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29 April 2015

É tipo a cláusula-Clinton: 
 
(só um bocadinho mais a sério: e como se averigua a veracidade das respostas? e o "coito anal" - expressão maravilhosa - entre homens e mulheres heterossexuais mas badalhocamente promíscuos? e o coito como deusnossenhor manda entre homens e mulheres heterossexuais mas badalhocamente promíscuos? e - única qustão que importa - todo o sangue doado não é submetido a análise?...)

10 August 2012

Já se sabia que "o sexo na Alemanha comunista durava mais tempo e era melhor". Percebemos, agora, que só podia ser a justíssima compensação para o imenso aborrecimento de passar horas infindas a ouvir as conversas dos gabinetes ministeriais portugueses (que, não eram, seguramente a Sala Oval dos gloriosos tempos de Bill Clinton). Isto, claro, se insistirem em não atribuir importância à "Operação Legionella"...

17 January 2011

SEM PAU NEM GATO



















B Fachada - B Fachada É Pra Meninos

Dar música aos infantes sem ter de atirar o pau ao gato não é tarefa simples. E até pode gerar pequenos equívocos como o que surgiu à volta de "Puff The Magic Dragon", durante décadas – por mais que o seu autor, Peter Yarrow, jurasse que esse sucesso de Peter, Paul & Mary era absolutamente inocente e nada tinha a ver com o tipo de inalações que Bill Clinton também negou veementemente –, encarada como uma "drug-song" encapotada. Mas não é difícil entender-se que as melhores canções para miúdos são aquelas que, quando escutadas por gente mais crescida, contêm matéria suficientemente interessante para lubrificar dois ou três circuitos cerebrais. Nos últimos anos, houve, pelo menos, dois óptimos exemplos: The Tragic Treasury, de Stephin Merritt/versão-Gothic Archies (2006), um conjunto de "histórias de terror para crianças", repleto de educativos ensinamentos políticos ("Be vicious, vain and vile, everything's yours to steal if you'll just smile"), e Leave Your Sleep, de Natalie Merchant (2010), colecção de poemas musicados submetida ao lema “Girls and boys, come out to play, (...) leave you supper and leave your sleep, and come with your playfellows into the street”. B Fachada É Pra Meninos sintoniza a mesma onda e, em registo de Comelade-Playmobil (com baterias de plástico e tudo) que, só aparentemente, se desvia dos álbuns anteriores, alinha interpelações morais (“Porque é que o bom é melhor que o mau? Porque é que o mal é pior que o bem? Porque é que é certo ser cara de pau mas está mal ser filho da mãe?”), miminhos de avô sábio (“antes louco e malcriado que pensar só de emprestado”) e faz regressar o mítico João, sem balão, mas com mais pertinente aconselhamento: “Larga a sopa João, não comas mais, não dês ouvidos às mentiras dos teus pais”.

(2011)

27 March 2010

GLÓRIA A CASTANHEIRA! VIVA COELHO!
(último comunicado do M.A.C.A.)


Com o resultado alcançado ontem, nas directas do PSD, o candidato Castanheira de Barros castigou duramente os seus três oponentes: impediu Passos Coelho de atingir os 61.29%, Rangel de chegar aos 34.70% e Aguiar Branco de somar 3,84%. Salda-se, assim, por um histórico êxito a campanha do M.A.C.A. que, democraticamente, saúda o Coelho vencedor e recorda que foi, aqui, neste blog, que, há mais de um ano, a 2 de Fevereiro de 2009, sobre PPC - apesar de não ser o candidato que, após profundo debate ideológico, o M.A.C.A. viria a apoiar (note-se que, nem assim, o M.A.C.A. deixaria de ser o M.A.C.A.: passaria a designar-se por "Movimento de Apoio Coelho Avante!") -, foram vertidos os óleos que ungem os escolhidos ("prócere do Portugal do futuro, insígnia rutilante da social-democracia de amanhã" assim era, então, caracterizado) e, mais tarde, a 6 de Dezembro, comparado (favoravelmente) com o saudoso Bill Clinton.

É de salientar ainda todo o novo universo que, assim, se abre, igualmente, para a ciência política, que poderá, agora, recorrer a expressões como "Sócrates acena com uma cenoura a Coelho", "Pata de Coelho dá sorte ao PSD" ou "Num salto de Coelho, o PSD conquista a maioria absoluta". A maior celeridade nos processos judiciais e no funcionamento das comissões de inquérito, passará, entretanto, a designar-se por "dar uma à coelhinho".

(2010)

06 December 2009

COM UM BOCADINHO DE JEITO E SORTE,
AINDA VAMOS TER UNS TEMPOS DE FARTA GALHOFA
À PALA DESTE ESPLENDOROSO INTELECTUAL...

(ou as eternas saudades do governo-Santana Lopes)


Um escol único de gigantes intelectuais
(o senhor da canto inferior direito
é o injustamente ignorado Patinha Antão)


Depois da Fenomenologia do Ser, o sr. ex-Doce brinda-nos com o ponto de vista da dona Marlene da tabacaria acerca do "velho do Restelo" * e reactualiza brilhantemente o argumento-Clinton-"but I did not inhale", agora, na versão "fumei haxixe com uns amigos e, por acaso, só posteriormente percebi realmente o que tinha fumado". O que, facilmente, poderia ter sido também "fumei haxixe com uns amigos e, por acaso, só posteriormente percebi realmente que alguns deles me imaginavam como líder do PSD, LOL !..." (aqui)

* A dona Marlene (provavelmente, devido ao convívio frequente com as "Caras"/Lux"/"Nova Gente") tende a não reparar na passagem "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça desta vaidade a quem chamamos Fama!". Mas é uma santa senhora.

(2009)

29 March 2007

LAVORES FEMININOS


Quando o presidente Bill Clinton, interrogado pela Comissão de Inquérito, alegou que a natureza do convívio que tinha mantido com Monica Lewinsky não deveria ser enquadrada naquilo que habitualmente se considera como "relação sexual", terá havido quem pensasse que ele se estaria a referir a um ponto de vista muito particular do seu Arkansas de origem. Mas a verdade é que, se os seus conselheiros e advogados tivessem feito os trabalhos de casa com maior empenho e se tivessem dedicado a investigar profundamente a história da sexologia ocidental, poderiam tê-lo defendido de forma bastante mais convincente. Essa é, pelo menos, uma das conclusões que se pode retirar de The Technology Of Orgasm - Hysteria, The Vibrator And Women's Sexual Satisfaction (ed. The Johns Hopkins University Press/Baltimore & London), o livro que a académica norte-americana Rachel P. Maines publicou este ano e que (como o subtítulo indica) constitui uma exploração pioneira das formas ancestrais de tratamento da histeria e da relação entre isso e o aparecimento do electrodoméstico conhecido pelo nome de "vibrador".


Na realidade, Rachel P. Maines, no início, nem sonhava onde iria chegar. Concluida a licenciatura, em 1971, em culturas clássicas — com especialização em ciências e tecnologias antigas —, a sua veia feminista conduziu-a a um interesse pelas artes texteis femininas de que nunca ninguém, até aí, se ocupara a sério. Mas o que acabou por lhe chamar a atenção ao folhear as respeitáveis revistas americanas femininas do final do século passado e início deste — "Modern Priscilla", "Modern Women", "Home Needlework Journal" ou "Woman's Own Companion" — foram os inesperados anúncios publicitários de vibradores, bastante semelhantes aos que hoje, em publicações razoavelmente mais privadas, são oferecidos às senhoras como adereços masturbatórios.


Na altura, eram apresentados como "auxiliares de descontracção benéficos para a saúde" capazes de "fazer regressar o brilho aos olhos e a cor às faces mais pálidas" que podiam ser accionados electricamente, por meio de pedais ou de água. Como seria de prever, Rachel Maines desistiu rapidamente da sua investigação em torno dos "lavores femininos" e dedicou-se por inteiro a esse surpreendente tema que a levaria a descobrir muito mais do que, então, suspeitava. Nomeadamente que, desde a mais remota antiguidade, o tratamento cientificamente aprovado da "histeria" consistia em, por meio de massagens e outros tipos de manipulações, conduzir as mulheres ao "paroxismo histérico". Isto é, aquilo que muito simplesmente hoje todos conhecemos pelo nome de "orgasmo".


Era neste ponto que os conselheiros de Bill Clinton deveriam ter reparado: uma vez que (na perspectiva feminista de Rachel Maines), o ponto de vista masculino, "androcêntrico", só reconhece como "relação sexual" aquela em que existe penetração, desde a Grécia antiga ao puritano século XIX, nunca ninguém colocou qualquer objecção moral ao facto de médicos ou parteiras se entregarem a esse tipo de "massagens terapêuticas". A lista de argumentos e referências históricas é quase interminável. Se, já em 2000 a.C., no Egipto e, posteriormente, Hipócrates, Platão, Celsus, Soranus, Aretaeus Cappodox e Caelius Aurelianus descreviam explicitamente o quadro de sintomas da histeria e o seu "tratamento", seria, porém, Galeno (129-200 d.C.)— durante séculos "o médico dos médicos" — a estabelecer que "após o calor proporcionado pelos medicamentos e pelo toque dos orgãos genitais que o tratamento requer, seguir-se-ão contracções acompanhadas ao mesmo tempo por sensações de dor e prazer, depois das quais a mulher produzirá abundante esperma. Daí em diante, ela ficará livre do mal que a afligia". Avicena (980-1037), pelo seu lado, era ainda mais claro: "A cura apenas será eficaz se as sensações do coito forem experimentadas".



As pacientes mais atreitas à histeria eram, previsivelmente, as viúvas, as virgens mais fisicamente "vigorosas", as mulheres casadas sexualmente insatisfeitas e... as freiras. Para todas elas, "afectadas pela sufocação do útero através da retenção do esperma devido à ausência do companheiro masculino", já no século XV, Giovanni Matteo Ferrari da Gradi recomendava que "as parteiras sejam instruidas a untar os dedos com óleos aromáticos que deverão aplicar em movimentos circulares no interior da vulva", exactamente o mesmo tratamento defendido cem anos mais tarde por Lazare Rivière para a "Fúria Uterina, uma espécie de loucura com origem num veemente e descontrolado desejo de Abraço Carnal que perturba as Faculdades Racionais ao ponto de a paciente articular um discurso obsceno e lascivo" ou pelo médico judeu português Abraão Zacuto preocupado com os achaques das "fêmeas mais lúbricas e inclinadas para as paixões venéreas que não podem ser aliviadas senão pelos seus pais a quem se aconselha que lhes descubram um marido vigoroso". Um casamento bem consumado era, evidentemente, a melhor terapêutica mas, na impossibilidade de isso acontecer, embora "os médicos tementes a Deus" pudessem manifestar alguma relutância na execução do tratamento, deveriam considerá-lo aceitável no caso de mulheres em risco de vida por causa da histeria que, segundo Thomas Sydenham (1624-89), era responsável por "um sexto de todas as doenças humanas".



Os tratados médicos — com títulos tão saborosos como De Passione Hysterica Et Affectione Hypocondriaca, Onania, Traité Des Affections Vaporeuses Du Sexe ou Porneiopathology — dedicados ao que alguns também designavam como "histeria libidinosa" multiplicaram-se e, nos séculos XVII e XIX, com o aparecimento das técnicas de "magnetismo" e "hipnose" inventadas por Mesmer (1733-1815), a terapêutica assumiu outros contornos ligeiramente diferentes que, em 1841, Charles MacKay descrevia, um tanto intrigado: "As mulheres sentavam-se, em círculo, à volta de um recipiente de água magnetizada, de mãos dadas e com os joelhos que se tocavam. Os assistentes de magnetização, geralmente rapazes jovens, fortes e bonitos, abraçavam as pacientes pelos joelhos e massajavam-lhes os seios e o tronco enquanto as encaravam, olhos nos olhos. Algumas notas dispersas de harmónica ou de piano ou a voz melodiosa de uma cantora de ópera oculta eram os únicos sons presentes para além da respiração ofegante das magnetizadas. As mulheres começavam visivelmente a enrubescer até que, uma após outra, se lançavam em ataques convulsivos. Umas soluçavam e puxavam os cabelos, outras riam até as lágrimas lhes correrem pela cara, outras ainda gritavam, guinchavam e uivavam até perderem a consciência. Depois da crise, o próprio Mesmer entrava e acariciava-lhes o rosto, a espinha, os seios e o abdomen até que elas voltavam a si".



Tratava-se de "ciência", de "medicina", "tecnicamente" não havia coito (olá Bill Clinton), portanto, por mais duvidoso que parecesse, era socialmente aceite. Mas, apesar do que se poderia imaginar, os médicos não demonstravam um especial interesse em desempenhar esse tipo de missão. Os "tratamentos" eram morosos e excessivamente prolongados (muitas pacientes levavam demasiado tempo a ser "aliviadas") e os "clínicos" ansiavam por um "método terapêutico" mais rentável que lhes permitisse atender um maior número de doentes no menor tempo possível.


Daí que, quando as primeiras "electroterapêuticas" (inicialmente associadas aos "duches estimulantes" que, nas termas, conheceram também a maior popularidade entre as senhoras) dedicadas ao tratamento da "deficiência nervosa feminina" ou da "neurastenia" surgiram, tivessem sido acolhidas por todos — médicos e pacientes — de braços abertos. Indicado para "doenças uterinas" e destinado a executar "massagens na parte inferior do abdomen durante 10 a 15 minutos", a Butler Electro Massage Machine de 1888 foi um dos primeiros vibradores vocacionados para a utilização de "três quartos da população feminina" e outros como o Excitador Vulvo Uterino, o Mortimer Granville, o Chattanooga Vibrator, o Eléctrodo Vaginal ou o Vibrador Carpenter rapidamente se lhe juntaram e passaram a ser usados tanto por médicos como, em privado, pelas próprias mulheres, ou mesmo nos salões de beleza do início deste século onde eram especialmente apreciados devido "às sensações muito agradáveis e aos resultados quase instantâneos que produzem".



Quando o "National Home Journal" de 1908 publicitava o Bebout Vibrator através das palavras "suave, agradável, revigorante e refrescante, inventado por uma mulher que sabe aquilo de que as mulheres precisam" ninguém tinha dúvidas sobre o assunto a que ele se referia. Segundo Rachel Maines (que, acrecente-se, em virtude da publicação do seu primeiro trabalho sobre o tema em 1986, foi despedida da Clarckson University), foi, porém, nos anos 60 e 70 que, ao reaparecer totalmente desprovido dos seus disfarces "médicos" e abertamente comercializado, "a eficácia do vibrador na produção do orgasmo feminino se tornou o mais forte trunfo de vendas. O movimento feminista completou o que tinha começado com a introdução do vibrador electromecânico no lar: colocou nas mãos das mulheres a tarefa que mais ninguém queria". (2002)