Lower East Side Romani folk-punk-powerpack. Folk-punk rollercoaster. Ou, simplesmente, gypsy-punk. São as caracterizações mais frequentes para os Gogol Bordello, aquela banda multi-multi-multi-nacional (da origem, em 1999, até hoje: ucranianos, russos, israelitas, equatorianos, bielorussos, americanos, etíopes, romenos, sino-escoceses e tai-americanos) de que o ucraniano de raiz cigana, Eugene Hütz, foi montando as peças no Lower East Side de Nova Iorque. "Quando era miúdo, na Ucrânia, para ter acesso à música que procurava, tínha de apanhar o comboio para alguma floresta ou campo isolado, ou pelo menos para algum bairro suspeito onde todos os malucos se reuniam até que a polícia aparecesse", explicou Hutz ao "New Noise Magazine", sublinhando que"As três componentes essenciais – música cigana, punk e reggae – eram bastante evidentes e foram o que, na verdade, partilhámos". Desde a partida da Ucrânia para os EUA, em 1990, a ambição que, com os Gogol concretizaria, era"desafiar a noção pós-moderna de que tudo tinha já sido feito no que respeita à música. Queria trabalhar com os estilos mais modernos que tinha absorvido, juntamente com a música cigana da Ucrânia, Roménia, Hungria, Macedónia". (daqui; segue para aqui)
Os últimos concertos dos Gogol Bordello em Portugal tinham deixado crescer a suspeita que a infatigável máquina pagã produtora de ajuntamentos freneticamente orgiásticos tinha entrado em piloto automático e deixara de conhecer outros andamentos senão aqueles que, sem pausas, oscilavam apenas entre o febril e o histericamente apopléctico. Até Super Taranta (2007), esse registo funcionara sem falência sob a supervisão de produtores como Steve Albini e Jim Sclavunos mas parecia óbvio que era indispensável alterar algumas regras do jogo.
O serviço de reanimação dirigido por Rick Rubin, convocado de urgência, ter-se-à aplicado a fundo. A terapêutica, porém, sem atingir órgãos vitais, poderá ter reforçado alguma contaminação new-age (contraída, julga-se, no convívio com Madonna e agravada pelo misticismo tropical do Brasil, para onde Eugene Hütz foi viver) sem ter chegado a desencadear novos e revigorantes estímulos criativos. A situação é estacionária e o prognóstico mantém-se reservado.
(2010)
14 December 2009
SUPERNATURAL ORGASMO HYSTERIA
Gogol Bordello - Live From Axis Mundi (CD + DVD)
A implacável e incansavelmente excessiva máquina de música demente, a furiosa e delirante bacanália de palco que passou pelo Optimus Alive de 2008 e pela grande convenção freak de Sines de 2007 sob a forma dos Gogol Bordello, é possível dizê-lo agora sem nenhuma hipótese de errar, era pouco mais do que uma agremiação de meninos de coro convidada para o baile de finalistas de um internato de freiras. Podemos reavivar a memória desses dois momentos através do DVD Live From Axis Mundi que documenta as duas noites de tumultuosa orgia sonora e cénica, em Julho de 2007, no Fillmore de Irving Plaza, em Nova Iorque. São eles mesmos, tal como os conhecemos, em toda a sua gloriosa e desordenada magnificência.
Mas o que, realmente, ignorávamos, era tudo aquilo que se esconde nos extras do DVD, revelando uns Gogol Bordello (anteriores à consagração global e ao momento em que foram publicamente ungidos por Madonna) que fazem, definitivamente, jus ao seu nome: em palcos diminutos onde, por vezes, a distinção entre público e banda é problemática, Evgeny Aleksandrovitch Nikolaev Simonov, aliás, Eugene Hütz, e a sua trupe ébria de saltimbancos, acordeonistas, violinistas, percussionistas, acrobatas e "femmes-de-joie" contracenam com fornos de lenha acesos, apagam cigarros nos peitorais, mergulham sobre pinos de bowling e, generalizadamente, desencadeiam o que, num momento de inspiração, Hütz define como “supernatural orgasmo hysteria”. Um CD de sessões de rádio e os videoclips dos Bordello compõem o programa perfeito para uma consoada pagã.
(2009)
30 November 2008
"JÁ TENS SOTAQUE..."
The Pied Piper Of Hützovina (Eugene Hütz of Gogol Bordello) - DVD real. Pavla Fleischer
Pavla Fleischer, de câmara à mão, caminha por uma vereda do acampamento cigano de Muchacevo, em Uzhorod, na fronteira da Eslováquia com a Ucrânia, nos Cárpatos, e um homem pergunta-lhe de onde vem. “De Praga”, responde. “Leva-me contigo”. “Para onde?”, “Para Praga”. Pavla pergunta-lhe porquê. “Para trabalhar”. “Mas, agora, vivo em Londres, em Inglaterra”, diz-lhe ela. “Não faz mal, posso ir para Londres, tenho passaporte e tudo”. Não, não era uma cena de engate. Alguns passos à frente, Zita, uma miúda de sete ou oito anos, cola-se a Pavla, olha-a timidamente e fecha o rosto. “Estás triste?”, “Sim...”, acena Zita. “Porquê?”. “Eu sei”. “Sabes o quê?”, insiste Pavla. Perdidas ambas na tradução do russo/ucraniano para o romani, nunca chegaremos a saber o que toldou os belíssimos olhos negros de Zita. De partida para o outro acampamento cigano de Svaljava, Eugene Hütz irá dizer a Pavla: “Vivem num planeta dentro de outro planeta. Quando chegámos, ficaram entusiasmados porque alguém os tinha ido ver e se lembrara que existiam. São das pessoas mais magoadas que existem”.
Hütz, por entre crianças seminuas e adultos no último círculo da indigência, num espaço circunscrito por barracas com telhado de zinco e coisa nenhuma, tocara e dançara com eles, os herdeiros, orgulhosos mas derrotados, da cultura da sua avó cigana que, mais tarde, irá rever, nos subúrbios de Kiev, e de quem ouvirá as palavras carinhosas mas suavemente desiludidas “Ah... já tens sotaque americano”. Eugene Hütz, ucraniano de ascendência cigana, Casanova impenitente e estrela ascendente da trupe gypsy-punk transcultural novaiorquina, Gogol Bordello, aceitara o desafio de se deixar filmar por Pavla – um quase “one night-stand” (apaixonado e, inevitavelmente, abandonado) com vocação documentarista – e escolhera refazer o percurso de regresso às suas origens. Dos Cárpatos (onde a realidade quase o silenciou), seguiriam para Kiev, ao encontro do ortodoxo director do teatro cigano da capital da Ucrânia que, após meia dúzia de minutos de escuta da música dos Bordello, o invectivaria, violentamente, com todas as letras: “Isso é exactamente aquilo contra que combato, é aquilo que nos destrói”. Etapas seguintes: Moscovo e Chita, na Sibéria, em busca de Sasha Kolpakov, o herói musical de Eugene. Que o compreende, aceita e apoia. Exemplar local praticamente único. Como explicou Amin Maalouf, as “identidades assassinas”, por definição, matam.
(2008)
14 September 2007
“ÉTNICO” É O QUÊ?
Tomahawk - Anonymous
1) Geronimo, de Walter Hill (1993): aos 12’44”, quando os tenentes Charles B. Gatewood e Britton Davis se aprestam para, em nome do Exército dos EUA, aceitar a rendição do bravo guerreiro Apache, Geronimo, vêmo-lo irromper por trás de uma colina, majestoso, a cavalo, envolto pela música que Ry Cooder compôs para o filme. E que escutamos? Cantos guturais-bifónicos tradicionais de Tuva, na Sibéria, emoldurados por percussão e flauta supostamente índios. Mais tarde e durante o resto da narrativa, à imagem sonora do índio, colar-se-ão ainda, manipulações electrónicas diversas e, entre outros, o timbre de um alaúde chinês. Atentado à “autenticidade étnica” da orgulhosa cultura “native-American”? Nada de novo e, acima de tudo, nada que uma famosa formulação de Jerry Goldsmith – “what is ethnic is what Hollywood has made ethnic” – não chegue para legitimar. Mas onde, apesar de tudo, Cooder assinalava um desejo de ruptura com os velhos estereótipos da “film-music” que, durante décadas (socorrendo-se daquilo a que Michael Pisani chamou “uma caixa de ferramentas pronta-a-usar sempre que os compositors europeus do século XIX ou os compositors americanos de formação europeia pretenderam abordar o tópico Índio”), com poucas excepções, se haviam limitado a simbolizar o “outro/étnico/selvagem” através do sempre prestável batuque quaternário de serviço – “TUM-tum-tum-tum, TUM-tum-tum-tum” –, dos nativos da imaginária Skull Island, no King Kong original (1933), aos Maias de Apocalypto (2006), onde James Horner optou ainda por os caracterizar recorrendo à trombeta marina medieval e a um alargado arsenal de instrumentos tradicionais suecos, ugandeses, eslovacos, sírios e turcos assim como à voz de Rahat Nusrat Fateh Ali Khan.
A etnomusicologia (e as publicações dos inúmeros catálogos de world music) bem poderão ter remado contra a corrente mas música “asiática”, “árabe”, “medieval”, africana” ou as múltiplas variedades de música “índia” existentes, aos ouvidos de milhões de cinéfilos, tornaram-se no que, durante praticamente um século de cinema sonoro, “Hollywood decidiu que elas eram”.
2) No número de Julho/Agosto da revista “Songlines” (que, logo na página 7, nos informa que o cavaquinho é “um tipo de ukulele brasileiro”), trava-se uma intensa disputa estético/ideológica a propósito da atribuição do prémio de world music-2007 (secção norte-americana) da BBC-Radio 3 aos Gogol Bordello. Os argumentos de Garth Cartwright (contra) e Max Reinhardt (a favor) centram-se na decisiva questão da “autenticidade” cigana do “gypsy punk”, com o último a procurar explicar como tais arroubos de purismo conduzidos às suas naturais consequências, apagariam inevitavelmente da história quase toda a música popular do século XX. Eugene Hütz, esse, resmunga apenas que “passou anos a cuspir fogo contra a designação de ‘world music’”.
3) Anonymous, dos Tomahawk (designação de um machado índio, de vários modelos de aviões e mísseis e de uma das várias bandas e actividades paralelas – Fantômas, Mr. Bungle, Hemophiliac, John Zorn – do multivalente Mike Patton), resultou de uma “visita de estudo” do guitarrista Duane Denison por diversas reservas índias e complementar consulta de volumes de recolha e transcrição da música tradicional (do final do século XIX) das numerosas tribos nativas. Mas, como seria, talvez, inevitável (e, diria eu, desejável), não só a sequência destes treze temas de autor anónimo aspira a uma dimensão verdadeiramente cinemática como, apesar das precauções de “autenticidade”, Anonymous é, de facto, muito mais uma obra dos Tomahawk do que um cerimonioso exercício de mumificação etnográfica no qual os seus longínquos autores primordiais se devessem necessariamente reconhecer. Steeleye Span, Pogues, Hedningarna, Gogol Bordello... ou os Rolling Stones nunca fizeram, afinal, outra coisa. Razão pela qual se “War Song” é um fresco épico apocalipticamente encenado, “Mescal Rite 1” tem perfil de missa negra, “Mescal Rite 2” evoca irremediavelmente os Massive Attack (e “Red Fox” traz à memória Tricky em-pé-de-guerra), “Cradle Song” tem perfil de “lullabye” para berço forrado a estilhaços de vidro e “Sun Dance” é puríssimo Patton espasmódico, nada disso deverá servir como pretexto para apontar mais uma vez a metralha autenticista da “pureza original” profanada contra um belíssimo álbum que tem, aliás, o cuidado de se apresentar como “original arrangements inspired by Native-American material from the late 19th century”. (2007)
30 July 2007
O OUTRO GAJO NÃO FOI
Gogol Bordello - Super Taranta!
Kafka Whorehouse até não era nada mau. Mas, eufonicamente, não ia lá e, falhava bastante o alvo conceptual. Hütz & The Béla Bartóks também tinha potencial mas – como o seu criador rapidamente reconheceu – “ninguém sabe quem o caralho foi Béla Bartók". Gogol Bordello, sim, era tiro e queda: Nikolai Gogol (cultor da caricatura grotesca e absurda, responsável pela infiltração da literatura ucraniana no Ocidente) associado a uma certa, chamemos-lhe assim, “joie de vivre” (que, diga-se, Gogol nunca conheceu), era a perfeitíssima libação do vodka após a suave digestão do “borscht”. Hedonistamente excessivo e culturalmente exacto, na saga individual de um expatriado ucraniano de meia-origem cigana e dieta musical punk/no-wave – Eugene Hütz –, transplantado de Kiev para Nova Iorque, em 1989, após atribulada diáspora, por efeito-borboleta da catástrofe de Chernobyl. E o género de nome de banda que, sob as condições ideais de temperatura e pressão estéticas (leia-se: inventar o “gypsy-punk”), só pode ir muito longe. “Gypsy-punk”?
Isso mesmo: a proverbial energia dos três acordes (na verdade, são mais, às vezes, com Schubert pelo meio e tudo, mas parecem só três), montanhas-russas de violino e acordeão balcânicos, meia dúzia de vírus klezmer, tarantelas pagãs, morriconismos e dub crioulo, uma fixação simultânea em Iggy Pop e Charlie Chaplin, a matriz cigana à laia de esponja cultural nómada, a noção de concerto como um sísmico e mítico Moulin Rouge permanente, e a antiga ideia da “intervenção política” enquanto guia de viagem. Inevitavelmente, de tão festivamente contracorrente que era, o Lower East Side pegou fogo e uma das faúlhas perdidas convenceu Madonna a fazer subir Eugene e o violinista Sergey Ryabtzev (o ucraniano e um dos dois russos da trupe de israelitas, americanos, etíopes, sino-escoceses e tai-americanos) ao palco do Live Earth, na qualidade de seus acólitos. Nada de confusões, porém: nem Eugene Hütz é um Borat para intelectuais “alternativos” (e Borat/Baron Cohen até tem os neurónios bem lubrificados) nem os Gogol Bordello são apenas uma equação Pogues+Clash+Kusturica=?.
Aqui – do primeiro Voi-La Intruder (1999) ao magnífico Gypsy Punks/Underdog World Strike (2005) ou ao recentíssimo Super Taranta! – há óptima música ebriamente dionisíaca, leituras q.b. (de Diógenes a Foucault e Bertrand Russell), pedigree rock’n’roll na produção (Jim Sclavunos, Steve Albini e Victor Van Vugt) e, com a assinatura de Hütz, uma ou duas reflexões que vale a pena ler: “Para muitos de nós, a música é uma parte insubstituível da vida. Muitas vezes, ouvimos, durante anos, algumas pessoas falar de concertos que nunca lhes sairão da memória. Na mitologia cigana, tanto se diz que eles foram memoráveis porque o Demónio habitou aquela sala ou porque quem lá esteve foi o Outro Gajo" (“gajo”: termo etimologicamente cigano). Mas, acrescenta logo ele, “let’s not get too anthropological on your ass”. Com os Gogol Bordello, o Outro Gajo não foi de certeza. (2007)
28 July 2007
O BORDEL CIGANO
Quando esta entrevista teve lugar, os Gogol Bordello eram ainda só uma banda de culto responsável pela invenção de um género – o gypsy-punk, algo como um filho bastardo alucinadamente delirante dos Pogues com Kusturica – que, desde há vários anos, ateava meia dúzia de incêndios no Lower East Side de Nova Iorque. Acontece que, cerca de quinze dias depois, a 7 de Julho, no palco londrino do Live Earth, Madonna faria questão de apresentar como seus convidados especiais – numa versão dificilmente descritível de “La Isla Bonita” – “my Romani gipsy friends from Gogol Bordello, Eugene and Serge”. É bem provável que, a partir daí, a cotação da banda composta, entre vários outros, por um ucraniano, dois russos, um israelita e um californiano tenha subitamente disparado e que, no festival de Sines, possamos ser testemunhas de um dos seus primeiros passos na qualidade de estrelas planetárias. Mas Eugene Hütz – o porta-voz e vocalista ucraniano – prefere falar de política pura e dura.
Quando partiu de Kiev para Nova Iorque, já tinha experiência de tocar em bandas locais?
Na verdade, quando, em 1989, saí da Ucrânia, a banda de que fazia parte estava nas tabelas de vendas locais. Nem sei muito bem como fomos lá parar. Tocávamos uma música tipo “no-wave”, uma mistura de Brian Eno com Teenage Jesus & The Jerks.
Mas esse género de música era facilmente acessível na Ucrânia?
Claro que sim. No mercado negro, conseguia ter-se acesso a tudo. Nunca passava na rádio ou na televisão mas nós tínhamos os nossos contactos... (risos) Uma outra enorme influência foi um concerto que os Sonic Youth deram, em Kiev, em 1989. Foram eles que realmente me inspiraram a mudar-me para Nova Iorque. Depois do concerto, conversei durante uns minutos com eles nos bastidores, contaram-me que eram de Nova Iorque e eu percebi imediatamente que era para lá que tinha de ir. Os responsáveis por isso foram eles.
O chamado gypsy-punk em que se incluem decorre essencialmente de uma consciência muito séria da sua ascendência cigana ou foi também determinado por outros factores?
De ambas as coisas. É um híbrido que surgiu em consequência da minha própria experiência e de coisas que fui lendo e conhecendo. As três componentes essenciais – música cigana, punk e reggae – são bastante óbvias e são aquilo que, na verdade, partilhamos. Mas, para além dessas, há elementos da banda que têm outros interesses como a música sinfónica ou a do Astor Piazzola (é o caso do Yuri, o acordeonista), eu gosto de música electrónica... Por outro lado, o facto de uma parte da minha família ser de origem cigana tornou-se uma fonte de inspiração e conduziu-me a um certo ponto de vista filosófico acerca das coisas: que interessa ter nascido e sido criado na Ucrânia? Os Romani são uma cultura tão eternamente marginal que isso nos obriga a reflectir bastante sobre um grande conjunto de questões.
Mas esse ponto de vista filosófico diferente incidiu sobretudo em quê?
Especificamente – ainda que não faça ideia de como essa ideia surgiu –, sempre senti que, embora tivesse nascido na Ucrânia, na verdade, eu não pertencia aquele país. Quando atingi a maioridade (aquele momento em que, supostamente, nos tornamos cidadãos portadores de documentos de identificação civis e militares que nos atribuem uma responsabilidade), fiz a experiência do que era ser ucraniano. Quando vim para os EUA, essa experiência repetiu-se, agora com toda a papelada e burocracia estatal norte-americanas. Mas de uma coisa adquiri a certeza: no caso de uma qualquer guerra, nunca me irão encontrar de nenhum dos lados, nunca combaterei por país nenhum. Nunca irei disparar contra alguém que vista uma farda diferente.
Existe realmente uma comunidade cigana importante na Ucrânia? A verdade é que quando lá estive, no ano passado – claro que posso não ter prestado atenção –, pareceu-me haver muito mais em Portugal do que lá...
Sim, sempre existiu. Mas a maioria vive nos Cárpatos embora também existam muitos à volta do Mar Negro. Continuam a viver em comunidades, em pequenas aldeias, e é preciso dizer-se que são objecto de uma segregação que é bastante imposta. Aqueles que conseguem atingir um nível de vida mais desafogado tendem a deixar-se assimilar, a dissimular a sua origem e a não se fazer muito notados. Há, pelo menos, meio milhão de ciganos na Ucrânia. No final dos anos 90, diversas organizações animaram um movimento bastante vigoroso de defesa dos direitos cívicos da comunidade cigana, contra a brutalidade policial e em diversos outros campos. Neste aspecto, a Ucrânia está à frente da maioria dos outros países europeus de Leste.
Em Nova Iorque, relaciona-se também com outros músicos e bandas, fora do circuito gypsy-punk?
Antes de mais, criámos a nossa própria cena. Quando chegámos, as primeiras pessoas com que nos relacionámos eram gente do “underground” – como o Kid Congo Powers – ou que tinha tocado com os Cramps, os Bad Seeds, essa escola de bandas. Foi espantoso ter-me dado conta de como, no fundo, eu era um fruto daquela árvore. Embora tivesse crescido a uma enorme distância geográfica, mal começámos a tocar, todos eles foram aparecendo nos nossos concertos e o Jim Sclavunos (dos Bad Seeds) produziu mesmo o nosso primeiro disco. No espaço de um ano, estávamos já a tocar para salas de mil pessoas. Gradualmente, fomos atraíndo bastante gente que (também através das minhas sessões de DJing) ia descobrindo a música cigana e da Europa de Leste e, como todas as cenas precisam do seu CBGB’s, passámos a reunir-nos no “Bulgarian Bar”. Sempre que a Fanfare Ciocarlia ou o Taraf de Haïdouks vinham a Nova Iorque, era ali que, de um modo mais ou menos espontâneo, acabavam por ir parar e tocar. Depois disso, como todos os espectáculos no “Bulgarian Bar” davam sempre origem a festas explosivas, até outras bandas que não têm nada a ver com a nossa estética ou com a nossa cena – como os Interpol ou os Yeah Yeah Yeahs – começaram a aparecer por lá.
Depois disso, já voltou a tocar na Ucrânia ou noutros países de Leste?
Demos o nosso primeiro concerto, em Moscovo, há três meses. A reacção reflectiu um bocado a insegurança que ali se sente em relação aos próprios gostos: estão à espera que sejamos levados em ombros no Ocidente para, só então, nos aceitarem. Vivem paralisados por uma atitude seguidista em relação ao Ocidente. Do que realmente gostam é de dançar de calções à volta da piscina, como viram nos videoclips imbecis do Snoop Doggy Dog, é a ideia que agora fazem do que é ser feliz e “ter classe”. De um modo geral, até correu bem mas foi evidente que os russos irão ser sempre os últimos a reconhecer aquilo que é, basicamente, russo. (2007)