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12 November 2025

 
(sequência daqui) Coisas, supõe ele, como 'Achilles' (inspirada no trágico poema do poeta Patrick Shaw-Stewart e nos horrores da Primeira Guerra Mundial), a faixa-título que faz pensar em Randy Newman, 'The Last Time I Saw the Old Man', uma reflexão sobre a morte do pai de Hannon vertida numa melodia arrebatadora, ou 'The Man Who Turned Into A Chair' que adiciona uma pitada de humor ao já rico tempero. Neil Hannon (ou, se preferirem, The Divine Comedy) não apenas domina já os segredos da pop orquestral com secções de cordas luxuriantes que recordam Burt Bacharach ou John Barry como os aplica com destreza a qualquer tema. Por exemplo, a 'Mar-A-Lago By The Sea', inspirada no covil de Donald Trump: "Foi concebida para provocar uma sensação de náusea. imaginei-o preso na cela, morto de saudades da sua bela casa: 'Oh, como eu sinto a falta das festas de gala fascistas e das casas de banho douradas!'... Sonho com um tempo em que iremos esquecer tudo isto, mas a verdade é que está a ficar cada vez pior..."

10 November 2025

UMA TARDE DE DOMINGO CHUVOSA
Ser responsável pela banda sonora de Wonka (2023) - prequela de Willy Wonka & The Chocolate Factory (1971) - valeu a Neil Hannon não apenas a oportunidade de beneficiar do sucesso do filme mas, particularmente apetecível para ele, permitiu-lhe pisar o chão sagrado dos lendários estúdios de Abbey Road: "Como tinham um orçamento largamente generoso, pudemos trabalhar com excelentes músicos no estúdio Abbey Road Three durante o que nos pareceu uma eternidade. Sempre tinha sonhado que, antes de morrer, haveria de gravar um álbum que soasse assim tão bem ", confessou Hannon à "Clash". O título - Rainy Sunday Afternoon - sintetiza o espírito que terá presidido às operações: "Chamei-lhe Rainy Sunday Afternoon porque acho que não deveria ter um daqueles títulos pomposos e heróicos que costumo dar aos álbuns. Teria de ser algo mais simples, como o que atravessa a mente de alguém numa tarde de domingo chuvosa". (daqui; segue para aqui)
 

02 November 2022

02 April 2022

The Divine Comedy : Live in Paris at La Philharmonie, 11th February 2015

01 April 2022

 
(sequência daqui) Passaria também por Jacques Brel (“Ouvimos uma canção como ‘Jackie’ e pensamos ‘Que diabo! Isto é um filme condensado em três minutos e meio!’ Tentei escrever canções assim e, obviamente, falhei. Mas, ao falhar, cheguei a outros lugares que eram igualmente importantes”), Noel Coward, Bacharach/Hal David, Gershwin, Cole Porter e, avançando vertiginosamente no calendário, Jarvis Cocker (“Foi uma grande influência no que faço. Tinha alguma inveja de como a escrita dele era tão fantasticamente intensa. Não se alimentava dos lugares comuns habituais na composição de canções pop e era tão divertido como tenebroso”). Mas também pelo cinema e pela literatura: "The Booklovers" (de Promenade, 1994) inicia-se com um sample de Audrey Hepburn enquanto expedita e erudita livreira, no filme Funny Face (Stanley Donen, 1957) e prossegue com a enumeração de 73 autores literários; "Bernice Bobs Her Hair" é a transmutação pop de uma "short story" de F. Scott Fitzgerald; e "Lucy" (de Liberation, 1993) é um mil-folhas confeccionado a partir de três poemas de Wordsworth. “Naturalmente, sou uma espécie de pega, tanto em termos musicais como literários. Suponho que havia um certo fascínio nos livros que andava a ler e que não via reflectido na música que escutava, à excepção, talvez, do Morrissey, com os Smiths. E tive a sorte de nunca virem a correr atrás de mim por causa dos direitos de autor!” Mas há um método? Ao fim de três décadas, existe alguma espécie de modus operandi estabelecido? “Raramente escrevo com a intenção de construir um álbum. Eles apenas vão acontecendo. Às tantas, reparo que existe uma certa quantidade de canções que parecem convergir numa determinada atmosfera. Por isso, nunca penso em álbuns mas eles acabam por aparecer. É realmente incrível que eu ainda ande por cá. Mesmo com todas as bizarrias, a minha única intenção foi sempre apenas gravar discos pop”.

28 March 2022

"Bernice Bobs Her Hair" (de Liberation, na íntegra aqui)
 
(sequência daqui) Com os dois colegas em fuga à penúria, refugiou-se no sótão da casa dos pais no Ulster e escreveu, escreveu, escreveu, compôs, compôs, compôs (“Sofreram muito os meus país, sofreram mesmo”). Keith Cullen acabaria por contactá-lo e, perante a desconcertante pergunta “Então, vais fazer alguma coisa ou é para esquecer?”, atirou “Tenho o álbum aqui prontinho! É o novo Sgt. Pepper! Quando posso começar a gravá-lo?” Foi assim que, num estúdio baratucho de Londres, com um engenheiro de som acumulando com a função de baterista e Neil responsável por todos os outros instrumentos, surgiu Liberation: “O mais espantoso é ter havido algumas pessoas que o compraram. Os franceses, em especial, gostaram bastante dele. Já tínhamos um ponto de apoio nessa frente”. Seria por essa altura que começaria a compreender aquela que se tornou a sua regra de ouro: “Há apenas dois ingredientes indispensáveis para quem pretende criar música interessante: conhecimento e ignorância. O conhecimento é importante porque é necessário sentir que possuimos alguma coisa que desejamos transmitir. Mas a ignorância é, pelo menos tão importante porque, ao falhar na busca de uma certa sonoridade ou na imitação da nossa banda preferida, algo de original acontece nesse processo. Se tivéssemos a noção de quão pouco sabíamos no princípio, talvez nunca conseguíssemos reunir a coragem suficiente para sequer tentar”. Nesse percurso de imitação/aprendizagem, passou por Scott Walker (“Ele foi incrivelmente importante, embora isso nem sempre seja evidente na minha música. Foi quando me mudei pela primeira vez para Londres que vi, na televisão, ‘The Best of Scott Walker and the Walker Brothers’ e ouvi aquela voz... fiquei apanhado. Era o mais espantoso som que já tinha ouvido a sair da boca de alguém. No dia seguinte, fui comprar logo a cassete e escutei-a até ao vómito. Tudo nela abalroou o meu mundo”.
(segue para aqui)

26 March 2022

 
(sequência daqui) Entretanto, em versão mais utilitária, é publicado agora Charmed Life – The Best of Divine Comedy (duplo CD e triplo "deluxe" incluindo um “Super Extra Bonus Album” com 10 faixas inéditas, também com edição em vinil) que constitui o guião da actual digressão europeia. Como Neil Hannon, no seu site explica, a escolha do título do “best of” é apenas consequência do modo como os bons ventos o bafejaram: “Tive mais sorte do que a maioria. Tenho a oportunidade de cantar para as pessoas e elas quase sempre aplaudem. Tenho imensos cães – o definitivo padrão do sucesso. Por isso, quando me perguntaram qual iria ser o título do álbum, pensei em Charmed Life. Gosto da canção (de Absent Friends, 2004) e resume bem como me sinto em relação à minha vida. Por outro lado, pareceu-me apropriado regressar com um ‘greatest hits’, caso toda a gente se tivesse já esquecido de quem sou e do que faço”. Recapitulando, então, tudo começou pela proverbial banda de liceu “que tocava realmente muito mal. E eu também, não estou a por-me de fora. Mas tinha umas ideias acerca de como deveriam ser as canções”. Com dois colegas da escola gravou algumas "demos", uma das quais chegou às mãos de Keith Cullen, da Setanta Records. “O plano dele era contratar bandas irlandesas e trazê-las imediatamente para Londres. Assinámos logo mas mal sabia eu que teria ainda de penar quatro anos até conseguir pôr a cabeça de fora”. (segue para aqui)

24 March 2022

MATÉRIA PARA REVER

Vai ter mesmo de ser: fã dos Divine Comedy (ou de Neil Hannon, o que acaba por ser igual) digno desse nome deverá galopar até ao site do Barbican londrino e reservar bilhetes para os cinco dias de concertos, de 31 de Agosto a 4 de Setembro, nos quais a totalidade da discografia da banda (excepto o primeiro álbum, Fanfare For The Comic Muse, 1990, implacavelmente excomungado pelo autor – “Era apenas uma banda indie de guitarras a querer imitar os R.E.M., uma coisa lamentável”, dizia-nos ele em 1996 –, e o último, Office Politics , 2019, por ser “demasiado recente”) será executada, aos pares. Isto é, uma extensa maratona que, iniciando-se em Liberation/Promenade, continuará com Casanova/A Short Album About Love, Fin de Siècle/Regeneration, Absent Friends/Victory For The Comic Muse e chegará, enfim, à meta Bang Goes The Knighthood/Foreverland. Submetidos à designação geral “Venus, Cupid, Folly & Time” – inspirada no quadro homónimo do florentino Agnolo Bronzino, de 1545 –, também título da vitaminadíssima "box-set" de 24 CD que, em 2020, reuniu a integral dos Divine Comedy, serão a concretização do que, há 2 anos, deveria ter sido a celebração do 30º aniversário do grupo: “Por causa da pandemia, foi tudo remarcado para o ano passado e, quando nos aproximávamos da data prevista, compreendemos que teríamos de voltar a fazê-lo. Uma coisa parecida com o que acontece na escola quando, por algum motivo, um teste é adiado e pensamos: ‘Boa, vou ter tempo suficiente para fazer as revisões que não tinha feito’. E continuamos a não as fazer. Portanto, digamos que ainda há muita matéria para rever”. (segue para aqui)

04 June 2019

DOIS POLOS


Se Godard acha que “um 'travelling' é uma questão moral”, Neil Hannon garante que a sua ética "indie" permanece imaculada: “Continuo a pensar que o motivo por que usamos um determinado acorde não pode ser apenas o facto de ele soar bem”. Algo que é importante ter presente sempre que escutamos um álbum dos Divine Comedy, uma vez que, no seu singularíssimo género – “Funny tragic. It’s my own genre!” – duas forças se enfrentam: “De um lado, está o impulso para escrever a música que as pessoas gostam de ouvir: segura, familiar, inofensiva... do outro, a vontade de lhes oferecer a música que penso que elas deveriam ouvir: original, arriscada. É uma tensão entre dois polos: arte vs. humanidade ou, talvez, arte vs. populismo. Não tanto porque imagine que o populismo me tornará rico e famoso mas apenas porque, na minha forma de compor, há uma costela bastante populista e não tenho nenhum problema com ela”. Em Office Politics, o volumoso tomo de 16 capítulos que se segue ao belíssimo Foreverland (2016), esse confronto entre opostos começa logo no texto de apresentação que, sob a forma de um memorando, Neil Hannon, “Head of communications”, dirige a “all departments”.


Aí, após recordar que “Eu bem vos disse que, um dia, gravaria um álbum duplo!”, explica que contém sintetizadores e canções sobre sintetizadores mas (“não entrem em pànico”) “também guitarras, orquestras, acordeões, e canções sobre amor e ganância”, e apresenta as personagens que as habitam, reconhecendo, porém, que os protagonistas são as máquinas: “Máquinas que fazem isto e aquilo, máquinas que nos sufocam durante o sono. Talvez o combate entre instrumentos e géneros musicais seja um reflexo subconsciente deste conflito. Talvez este mundo cada vez mais louco me tenha levado a fugir para o universo da 'new wave' e do 'synthpop' da minha juventude. Ou talvez estivesse apenas aborrecido”. É, de facto, um variado buffet musical aquele que acolhe o "wit and wisdom" de Hannon: do rap de manual de instruções sobre as "electronic tonalities" de Forbidden Planet disciplinadas pelos Kraftwerk, ao funk de "gentleman’s club" ou à teatralidade bowieana, o espaço para receber Christine (“There was no stopping her taking a ride on the photocopier”), o pequeno safardana-de-escritório (“I jump the queue ‘cause I’m smarter than you”) ou Philip e Steve (aliás, Glass e Reich, profissionais novaiorquinos de transportes e mudanças, em delicioso labirinto de "phasing" vocal) não poderia ser mais convidativo.

18 September 2018

MALÍCIA


Foi já publicado há alguns meses mas, no caso, isso é absolutamente indiferente: qualquer disco dos Monochrome Set poderia ter sido gravado há 40 anos (quando Bid – "aka" Ganesh Seshadri – se reuniu com a primeira formação da banda de que, hoje, entre quase duas dezenas de baixas posteriores, é o único sobrevivente), anteontem ou algures no futuro. Complique-se um bocadinho: é tão legítimo vê-los na qualidade de herdeiros naturais dos Kinks como enquanto precursores dos Smiths, Blur, Pulp, Orange Juice ou Divine Comedy, estatuto que nenhum dos incluídos na lista repudia. Tão observadores implacáveis mas distanciados do “humano, demasiado humano”, quanto adeptos do ponto de vista de Marcel Duchamp que aconselhava a “nunca levar o mundo demasiado a sério sob pena de morrer de aborrecimento”, e exercendo a arte num inoxidável perímetro pop clássico, tiveram o seu instante de glória quando uma anónima votação "online" consagrou Strange Boutique (1980) como o 5 824º melhor álbum de sempre. Na última vez que tropecei neles – Platinum Coils (2012) –, Bid, num “musical sobre um internamento hospitalar”, divertia-se com a infinita comédia da mortalidade, a propósito da recente refrega com um aneurisma cerebral. Era também o momento em que, após 17 anos de hiato, a banda se reactivava e publicava um álbum não menos conceptual do que o actual Maisieworld



São eles mesmos que, agora, me poupam algum trabalho de o apresentar: Maisieworld é destilado a partir das flores pungentes da malícia artística e representa o apogeu da consumação sonora. Maisie, a vossa anfitriã, guiar-vos-á através de uma sucessão de canções que iluminam a natureza volátil, caprichosa e, essencialmente, instável dos Monochrome Set. Sereis cercados pelos ecos de uma era passada de perícia enquanto vos podereis recompor nestes esgotos sonoros onde as guitarras saltam como cimitarras ferrugentas (...). Vozes jocosas cantarão a vossa frágil natureza orgânica, os tristes sonhos e esperanças que alimentais (...). À saída de Maisieworld, sereis agradavelmente surpreendidos ao descobrir-vos repletos de pensamentos insólitos”. Acrescente-se que Maisie (na capa) é uma Barbie de bronze e o tema geral é algo como Dorian Gray num mundo de robôs, meio "vaudeville" vampiresco, meio "cyber-porn" de recorte espirituoso, excêntrico, absurdo e concebido por medida para um Gentlemen’s Club de frequentadores peculiares e adeptos de excitantes extravagâncias. Isto é, mais do que recomendável.