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15 May 2018

Glenn Branca (1948-2018)


"Bought in Zurich, Switzerland. This was an impulse buy. The cover got me. Robert Longo produced what is essentially the best cover art of the 80s (and beyond, some would say). Mysterious in the religious sense, Renaissance angst dressed in Mugler. And on the inside ... Well, what at first sounds like dissonance is soon assimilated as a play on the possibilities of overtones from massed guitars. Not Minimalism, exactly—unlike La Monte Young and his work within the harmonic system, Branca uses the overtones produced by the vibration of a guitar string. Amplified and reproduced by many guitars simultaneously, you have an effect akin to the drone of Tibetan Buddhist monks but much, much, much louder. Two key players in Branca’s band were future composer David Rosenbloom (the terrific Souls of Chaos, 1984) and Lee Ranaldo, founding figure with Thurston Moore of the great Sonic Youth. Over the years, Branca got even louder and more complex than this, but here on the title track his manifesto is already complete" (David Bowie)

28 May 2012

O QUE LÁ NÃO ESTÁ



 














Paul Buchanan -  Mid Air
 
A imagem da capa dificilmente poderia sonhar ser uma tradução visual mais fiel do que contém o primeiro álbum a solo de Paul Buchanan: como se de uma das peças da série, de Robert Longo, Men In The Cities – figuras masculinas (mais raramente, femininas), em postura de queda, desequilíbrio ou contorção espasmódica, como a que surgia envolvendo The Ascension, de Glenn Branca – se tratasse, mas uma em que, do modelo, apenas restasse, vazia, a "business-suit". Mid Air é exactamente isso: um lugar de perda e ausência onde, em 14 miniaturas e 36 minutos, é tão (ou mais) decisivo o que lá não está como o ínfimo que ali se escuta.


Com os Blue Nile, quatro álbuns em vinte anos de carreira (A Walk Across The Rooftops, 1984, Hats, 1989, Peace At Last, 1996, High, 2004), essa ideia de rarefacção já lhes era consubstancial, mas, se tudo parecia existir, em estado de imponderabilidade, num universo paralelo onde Hopper e Chagall desenhavam o "storyboard" para um argumento de Raymond Carver ao qual Buchanan, Robert Bell e P. J. Moore ofereciam a banda-sonora, as sombras que o atravessavam ainda guardavam alguma materialidade. Agora, quase só voz e piano, num disco que esteve para se chamar “Minor Poets Of The 17th Century”, é como se ouvíssemos um Chet Baker que não projecta sombra, um Sinatra monossilábico, um Satie poeta que, em vez de composições em forma de pêra, distribuisse "fortune cookies" com frases como “far above the chimney tops, take me where the bus don’t stop”, “the buttons on your collar, the colour of your hair, I think I see you everywhere” ou “last out the newsroom, please put the lights out, there’s no-one left alive”. E ali nos deixamos ficar, imobilizados, fascinados pelos vivos que nunca iremos ver, encandeados pelas luzes definitivamente apagadas.

30 March 2007

Glenn Branca - The Ascension



"A cidade em que esta música foi feita já não existe à face da terra", explica, logo na primeira frase das "liner notes", Lee Ranaldo. E, de facto, a Nova Iorque que teve o privilégio de testemunhar em primeira mão esta esmagadora erupção de lava sonora em 1980, nunca existira antes nem voltaria a existir depois. Foi, como afirma Ranaldo, "substituida por algo mais antiséptico". O caldo de cultura era constituido, refere ainda ele, por Beatles, Varèse, Velvets, Stooges, Cage, Stockhausen, Godard, Cassavettes, Varda, Sirk, Brakhage, Fassbinder, Merce Cunningham, Kerouac, Ginsberg, Rimbaud, Artaud, Plath, Schiele, De Kooning e Pollock. Os protagonistas não eram elementos socialmente desclassificados mas jovens de classe média educada, maoritariamente universitários, com um desmedido apetite pela vida e pela arte. Tão desmedido como a música em que (emergindo da fervilhante retorta da new/no-wave), Glenn Branca, primeiro com The Static e Theoretical Girls e, depois, com diversos colectivos de terroristas sónicos, haveria de tropeçar e que, daí em diante, não deixaria pedra sobre pedra no panorama do rock e tudo à volta.



The Ascension é um sismo de grau não registado até hoje em nenhuma escala conhecida: quatro guitarras eléctricas (Ned Sublette, David Rosenbloom, Lee Ranaldo, Glenn Branca) afinadas de forma pouco convencional, baixo (Jeffrey Glenn) e bateria (Stephan Wischerth), em carga massiva e ferreamente (des)controlada pela estratosfera da série harmónica, revisitando sucessivos espasmos electro-acústicos, uma cavalgada "à bout de souffle" sobre uma cordilheira sonora sempre tendencial e infinitamente ascendente, uma maratona de clímaxes nunca suficientemente extáticos, uma explosiva iluminação zen sob o efeito de "speed", metal em fusão derramado sobre carne viva, o paroxismo absoluto do volume como via de acesso a um outro plano de realidade de onde, após o massacre, se sai definitivamente incapaz de articular palavra.



Nada, rigorosamente nada, depois de The Ascension (e a descendência foi e continua a ser inúmera) se aproximaria sequer de tão aterradora intensidade. Reedição do ano com a magnífica capa original de Robert Longo. (2003)