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21 September 2007

DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (IX)




CocoRosie - La Maison De Mon Rêve

É um daqueles típicos casos em que não se sabe se se há-de rir, se se há-de chorar ou, pura e simplesmente, ficar (um bocadinho) irritado. Mas o que se sabe de certeza é que a mais recente invenção do universo "indie/freak/alternativo" que, aparentemente, dá pelo nome de "new folk" ou "free folk" (seja lá isso o que for) não é senão a tradução contemporânea de algo que sempre teve o seu público: a estética do tolinho da aldeia, do suposto "idiot savant" que, quanto mais incoerente e apatetado, maior é o séquito de seguidores, presos de cada pérola que o "mestre", inadvertidamente, segrega. Na famigerada sequência de dementes com selo de aprovação "indie" como Daniel Johnston, Julian Cope ou Rocky Erickson, abre-se hoje um novo campo de acção que combina com rara felicidade a máxima incompetência do punk, o pataroco bucolismo hippie e o surrealismo tal como é praticado nos melhores hospitais psiquiátricos. Agora, em registo preferencialmente acústico, toscamente artesanal (deve dizer-se "lo-fi"), "poeticamente" infantil e "naïf".



Já conhecíamos Devendra Banhart, Puerto Muerto, anuncia-se Joanna Newsom, eis, então, as CocoRosie. Ou seja, as manas Bianca e Sierra Cassidy, americanas expatriadas na inevitável mansarda parisiense, entretidas a miar melodiazinhas de sol-e-dó (que, garantem-nos, se inspiram na vetusta tradição dos blues e do gospel), a tocar um ou dois acordes na guitarra, um fiozinho de sopro na flauta e a produzirem "bruitages" de fundo porque sim, porque é "cute". Não sei bem porquê mas também nos confessam coisas lindas como "all I want with my life is to be a housewife", "I once fell in love with you just because the sky turned from gray to blue" ou, quando lhes dá, digamos, para a elevação "intelectual", "every angel's terrible, said Freud and Rilke all the same, Rimbaud never paid them no mind, but Jimmi Morrison had his elevator angels". Yeah, right. Na capa elas dão beijinhos. Voltem Belle & Sebastian, tudo vos está perdoado. (2004)

06 September 2007

DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (VII)
(garanto por minha honra...)*


Puerto Muerto - Your Bloated Corpse Has Washed Ashore
 
 

Devendra Banhart - Oh Me Oh My The Way The Day Goes By The Sun Is Setting Dogs Are Dreaming Lovesongs Of The Christmas Spirit

Baú dos inclassificáveis. É exactamente aí que devem ser arrumados estes dois álbuns para os quais as categorias correntes não oferecem abrigo. Your Bloated Corpse Has Washed Ashore (note-se que, em ambos, tudo começa pela bizarria dos títulos) é uma colecção de canções de um duo de Chicago que grava música onde falar-se de "lo-fi" é um enorme eufemismo: para cassete "demo", o esquelético conceito sonoro não atinge sequer os mínimos olímpicos, as interpretações parecem as de um primeiro ensaio onde ninguém se conhecia ainda bem, o disco dá ideia de ter sido registado na sala ao lado com os microfones no corredor. Mas, depois, pelo meio daquilo tudo — e "aquilo tudo" é uma portentosa e caótica salada russa de ecos de Kurt Weill passados a ferro por Morricone, de Tom Waits num palco de sevilhanas, de Shane MacGowan interpretado por Maria Callas, de Yma Sumac depois da gripe a bordo da Band Of Holy Joy —, fica-se com a sensação de, se, lá no fundo, não haverá uma espécie de génio excêntrico que, com o tempo, eventualmente acabará por florir.
 

Génio excêntrico é justamente aquilo que Devendra Banhart também terá de provar ser se não decidirmos classificá-lo pura e simplesmente como uma fraude: "descoberto" por Michael Gira (ex-Swans) e por ele publicado na sua editora Young God, escreve e interpreta o género de (vá lá, sejamos generosos) canções que Syd Barrett escreveria... hoje. O álbum, cujo título é uma amostragem significativa do conteúdo poético geral, amontoado de farrapos desgarrados, dedilhados toscos de guitarra acústica, textos surrealistas de pré-primária interpretados na voz efeminada do Marc Bolan dos primeiros Tyrannossaurus Rex e lenga-lengas registadas num gravador de quatro pistas e no atendedor de chamadas, escuta-se entre o perplexo e o perdido de riso, deixando, por vezes, suspeitar se não se tratará apenas de um caso clínico a seguir.

* (... que nunca mais voltarei a vacilar, dando, inexplicavelmente, o benefício da dúvida)

(2002)