmutação das tradições dos mares gelados, ao mesmo tempo que trabalha numa nova instrumentação da Arte da Fuga, de Bach. Podíamos passar a pergunta a Laurie Anderson e ouvi-la responder que "a função da arte não é fazer do mundo um lugar mais justo mas apenas um lugar mais maravilhoso". O que, se não transforma radicalmente os termos do problema, pelo menos, desloca o centro de gravidade da ética para a estética. E, nessa circunstância, ajuda um pouco a responder ao que Zazou sugere: mesmo que não tendo outra utilidade (Oscar Wilde, recorde-se, ia bastante mais longe: "All art is quite useless"), contribui para determinar a visão que construímos do mundo. Isto é, a sua representação individual e subjectiva, em última análise, virtual.


Värttinä - "Emoni Ennen"

Assentemos os pés no chão: quantos cidadãos do planeta podem verdadeiramente afirmar que conhecem em profundidade a vida e a cultura da Sibéria, do Alasca, da Gronelândia, da Islândia, das ilhas Hébridas, da Suécia, da Finlândia, da ilha de Hokaido? Certamente, demasiado poucos para constituir sequer uma minoria significativa. Mas todos os que, de agora em diante, escutarem Songs From The Cold Seas passarão a ser capazes de imaginar uma atmosfera de sons e ambientes que circularão pelas vozes e instrumentos de Björk, Siouxsie, John Cale, as Värttinä, Jane Siberry, Suzanne Vega, Barbara Gogan, Balanescu Quartet e Harold Budd. De uns, sabemos quase tudo. Dos outros (e há muitos mais) aprenderemos que Lena Willemark é uma das maiores cantoras tradicionais suecas, que a gronelandesa Marina Schmidt se inspira em Bob Dylan e nos xâmanes de Tulé, que Lioudmila Khandi é uma voz espectral do norte da Sibéria, que Elisha Kilabouk e Koomook Nooveya praticam os cantos Inuit do Grande Norte canadiano, que Tokiko Kato interpreta canções da minoria ainu de Hokaido como uma Juliette Greco do Sol Nascente ou que Vimme Saari é um notável representante das melopeias "joiking", da Lapónia. Porque, de facto, nesta sua visão pessoal das canções dos mares frios, Hector Zazou repetiu o procedimento que, nas Nouvelles Polyphonies Corses e em Sahara Blue, tinha utilizado: recolher um determinado material "em bruto" e propô-lo como pretexto para a colaboração com uma infinidade de músicos das mais diversas origens. A saber, todos os anteriores e ainda Marc Ribot, B.J. Cole, Mark Isham, Renault Pion, Budgie (Banshees), Brendan Perry (Dead Can Dance), Sara Lee (ex-Gang Of Four), Catherine-Ann McPhee, Jerry Marotta, Lightwave, as Angelyn Titot e outros demasiado numerosos para referir exaustivamente.


Värttinä - "Yötulet"

Como surge, então, este cenário que supomos árido e glacial traduzido para a linguagem sonora contemporânea? A pergunta quase contém a resposta: se existem discos onde a intemporalidade e a mais absoluta modernidade se cruzam em perfeitíssimo exercício de geometria, Songs From The Cold Seas é, decerto, um deles. Poderia ser dissecado faixa por faixa mas o tríptico de abertura é suficiente para lhe identificar a direcção e o sentido: "Annukka Suaren Neito", com a energia vocal das Värttinä sobre um fervilhante tapete rítmico de electrónica e percussões (Budgie, Brendan Perry e as Angelyn Titot), a espessa distorção das guitarras e o grito do trompete de Mark Isham, cede, insensivelmente, o lugar a "Visur Vatnsenda-Rosu" onde a voz de Björk flutua liberta da gravidade, à superfície de uma imóvel melodia infinita, mergulhada na ondulação dos teclados de Zazou e do clarinete de Renault Pion. Em contraste, a seguir, "The Long Voyage - com música de Zazou e texto retirado do poema "Silhouettes", de Oscar Wilde -, apresenta-se como uma reafirmação do rumo da trajectória nas vozes de Suzanne Vega e John Cale, em plena ebulição rítmica no interior de um sonho: "Ocean is a voyage, a long, long voyage, going up, up, up". É o sinal para o prosseguimento desta expedição estética que se concluirá com uma ofegante "Song Of The Water" canadiana, depois do Balanescu Quartet se ter enleado nas cordas de um koto japonês sob a acrobacia do "yodel" de Lioudmila Khandi, de Catherine-Ann McPhee ter voado sob o piano imponderável de Harold Budd e de Siouxsie ter recitado palavras de Wilford Gibson enxertadas no tecido de um canto xamânico. E é também a revelação de um novo mundo definitivamente transfigurado a partir da sua matéria sonora, sempre disponível para todas as mutações.

* (não faço a menor ideia qual o motivo porque, em 1995, escrevi três textos acerca de Songs From The Cold Seas; como o anterior nem era particularmente brilhante, repesco, agora, este - poupo-vos ao terceiro)

(1995)