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27 February 2021

VINTAGE (DLIX)

Nico & Marc Almond - "Your Kisses Burn"

"Nico was a mysterious figure, enigmatic with that great musical and artistic connection to The Velvet Underground and Warhol, which were things I was obsessed about at school. And of course that wonderful intriguing voice, icy and remote yet warm at the same time. She made a sound I’d never heard before - maybe some sort of a gothic punk Marlene Dietrich. The first time i heard her music was with The Velvet Underground, but I bought Desertshore, The Marble Index and The End and liked them more. There was also her musical association with Brian Eno, which made her more intriguing" (aqui)

18 May 2010

O FILHO DO BISPO ENCONTRA-SE BEM



The Divine Comedy - Bang Goes The Knighthood

Neste álbum, em "Can You Stand Upon One Leg", Neil Hannon sustenta, em falsetto, um sol durante exactamente 28.9 segundos. "Neapolitan Girl", num registo quase-National Geographic, aborda o tema da, alegadamente, mais antiga profissão do mundo e a canção-título desenvolve-o em variante BDSM. Em "At The Indie Disco", num total de vinte e um versos, consegue alojar referências aos Cure, Morrissey, Soft Cell, Blur, New Order, My Bloody Valentine, Pixies, Stone Roses e Wannadies (e, nas imagens do respectivo videoclip, adicionem-lhe duas ou três vezes isso). "I Like" opta pelo estilo de versejar de que “I like the way you make me laugh, I like your brain both left and right half, I like the songs you sing when you’re bathing, I like the dog when he’s behaving” é um exemplo esclarecedor e, se googlarmos a frase “maybe this recession is a blessing in disguise” (de "The Complete Banker"), descobriremos que ela apareceu em dezenas de artigos sobre o último fim do mundo tal como o conhecemos. Na capa, de chapéu de coco, cachimbo, papillon e cálice na mão, Hannon, na banheira, toma um banho de espuma acompanhado pelo tal cão que, às vezes, se porta bem (o que, na circunstância, até parece ser o caso). Será que o filho do bispo de Clogher ensandeceu? Não necessariamente. Mais importante do que isso: de tão destrambelhado cocktail, resulta alguma coisa com a qual valha a pena perder tempo? Resulta, sim.



Coloquemos, então, a questão segundo um ponto de vista darwiniano: na origem das espécies-pop por meio da selecção natural, Neil Hannon foi o Paul McCartney que correu bem. Ambos têm o mesmo ouvido abençoado para detectar uma boa melodia à distância e não a deixar escapar, mas se, seis em cada dez vezes, McCartney a converte em xarope de melaço, Hannon poderá não construir nenhuma catedral de Chartres a partir dela mas também nunca a obrigará a passar vergonhas. O ex-Beatle tem armários atravancados de "Ob-la-di Ob-la-das" e "All Together Nows" mas, nas prateleiras do nano-irlandês, o pior que se descobre é Frank Lampard escondido atrás de uma rima de "The Lost Art Of Conversation". Um, após enviuvar da banda-mãe, imaginou-se o elo perdido entre a tradição sinfónica clássica e o pub da esquina, o outro nunca sonhou mais alto nem mais baixo do que com Scott Walker (e, vá lá, Jacques Brel, Chekhov, Scott Fitzgerald e o festival da Eurovisão).



É por isso que embora, de Promenade a Casanova ou Fin de Siècle, se possam degustar iguarias músico-literárias de finíssimo paladar, caso se tropece num qualquer Bang Goes The Knighthood ou Victory For The Comic Muse (o último, de 2006), poderemos não ter mesa de banquete real garantida mas nunca haverá motivo para receios de desastre irremediável. À nossa espera, estarão sempre um "Down In The Street Below" ou "When A Man Cries" de recorte impecavelmente clássico e (lá está) walkeriano, outro "Have You Ever Been In Love" a seguir o caminho das pedrinhas lançadas por Burt Bacharach, o perverso "jeu de massacre" em vestes de valse-musette de "Bang Goes The Knighthood" ou o sarcástico exercício de investigação sociológica vaudevillizada em "Assume The Perpendicular", para compensar das duas ou três ligeirezas frívolas com que o seriíssimo cavalheiro que faz questão de nos recomendar Graham Greene, Paolo Conte, a Penguin Café Orchestra, as esculturas de Botero ou a série Cosmos, de Carl Sagan, por vezes, insiste em se divertir. Tranquilizai-vos, nada a temer: não há sequer aqui a vaga sombra de um "We All Stand Together".

(2010)

18 January 2010

MUSICAL ULTRA-CAMP



The Irrepressibles - Mirror, Mirror

De acordo com o que apregoa o manifesto, os Irrepressibles movem-se "na terra de ninguém do nosso rescaldo cultural capitalista pós-moderno, brincando com as cinzas, chorando a sua ruína", "o seu nome é um apelo às armas", "não desejam jogos estafados, por isso, irritam-se e inventam novos". É uma maneira de dizer. Porque, ouvido Mirror, Mirror, o que o contratenor Jamie McDermott e a sua orquestra de câmara de cordas e sopros têm para oferecer é um histérico teatro musical de ultra-"camp" barroco em que, mesmo condescendendo em não lhe pronunciar o estado de rigor mortis, não se descobre muito mais de tudo aquilo que, do Bowie "glam" aos Roxy Music-versão-plumas-e-lantejoulas, às tragédiazinhas "kitsch" de Marc Almond, ao "grand-guignol" dos Parenthetical Girls ou ao romantismo murcho e lacrimoso de Antony Hegarty (cujo timbre, em balidos de soprano ovino, McDermott reproduz com assinalável e aborrecida fidelidade) – com três ou quatro contribuições do gerador automático de arranjos de que a Philip Glass Inc. registou, há muito, a patente –, a história da pop mais cenograficamente excessiva não tenha já conhecido, arquivado e, em casos como este, muito merecidamente esquecido.

(2010)

04 August 2009

NEIL HANNON PARA O CLUBE DISNEY



Patrick Wolf - The Bachelor

Patrick Wolf é um Elton John contemporâneo que escreve canções sobre minotauros, um Marc Almond que se deixa inspirar por conversas com satanistas em quartos de hotel, um Billy Corgan sinfónico que imagina que “over the top” é sinónimo de “less is more”, um "ersatz" do Bowie andrógino com queda para compor hinos de realismo-socialista com revolucionários apelos corais de “rise up!”, uma Kate Bush algo mais destrambelhada. Em The Bachelor, tudo isso acaba por se sintetizar numa versão um bocadinho peculiar de Neil Hannon-para-o-Clube-Disney, com pinceladas “célticas” (cortesia de Eliza Carthy”) e interpelações em spoken word da “voz da esperança” (Tilda Swinton). Sim, o moço (se esquecermos os satanistas) até sabe escolher as companhias mas, no que era suposto ser um duplo-álbum – afinal, o segundo tomo só será publicado no próximo ano – de despenteada maturidade (“I want to grow old disgracefully. I want to become more and more unconventional”), isso não é, de todo, suficiente. Sem querer ser excessivamente desagradável, dir-se-ia mesmo que The Bachelor até é bastante aborrecido.

(2009)